quinta-feira

my grand plan

Esclarecimento

Em Portugal, quem emigra é porque foi obrigado. Ninguém deixaria Portugal se Portugal nao fosse Portugal. Há aqui um amor-ódio, a ideia de que nao poderiamos partir (amor), mas temos de partir escorraçados por um lugar que nao nos merece (ódio). A minha emigraçao nao se enquadra nisto. O motivo porque parti compreende-se facilmente. Sentem-se á frente de um mapa-mundo. Observem. O que veem? Terra que nao é Portugal para onde se pode ir. Foi só isto e nada mais. Nenhum grande plano, nenhum desejo de conquista, nenhum amor ou ódio, somente o movimento de um corpo para fora de umas linhas traçadas. A minha vida nao melhorou, nao vim ganhar mais dinheiro, nao fiz nada mais importante. Mas aprendi o quao o vosso amor-ódio é desarrazoado.

quarta-feira

Apenas

Lembro-me de um artigo qualquer num jornal israelita em que se falava num inquérito na Europa sobre, imagino que chamassem o confronto israelito-palestiniano, mas sejamos francos, a ocupação israelita, e a maior parte do pessoal dizia-se farto. Eu que não respondi ao inquérito, declaro-me pertencente. Construam um muro a toda a volta, coloquem uma tampa e espreitemos daqui a dez anos a verificar se há viventes. E no entanto, numa parte de mim que estremece à vista da injustiça, tremo cada vez que leio os palestinianos defraudados da sua humanidade e sempre, para todo o sempre transformados em símbolos. São símbolos de tudo por todos nunca em benefício próprio. Serão sempre apenas símbolos, meios para chegar a algum lado e esse lado pode ser extremamente vazio, como para a Helena Matos escrever a sua crónica semanal, enquanto eles morrem, sobre, grande furo, os "insurgentes de sofá"! Portanto além dos media não reverem fontes também ficamos a saber que para cronistas têm os espirituosos do teclado. Só que a Helena Matos quer ser MEC com a tragédia.

Aos palestinianos seja Deus a dar redenção por cada vez que foram usados e terão o paraíso só pra eles. Que seja Deus, porque aqui em baixo discute-se que o desespero não é desculpa. Viver numa prisão não é desculpa. Viver com o arbítrio dos prepotentes não vale. Viver os dias a paredes meias com a injustiça não é argumento. O mundo só promete a benção em caso de paciência de santo, senão mesmo divina. Votar mal? Sem opções na política? Isso é para nós que discutimos a falta de opções na escolha. Para os palestinianos não há desculpas para defraudarem a democracia ou as nossas expectativas na democracia deles. Sejam apenas o que nos der jeito que sejam. Haverá melhor palavra para os palestinianos? Apenas. Só não são símbolos para o governo israelita que tem que ser pragmático na resolução do problema da sua existência. Para esses, os palestinianos ainda não são o que deveriam ser: apenas pó.

A única coisa que todos, mas todos, pedem aos palestinianos é que sejam mártires. Deste lado da cristandade quer-se o martírio de jesus, de gandi, de tianamen. Haverá algo mais admirável que o martírio dos outros? Voltem a face, deitem-se debaixo dos tanques, encarem as pedradas e os escarros, deixem-se morrer. Infelizmente para o nosso lado, há o outro lado, que não se importa de os ver mortos, mas um martírio mais abrangente, que leve daqui vítimas e algozes numa cajadada só. A única opção para um palestiniano é a morte. Há consenso universal: um bom palestiniano está morto.

Entre o consenso e a impotencia, pergunto-me, porque entre, vai em quantos, 900 mortos, temos de passar pelas crónicas míseras? Na aldeia em que cresci, pelo menos no dia dos enterros, as comadres escondem-se. Nao seria possível o último respeito? Nem na morte? Estou farta, farta, farta até à pontinha da minha capacidade humana para os jornais e os seus cronistas. E se me vierem dizer que precisamos dos cronistas para sabermos que o Hamas se aproveita da situaçao, isso é como dizer que precisamos das comadres para resolver crimes.

sexta-feira

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Apenas

Andava no Público a procurar o MEC e vejo este chamariz de crónica da Helena Matos:

"No dia em que escrevo, quarta-feira, confirma-se que mais uma vez uma cadeia de televisão europeia, a France 2, transmitiu imagens falsas numa reportagem que dedicou ao ataque israelita a Gaza. Crianças mortas e uma casa destruída ilustravam os efeitos dramáticos entre os civis palestinianos dos bombardeamentos efectuados pelo exército de Israel.
Poucas horas após a emissão da reportagem concluía-se que destas imagens apenas os cadáveres e o prédio destruído não foram ficcionados."

