A minha grande questão sobre o passado da Quinta da Fonte é se as pessoas responsáveis pelo alojamentos viram, para lá da real pobreza dos alojados, o seu cadastro.
E depois para o futuro, em vez de andarem a falar de pacificar comunidades, eu gostava de saber se estão a investigar quem tem/usou armas e pô-los a andar. Essa conversa-bem de pacificar pessoas que recorrem a armas para resolver desavenças parece-me não efectivo e extremamente estúpido.
segunda-feira
Às armas, Às armas
A parte desalojada da Quinta da Fonte diz: "«Somos cidadãos portugueses, não somos imigrantes. Por isso temos Bilhete de Identidade, por isso votamos. Queremos que o Governo trate dos nossos problemas como trata dos dos outros. Não podemos ser discriminados»."
Isto é fascinante, porque faz-me sentir muito discriminada. Eu nao sabia que o governo devia resolver os meus problemas e, como portadora de BI e de cartao de eleitor, quero aqui comunicar que estou a redigir um documento que enviarei em pouco tempo com todos os problemas que quero que me sejam resolvidos. E se nao me responderem, bem, vou á Quinta da Fonte, compro uma arma e acampo á frente de um sitio qualquer. Estao avisados.
Isto é fascinante, porque faz-me sentir muito discriminada. Eu nao sabia que o governo devia resolver os meus problemas e, como portadora de BI e de cartao de eleitor, quero aqui comunicar que estou a redigir um documento que enviarei em pouco tempo com todos os problemas que quero que me sejam resolvidos. E se nao me responderem, bem, vou á Quinta da Fonte, compro uma arma e acampo á frente de um sitio qualquer. Estao avisados.
Bom jogo
Então portantos a notícia é que pretos e ciganos andaram aos tiros e os pretos ganharam. E agora os ciganos querem que os beges lhes resolvam os problemas que os pretos lhes arranjaram. É assim? Portantos, balanço do jogo antes do prolongamento: pretos 1, beges 0.
Minúsculo ensaio comparativo da retrete

Tenho experiência de três tipos de retretes. Isto demonstra que tenho de fazer um esforço para visitar outros países, para lá desta parte a que chamam ocidente. Mas devo dizer que prefiro o tipo de retrete que usam em Portugal. A retrete em que a merda cai sobre uma saliência, para que possa ser analisada, não me interessa, pois eu por sistema não olho para a merda que faço. Depois aquelas que têm água quase até à borda, provavelmente para guardar as pessoas de limparem o que quer que seja, são ainda piores. Haverá pior sensação que ser salpicado no rabo pela merda que se está a fazer? As retretes em Portugal são um meio caminho muito bem apiaçado. Será que implicou estudos da provável trajectória do projetil?
domingo
A escola é um ponto de partida
A Sabine que me vai enviando notícias de por aí, enviou-me certas e insultuosas opiniões da Sra Filomena Mónica. Em experiência própria, venho de uma família que de uma geração para outra passou de elementos analfabetos, para uma geração que acedeu à Universidade. Eu não me considero a mim ou aos meus irmãos medíocres, bem pelo contrário. A escola não me ensinou tudo, nem penso que a escola nos possa ensinar tudo. Passei por escolas públicas sem excelências, mas que me abriram horizontes que os meus pais não podiam. Os meus pais simplesmente mandaram-nos para a escola e eu e os meus irmãos resolvemos seguir o que ela nos mostrou. Eu só segui por vontade própria e não sei o que é não ter essa vontade. Desde que me lembro gostei de aprender e sempre quis ir para a Universidade e continuar a aprender e continuei para lá da Universidade. A escola não matou essa sede, só a alimentou, mesmo que não tenha tido professores que me exigiram excelência. Tive professores calões, aplicados, cansados, parvos, fantásticos, motivados e desmotivados, professores que metiam baixa durante um ano completo, que falavam da sua vida privada em vez da lição, e no entanto sobrevivi. Tive professores que por vontade própria nos mostravam livros e jornais, imagens e comidas de outros países, para lá das suas línguas, nos diziam que mesmo que lessemos sem parar, nunca conseguiriamos ler todos os livros do mundo e eu abri a boca em deslumbramento com todos esses livros que nunca poderia vir a ler, mas insaciável para poder ler o maior número possível. Professores que montavam aulas-extra