quinta-feira

Que país?

A única coisa que é possível e certo concluir do caso Freeport é que os investigadores públicos nao sao independentes. Respondam-me: porque é que o caso hibernou de 2005 até hoje?

Uma pessoa é inocente até prova em contrário. Eu nao digo isto porque quero defender o Sócrates. Eu digo isto por um país que nao pode ser governado por suspeitas. Por um país em que nao pode ser possível atirar merda para o ar e ganha quem atirar mais merda. Isto nao pode funcionar assim por amor de nós todos, por amor da justica.

Que sistema é este, em que um inocente nunca poderá provar a sua inocencia e um culpado nunca verá a sua culpabilidade provada?

sexta-feira

A desnecessidade

Eu detesto viajar nos dias anteriores a viajar. Se vou de férias arengo-me sobre a desnecessidade de me colocar dentro de caixas-rolantes. E carpo-me em silencio, pelas horas nas bichas e as imagens a passar pela janela e a seca, a imensa seca e sair do outro lado e nao estar lá a minha casa. Ando uma semana a sofrer a viagem e durante a viagem estou tao preparada para o desastre, que tudo me parece espetacularmente bem, ótimo. Do outro lado provavelmente divirto-me terrivelmente e no dia anterior á volta começo a sofrer a necessidade que a viagem passe muito depressa para retornar a casa. A ansiedade é tanta que o sofrimento aumenta com a diminuiçao da distancia e quando finalmente chego... Nada.

quarta-feira

Os media que parece que merecemos

No Diário de Notícias "Massacre no Liceu Columbine comemora 10 anos". Prémio para a frase mais absurda dos últimos tempos.

No Público, hoje é o dia da Terra, pelo que confirmou-se o que eu suspeitava: o Público mudou-se (deve ser o "outsourcing" em reverso) para os EUA.

A Manuela Moura Guedes nao tem só uma cara com piada, também gosta de dizer piadas. A próxima vez que for à cirurgia plástica deve ser para mudar de nariz: daqueles vermelhos e redondos.

P.S.: Isto foi há uns dez anos, lembro-me que era uma Terça-feira, pois o comentador de serviço no telejornal de um canal privado era o Miguel Sousa Tavares (o meu grande ídolo da juventude). A grande notícia da altura, que foi escalpelizada com grave esmero pela Manuela Moura Guedes e a sua equipe foi o rejunevescimento da cara de uma socialite muito famosa, que agora nao me vem o nome à cabeça, mas há-de vir, que ela foi a primeira socialite de que soube o nome e estou aqui a pensar e só sei de mais uma, aquela que tem como primeiro nome o diminutivo de ancinho e o último é Jardim, pelo que a senhora combina roupas e nomes, uma vilha! O Miguelito começou a torcer-se todo enquanto a notícia passava nas suas diversas facetas e quando a Manela lhe pediu um comentário à desrugaçao da tal socialite ele quase teve um AVC! Foi das melhores cenas que eu alguma vez vi na televisao e imaginem, soube tao bem que me lembro hoje como se tivesse sido ontem. Ele recusou-se a fazer o comentário e disse algo que espremido era "tenha vergonha na cara". A Manela chateou-se e respondeu que eles mostravam o que o povo queria. Isto foi há cerca de dez anos. Agora, dos excertos que vejo dos telejornais nas minhas férias, conseguiu-se descer da retrete para o esgoto. E a Manela continua a nao ter espelhos em casa, nem vergonha na cara.

terça-feira

Planos pra minha reforma

Disse ao meu irmao para juntarmos o nosso dinheiro, comprarmos uma quinta e vivermos lá em feliz isolamento. Para minha surpresa ele concordou imediatamente, mas também começamos imediatamente a discordar nos particulares. Eu entrei disparada na decoraçao, nao fosse eu mulher, a descrever muros de 3 metros, arame farpado e caes assassinos. Ele diz que para o isolamento, basta nao haver estrada alcatroada. Homens e a sua passividade...

