sexta-feira

Necessidades

A música que vibra pelo quarto é básica, ridícula se presto atenção à letra, inepta até à lágrima, desavergonhada de incompetente, mas de rabiosque a dar a dar, consegue suprir as necessidades de exuberância, num mundo um pouco cinzento. Para lá do sublime, necessito do medíocre.

quinta-feira

A morte e mais além

Acho interessante esta espécie de Emilie Poulain-ismo acerca da espécie humana. Contudo, eu contraponho que as pessoas não criam, as pessoas recriam. Assim, nao há-de haver ninguém, por mais entusiasta da espécie humana, que nao se chateie em algum ponto da imortalidade. Eu que sou realista e pró cínico, quero morrer (concordo com o irmao naquele texto que deu origem ao meu poste que deu origem àquele poste da snowgaze que está a dar origem a esta resposta, que dizia que o medo da morte é irracional). Contudo, não me importava de ressuscitar daqui a uns tempos para ver o que é que afinal aconteceu no longo filme humano: afinal houve a terceira guerra mundial? afinal bangladesh afogou-se? afinal é só paz e amor entre as naçoes? acabou o racismo? os homens dao á luz? serao todos castanhos e iguais? mad max? deus apareceu?

terça-feira

Liçoes de vida

Os meus pais na sua senda de criação deixaram as crias à sua sorte. Lembro-me dos meus amigos a irem pra casa muito aflitos que tinham de estudar para o teste do dia seguinte senão os pais isto e aquilo, e castigo e sermão e semanada cortada. Eu ficava sozinha, sem perceber porque é que os meus pais não me coagiam a estudar. Ali estava eu sem companheiros de brincadeira e sem castigos, sem sermoes, sem semanadas. Mas deixava a coisa pra lá e ia pra casa ver televisão. Um dia, depois de ouvir relatos sobre prémios de passagem de ano, lambretas e assim, resolvi finalmente impor-me. Eu ali a passar de ano todos os anos, sem lhes chatear a cabeça, nunca, nunca, nunca, onde estava o meu prémio de passagem? Ãh? O meu pai virou-se pra mim depois da minha exposição, que achei briiiiiiiilhante, e perguntou-me "Pra quem estás a trabalhar? Não é pra ti?". Não tive resposta e aprendi ali que o meu pai era menos brutinho do que parecia.

segunda-feira

A posteridade e mais além

O Alexandre III da Macedónia morreu com 32 anos e 11 meses, tendo conquistado o mundo conhecido a leste do seu reino com meio-nome de salada de Verão. Eu? Eu nao consigo ver sangue. Portanto vai ser mais Harvey Milk. Aos quarenta terei que me associar a um grupo injustificadamente odiado e colocar-me em posiçao de ser assassinada (rápido) e ficar mártir de algo. Ahhh, fixe, ainda tenho algum tempo.

sábado

Boa frase

"Imagine life without death," Jules Renard wrote. "Every day you would want to kill yourself."

Imagine a vida sem morte. Todos os dias, cada dia, iria querer-se matar.

ou

Imagine a vida sem morte. Todos os dias o desejo da morte.

Imagine a vida sem morte. A vida seria como aqueles sítios que nunca visitamos porque estão perto e um dia quando houver tempo passamos lá.

sexta-feira

Inoperancia

Nao, nao vao haver mais adiamentos, tenho, que tenho, dizem-me, de encontrar interesses visiveis, tangiveis, tocáveis, tenho de sair deste mundo abstrato em que vivo. Portantos, assim encostada á parede, visitei o meu quarto e entre todas as coisas tangíveis que nao acabei, deitei-me a sonhar. Isto foi há uns meses.