para apoio no seu próprio tempo ou que nos levavam em excursões para ver pedras e nos diziam que as pedras não eram só pedras, mas tinham mensagens muito antigas. Como poderiam os meus pais ter-me dito que uma pedra é mais que uma pedra? Frequentei escolas em pré-fabricados permanentes, onde tinhamos frio, escolas sem espaços comuns deixando-nos na rua à chuva, sem bibliotecas, escolas longe de casa, exigindo que me levantasse muito cedo e retornando muito tarde, sem tempo para estudar. E no entanto a escola que tive conseguiu deslumbrar-me. A questão é que a escola mostrou-me o mais que existia. A escola não me fez, mas mostrou-me o que poderia ser caso eu quisesse. Dizer que o 25 de Abril fechou portas é cuspir na realidade de pessoas como eu e os meus irmãos. O 25 de Abril disse tu podes. Portanto, movam as objectivas para as pessoas e para as suas ambições. Eu desconfio que se há um problema (não estou certa dessa mediocridade generalizada) o grande problema não é a escola, mas um mundo em que as pessoas pensam que o saber vem empacotado e pode ser injectado, de um mundo que pensa que o conhecimento é passivo. De um mundo que está à espera que a escola seja um lugar que enfia saber pela boca abaixo, em vez de ser o sítio que nos diz que um livro é mais que papel, que nos mostra num microscópio uma realidade paralela, que nos fala de perspectiva e nos diz para olhar para o horizonte com olhos de artista, que nos conta de guerras e atrocidades e nos põe a questionar a humanidade, que nos fala de um senhor de oculinhos redondos que escreveu "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce" e nos dá a autoridade desse sonho, apesar de nos sentirmos pequenos. Se calhar o problema é pensar que a escola em termos de conhecimento é em si um fim em vez de um ponto de partida. O sonho e a obra são coisas nossas, não dos professores. E se as pessoas não querem sonhar, nem obrar, não é a escola que as vai obrigar. Se calhar o problema é que as pessoas esqueceram que houve um tempo em que não se podia sonhar e veêm o sonho como adquirido e desprezível.
Se vamos falar na "raiz do mal da educação", que é o título expectável na nossa excelente imprensa, eu penso que este está em pessoas que vivem numa sociedade que prima pela mediocridade, visível, por exemplo, em veículos de informação péssimos, apinhados de opiniões medíocres, em vez de factos sobre os quais possamos nós próprios pensar. Não há professor que consiga remar contra isto. A minha pessoa já não se irrita, só desespera. E sonho que antes de fecharem as faculdades das ciências de educação, expulsem primeiro os opinionistas de tudo e de nada para onde deviam andar: a blogosfera.
Se vamos falar na "raiz do mal da educação", que é o título expectável na nossa excelente imprensa, eu penso que este está em pessoas que vivem numa sociedade que prima pela mediocridade, visível, por exemplo, em veículos de informação péssimos, apinhados de opiniões medíocres, em vez de factos sobre os quais possamos nós próprios pensar. Não há professor que consiga remar contra isto. A minha pessoa já não se irrita, só desespera. E sonho que antes de fecharem as faculdades das ciências de educação, expulsem primeiro os opinionistas de tudo e de nada para onde deviam andar: a blogosfera.
sábado
fadela
Hoje ia a andar pela rua e dei-me conta de uma coisa. Assim, num repente, enquanto cheirava a rua molhada de fresco e fazia aquele ar satisfeito com certas coisas que acontecem à minha volta, como um gato anafado que encontrou o canto perfeito ao sol para lamber as partes privadas. Dei-me conta que não há significados ou sentidos ou direcções. Não há. Somos nós no nosso pequeno mundo que damos nomes e categorizamos e agrupamos e agora que me dei conta desta evidência que só não apanhei na adolescência porque estava demasiadamente ocupada a achar que sabia tudo, tenho muita pena de mim, porque o que eu faço é dar nomes e categorizar e agrupar e suo muito a fazer isto e fico nervosa e chateio-me e cenas. A questão agora é saber em que canto morrer. Porque viver é este lamber de partes. E se Deus estiver a prestar atenção a nós não lhe tenho respeito. Tenho poucas certezas senão mesmo nenhumas, mas uma coisa sei: há coisas mais interessantes para fazer no Universo.
