Quarta-feira

Ao D. Policarpo, que almeja ser meu inimigo

Estava eu a concentrar-me na digestão, depois da primeira ronda daquele desporto maravilhoso que é comer durante as festas, quando me aparece o D. José Policarpo naquela caixa sempre iluminada em todas as salas-de-estar portuguesas. Para meu enorme espanto, o D. José falava de mim! O homem parece que resolveu achar que os ateus são um perigo, o que demonstra que necessita de sair do convento. Podemos ter os nossos momentos de alarvidade, mas chamar-nos perigosos é como estar ocupado a matar aranhas durante o ataque de um tubarão. O D. JP, que não pode casar para ter todo o tempo do mundo para pensar no que lhe compete, mas deve ter arranjado algum passatempo no entretanto, parece precisar de gente que o ajude a capiscar as suas ovelhas. Portanto, D. Policarpo, aqui vai: as suas ovelhas que se autodenominam de não praticantes e que só vão à igreja para casar, são iguaizinhos aos ateus. A única forma de os diferenciar é com uma pergunta: pergunte-lhes se acreditam em bruxas. Se disserem que não, são ateus, os outros são todos seus. Assim, D. José Policarpo, como pessoa que também não se casou e que posso passar o tempo que passaria a passar as camisas do meu marido a pensar no seu problema, penso que a solução é em o D. Policarpo focar-se na educação dos milhares de católicos não praticantes. E por amor de deus, deixe os ateus em paz.

Quinta-feira

tenho de me aturar

Vou olhar para trás. Ok, já tá. A minha vida mudou, com possibilidades de mais e melhores mudanças. Havia a impossibilidade de não ser assim. Eu sou avessa a mudanças, apesar de não parecer. Mas eu sou o tipo de pessoa que se amanda nos cornos do touro, sou a pessoa que entrou sozinha num cemitério de noite, porque tinha medo de cemitérios. E assim, pessoa avessa a mudanças, sou contudo incapaz de escolher o mais fácil caminho e morejo o barco pela vida. Sempre a praguejar o barco, a vida, o destino. Eu, por vezes, penso que o barco até é um bote, a vida é um charco e eu é que faço as ondas e de novo a impossibilidade de não ser eu.

Quarta-feira

Inacreditabilidades

As evidências podem ser inacreditáveis. Um amigo disse-me que lhe custava a acreditar que outro mundo para lá do imediatamente apreendido por ele existissem. A China existe? Como pode a China existir se nunca a vi? Onde existe a China? Em que Universo? Onde está colocada a China? Contudo, a China existe. Há chineses e muitos Made in China. Mas como? Eu gozei com ele. Chamei-o de maluco. Contudo, fui malévola, pois se nunca sofri da deslocação de realidade espacial, sofro da existencial. Custa-me a acreditar que eu existo. Como é possível que eu exista? Como é que tudo se juntou para eu existir? Fixo algo e o facto de estar a ver parece-me mágico. Outra impossibilidade é o mar, o seu som, o seu cheiro, a sua cor. Tenho de rever o mar, para saber que é possível que eu exista.

Leituras de Natal

What Is Living and What Is Dead in Social Democracy?


Bem, aprendi com este texto que a social democracia está morta em Portugal. Depois de três meses na Suíça posso dizer que detesto e gosto dos suíços e chateia-me que comecei a gostar de falar mal deles. Estou apaixonada obcecadamente por Sígur Rós e ainda choro com os Radiohead. Não tenho lido nada e desisti de ser uma pessoa interessante. Quero fazer tricot e perder muito tempo. Este fim-do-ano vou imaginar o mundo daqui a dez anos (isto chama-se viver à frente do meu tempo). Estou indecisa entre o apocalipse total ou um mundo em que os homens têm cesarianas, as mulheres juram a pés juntos que são fracas demais prá guerra e deus aparece-nos a explicar que esteve em coma por ter apanhado com um cometa na testa, os afegãos são turistas no Algarve e os americanos foram todos viver pra Marte e não sabem nada doutros planetas. Férias.

Amor

Não sei se aplica ao resto do mundo, mas o meu amor por alguém é medido pelo interesse que me consigo despertar nos gostos da outra pessoa. Geralmente, sou abelha. Mas se a abelha realmente fica, bem, então a abelha está lixada. É Natal e vou passá-lo com a famelga. O meu amor é imensurável.

;) hehehe

Terça-feira

Os suíços são uns idiotas

Resolvi comer a comida indiana, que me foi servida metida numa daquelas malgas de pala italianas para esparguete, só com garfo. Informaram-me que na Suíça é má educação não comer com faca. Além disso, comer com faca é uma necessidade cultural suíça alienável. Obviamente, não me estou a integrar. Por que é que vim viver pra Suíça? Isto não foi uma brincadeira como supus até meio da conversa. Eu já disse que os suíços são uns idiotas?