Fui logo ao Blasfémias para ver o que tinha sido ficcionado (não achei). Crianças feridas, peluches semeados pelos escombros, mulheres pagas para carpir? Afinal, o resto são apenas crianças mortas. Apenas. Apenas? Desculpe, APENAS?

quinta-feira

Voces ser esquisitos

Os portugueses adoram os seus telemóveis. Um dia hao de nascer já com telemovel incorporado e este com muitas capacidades. Podem-se ver filmes nos telemóveis. Nao consigo imaginar que alguém queira ver um filme num telemóvel, mas presumo que sim, coisas mais estranhas acontecem. Quando o bébé nascer, em vez de perguntarmos se é menina ou menino, pergunta-se pelo telemóvel, em vez de perguntarmos pela saúde, pergunta-se se tem rede. O meu telemóvel velhinho, que nem pode tirar fotos, que é uma daquelas coisas que já nem se pergunta se pode, nao me preparou para o linguajar técnico que os portugueses tem para descrever os seus telemóveis com ar de mini-televisao. No autocarro soube de coisas muito privadas em conversas de horas. Poderia ter posto os tampoes nos ouvidos, mas estava perplexa com o desnudamento e com a minha aparente invisibilidade e pouca importancia. No metro, um rapaz fazia chamadas umas sobre as outras, caminhando pela carruagem, saltitando pelos bancos, nos intervalos das chamadas parecia perdido. A minha sobrinha, que dormiu no meu quarto, deitava um alo para o escuro do meu sono enquanto, presumo, mandava mensagens. Havia telemóveis pelos móveis, entre os pratos á hora das refeiçoes, a mascararem-se de comandos. Na véspera de Natal, fiquei a falar prá parede enquanto quase todos os meus familiares que sao todos portugueses se afadigavam a responder ás boas festas. Ei, pessoal, vim da Alemanha para falar convosco. Nao, desculpa, temos de responder, nao, eram obrigados a responder, disseram-me, senao profundas rupturas sociais gerar-se-iam e imagino eu, no dia seguinte um vazio instalar-se-ia e ninguem jamais comunicaria. O desastre seria que talvez nao fosse mais preciso usar o telemóvel. Talvez devesse ter ficado na Alemanha, ligado o meu telemóvel e mandado mensagens. Isto se eu ainda fosse portuguesa, mas consigo ainda pensar o mundo sem telemóvel.

quarta-feira

Promete

Li na National Geographic uma coisa fascinante, de que estão vivas hoje mais pessoas do que todas as que morreram em toda a história da humanidade. Por outras palavras, se todos quisessem fazer Hamlet ao mesmo tempo, não o poderiam, pois não haveria suficiente nr. de crânios!

Em Extremely Loud & Incredibly Close de Jonathan Safran Foer


Tradução minha

gents and madams, deêm-me algo digno de admiração

Estive a ver as fotografias da India e reparei que o que mais me impressionou foi a relação dos hindus com os seus templos. Eu situo-me em terreno movediço. Sou agnóstica, mas fui criada católica e assim, entendo melhor o sagrado de uma igreja do que o sagrado de um templo. Mas não vi nada de sagrado nos templos hindus. Nao vi qualquer intento de colocar a religião num nível acima do mundo terreno, de ultrapassar os limites humanos, de ser mais e melhor. O templo hindu é uma extensão da vida terrena. Continua a ser, como o resto, um local sujo, barulhento, caótico, um local com tudo o que é indiano e humano e ordinário, um local onde se fazem piqueniques, se põe a roupa a secar e se faz negócio. No início pensei que seria uma limitação minha, da minha origem cristã. Quantas vezes me veio à ideia Jesus a expulsar os comerciantes do templo? Mas agora não estou tão certa. Não é do meu passado religioso o meu desprezo por uma religião extremamente utilitária. Se uma religião não tem caminho para um ideal, não sei por que ponta lhe pegar...

terça-feira

Israel e Palestina

Um cão ladra e o homem caminha até ao cão preso a uma árvore e dá-lhe um pontapé. O cão gane e o homem pontapeia, o cão guincha e o homem pontapeia, o cão morde e o homem pontapeia, o cão morde e o homem pontapeia e o cão morde e o homem pontapeia e o cão morde e o homem pontapeia e o cão... Quem vê diz: "Maldito cão que nunca mais se deita a morrer."