quinta-feira
terça-feira
Insonho
Às vezes nas noites de insónia coloco uma mesma canção a repetir-se noite fora. Pela noite os mesmos sons e eu segui-os de coração, a canção recomeça e eu segui-a todas as vezes pela noite. Hoje, por exemplo, tenho Between the Bars de Elliot Smith, mas como é um pouco ensonada, já fiz batota com os Angeles. Já notaram que os sons mudam consoante a hora e a noite? Há noites em que os sons vêm de muito longe, mas são estranhamente nítidos, como se a estação de comboios fosse mesmo ali ao virar da esquina e não do outro lado da cidade. É assim em todas as cidades, com os comboios a espraiarem-se à noite. Na outra noite ouvia-se um som repetitivo como alguém a bater metal em metal, um som imaginado a sair de uma prisão e eu forcei-me a sentir que devia ajudar a pessoa, que bateu metal em metal até às 6 e 12 da manhã e eu segui o som noite fora pela manhã e não vi se era alguém a pedir ajuda. Não era o vento, não podia ser o vento, eu o teria ouvido. O som do metal desvaneceu-se e eu fiquei acordada com a manhã. Este fastidio da noite, a ilusão da solidão e do eco e eu num espaço pequeno a repetir os mesmos sons distraindo a noite na minha insónia. Não sei explicar o contentamento que por vezes me submerge neste pequeno mundo de sons distintos, repetitivos e ecoados. São 4 e 13 e ouvi o primeiro pássaro. A cacofonia da manhã começa.
segunda-feira
Estupidamente bom
Este fds vi um filme, que ainda nao consegui esquecer. O mais esquisito é que esta foi a segunda vez que comecei a ver o filme, a primeira desistencia por KO de aborrecimento. Assim, de novo me veio o DVD parar á mao e de novo me sentei a ver o filme. Desta vez vi o filme todo e na cena final levei um balázio. Assim, pimbas, toma que já aprendeste. Este filme foi como estar a fazer um puzzle sem saber que imagem teria no final e quando o puzzle está feito, tem-se a pergunta á resposta e a resposta dispersa pelo filme. Logo, estou até agora a catar as respostas pelo que me lembra do filme. Um filme que me aborreceu quando o vi, desvaria-me de interesse quando o lembro. Isto nao se admite.
P.S.: É o estúpido do Caché do idiota do Haneke.
P.S.: É o estúpido do Caché do idiota do Haneke.
quinta-feira
terça-feira
Fase
Eu ando por aqui, mas fui acometida por um sentimento de alienaçao. Isto resulta na incapacidade de me sentir indignada ou de dar importancia ás minhas opinioes. Isto, eu sei, é gravíssimo.
Escrevi um poste na semana passada e anulei-o pouco depois. As palavras eram-me estranhas. Estas que escrevo agora sao estranhas. E no entanto, continuo a funcionar, ainda que sem opiniao e sem capacidade de indignaçao. Nao sei como, mas é possível.
Mas isto nao é só no escrever, é também no ler. Passo pelos blogues dos outros e é tédio absoluto, exceto os blogues pessoais. Parece que estou na fase: nao me interessa o que pensas, interessa-me, se me interessar, o que sentes.
Escrevi um poste na semana passada e anulei-o pouco depois. As palavras eram-me estranhas. Estas que escrevo agora sao estranhas. E no entanto, continuo a funcionar, ainda que sem opiniao e sem capacidade de indignaçao. Nao sei como, mas é possível.
Mas isto nao é só no escrever, é também no ler. Passo pelos blogues dos outros e é tédio absoluto, exceto os blogues pessoais. Parece que estou na fase: nao me interessa o que pensas, interessa-me, se me interessar, o que sentes.
domingo
Estou hipotérmica
Talvez amanhã quando for comprar a habitual melancia, o senhor da frutaria turca me faça um desconto. Tirando esse pensamento estou negativamente passada com o facto da República Checa ter perdido. Nem percebi o que se passou. Resolveram jogar à defesa (o que eu pensei) ou faltou-lhes as pernas (como diz aqui o meu amigo)? Está demasiadamente frio para me pôr duas horas a ver um jogo na rua e eu para o fim já não via nada com a tremura dos dentes.