quarta-feira

Do vidroPara lá

Há uma imagem que recorrentemente me vem á cabeça que é o ato de eu colocar a mao sobre uma janela. Penso que é a minha maneira de assinalar aquele sentimento inultrapassável de estar desligada do resto do mundo. De haver uma barreira que sinto amiga e inimiga conforme os dias, mas a maior parte dos dias é uma alegoria para o meu sentir da minha vida em relaçao á vida dos outros e vice-versa. Quando na minha família tiram conclusoes sobre mim, sempre senti uma mistura de desapontamento e contentamento quando eles erram na minha própria ideia de mim e coro de humilhaçao e contentamento quando me apanham corretamente. Raramente componho ou reafirmo e fico chateada comigo quando caio nessa esparrela de me explicar. É como uma experiencia que deixo a correr a ver de que forma a imagem que têm de mim se afasta da minha imagem de mim. Enquanto isso tento descobrir a verdadeira eu, que está algures e nos momentos de maior frustraçao penso se nao estarei além, para lá do vidro.

terça-feira

I am Cabrao, Muito Cabrao

Das vezes que tentei ver filmes bond desisti por aborrecimento. Uma vez consegui atingir o fim da meta porque estava com o meu cunhado a achar as partes idiotas. A segunda vez, estava sozinha, mas pensei que a Halle Berry me conseguisse levar a bom porto, mas nao, nem a Halle Berry. Agora desisti. Aceito a minha incapacidade. Assim, o que eu sei do James Bond é do que ouço. Sobre o último filme, sei que o James Bond agora é um mole. Imaginem que gosta de mulheres, mas gosta mesmo, nao é só sexo! Meu Deus, ao que o mundo chegou! Eu concordei que é horrível fazerem um personagem frio de carisma ficar mole. Eu que passei horas a ver o Dexter e agora cheguei ao segundo segmento nao consigo ver mais, porque nao consigo aceitar a ideia de que talvez o Dexter possa ter sentimentos. Ele ainda nao mostrou sentimentos, mas só essa possibilidade me deixa o sangue frio. O choque seria demasiado para mim. Nao consigo, nao consigo, nao consigo. O Dexter é um monstro. Se o transformarem num ser-humano nao há mais Dexter e eu nao consigo ver o Dexter morrer. Pelo que entendo o meu amigo. O James Bond é um cabrao. Se deixar de ser cabrao, deixa de ser James Bond. Acabou. O fim de uma era, de um tempo, de um herói. O fim.

segunda-feira

A minha imagem pública: alienada

Extracto de conversa:

Alguém: Ainda tens aquela coisa branca no olho perto da iris. Ainda nao foste ao oftalmologista?

Eu: Nao. Eu ainda consigo ver, por isso... Mas se calhar devia ir, que quando estava de férias choraram-me os olhos várias vezes.

Alguém: Nao era a poluiçao?

Eu: Sim. Mas outras vezes penso que nao. Era outra coisa.

Alguém: Nao estarias triste?

sábado

Téééééédio

Estou entediadérrima. Acabei de fazer um caldeirão de musse de chocolate (branco e preto) e estou a pensar ir comprar os ingredientes para fazer natas do céu. Ou me lembro de algo melhor que me apeteça fazer ou nos próximos dias vou engordar amigos, visitantes, colegas e companheiros de casa como porcos. Graças a deus, estou de dieta.

terça-feira

??

Segundo o que as pessoas me vao dizendo, parece que é mau ter preconceitos. O que eu nao entendo é como as pessoas decidem onde ir de férias sem preconceitos.

segunda-feira

Arte e sociologia





Enquadramento jornalístico: The project immersion

By halfway through 2009, Cooper thinks he will have enough material to mount the first exhibition. 'Unreality is interesting,' he says. 'As a photojournalist, you're meant to look at moments of extreme emotion. It seemed to me, after a while of doing that… that is unreal as well. As Baudrillard said, the proliferation of images means we live in an increasingly unreal, mediated world. It's a challenge to try and capture that because you have to start dealing with the medium itself.'



