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domingo

O ataque contra o Hezbollah...

... é como matar moscas com uma pistola.

Mas o que interessa é mostrar a pistola.

quinta-feira

O dejá vu da desgraça

Apesar de só ter falado de futebol, eu andei atenta aos jornais, para lá da secção desporto. Dei conta que o mundo não parou e as tragédias e desaires humanos continuaram. Na verdade, uma pessoa só fala de futebol porque é a única coisa realmente nova. Por exemplo, no Médio Oriente, Israel continua a reagir exageradamente, os palestinianos continuam o seu água mole em pedra dura tanto bate até que os israelitas vêm por aí abaixo e levam tudo a eito. Depois há os amigalhaços, eu mato aqui e tu matas ali e é o compadrio do desmembramento e do sangue jorrado. A sensação é de desalento. Isto vai-se resolver messianicamente. Um dia, algures no futuro, dois líderes hão-de ultrapassar barreiras de ódio e fazer compromissos inimagináveis. O Nobel da Paz ser-lhes-á despachado lá da Escandinávia e muitos editoriais laudatórios serão escritos. As pessoas hão-de comover-se, quererão desesperadamente alguma luz, seguirão quem quer que seja com carisma que lhes diga do fundo do túnel. A probabilidade disto eu não sei. É necessário que nasçam pela mesma altura e que não sejam, pelo caminho, mortos por extremistas. É necessário que eles sejam tão fora de série que até os extremistas chorem como carneirinhos. Até lá, é o dejá vu da desgraça. Até lá os palestinianos falam a língua da morte e os israelitas, consoante o que lhes convém, não querem falar ou fazem de conta que falam, falam quando já não há ninguém, falam com eles próprios e enquanto fazem a gincana do diálogo, constroem um muro e fazem raides. Eu, por mim, queria a tal alienação de um campeonato mundial de futebol.

domingo

Nunca saberei como é o paraíso



Soube realmente deste filme palestiniano (vi uns cartazes por aí, mas não liguei) aquando dos óscares americanos. Era um dos filmes nomeados para melhor película estrangeira e associações judaicas nos EUA e em Israel protestavam que o filme fosse nomeado. O argumento de que me lembro era de que constituía um desrespeito para com as vítimas dos ataques suicidas. Na altura presumi que o filme de alguma forma fazia a apologia da violência. Ontem vi-o e dei-me conta que o que incomodou essas associações judaicas foi o facto do filme dar humanidade aos suicidas. São pessoas. Será que aqueles que protestavam viram o filme? Ou será só uma reacção pavloviana de negar os palestinianos?

Paradise Now não lava os palestinianos, nem os demoniza. Li que durante as filmagens, a equipe recebeu ameaças tanto de palestinianos como de israelitas. Uma demonstração como o filme é uma expressão de uma situação difícil sem maniqueísmos. Naquela região só se aceitam visões que sustentem a política de ódio, a negação da existência, o sangue nas mãos de ambas as partes.

O filme é assim valioso pelo que contém e por ser uma obra conjunta de palestinianos e israelitas. Abre uma brecha para olharmos para dentro de um muro que se constrói. "Tendo os israelitas convencido o mundo de que são opressores e vítimas, então fiquemos nós vítimas e assassinos." Esta é a frase, não textual, de um dos suicidas. Eles são escolhidos e docilmente se prestam a serem assassinos e vítimas e mártires pela causa que lhes é trazida pelos funcionários do terror. Movimentam-se entre a dúvida, a resolução e a tristeza. A preparação dos suicidas é ritual. Antes de sairem para a missão, comem com todos os outros operacionais, cena composta a ser uma alusão óbvia à última ceia de Jesus Cristo. Existe esse senso de que aqueles homens são sacrificados e que aqueles que os aprestam são Judas. Fiquei extremamente surpreendida por esta simbologia cristã, pois trata-se de um filme feito por judeus e muçulmanos. Outro momento meu, este de prazer sem mácula, foi quando identifiquei a palavra "Oxalá"; identifiquei-a mil anos após a palavra ter entrado na nossa língua...