Quanto aos portugueses, não vi, nem quis ver, porque devo confessar que estava com pena dos suiços, que se não ganhassem era uma vergonha. Eu deixo-me ir por estes sentimentos. Sou um coração de manteiga não derretida.
Quanto aos portugueses, não vi, nem quis ver, porque devo confessar que estava com pena dos suiços, que se não ganhassem era uma vergonha. Eu deixo-me ir por estes sentimentos. Sou um coração de manteiga não derretida.
sábado
Detesto o Natal
Há aquela frase aterrorizante do "Devia ser Natal todos os dias.", que me dá arrepios espinha abaixo. A única coisa boa do Natal é ser uma vez por ano e isso é olhar para o momento com espírito positivo. Eu sinceramente propunha que o Natal fosse de quatro em quatro anos e que o Campeonato Europeu de futebol fosse todos os anos. Digam-me o que é que o Natal tem de bom? Estar com a família por aí, mas não é realmente preciso o Natal para estar com eles e o melhor mesmo é estar com eles sem as exigências mesquinhas da época. Um Campeonato Europeu de Futebol é uma festa durante um mês, criando-se uma atmosfera impossível de reproduzir. Durante esse mês criam-se camaradagens e empolgamo-nos com os jogos. Em vez de ir para casa, saio para a rua, conheço pessoas, ando basicamente em festa a partir do momento que saio do trabalho. O Natal reproduz-se muito facilmente: aglomera-se família numa casa, compram-se uma data de prendas, passa-se uma noite com a família onde o momento alto é abrir as ditas prendas e fim.
P.S.: sim, ok, aquilo é a consoada, mas o dia seguinte é ainda pior: come-se muito e transladam-se os corpos para a frente da televisão. E eu apanhei um avião pra isto.
P.S.: sim, ok, aquilo é a consoada, mas o dia seguinte é ainda pior: come-se muito e transladam-se os corpos para a frente da televisão. E eu apanhei um avião pra isto.
quinta-feira
Nao somos todos verdes
Estive a ler o discurso do Cavaco Silva do dia 10 de Junho, mas nao foi lá que ele disse raça. Portanto, ainda nao sei realmente o que aconteceu. Se realmente é o homem ou um surto viral do politicamente correto. A palavra raça agora nao se diz, seja em que situaçao for, a nao ser seres nao humanos, imagino. Será que a minha piadinha de que em Portugal somos rafeiros é possível? Posso? Ou também é crime lingual?
Seja como for e nao tomando partidos, que eu nao tenho a minima ideia do contexto da palavra na frase e na situaçao, eu aponto este texto que li há muito poucos dias, talvez no mesmíssimo momento em que o Cavaco Silva expelia pela boca a palavra raça, talvez querendo dizer coragem, talvez querendo dizer aquele je ne sais quoi de rafeiro que os portugueses tem, talvez querendo dizer pelo nas ventas, talvez querendo dizer aquela espécie humana de altura abaixo da média europeia, talvez aquele pessoal todo que ouve fado e começa a fungar, talvez tentando animar os tugas choroes a serem mais vertebrais, talvez tentando incutir um certo sentimento de solidariedade (que nao existe), talvez num processo de telepatia, benza deus, espero que esta última nao.
É que se nao somos todos brancos, também nao somos todos verdes.
P.S.: Estive a olhar para a minha última frase e é passível de eu ser também apedrejada. Bem, nao sou famosa, é o que me vale.
Seja como for e nao tomando partidos, que eu nao tenho a minima ideia do contexto da palavra na frase e na situaçao, eu aponto este texto que li há muito poucos dias, talvez no mesmíssimo momento em que o Cavaco Silva expelia pela boca a palavra raça, talvez querendo dizer coragem, talvez querendo dizer aquele je ne sais quoi de rafeiro que os portugueses tem, talvez querendo dizer pelo nas ventas, talvez querendo dizer aquela espécie humana de altura abaixo da média europeia, talvez aquele pessoal todo que ouve fado e começa a fungar, talvez tentando animar os tugas choroes a serem mais vertebrais, talvez tentando incutir um certo sentimento de solidariedade (que nao existe), talvez num processo de telepatia, benza deus, espero que esta última nao.