A página do artista: Immersion blog

quarta-feira

O primeiro suspiro do retorno

Ah, Helena,

a India não tem muitas vacas ou muitas moscas ou muitas melgas, a India tem muitos bigodes, demasiados bigodes, uma profunda tristeza estética.

terça-feira

Texto impressionante:

Desterrada

I am too idiot for my shirt

Agora o Obama ganhou a presidência dos EUA e os americanos parece que estão na vanguarda. Num país em que um solteiro ou homossexual ou ateísta tem mínimas chances de ser eleito, eles estão na vanguarda porque elegeram alguém que é castanho, numa terra em que que eu saiba há gente castanha há uns milénios. Ok, vou tentar não me rir. Mas aqui vem a minha notícia: eles já estavam na vanguarda, por há oito anos terem eleito um idiota. O resto do mundo agradece encarecidamente que os idiotas se tenham decidido pelo castanho com miolos. Ainda que tenha sido preciso confundir-lhes a caixa craniana com um desastre económico.

segunda-feira

ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

Sabe bem caminhar pelas ruas cinzentas com o meu tocador nos ouvidos e o frio a acariciar-me a cara, a sentir-me em casa. Quase parece que fui de férias para me assegurar que vivo no sítio certo. Depois de me empaturrar de croissants e café, de ir à sauna e tapar o furo na bicicleta, talvez me passe pela cabeça contar algo sobre onde andei. Por agora estou a gozar a possibilidade do silêncio e de estar só. Sem necessidades de tampões para os ouvidos ou meditações.

quinta-feira

Nada para fazer

Estou aqui a secar e lembrei-me de um jogo que fiz ontem na net e que agora nao acho. Aquilo é americano e é um conjunto de fotos que vao aparecendo no ecran. Se a pessoa na foto tem uma arma na mao carrega-se numa tecla, se tiver uma carteira ou um telemóvel ou uma lata, carrega-se noutra tecla. As pessoas ou sao pretas ou sao brancas. Consoante os erros e o tempo que demoramos a carregar as teclas é-se medido o racismo latente. Antes do teste nao me é perguntada a raça (sou branco), pelo que fiquei na dúvida, mas parece que os pretos tem o mesmo racismo que os brancos, concluindo-se assim que o racismo é cultural. Nao interessa a cor da minha pele, eu vou sempre achar que branco é que é. Foi assim que compreendi a premissa. Joguei o jogo e dos resultados que eles mostram (os tempos quando preto-arma-mau, preto-bom, branco-arma-mau, branco-bom) concluí que mato mais depressa um branco que um preto, mas demoro mais tempo a acreditar que um preto possa ter uma carteira ou um telemóvel. Ou seja, nao há conclusoes definitivas da minha boa pessoalidade.

segunda-feira

domingo

Indignação monstruosa

Estava num jantar; ponham juntos um grupo de falantes de línguas românicas e o único momento em que estaremos todos unanimemente interessados na conversa, será quando compararmos as nossas línguas-mães. Agora que já nos conhecemos há mais de quatro anos, somos como gente caquética, repetindo as mesmas histórias, mas estamos felizes. Mas por vezes há histórias novas: uma italiana esteve em Portugal e vinha com as histórias pitorescas da atitude corta-garganta da língua portuguesa. Imaginem que "A Bela e o Monstro" é noutras realidades "A Bela e a Besta". Eu estava incapaz de ver como ser uma besta é melhor que ser um monstro, mas parece que uma besta não perde a possibilidade de ser giro, um príncipe, uma carinha laroca. Eu tenho sobrinhos e cumpri a obrigação familiar de os aturar; nas alturas em que queria descansar e os punha a ver filmes no vídeo, "A Bela e o Monstro" era uma das chupetas visuais. O tipo era um monstro e esta é uma das bases da história: que a princesa amou o eu interior, que era bom, pelo que o tipo não podia ser uma besta! Chamá-lo uma besta para que possa ser bonito, é uma desfiguração da moral da história. Dizer "A Bela e a Besta" é inaceitável.