Porque nao?

Imagino-me com ternura. Serei uma velha saudável, porque imagino-me a matar tempo, nao a ser torturada pelo tempo. Eu e o tempo seremos inimigos, nao pelas rugas que ele me quer dar, mas por indiferença. Faremos de conta que nos ignoramos e quando eu morrer, lá para o fim da minha reforma, ele há-de sentir-me a falta.

quarta-feira

Os meus cheiros favoritos:

Ao sal do mar,
a terra molhada pela chuva de verao,
a erva cortada de fresco,
a giestas,
a morangos,
a graos de café,
à minha escola primária.

Até o cao!

É verdade, confesso, estive a ver isto: a apresentaçao do novo cao da família ?-Obama aos media americanos (agora torço o nariz, espeto-o para cima e suspiro com compenetrada gravidade, no verdadeiro estilo de superioridade europeia). Mas voltemos ao que interessa: o cao. Se repararem no filme, caso se queiram submeter a tal degradaçao de carater, é que o cao é mesmo portugues! Ele anda por ali a farejar meio maluco, como se nao conhecesse quem lhe pega na trela, de cauda esticada como antena de carro, mas basta o Barack Obama lhe tocar com o dedo mindinho e aquela cauda começa a abanar como uma hélice de aviao. Ele sabe bem a quem lamber as botas. Portugues de cauda a focinho.

terça-feira

Tweet ao fim da tarde

Estou muito chateada: roí uma unha até ao sabugo. Au!

Tweet a meio da tarde

Estou muito chateada: acabei de rasgar as calças.

Grrrrrrr

Eu por vezes acordo mal disposta, como é o caso hoje (depois de quatro dias grátis de lazer é difícil retornar ao mesmo ram-ram), e como sou uma pessoa normal, rabujo contra algo, mas como sou esquisita, arranjo temas de rabujo que eu estou consciente serem esquisitos. Hoje vinha pelo caminho (difícil continuar mal-disposta com o prato que a Primavera nos tem dado por aqui, mas eu sou teimosa) a rabujar contra a igreja católica e o papel desta na supressao da mulher durante os tempos, com a breve excepçao de quando o cristianismo começou, um movimento de esperança para todos os oprimidos e que inicialmente foi capaz de aceitar as mulheres. Felizmente, apesar de eu estar para lá da normalidade, os meus pais, segundo o último telefonema, ainda me amam.

quinta-feira

Ficou como eu gosto



Talvez deva pôr uma história nisto. Pois andava eu a deambular numa zona sem particulares atrativos, num dia ameno em que a Primavera começa a despontar (visualizar rebentos na parte superior), quando tirei uma foto. Por falar em Primavera, ela é muito melhor cá cima.

quarta-feira

A cruz política

Porque é que as pessoas nao se interessam por política? Eu acho que ninguém com sentido de retidao pode-se querer envolver em tal coisa. Sinceramente, quando eu ouço que o Durao Barroso quer ser presidente da Uniao europeia ou o Santana Lopes presidente da Camara de Lisboa e que o resto os apoia, eu só consigo sentir a política como um herpes. Uma coisa que aparece de vez em quando e a gente só queria um dia poder livrar-se disto, mas nao, sabemos que vai ser até ao fim das nossas vidas.

sexta-feira

segunda-feira

Schadenfreude.