É que se nao somos todos brancos, também nao somos todos verdes.
P.S.: Estive a olhar para a minha última frase e é passível de eu ser também apedrejada. Bem, nao sou famosa, é o que me vale.
quarta-feira
terça-feira
Latim
Número de alunos a aprender Latim diminuiu 80 por cento em dois anos
Por experiência própria sei que o ter aprendido latim é uma vantagem, pelo menos para aprender alemão. Os meus colegas italianos punham-me debaixo do braço, com uns racíocinios que me deixavam completamente fora de corrida. Esta não foi a primeira vez que fiquei triste por nunca ter tido latim. Quando estudei biologia, naquela parte mega-seca de dar nomes aos bichos, sentia que se soubesse latim aquilo não teria sido tão seca. O que tem mais piada é que eu acho que teria escolhido latim no liceu se me tivesse sido possível, mas eu era da área científica e latim não era uma opção. O meu interesse na altura era somente romântico, se bem que com uma certa precaução amedrontada depois de ler o "Manhã submersa" do Vergílio Ferreira. Eu punha-me a namorar os livros de latim dos meus colegas e a perguntar-lhes se o professor deles me deixaria assistir às aulas. Contudo, não havia possibilidade de horário para eu o fazer e assim nunca estudei latim.
Provavelmente, estivesse eu no liceu hoje, não pensaria em ter latim. Hoje a escola começa cedo a ser funcionalista e no entanto na Universidade em que esse propósito devia existir, as pessoas deixaram de encher os cursos de direito?
Por experiência própria sei que o ter aprendido latim é uma vantagem, pelo menos para aprender alemão. Os meus colegas italianos punham-me debaixo do braço, com uns racíocinios que me deixavam completamente fora de corrida. Esta não foi a primeira vez que fiquei triste por nunca ter tido latim. Quando estudei biologia, naquela parte mega-seca de dar nomes aos bichos, sentia que se soubesse latim aquilo não teria sido tão seca. O que tem mais piada é que eu acho que teria escolhido latim no liceu se me tivesse sido possível, mas eu era da área científica e latim não era uma opção. O meu interesse na altura era somente romântico, se bem que com uma certa precaução amedrontada depois de ler o "Manhã submersa" do Vergílio Ferreira. Eu punha-me a namorar os livros de latim dos meus colegas e a perguntar-lhes se o professor deles me deixaria assistir às aulas. Contudo, não havia possibilidade de horário para eu o fazer e assim nunca estudei latim.
Provavelmente, estivesse eu no liceu hoje, não pensaria em ter latim. Hoje a escola começa cedo a ser funcionalista e no entanto na Universidade em que esse propósito devia existir, as pessoas deixaram de encher os cursos de direito?
O colesterol
Cheguei à conclusão que em Portugal se gosta de falar de colesterol. Cada um tem uma história para contar, desde o pouco imaginativo, que só tem um número para dizer, o muito imaginativo que tem uma história absorvente de altos e baixos, o experimentativo, que já fez experiências entre o que come e bebe e como isso afecta o colesterol, o queixinhas, que se queixa do colesterol, o professoral que explica os tipos de colesterol e por aí em frente que não há limites ao colesterol daquela gente, que os benza deus. Eu sou contra o colesterol. O colesterol irrita-me. Não sei o meu colesterol, nem vejo daí grande benesse à minha saúde. Para mim o colesterol é como as rugas: indica idade e nem eu conto as rugas ao espelho, nem uma pessoa deixa de ir morrendo com a idade. Que uma pessoa tem que comer equilibradamente, fazer exercício e não fumar é uma coisa, que se tenha que trazer o colesterol à baila como uma medida quantitativa de quanto temos de mudar de vida é outra. E andar a tomar medicamentos para o colesterol sem mudar de vida é hipocrisia de saúde. Tenho dito.