É um filme que vale muito a pena.

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No filme há uma mulher que personifica o palestiniano estrangeirado que tem a voz de moderação. Há dois dias li um texto de Martin Kramer em que ele analisa as opiniões dos intelectuais palestinianos relativamente ao Hamas. Começa por colectar as opiniões de Edward Said, o representante da intelectualidade palestiniana, ainda hoje, mesmo após a sua morte em 2003. Seguidamente, colecta as opiniões de vários intelectuais em reacção à vitória do Hamas nas passadas eleições. Uma leitura interessante.

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Actualização:
A realidade.

A justiça de rua.

No filme, um dos suicidas perdeu o pai aos dez anos: foi executado por colaboracionismo com os israelitas. É uma das suas dores e questões interiores. A mulher que ele começa a amar é respeitada e quase venerada porque o pai dela foi um homem que morreu pela causa. Ainda antes de saberem da missão, o amigo diz-lhe, que sorte ele tem, ela é a filha de Abu!

quarta-feira

Guerra de 1948 na Palestina, designada pelos Israelitas como Guerra pela Independência, designada pelos Palestinianos como O Desastre

Numa primeira fase desenrolou-se entre os judeus e os árabes da Palestina e numa segunda fase entre Israel e os países árabes limítrofes. Nesta guerra criaram-se milhares de refugiados palestinianos, situação que se mantém até hoje. Os palestinianos foram desde então ignorados pelos israelitas (até às intifadas, em que foi impossível continuar o exercício de ignoranço) e utilizados pelos árabes como desculpa para as suas estratégias políticas. Por um lado aos países árabes desagradava-lhes ter como vizinho um país não árabe que consideravam uma nova força intrusa do Ocidente e, por outro lado, tinham pretensões territoriais à Palestina. Aos israelitas era preferível ver na sua história a luta de David (Israel) contra Golias (os estados árabes), do que a luta pelo mesmo território de dois povos: um povo autóctone e um povo imigrante, ambos incapazes de aceitar o outro.

terça-feira

Foi firmada a coligação em Israel

No Haaretz.

Leram o artigo? Estamos muito não optimistas, não é? Enfim, o mesmo. Fico-me por uma citação, que continua actual depois de mais umas eleições.

Sistema eleitoral israelita
É evidente que o absurdo sistema eleitoral israelita já não é capaz de produzir maiorias funcionais e governos eficientes. Isto é reflexo somente da estrutura de caleidoscópio de uma sociedade fragmentada. Nestas condições, a tarefa árdua de produzir uma coligação, quase invariavelmente, produz um governo paralisado em equilíbrios políticos internos. O segundo governo de Sharon é um caso típico do enunciado. Em vez de servir como um meio de resolver o conflito palestiniano, ou mesmo outro qualquer conflito interno, o sistema político é tão disfuncional que se torna o maior obstáculo. O governo é incapaz de responder às ânsias de paz da população. Pois, independentemente das lealdades partidárias e de acordo com a maioria dos estudos, uma larga maioria dos israelitas apoiaria um acordo de paz baseado nos parâmetros de Clinton - dois estados, retirada dos territórios, grande desmantelamento dos colonatos, duas capitais em Jerusalém - mas eles não confiam nem no seu sistema político nem, claro, na liderança palestiniana para chegar a uma acomodação a esses parâmetros. O que talvez explique os resultados de uma sondagem realizada em 2002 pelo Centro Steinmetz para a Paz da Universidade de Telavive, que indicava que 67% dos judeus israelitas, convencidos da incapacidade do seu sistema político para produzir soluções, apoiariam uma acção americana para recrutar uma Aliança Internacional que coagiria as partes a aprovar tal acordo.