segunda-feira

Voces ser esquisitos

Vou-vos ser sincera. Eu fico estarrecida quando vou a Portugal com a vossa simpatia. É anormal! É como se houvesse um concurso qualquer e o mais simpático ganhasse a lotaria. Basta estar um minuto a olhar com ar de parvo para uma máquina qualquer e lá está alguém a explicar-te o funcionamento da geringonça. Perguntas pelo nome de uma rua e acompanham-te á rua para terem a certeza que nao te perdes. Pequenas conversas crescem por aqui e ali, sorrisos envergonhados e eu pasmo com essa espécie de pequeno paraíso em que todos gostam uns dos outros. Claro que me vejo obrigada a corresponder e acabo por sentir algo estranho como, sei lá, harmonia no mundo. Depois venho para a Alemanha e apetece-me dar-lhes pontapés, por serem assim, gélidos e tristes. E fico eu triste que eu nao possa parar numa qualquer esquina, por um ar perdido por um minuto, e vir alguém salvar-me. Aqui os salvamentos sao raros, a nao ser que estejas num edificio em chamas. Aqui os salvadores sao profissionais e ganham dinheiro por isso.

A minha primeira descoberta

Já é dia 5?

A minha segunda ideia de 2009

Esteticamente falando os noves sao bonitos, mas pessoalmente acho que têm a mania.

A minha primeira ideia de 2009

Ouvi dizer que uma prova de inteligencia é nao cometer o mesmo erro duas vezes (eu concordo). As passagens de ano demonstram a estupidez generalizada e vergonhosamente recalcitrante. Tenho dito.

A perenidade

Para o Vaticano, pois, a possibilidade de acabar no mundo inteiro com a criminalização da homossexualidade levaria necessariamente à pressão para a aprovação dos casamentos homossexuais no mundo inteiro. E, portanto, a única forma de impedir que esse horror – a universalização do casamento homossexual – suceda é continuar a perseguir os homossexuais no maior número de países possível.

A primeira brecha na minha religiosidade foi quando soube da Inquisiçao. Visto daqui, os sentimentos que me submergiram na altura só poderiam ter aquela intensidade de terramoto porque era muito nova e muito crédula e muito ingénua. Era adolescente, o mundo era feito de preto e branco e eu nao entendia a possibilidade de me associar a uma instituiçao que perpretou aquilo. A minha mae dizia-me que tinha sido há muitos anos, imensos, as coisas tinham mudado. Apesar de a acreditar, eu nao consegui reaver o antes, como se tivesse comido uma espécie de maça.

Contudo, a minha mae está errada.

domingo

Professores

Daqui:

Eric Hanushek, um economista em Staford, estima que os alunos de um mau professor aprendem, em média, num ano escolar, o que valeria metade do programa. Os alunos nas classes de um professor excelente aprendem o valor de um programa e meio. A diferença corresponde ao que seria suposto aprender num ano inteiro. Os efeitos dos professores sobre a aprendizagem dos alunos são enormes quando comparados com os efeitos da escola: a sua criança está melhor numa escola "má" com um professor excelente do que numa escola excelente com um mau professor. A qualidade do professor é também mais importante do que o tamanho das turmas. Seria necessário diminuir o tamanho de uma turma média quase em metade para obter os mesmos efeitos de mudar de um professor com um desempenho médio para um professor no percentil 85. Lembrem-se que um bom professor custa o mesmo que um professor médio, mas cortar o tamanho das turmas para metade implica construir o dobro das salas de aula e contratar o dobro dos professores.

(...)

Thomas J. Kane, um economista na Escola de Educação de Harvard, Douglas Staiger, um economista em Dartmouth e Robert Gordon, analista de políticas sociais no Centro para o Progresso Americano [Center for American Progress] investigaram se ajuda ao desempenho de um professor obter a certificação profissional ou um mestrado. Ambos são processos demorados e caros que quase todos os empregadores esperam que os professores obtenham. Nenhum tem qualquer impacto dentro da sala de aula. Elementos que parecem relacionados com a aptidão de ensinar, como o valor das notas, pós-licenciaturas, certificados, parecem tão úteis em avaliar a qualidade de um professor como avaliar o valor de alguém como futebolista observando-o a pontapear uma bola no ar [no texto faz-se uma comparação com o futebol americano, o que não é episódico. Todo o texto é baseado numa comparação entre as dificuldades de contratar os melhores professores com o contratar os melhores "quarterback".]


Gostei imenso do texto em questão. No universo dos EUA, põe-se em questão o sistema de lá, que baseia a contratação dos professores em virtudes académicas, em vez de no que se passa dentro das salas de aula. O mesmo que em Portugal, que agora introduziu a oportunidade de avaliar os professores. Contudo, para meu espanto, li no jornal que os professores podem escolher se querem ser observados nas classes de aulas (!) e não vão ser consideradas as notas dos alunos (!). Se em termos absolutos é entendível que não se considerem as notas, em termos relativos não se percebe. Tirando o desempenho dentro da sala de aula e os resultados, afinal vai-se avaliar o quê? Pontualidade? O número de fotocópias? A cereja no bolo: os professores vão ser avaliados por colegas da própria escola. Adiante, militante.

sábado

Fezada

Continuando...