segunda-feira
Palhaços
O jornalismo está ridículo. Com a seleção de futebol isto é tão claro que bate na cara. Quando a seleção estava em Viseu, os jornalistas visitaram uma aldeiazinha lá perto e perguntavam às pessoas se apoiavam a seleção, se tinham posto a bandeira e as pessoas lá juravam a pés juntos que sim e os que não tinham posto a bandeira pediam desculpa. Mostraram uma imagem que provavelmente os jornalistas pensaram castiça, das pessoas a sairem da igreja e preparem-se se não viram, perguntaram se era pedido na missa pela seleção! Caiu-se-me as mamas ao chão com o tamanho da estupidez e a pessoa a quem perguntaram esta enormidade também.
Hoje no Público há uma notícia em que se diz que os emigrantes em Neuchatel, onde a seleção está sedeada, comemoraram o feriado de 10 de Junho a 8 de Junho em honra da seleção. O título é que pela seleção até se muda o feriado. É óbvio que ninguém pode acreditar nisto, portanto, com base neste tipo de jornalismo só resta uma conclusão: os jornalistas um dia foram diabolicamente raptados numa ilha de um cientista maluco que lhes tirou os cérebros, colocou-os nuns frascos, mantem-los sobre uma dose racionada de choques eléctricos, libertou os corpos que agora andam por aí a fazer jornalismo e que acreditam que todas as pessoas que não têm o cérebro resgatado na ilha são imbecis.
Se a minha teoria cientista maluco não for verdade, continuo com a mesma dúvida: de onde veio esta gente? De que escola, que idade têm, eu imagino-os com vinte anos e acne, saídos de uma escola privada onde pensaram que estavam a aprender jornalismo, mas na verdade estavam a aprender artes circenses. Agora estão a fazer estágios de palhaço nos media.
Hoje no Público há uma notícia em que se diz que os emigrantes em Neuchatel, onde a seleção está sedeada, comemoraram o feriado de 10 de Junho a 8 de Junho em honra da seleção. O título é que pela seleção até se muda o feriado. É óbvio que ninguém pode acreditar nisto, portanto, com base neste tipo de jornalismo só resta uma conclusão: os jornalistas um dia foram diabolicamente raptados numa ilha de um cientista maluco que lhes tirou os cérebros, colocou-os nuns frascos, mantem-los sobre uma dose racionada de choques eléctricos, libertou os corpos que agora andam por aí a fazer jornalismo e que acreditam que todas as pessoas que não têm o cérebro resgatado na ilha são imbecis.
Se a minha teoria cientista maluco não for verdade, continuo com a mesma dúvida: de onde veio esta gente? De que escola, que idade têm, eu imagino-os com vinte anos e acne, saídos de uma escola privada onde pensaram que estavam a aprender jornalismo, mas na verdade estavam a aprender artes circenses. Agora estão a fazer estágios de palhaço nos media.
sexta-feira
Deutschland ueber alles
Eu de vez em quando vejo esta frase por aí sendo usada no sentido de Alemanha acima de tudo, sendo o tudo, outros povos, outros interesses. O sentido original desta frase não foi o de nacionalismo desenfreado, vamos pôr os nossos capacetes de bico e passar a ferro uns tantos pela nossa pátria. O sentido da frase nasceu na altura da unificação dos diferentes reinos no país Alemanha. Assim, o sentido é, acima destes retalhos de terra, a terra unida dos alemães. Era só para o caso de não saberem.
quinta-feira
Pois falemos de comida
Dei-me conta que os portugueses começam a ser poluídos pela soberba dos italianos. Eu gosto de comida italiana, gosto, sem dúvida alguma gosto. O que acontece é que os italianos aumentam desproporcionadamente os méritos da sua comida e acerrimamente. Basta dizer que eles conseguem passar horas a defender a radical diferença em sabor entre uma massa em espiral e uma massa cilíndrica. A discussao debruçou-se sobre os reconditos da mecanica de mastigaçao. Penso que já deu para entender como eles sao loucos quando se lhes dá trela e eu dou.