Em Cicatrizes de Guerra, Feridas de Paz. A Tragédia Israelo-Árabe de Shlomo Ben-Ami ("Scars of War, Wounds of Peace: The Israeli-Arab Tragedy", pág. 290, Oxford University Press, 2006)

Tradução minha

domingo

Cicatrizes de Guerra, Feridas de Paz: a Tragédia Israelo-Árabe

Sharon's wall, though it certainly is not a contribution to mutual trust, was conceived as a clear move against the one-state solution. It is an acknowledgement that Zionism has lost the demographic race. Demography and the dream of Greater Eretz-Israel simply could not be reconciled. The wall is a defiant, resolute and bold manifestation that Israel would not allow this fact to usher in a one-state solution. But it is also an acknowledgement by the Israeli Right that it has lost the battle for Eretz-Israel. But unlike the case of Gaza, a small and compact area with not too many 'ideological' settlers, where Sharon plans a total withdrawal, if he ever advances a disengagement plan from the West Bank this will surely be a far more modest affair. There, he might try to remove only a small number of settlements in a way that would leave the Palestinians essentially confined to scattered autonomous enclaves surrounded by settlements and encircled by a dense network of bypass roads.

There is, of course, not the slightest chance that the Palestinians would acquiesce to such a plan. A Palestinian international campaign for a one-state solution backed by a wide popular insurgence cannot be discarded if indeed the Palestinians come to the conclusion that a viable state is not in the offing for them. That the Palestinian insurgence might even expand into the Arab population of Israel as well is not, in such conditions, a far-fetched possibility. Nor is the potential response of the extremists in Israel difficult to imagine. Transfer schemes of all kinds against the Palestinian population and the Arab community in Israel could certainly be violently advanced and a resurgence of Jewish terrorism against Arab targets cannot be dismissed. What started in the 1930s as a civil war between Jews and Arabs in mandatory Palestine and had become since 1988 a struggle for separate statehood, would thus revert to its original condition of a ruthless civil war.

Such a scenario can be averted either through an immediate resumption of negotiations on the basis of a two-state solution along the 1967 borders, or through a unilateral disengagement where Israel would pull out from the bulk of the West Bank and allow a contiguous, viable Palestinian space to exist. Ideally, if the latter option is taken, Israel should leave the door open at the same time for future negotiations for a contractual settlement with the Palestinians. Alas, neither of these options enjoyed a realistic chance in Sharon's right-of-centre coalition, especially as long as Arafat was in control of the Palestinian Authority. There seemed to be no political conditions to produce such bold moves.

(...)

Each and every one of the options, including that of the imposed settlement, that are theoretically open to the parties would inevitably unleash internal earthquakes of unprecedented dimensions within both societies, the Palestinian and the Israeli. If the parties fail to return to the two-state solution, a civil war between Jews and Arabs within the one 'South African' state is inevitable. In either of the remaining options, profound cleavages would also open, and civil strife would certainly be unleashed, this time, however, within each of the separate societies. But this, at least, would be a sacrifice in the service of a moral cause: a life of independence and dignity for each nation in its own state. In the Israeli-Palestinian conflict the possibility of peace without agony was missed years ago. From now on nobody can spare the parties their Calvary. Both Palestinians and Israelis rightly earned it with their political short-sightedness and sometimes sheer human stupidity.

Em "Scars of War, Wounds of Peace: The Israeli-Arab Tragedy" de Shlomo Ben-Ami , págs 303-4, Oxford University Press, 2006.

segunda-feira

Israel recusa contactos com o Governo Palestiniano

na Aljazeera.

A não ser que o Hamas renuncie à violência e reconheça a existência do estado de Israel. Nos entretantos, o estado de Israel vai também exercitando o dedo no gatilho.

Suspiremos em uníssono.

terça-feira

Novo governo palestiniano:

Pouco antes da votação, Haniyeh apelou a que a luta contra Israel não seja abandonada. "Nascemos do ventre da resistência. O braço da resistência não será tocado", afirmou o primeiro-ministro, um dia depois de ter pronunciado um discurso mais conciliatório, onde apelou a uma "paz justa" na região.

Haniyeh assumiu ainda perante os deputados que o seu Governo está disposto a dialogar com intermediários internacionais sobre o conflito israelo-palestiniano, sublinhando, porém, que não cederá a pressões económicas para aligeirar a sua posição sobre Israel.


No Público de hoje.