Cala-te boca

Nesta última semana fui escrevendo largos postes, mas nao os publiquei.
Porque nao.
Podia ter sido porque sim.
Talvez eu tenha tentado poupar a estima que alguns ainda me tem. Porque num poste eu discutia a justeza da denominaçao Papa, principalmente quando contraposto a Aiatolá. Porque é que se precavem a audiencia para resguardar a tola? Haverá uma correspondencia católica? Será o Papa, um Papao de tolas? Haverá a conspiraçao do o no papa? Quem é realmente o Papa?
{aqui música tenebrosa} Noutro poste eu declarava o meu amor pelas Testemunhas de Jeová...
Noutro poste eu chamava toda a gente abébia e noutro ainda chamava toda a gente que gosta do último filme em que aparece o Clint Eastwood abébias ao quadrado e toda a gente que gostou daquela coisa com o Brad Pitt abébias ao cubo e toda a gente que acha o Slumdog Millionaire um filme espetacular, espetacularmente abébias.
Pelo meio da semana escrevi "A felicidade é um estado momentaneo de estupidez. Sim, ok, estou errada. Pode nao ser momentaneo." Pelo fim da semana escrevia isto á Helena: "Eu penso que há um influxo de temperança entre os ateus e os cristaos: os ateus limitam os ímpetos dogmáticos e os cristaos limitam os ímpetos materialistas. Se nos conseguíssemos entender acho que poderiamos vir a ser felizes juntos." Enfim... Quase parece que encontrei o Obama e o Bambi para uma bica. Acho que demonstrei a necessidade de me auto-censurar.

quarta-feira

Implicaçoes teológicas



Mensagem aos arqueólogos do futuro que estudam este presente que é passado: Eu tinha isto num canto escuro e poeirento da minha pasta de pessoais no meu computador no trabalho. Nao tenho a minima das minimas ideias de quem é.

segunda-feira

Acabar com a discriminaçao discriminando

Na UE há muita conversa sobre apoiar o igualitarismo entre os sexos e combater a discriminaçao baseado na idade, bla, bla, bla, bla....

Quando concorres a algo na UE as tres primeiras perguntas, as TRES primeiras perguntas na tua candidatura dao a tua idade e o teu sexo.

Chegando aqui eu penso que devo estar pedrada e nao estou a ver algo óbvio ou aquilo que me parece óbvio nao o é, o mundo simplesmente nao faz sentido.

Estou confusa, mas se a ideia é acabar com a discriminaçao, nao faz sentido nao fazer as perguntas que potenciam a tua discriminaçao? Quando eu fiz esta pergunta em voz alta, responderam-me que eles precisam de saber o meu sexo para fazer discriminaçao positiva. De novo: quao pedrada estou eu neste momento?

sexta-feira

o egoísmo vale a pena

há a impossibilidade de nao comunicar. de em cada movimento não se deixar transparecer o que vai por baixo da pele. sai e foge-nos como o cheiro. parece que somos nús, desamparados na incapacidade de nada dizer. até que de algum modo sabemos o que os outros pensam de nós. então sabemos que ou nao nos conhecemos ou a linguagem que emanamos é só nossa. se nao nos conhecermos seremos livros escritos em línguas mortas. em nós o egoísmo vale a pena.

terça-feira

No centro do poder alemão

Imaginem-se no planeta Siza Vieira e por entre vistas de curvas estilosas, brancos e sombras de vários tons, aconchegada num canto a que se tem de descer, encontram a cantina dos senhores deputados:



É muito gira, era só isso que eu vinha aqui adicionar.

quinta-feira

perceção

É favor seguir nesta direção para um texto que não obedece qualquer acordo ortográfico.

Notas duma odiosa

Ser portuguesa é muito difícil. Lenta e pausadamente anda-se a pastar a vida, sem grandes preocupações para lá de manter a atenção aos carros aquando da aventura do ar livre citadino, no esquecimento diário de pentear o cabelo (imaginando alegremente o calmo desespero da mãe que é minha), quando de esquinas súbitas dedos horizontais e sorrisos sabidos se nos apontam e algo como uma espécie de recorde de vergonha é-nos atirado à cara. O que é que vocês andaram a fazer?*

Ofereci o livro "Jangada de Pedra" a um colega, porque ele achou piada ao conceito. Tenho a impressão que pus demasiado enfâse (talvez tenha puxado a gravata à verdade) ao desalento dos espanhóis e dos portugueses quando se viram no mesmo barco. Vejo desapontamento no horizonte. Contudo, demonstrando que a generosidade é má política, ele falou de me dar um livro chamado (tapem os ouvidos) "Cona ácida". Parece que é feminista.