Pois estava eu a ler o Fugas do Público quando leio um artigo sobre risotto (as receitas italianas com arroz). A forma como o artigo estava escrito era como se em Portugal nunca jamais tivessemos visto arroz. Pessoalmente, eu escreveria o artigo como uma outra dimensao do arroz. Nao a descoberta de marcianos na praia do Guincho. Os italianos realmente construiram um mundo de sabores muito interessante e a crítica que farei a seguir sei que está dependente de eu ser portuguesa. O risotto é muito imaginativo e constrói sabores prodigiosos, mas é um prato em que geralmente cada garfada é a mesma da anterior. Vejam o arroz de cabidela: cada garfada é diferente, é impossível nao querer mais, é como um jogo de computador que já se conhece, mas parece que quanto mais se joga mais excitante fica. O risotto á quinta garfada é um território conhecido que já nao apetece explorar, mas sentarmo-nos para trás e escrever sobre isso. Os italianos sao prodigiosos em escrever sobre isso e exageram a tais limites que já nao se fala de arroz, mas da descoberta marítima para a India. Devo dizer, que segundo os italianos, os pastéis de belém também foram descobertos por eles.
Também li há uns dias que os franceses querem propor a culinária francesa a património imaterial da humanidade. O que poe a soberba dos italianos numa perspectiva bem atraente. Um só frances irrita o mesmo que oitenta arrobas de italianos. Os italianos sao melhores comensais. Os franceses infelizmente levam-se demasiadamente a sério. Mas algo que todos concordamos: os alemaes do norte nao cozinham, eles assassinam os ingredientes. E no fim, para terem a certeza que ninguém sobrevive, afogam-nos num molho qualquer.
P.S.: Há excepçoes claro, como por exemplo, algumas coisas simples que os alemaes do norte fazem com os espargos, que sao desta estaçao. É uma emoçao quando chega Maio.
P.S.2: Ainda assim, os alemaes do norte sabem o que é comida, ainda que torturada, eu tenho a impressao que se fosse servida uma salada de plástico a ingleses, eles comiam-na sem pestanejar.
P.S.3: Generalizar é baixaria, mas aceitem, toda a generalizaçao tem um fundinho de verdade.
Pois estava eu a ler o Fugas do Público quando leio um artigo sobre risotto (as receitas italianas com arroz). A forma como o artigo estava escrito era como se em Portugal nunca jamais tivessemos visto arroz. Pessoalmente, eu escreveria o artigo como uma outra dimensao do arroz. Nao a descoberta de marcianos na praia do Guincho. Os italianos realmente construiram um mundo de sabores muito interessante e a crítica que farei a seguir sei que está dependente de eu ser portuguesa. O risotto é muito imaginativo e constrói sabores prodigiosos, mas é um prato em que geralmente cada garfada é a mesma da anterior. Vejam o arroz de cabidela: cada garfada é diferente, é impossível nao querer mais, é como um jogo de computador que já se conhece, mas parece que quanto mais se joga mais excitante fica. O risotto á quinta garfada é um território conhecido que já nao apetece explorar, mas sentarmo-nos para trás e escrever sobre isso. Os italianos sao prodigiosos em escrever sobre isso e exageram a tais limites que já nao se fala de arroz, mas da descoberta marítima para a India. Devo dizer, que segundo os italianos, os pastéis de belém também foram descobertos por eles.
Também li há uns dias que os franceses querem propor a culinária francesa a património imaterial da humanidade. O que poe a soberba dos italianos numa perspectiva bem atraente. Um só frances irrita o mesmo que oitenta arrobas de italianos. Os italianos sao melhores comensais. Os franceses infelizmente levam-se demasiadamente a sério. Mas algo que todos concordamos: os alemaes do norte nao cozinham, eles assassinam os ingredientes. E no fim, para terem a certeza que ninguém sobrevive, afogam-nos num molho qualquer.
P.S.: Há excepçoes claro, como por exemplo, algumas coisas simples que os alemaes do norte fazem com os espargos, que sao desta estaçao. É uma emoçao quando chega Maio.
P.S.2: Ainda assim, os alemaes do norte sabem o que é comida, ainda que torturada, eu tenho a impressao que se fosse servida uma salada de plástico a ingleses, eles comiam-na sem pestanejar.
P.S.3: Generalizar é baixaria, mas aceitem, toda a generalizaçao tem um fundinho de verdade.
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