Novo governo palestiniano:

O primeiro-ministro palestiniano designado, Ismaïl Haniyeh, apelou ontem ao diálogo com a comunidade internacional para resolver o conflito no Médio Oriente, na apresentação do seu programa de governo ao Conselho Legislativo.

Os deputados palestinianos reunidos em Ramallah seguiram o discurso de Haniyeh, que falava em Gaza, através de videoconferência, uma vez que Israel impede as movimentações de líderes do Hamas entre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, por motivos de segurança.

(...)

Israel reagiu de imediato ao discurso, acusando o Hamas de não reconhecer os acordos já assinados entre a AP [Autoridade Palestiniana] e Israel e de não responder às exigências da comunidade internacional: reconhecimento do direito à existência do Estado hebreu.

(...)

Os EUA, através do porta-voz do Departamento de Estado, recusaram os apelos ao diálogo, reafirmando que este está condicionado ao reconhecimento de Israel e, como tal, "a bola está no campo do Hamas".

A UE indicou que "não vai virar as costas ao povo palestiniano", mas que, para isso, os seus dirigentes devem "fazer as escolhas certas" (...)


No Diário de Notícias de hoje.

segunda-feira

Israel, um país racista?

(...) An absolute majority of the MKs in the 17th Knesset will hold a position based on a lie: that Israel does not have a partner for peace. An absolute majority of MKs in the next Knesset do not believe in peace, nor do they even want it - just like their voters - and worse than that, don't regard Palestinians as equal human beings. Racism has never had so many open supporters. It's the real hit of this election campaign.

One does not have to be Avigdor Lieberman to be a racist. The "peace" proposed by Ehud Olmert is no less racist. Lieberman wants to distance them from our borders, Olmert and his ilk want to distance them from out consciousness. Nobody is speaking about peace with them, nobody really wants it. Only one ambition unites everyone - to get rid of them, one way or another. Transfer or wall, "disengagement" or "convergence" - the point is that they should get out of our sight. The only game in town, the 'unilateral arrangement," is not only based on the lie that there is no partner, is not only based exclusively on our "needs" because of a sense of superiority, but also leads to a dangerous pattern of behavior that totally ignores the existence of the other nation.

(...)

Who would have believed that in Israel of 2006, the killing of an 8-year-old girl at short range, as happened last week in Yamoun, would barely be mentioned; that the ruthless attempt to expel an Ethiopian with AIDS who is married to an Israeli, just because he is not Jewish, would not raise hue and cry; and that the results of a poll showing that a majority of Israelis - 68 percent - don't want to live next to an Arab, did not raise a stink. If in 1981, tomatoes were being thrown at Shimon Peres and in 1995, there was incitement against Yitzhak Rabin, now there are no tomatoes, no incitement and not even any election rallies.

(...)

Morality has become a dirty work, and the worst corruption in the country's history, the occupation, was never mentioned. Only one-sided maps, similar to one another, all including the humongous "settlement blocs," a withdrawal based on "our needs," with a separation wall and the frightening air of indifference hovering above it all.
Opinião de Gideon Levy no Haaretz

quinta-feira

O que um deputado do Hamas tem a dizer

Excerto de entrevista [Aljazeera] a Aziz Duwaik, professor de planeamento urbano na Universidade Najah em Nablus, que nas últimas eleições legislativas palestinianas tornou-se um dos deputados do Hamas no parlamento.

(...)

But the question remains, how can Israel possibly talk with Hamas as long as Hamas refuses to recognise Israel's right to exist?
Why on earth should we recognise Israel while Israel refuses to recognise Palestine? Indeed, we can't understand why the international community, strangely enough including some Arab leaders, is demanding that we recognise Israel but making no similar demands on Israel that it ought to recognise Palestine.

But Israel is a reality while Palestine is not.
Palestine is also a reality. There are nearly five million Palestinians living in Palestine and these people have an inherent right to self-determination. Do you think that we are children of a lesser God or something?