Quinta-feira

medo II

Por falar em medo... Portanto, andam em Copenhaga a tentar pôr-se em acordo acerca de um futuro que ninguém consegue apreender. É incerto, pois, mas há algo totalmente certo: vai ser diferente do que estamos habituados e não é só alterações climáticas. Esta vida, estes computadores debaixo dos nossos dedos e olhos, os produtos todos que usamos, tudo o que tocamos, todos os nossos sentidos imersos num mundo totalmente baseado em combustíveis fósseis. Até mesmo as energias alternativas estão baseadas em combustíveis fósseis. O número impar de seres humanos neste planeta deve-se à capacidade industrial de produzir comida para todos eles. Tudo isto tem os dias contados. A piada, a enorme piada, é que os cientistas quando fazem as suas projecções no futuro, fazem-nas como se fosse haver combustíveis fósseis consoante os nossos caprichos. Não vai. Como os economistas que pressupôem crescimento ilimitado ou os religiosos que pressupôem vida para lá da morte. Não há. Copenhaga não interessa, porque antes do que os políticos estão dispostos a limitar agora, terão de limitar pela escassez. Vamos ser obrigados a não emitir. E nesse belo futuro, ficaremos sem o mundo a que estamos habituados totalmente construído por nós com base nesse manancial de energia enterrado debaixo da terra, e sem o clima a que estamos habituados há cerca de 12000 anos. Ou seja, temos de aprender a viver outra vez, não só na pré-revolução industrial, mas na pré-história. Se o futuro chegasse hoje, nenhum dos homo computis saberia como sobreviver. Eu não tenho, nem quero ter ideia de como viver nesse mundo. Portanto, quanto cigarros posso fumar antes de chegar o futuro?

medo

Os suíços fazem uma coisa muito estúpida e aparece toda a gente a querer parecer mais inteligente e mais boa pessoa e melhor país do que realmente são. Os suíços têm uma panca por referendos e talvez que o resto do pessoal possa aprender com essa panquice o que os referendos acabam por ser na realidade. Referendar o casamento de pessoas do mesmo sexo é ao mesmo nível de estupidez de referendar a proibição da construção de torres redondas e altas num país. Por isso não se armem ao pincarelho. A diferença entre vós e os suíços é que na Suíça é mais fácil propôr um referendo que arrancar os pêlos das axilas com cera.

A segunda parte da minha diatribe, é aquilo que já me preocupava depois das eleições para o parlamento europeu: as pessoas têm medo. Perderam a capacidade de não generalizar esse medo para todos os muçulmanos e tudo o que ressoe mais que levemente a muçulmano. O que quer que seja, mesmo num país sem quaisquer problemas com a sua comunidade muçulmana, o medo atravessa a Europa e ressoa pesadamente no coração de todos os europeus. Não vale a pena apontar o dedo aos suíços. O medo é geral.

Quarta-feira

Educação de valia

All animals, humans included, have evolved the capacity to create a distinction between members of the in-group and those in the out-group. But the features that are selected are not set in the genome. Rather, it is open to experience.

For example, we know from studies of child development that within the first year of life, babies prefer to look at faces from their own race to faces of a different race, prefer to listen to speakers of their native language over foreigners, and even within their native language prefer to listen to their own dialect. But if babies watch someone of another race speaking their native language, they are much more willing to engage with this person than someone of the same race speaking a different language.

These social categories are created by experience, and some features are more important than others because they are harder to fake and more indicative of a shared cultural background. But, importantly, they are plastic. Racial discrimination is greatly reduced among children of mixed-racial parents. And adults who have dated individuals of another race are also much less prejudiced. On this note, moral education can play a more nurturing role by introducing all children, early in life, to the varieties of religions, political systems, languages, social organisations and races. Exposure to diversity is perhaps our best option for reducing, if not eradicating, strong out-group biases.


Marc D. Hauser

Segunda-feira

Islamofobiafobia I

Admitiríamos que alguém se apresentasse no espaço público, dizendo "sou católico, o que quer dizer que sou um factor positivo"? Uma das glórias da Europa, duramente alcançadas, é que a religião não abre as portas do paraíso moral. A religião é apenas um facto – e discutível. Poderia aceitar, e sem uma generalização equívoca, que Ramadan me dissesse que a presença árabe é positiva. Tal como se me dissesse que a presença chinesa era positiva. Mas não consigo ver em que medida pode ser positivo o contributo de um comportamento definido pela religião.

Arcadi Espada

Sexta-feira

Série: grandes experiências

O grande problema dos computadores é que nunca desistem.

Quarta-feira

A minha memória preferida

Um dia, era eu criança, num impulso peguei no meu gato e atirei-o da varanda. Fiquei suspensa em incredulidade, encostando-me na parede na esperança de desaparecer por ela adentro durante tempo que agora não sei se muito ou pouco. Porque fiz aquilo? Lembro-me e não sei se é verdade, que me custava a respirar ou lembro-me agora do meu respirar, no pânico de me perceber. A certo momento, muito ou pouco depois de ter atirado o gato, movi-me para o beiral e olhei para baixo. Quando não vi o gato, corri para dentro da casa, lembro-me que corria muito depressa e criava ondas de ar pela casa, que me empurravam pelas escadas, pela rua, mas pode até nem ser verdade que corri depressa. Procurei o gato onde o gato devia estar, procurei debaixo das roseiras, perto da camélia, por entre os caules secos dos lírios e não percebia para onde ele se teria arrastado. Ele tinha de estar por ali e depois de muito tempo a procurar, desisti, mas remoendo por dentro tudo aquilo que eu não conseguia perceber. Que eu tivesse morto o gato e que o gato tivesse desaparecido. Como devem estar a prever, o gato apareceu-me mais tarde, completamente saudável, parecendo não albergar qualquer ressentimento. Inacreditável. A minha conclusão, na altura, foi que deus tinha-me dado uma segunda oportunidade. :)