Este sábado vou a Berlim. Dá chuva. Nos últimos dias, no reino alemão, um edifício aterrou e um tiroteio espalhou-se. Vou ter que sair de casa. Está lá uma exposição sobre a vida e o trabalho de Manoel de Oliveira. Os prenúncios adensam-se.

* É claro que isto pode ser uma vingança coletiva à minha pessoa e não ter nada a ver convosco, já que a minha máxima capacidade para palear vai no sentido "Então agora proibem os autocarros ateus? O Berlusconi, digitalizar (literalmente) os ciganos, o Vaticano no meio. Não achas que a Itália se está a tornar um país fascista?" "O que é que anda a passar com os filandeses? É sempre o mosca morta com o telemóvel que se passa dos carretos." "Então pá? Que se passa lá na Grécia? Acabou o queijo de cabra?".

terça-feira

A pasmaceira diária das notícias

Achei esquisito a notícia da besteira excomunatória do bispo brasileiro só chegar agora a Portugal (ontem o José Bandeira tinha o cartune sobre o assunto. O cartune antes da notícia? Será que veio só no papel?). Na net andei a esfurancar o DN e pelo menos neste parece que hoje foi a primeira vez que isto foi relatado lá (fiz umas pesquisas no Público e nao encontrei nada, mas estou habituada a nao encontrar nada nas pesquisas no Público). Isto num país tao católico tao católico que parece só ser católico e com laços supostamente apertadinhos ao Brasil. Eu normalmente leio jornais alemaes e britanicos, pessoal menos católico e que tem a mania de querer falar espanhol comigo (os alemaes, os ingleses nem ingles sabem) e que tinham esta notícia escarrapachada em local visível há uma semana atrás. Portanto, as notícias no DN nético chegam com a mesma rapidez de há cem anos atrás.

Enfatizando

Argumentos insuficientes para o arcebispo de Olinda e Recife, José Cardoso Sobrinho, que resolveu excomungar os médicos e a mãe, que autorizou o aborto.

O pai da menina, evangélico, tinha-se mostrado contra. O padrasto, que se encontra detido e arrisca agora uma pena de 15 anos de prisão, não está abrangido: "Ele cometeu um crime enorme, mas não está incluído na excomunhão. Foi um pecado gravíssimo, mas, mais grave do que isso, sabe o que é? O aborto, eliminar uma vida inocente", enfatizou o arcebispo, que comparou o procedimento ao Holocausto.


Eu a enfatizar: Mas mais grave do que isso, sabe o que é? Violar uma criança, eliminar a inocencia de um inocente.

segunda-feira

O mundo exaspera-me

Hoje no escritório perguntaram-me pelo dia da mulher. A minha resposta foi "Hã?". Mas a certa altura achei que sim, que é um dia importante de sublinhar, pelas mulheres que sofrem injustiças terriveis pelo mundo por serem mulheres. Nisto contam-me da iraniana a quem um homem, por ter sido relegado por ela para casamento, lhe deitou ácido à cara. O caso foi a tribunal e foi julgado que ela, como tendo a importancia de metade de um homem, tinha o direito de deitar ácido num olho do homem. Ela recorreu e, grande vitória, foi julgado que afinal pode cegar o homem em ambos os olhos. Isto é considerado uma vitória para o lado da igualdade dos sexos. Eu fiquei estarrecida com toda a história e só digo uma coisinha: pessoas com mentalidade de pastores de camelos de há 4000 anos atrás, o máximo de tecnologia que deviam ser admitidos de possuir é calhaus e daqueles pequeninos.

P.S.: A Helena escreveu hoje do caso-exaspero no Brasil, que na semana passada já me teria promovido cabelos brancos, se a minha herança genética de XX nao fosse tao espetacular.

quinta-feira

A nossa sorte

Uma colega foi ver o filme "O Leitor" e disse-me que se tinha zangado imenso com ele. Porque é que ele fez o que fez durante duas décadas e tem o trabalho de arranjar trabalho e casa a ela, mas nao consegue um carinho? Eu diria que o que ele nao conseguiu foi o perdao. Talvez ele tenha conseguido um perdao, mas talvez nem esse, porque senao o que foi aquilo em Nova Iorque? Que bençao era aquela a que ele procurava? Alguém que conseguisse perdoar ou um apoio ao seu nao perdao?