Israel has recognised the PLO and said it will accept President Bush's vision which calls for the creation of a Palestinian state that would live in peace alongside Israel?
The important thing is not what Israel says but what Israel does. Israel has built hundreds of Jewish-only colonies in the West Bank and transferred hundreds of thousands of its citizen to the occupied territories. This alone shows the mendacity of its claims regarding Palestinian statehood.

Are you implying that the creation of a Palestinian state is no longer possible or realistic?
Precisely. Israel has effectively killed all prospects of a genuine and viable Palestinian state in the West Bank. In a nutshell, there is no room left for a true and viable Palestinian state in the West Bank. The implanting of so many Jewish colonies has made the creation of such a state utterly impossible.

Will you be willing to negotiate with Israel?
Negotiation in itself is not the issue. The issue is our rights as human beings and as a nation. If Israel is willing and ready to come to terms with our human, civil and political rights, then we can negotiate, otherwise we will not allow ourselves to repeat the same failed process of the past 10 years all over again. We maybe weak politically, but we certainly are not stupid.

The Oslo process was not a peace process. It was a process of deception and cheating and lies which enabled Israel to truncate our homeland with settlements and separation walls and roadblocks and closed military zones. We will not deceive our people as the Palestinian Authority did for 10 years.

(...)

sábado

É triste o previsível

Enquanto a retirada unilateral de Gaza entretinha o mundo, no exacto dia em que terminava o ultimato aos colonos, Israel anexava mais um pedaço da Cisjordânia.
Os vizinhos de Yussuf
[palestiniano da Cisjordânia] têm na mão as notificações. Terra confiscada para fazer seguir o Muro à volta do maior colonato de todos, Ma"ale Adumim, planeado como uma bolha gigante dentro de território palestiniano.

Não haverá uma segunda retirada unilateral. Sim, vou construir na Cisjordânia. E Ma"ale Adumim deverá ser ligado a Jerusalém. Palavra de Sharon, domingo passado.

No Público de hoje

No Haaretz o editorial disserta sobre esta provocação em mau momento.

Enquanto o Primeiro-ministro palestiniano adverte que a expansão dos colonatos renovará a violência.

E na retaguarda O Hamas decidirá em breve se vai conter-se ou retaliar contra Israel, a propósito da morte de palestinianos, disse ao Yediot Aharonot uma fonte do exército. "O Hamas não faz diferenças entre Gaza e a Cisjordânia. Pedimos-lhe que mantivesse a paz durante a retirada [de Gaza] e eles cumpriram. Mas entretanto foram mortos quatro palestinianos em Shilo [por um colono de extrema-direita] e mais cinco em Tulkarm [pelo exército]", explicou o oficial. "O grupo está atento à "rua palestiniana" e averiguará em que sentido sopra o vento."
No Público

Eles || Eles


A retirada concretizou-se. Espero o que vem a seguir sem expectativas. Virá mera política e provavelmente desilusão.

Os conflitos humanos não costumam ser a preto e branco, mas este é tão matizado, que receberia o prémio para o nó górdio do século. Quando era [mais?] nova e carregada de idealismos e simplicidades e inconsequências e toda emoção eu era completamente pela causa dos palestinianos. Eles tinham sido invadidos. Parava pouco em pragmatismos e na minha perspectiva os israelitas deviam fazer as malas e ir.

Agora sou um pouco mais ponderada. Mas tal não significa que não me confranja a situação trágica dos palestinianos, usados pelos que eles chamam irmãos, ultrapassados pela História, esmagados por um absurdo.

Israel foi um erro. Esta é uma mancha que há-de sempre existir. Imaginem o que seria os portugueses acordarem um dia e darem-se conta que um povo estrangeiro andou pouco a pouco a comprar as serranias queimadas, os baldios abandonados, a instalar-se; que um dia vêm mais, muitos mais, e dizem-nos que eles eram lusitanos há 3000 anos, que esta terra era deles muito antes de nós, que nós não sabemos amar este rectângulo, que eles têm direitos históricos e de melhor guardião. Que fariamos nós? Imaginem que os espanhóis resolvem guerrear esse outro povo, porque afinal nós somos mais como eles, e nós rejubilamos e ajudamos, mas a guerra é perdida. Estamos desalojados nas fronteiras e agora os espanhóis fecham-nos as portas, recusam-se a dar-nos guarida e Portugal já não é nosso. Somos deixados num limbo.