Estive este dia a tentar lembrar-me do que descobre a dona morte no seu íntimo no livro do Saramago "Intermitencias da Morte", mas nao consigo. Sei que é interessantíssimo, talvez tivesse podido incluí-la neste poste, mas já concluí que quando estiver brevemente em Portugal há uma amiga que visitarei.

Primeiro, ser racional para mim nao significa ser compreensível à luz das fraquezas humanas. A razao supostamente está um pouco acima da emoçao. Para um agnóstico o medo da morte é um desperdício, para um ateísta é ter medo de nada, para um religioso poderá ter fundamento dependendo do tipo de deus que estao à espera do outro lado. Os velhotes que eu conheço sao católicos e supostamente o lado de lá é melhor que este e deus é um tipo porreiro que gosta de perdoar à direita e à esquerda, desde que o pessoal se arrependa. Ou seja, basta nao fazer asneiras, o que sendo eles velhos e já limitados nao deve ser assim um enorme desafio, e focarem-se no arrependimento e está feito. O que eu acho é que este pessoal tem uma fé muito rota.

As pessoas querem viver porque é algo inato. Mesmo quem quer muito morrer tem que lutar enormemente contra essa força do corpo que nao quer morrer nem por nada. O instinto é algo com muita força.

O mundo natural provavelmente nunca nos mostrará tudo o que é. Haverá limites, mas serao os limites humanos. Eu pessoalmente acho o conhecimento do mundo natural a coisinha mais interessante deste mundo. Contudo, se o que eu teria para saber pode estar limitado, tenho a certeza absoluta que a minha paciencia com a espécie humana (incluo-me a mim) nao é de forma alguma ilimitada. Acho que sem morte, o meu destino seria a loucura.

sexta-feira

Necessidades

A música que vibra pelo quarto é básica, ridícula se presto atenção à letra, inepta até à lágrima, desavergonhada de incompetente, mas de rabiosque a dar a dar, consegue suprir as necessidades de exuberância, num mundo um pouco cinzento. Para lá do sublime, necessito do medíocre.

quinta-feira

A morte e mais além

Acho interessante esta espécie de Emilie Poulain-ismo acerca da espécie humana. Contudo, eu contraponho que as pessoas não criam, as pessoas recriam. Assim, nao há-de haver ninguém, por mais entusiasta da espécie humana, que nao se chateie em algum ponto da imortalidade. Eu que sou realista e pró cínico, quero morrer (concordo com o irmao naquele texto que deu origem ao meu poste que deu origem àquele poste da snowgaze que está a dar origem a esta resposta, que dizia que o medo da morte é irracional). Contudo, não me importava de ressuscitar daqui a uns tempos para ver o que é que afinal aconteceu no longo filme humano: afinal houve a terceira guerra mundial? afinal bangladesh afogou-se? afinal é só paz e amor entre as naçoes? acabou o racismo? os homens dao á luz? serao todos castanhos e iguais? mad max? deus apareceu?

terça-feira

Liçoes de vida

Os meus pais na sua senda de criação deixaram as crias à sua sorte. Lembro-me dos meus amigos a irem pra casa muito aflitos que tinham de estudar para o teste do dia seguinte senão os pais isto e aquilo, e castigo e sermão e semanada cortada. Eu ficava sozinha, sem perceber porque é que os meus pais não me coagiam a estudar. Ali estava eu sem companheiros de brincadeira e sem castigos, sem sermoes, sem semanadas. Mas deixava a coisa pra lá e ia pra casa ver televisão. Um dia, depois de ouvir relatos sobre prémios de passagem de ano, lambretas e assim, resolvi finalmente impor-me. Eu ali a passar de ano todos os anos, sem lhes chatear a cabeça, nunca, nunca, nunca, onde estava o meu prémio de passagem? Ãh? O meu pai virou-se pra mim depois da minha exposição, que achei briiiiiiiilhante, e perguntou-me "Pra quem estás a trabalhar? Não é pra ti?". Não tive resposta e aprendi ali que o meu pai era menos brutinho do que parecia.

segunda-feira

A posteridade e mais além

O Alexandre III da Macedónia morreu com 32 anos e 11 meses, tendo conquistado o mundo conhecido a leste do seu reino com meio-nome de salada de Verão. Eu? Eu nao consigo ver sangue. Portanto vai ser mais Harvey Milk. Aos quarenta terei que me associar a um grupo injustificadamente odiado e colocar-me em posiçao de ser assassinada (rápido) e ficar mártir de algo. Ahhh, fixe, ainda tenho algum tempo.