Para mim, o filme está bem construído, no sentido de que nao me senti tentada a julgar. Observei o que cada um deles conseguiu alcançar e senti-me horrorizada pela cegueira dela e triste pela incapacidade dele de nao se libertar. Num mundo melhor tudo seria como nós nos imaginariamos a atuar, nós conseguiriamos ter a incapacidade dela, mas ser honestos e até sábios e nós conseguiriamos na perfeiçao fazer a escolha entre amar e perdoar ou nao perdoar e nao amar (esse amor que se fixou naquela decisao, que nem será amor, o que é um amor fixado?). E no entanto, no entanto, quantos erros pequenos que fizemos esquecemos, qual a nossa sorte de nao termos enfrentado tragédias a sério, em que o esquecimento nao é possível? A nossa sorte de nao termos encontrado as encruzilhadas que nos conduzem a lugares de que nao é possível retornar?

domingo

Nota muito positiva {conclui-se que nao é bem assim}

Porque eu nao quero dar uma negativa sem uma positiva, porque acho que os alemaes o merecem, quero aqui deixar a positiva. Na generalidade, os alemaes gostam das situaçoes claras, se lhes emprestamos dinheiro fica muito claro quando pagam de volta e fazem-no com um brio que espanta, definem claramente direitos e deveres, sao diretos e frontais e aceitam que o sejamos de volta. Nunca me aconteceu na Alemanha, o que me acontece em Portugal, que é eu fazer uma critica em trabalho e as pessoas ficarem pessoalmente ofendidas. Aquele rancor que cresce, mas que nao admitem, esta coisa de portugues que a mim me poe doente: o cortar na casaca e a critica mastigada. Isto, graças a uma verdade que eu admiro sem reservas, isto nunca me aconteceu na Alemanha.

P.S.:"Blogger Rita Maria disse...

Eu gosto da Alemanha e gosto até muito dos alemaes, mas sim, as pessoas aqui chateiam-se com críticas e vao fazer críticas ao teu trabalho directamente à gerência, sem pensar sequer que tepodiam apontar primeiro os erros a ti....nao sao nem directas, nem solidárias e eu sou boa pessoa, juro.

O que vale é que a gerência gosta de mim...

6/Mar/2009 10:51:00

Blogger abrunho disse...

Fiz uma sondagem entre os meus colegas alemaes e ficou concluido que eu é que nao percebo alemao. :)

9/Mar/2009 22:53:00"

Eu tentei ser positiva, eu tentei...

O direito da escolha

Na Alemanha, quando as crianças tem 10-11 anos, sao escolhidas em termos de potencial, tu tens cabeça para estudar, tu mais pra pedreiro, tu rato de repartiçao e ali sao dirigidas para os futuros que lhes foram decididos almejar. Notem bem, aos 10-11 anos. Eu nessa idade nao tinha a menor ideia de um futuro, vivia na alegria infantil da brincadeira, nao me passava pela ideia ser uma estudante boa, os meus pais nao me pressionavam e se alguém me tivesse dito que eu era boa, no máximo, para cozinheira, eu tinha acreditado. Na Alemanha, se os pais nao estao lá para proteger as suas crianças do Estado, estas estao basicamente lixadas.

Assim, na Alemanha, o Estado processa eficientemente engenharia social. E quando eu vocifero contra isto, os alemaes ficam surpreendidos que eu ache mal. Eu dou-lhes o meu exemplo, o que seria eu na Alemanha com as minhas raizes? E eles respondem que seria cozinheira, mas acrescentam que eu seria feliz. Talvez, talvez eu fosse feliz, quem sabe, como podem eles saber dessa eficiente definiçao aos 11 anos de idade? Mas ainda que fosse verdade, essa felicidade certa prescrita por outros aos meus onze anos de idade, eu sinceramente prefiro um mundo em que eu tenha a possibilidade de escolher a minha própria (in)felicidade. Para mim este é um direito básico de qualquer ser-humano.