Este povo foi varrido porque não entendeu que uma culpa enorme esmagava a Europa e evitou o bom senso, porque não entendeu que para os outros árabes eles são somente carne para canhão, porque sendo fatalmente humanos têm a arreigada noção do Eles e Nós. Por este povo trágico eu choro.

Como hoje sou mais velha e experiente, eu sei hoje que há feridas que para se curarem devem ser esquecidas. Eu hoje sei que Israel é. Tento entender a força que construiu este país. Que fracção é também culpa minha, na minha linha de ascendência católica.

Paz. Têm de haver mais pessoas a desejarem a paz e a olhar os outros com a mesma generosidade com que olham os seus. Nós e eles. Nós e eles. Nós e eles. Não sei. Nem sei se na verdade se encontraram os extremos do nó, para que se possa lentamente, mas em desenlaces seguros, destrinçar o emaranhado.

terça-feira

Desperança

Escrevi a entrada "Israel & Palestina" ontem, mas já hoje parece-me ingénua e absurda.

Ontem, noite de cinema em casa de amigo, trouxe à baila a retirada dos colunatos.

A - Uma mulher com um bebé, expunha-o e pedi-a que parassem a expulsão.
B - São pessoas que perdem tudo.
A - Eu compreendo que perdem muito, mas eu não aceito chantagem emocional. Eu não posso simpatizar com o uso de crianças para resolver este tipo de situações.
C - Eles deveriam ter compreendido que estão no sítio errado. Que a sua presença naqueles territórios exacerbou ódios e intolerâncias. É culpa deles.
B - Esta é a solução: construir um muro e separar os israelitas dos palestinianos.
A - Construir o muro!? Construíram um muro a separar as duas alemanhas! Achas que foi bem?
B - Resultou, não?
C - Isso não é a solução. Tem que se melhorar as condições de vida dos palestinianos! Só assim deixarão de ter tantos extremistas entre a população!
B - A Faixa de Gaza é um deserto. Não é possível albergar o milhão de refugiados palestinianos de forma a que tenham uma vida decente. Não é possível. Os países árabes não ajudam, pelo contrário, é-lhes vantajoso manter as pessoas sem futuro. A solução é um muro alto e enorme.
C - De um lado uns que têm o poder militar, as costas quentes para fazerem o que querem; do outro uns estúpidos coitados ensanduíchados entre o ódio dos outros e cegos pelo seu próprio ódio e desespero.
B - A solução é a separação física dos dois.

Este é o plano, este é o futuro. Ariel Sharon, a raposa, prepara o terreno para separar definitivamente eles deles. Não querendo um estado binacional, não podendo ter tudo, quer pelo menos definir bem o que pode assegurar agora, usando o "facts on the ground" para acabar de traçar o seu muro vantajosamente. Só ontem me dei conta disto.

segunda-feira

Israel & Palestina

Leio apreensiva as notícias sobre a retirada dos colonos israelitas. Apreensão pelo hoje e pelo amanhã. O desejo do começo de um final feliz e o medo de que tudo se esboroe. No meio dos meus pensamentos surgiu "Romeu e Julieta". Primeiro pensei "Que raio de intrusão mais pateta".

Duas casas, iguais em dignidade (...) reactivaram antiga inimizade, manchando mãos fraternas sangue irmão. Do fatal seio desses dois rivais um par nasceu de amantes desditosos, que em sua sepultura o ódio dos pais depuseram, na morte venturosos.

Depois pareceu-me natural. No meio da violência do ódio quantos justos perecerão? Entre eles a paz. E tal como na peça eu sofro. Tenho medo do final, tenho medo dos extremistas, tenho medo dos fundamentalistas, tenho medo dos ódios enraizados, tenho medo da intolerância e tenho tanta esperança que me sufoca. Eu na peça sabia o final, aqui comporto-me como se soubesse. Quero tanto estar enganada. Tanto, tanto.