P.S.: Eu elimino o meu anterior post-scriptum porque é capaz de ser demasiadamente mauzinho. A Helena acha que isto é uma forma de organização civil. Eu desconfio de uma organização civil que passa pelo Estado.

quinta-feira

O leitor, the reader, der Vorleser

Vi um dos filmes mais tristes da minha vida. Sem tréguas, há filmes tristes, mas este era uma continuidade e se nao estivesse plantada no meio do cinema tinha-me levantado e dito, nao consigo, tanta tristeza eu nao consigo. Mas fiquei e sobrevivi.

Agora que o vi, surpreende-me que das recensoes que li antes do filme ninguem viu o mesmo filme que eu. Li mais umas depois do filme e parece que há um filme que só eu vi, só meu, só eu senti o que senti, só eu. Um filme muito triste só meu.

segunda-feira

O fenómeno do anulamento de uma pessoa

Uma amiga de visita. Está grávida de uma menina. No Natal não lhe deram nada para ela, só coisas cor-de-rosa.

quinta-feira

Sugestão: meter a estupidez no armário

Estou entediada com a discussão do casamento dos homossexuais. Eu queria estar confortavelmente entediada, mas não é possível. Os argumentos do pessoal contra é de tal maneira ofensivo, desrespeitoso, daquele desrespeitoso que faz úlceras no estomago, que não consigo em boa consciência virar a página e dizer "chiça, essas flores só se queixam."

Seus energúmenos encapuçados de pessoas de boas famílias: ISTO NEM DEVIA SER DISCUTIDO, ESTA DISCUSSÃO PÁRA NUM ESTADO COM DIREITOS IGUAIS PARA TODOS, E O CASAMENTO CIVIL DÁ DIREITOS IMPORTANTES QUE É OPÇÃO DE QUALQUER UM QUERER OU NÃO, SEM TER QUE SE JUSTIFICAR (repito CIVIL, no mundo das saias pretas eu não me meto, como gostaria que esse mundo deixasse O MEU MUNDO em paz). PÁREM DE INVENTAR O QUE FOI O CASAMENTO (leiam livros, suas ignorâncias) E PÁREM DE QUERER PARAR O MUNDO NUM LOCAL QUALQUER DA IDADE MÉDIA (que tal O FUTURO?), PÁREM DE MISTURAR E CONFUNDIR (e.g. e isto já foi dito até ao vómito, a adopção é independente do casamento! já viram como funciona a adopção? já viram que um homossexual já pode adoptar? duuuuhhh) PÁREM DE CONDESCENDÊNCIAS (que é basicamente a capacidade de ao mesmo tempo cuspir e beijar (n)uma pessoa, o que eu acho NOJENTO) E PÁREM DE DIZER QUE HÁ PRIORIDADES COMO A CRISE! SÃO VOCÊS QUE ARRASTAM ISTO E SE PARAREM DE ESPALHAR TUDO O QUE VOS PASSA PELA CABEÇA NO QUE VOS PARECE ARGUMENTAÇÃO, TALVEZ ISTO JÁ PUDESSE ESTAR RESOLVIDO. Eu estou tensa e a culpa não é d@s florzinhas!

p.s.: ligação a texto exemplo do estilo anti-flor.

quarta-feira

Lições do museu de arte antiga

Estive no museu de arte antiga de Lisboa há uns dias e agora em insónia estou a imaginar a cena em que colocaram as tabuletazinhas junto aos pratos a dizer "pratos" e quando digo pratos digo outros inúmeros objetos. O único possível intuito que contém alguma inteligência é que os museus portugueses são na verdade locais para os estrangeiros aprenderem português.

Tenho a certeza que não houve um único vizinho do Sebastião que tenha dito aos jornalistas que ele parecia tão calmo e nunca se pensaria que ele pudesse fazer aquilo. Ele foi o caso impar do obviamente alucinado. No museu decidiram dar-lhe mais interessantes companhias: o mancebo giro de que ninguém sabe o nome e que lá deve ter morrido por causa do alucinado e o incrível retrato da freira com buço. Eu digo incrível porque pertence aos poucos retratos em que me fico a imaginar quem seria a pessoa. Não me apeteceu conhecer a mona lisa como queria saber daquela mulher. Para dizer a verdade, se visse a lisa na rua, eu resmungaria para a minha companhia, "olha prá pindérica, armada em boa."

O Nuno Gonçalves não gostava de ler, mas tinha uma panca esquisita por botões, cintos e malhas. Os livros são umas coisas baças em comparação. Obviamente, o Nuno adorava acessórios (piscar de olho entendido). Já ouvi falar por experiência própria de meias desemparelhadas, mas que ideia foi a da senhora de sair de casa com mangas diferentes?

Finalmente, daria toda a minha fortuna para ter um biombo niamba ou como se chama. Sabem aqueles em que parece que os portugueses e os seus escravos foram passear para o Carnaval enquanto os japoneses espreitam? E os portugueses são pintados narigudos porque foi uma proeminência que espantou os asiáticos e eu andei a palminhar cada figurinha para ver se algum estava a escarrar para o chão ou a mijar nalgum canto. Os japoneses foram incrivelmente simpáticos para os portugueses. Ou seria demais nojento para um biombo?

segunda-feira

Da lua nao há diferença

Amanha vou a Lisboa, que é aquela cidade estrangeira de que me perguntam pertença quando sabem que sou portuguesa. É um pouco cansativo. Mas o pessoal nao desiste, tentando saber com exatidao de onde venho e eu digo que sou do Norte, mas que em Portugal, o Norte é muito perto do Sul.

sexta-feira

Será que estes jornalistas algum dia param a pensar: "que faço no mundo?"

Uma pessoa abre o jornal e extasia no quanto se pode fazer com nada.

quinta-feira

Intermezzo

As pessoas perguntam: então onde andas? Eu? Eu ando a tentar ser feliz como os lobos. Se não percebem, não conhecem lobos. E não, não vou ensinar como são os lobos. Nem vale a pena pedir. Não.

sexta-feira

Oh D. Policarpo

Eu pessoalmente nao dou o ponto de um chavelho para o que um cardeal diz, mas como o gangue blogosférico em que ando fala destas coisas acabei por saber. Do que apanhei no meu desinteresse, sou capaz de estar ali com o Joao. Isto tem piada, porque estes assuntos afastam e nao aproximam, mas eu e o Joao discordamos de tudo, excepto nos assuntos fraturantes. Quanto ao fenómeno de alguém dizer algo e as pessoas resolverem ver no que digo o que elas pensam, pois D. Policarpo, compreendo-o completamente. Veja com olhos de ver o que me aconteceu nesta caixa de comentários. Escrevi uma frase, uma frase que á primeira vista daria para pouco e só esta frase mereceu-me liçoes (sabia que um muçulmano podia ser louro, ter olhos azuis e ser mais europeu que eu? Pois pode e isso até eu já tive visualizaçao comprovatória, ah, pois, imagine que eu já vi muçulmanos e falei com eles. Nao me custa acreditar que um muçulmano possa ser mais europeu que eu, mas a minha frase era sobre aqueles (muçulmanos ou nao) que tem laços essenciais para eles num país em que aquelas leis, que se pensarmos bem e comparativamente nos fazem muito bem á vida, nao existem. Mas a minha frase nao interessa, interessa todo um universo construído sobre a minha frase que nao é dominio meu. Já agora, sobre muçulmano ser só sobre religiao, aconselharia a ensinarem isso a pessoal que se reve como muçulmano para lá da religiao. Eles se calhar iam gostar de saber que estao enganados. O que eu gosto é que me preguem liçoes sobre generalizaçoes e nao generalizar e na liçao dizem-me que a generalizaçao de muçulmano é ser só sobre religiao, o que nao se enquadra com a realidade de como vários muçulmanos se sentem. Deve ser a pincelada humorística.). Pergunto-lhe, voce é cardeal, mas eu, que fiz eu a Deus para merecer isto?

quinta-feira

my grand plan

Esclarecimento

Em Portugal, quem emigra é porque foi obrigado. Ninguém deixaria Portugal se Portugal nao fosse Portugal. Há aqui um amor-ódio, a ideia de que nao poderiamos partir (amor), mas temos de partir escorraçados por um lugar que nao nos merece (ódio). A minha emigraçao nao se enquadra nisto. O motivo porque parti compreende-se facilmente. Sentem-se á frente de um mapa-mundo. Observem. O que veem? Terra que nao é Portugal para onde se pode ir. Foi só isto e nada mais. Nenhum grande plano, nenhum desejo de conquista, nenhum amor ou ódio, somente o movimento de um corpo para fora de umas linhas traçadas. A minha vida nao melhorou, nao vim ganhar mais dinheiro, nao fiz nada mais importante. Mas aprendi o quao o vosso amor-ódio é desarrazoado.

quarta-feira

Apenas

Lembro-me de um artigo qualquer num jornal israelita em que se falava num inquérito na Europa sobre, imagino que chamassem o confronto israelito-palestiniano, mas sejamos francos, a ocupação israelita, e a maior parte do pessoal dizia-se farto. Eu que não respondi ao inquérito, declaro-me pertencente. Construam um muro a toda a volta, coloquem uma tampa e espreitemos daqui a dez anos a verificar se há viventes. E no entanto, numa parte de mim que estremece à vista da injustiça, tremo cada vez que leio os palestinianos defraudados da sua humanidade e sempre, para todo o sempre transformados em símbolos. São símbolos de tudo por todos nunca em benefício próprio. Serão sempre apenas símbolos, meios para chegar a algum lado e esse lado pode ser extremamente vazio, como para a Helena Matos escrever a sua crónica semanal, enquanto eles morrem, sobre, grande furo, os "insurgentes de sofá"! Portanto além dos media não reverem fontes também ficamos a saber que para cronistas têm os espirituosos do teclado. Só que a Helena Matos quer ser MEC com a tragédia.

Aos palestinianos seja Deus a dar redenção por cada vez que foram usados e terão o paraíso só pra eles. Que seja Deus, porque aqui em baixo discute-se que o desespero não é desculpa. Viver numa prisão não é desculpa. Viver com o arbítrio dos prepotentes não vale. Viver os dias a paredes meias com a injustiça não é argumento. O mundo só promete a benção em caso de paciência de santo, senão mesmo divina. Votar mal? Sem opções na política? Isso é para nós que discutimos a falta de opções na escolha. Para os palestinianos não há desculpas para defraudarem a democracia ou as nossas expectativas na democracia deles. Sejam apenas o que nos der jeito que sejam. Haverá melhor palavra para os palestinianos? Apenas. Só não são símbolos para o governo israelita que tem que ser pragmático na resolução do problema da sua existência. Para esses, os palestinianos ainda não são o que deveriam ser: apenas pó.

A única coisa que todos, mas todos, pedem aos palestinianos é que sejam mártires. Deste lado da cristandade quer-se o martírio de jesus, de gandi, de tianamen. Haverá algo mais admirável que o martírio dos outros? Voltem a face, deitem-se debaixo dos tanques, encarem as pedradas e os escarros, deixem-se morrer. Infelizmente para o nosso lado, há o outro lado, que não se importa de os ver mortos, mas um martírio mais abrangente, que leve daqui vítimas e algozes numa cajadada só. A única opção para um palestiniano é a morte. Há consenso universal: um bom palestiniano está morto.

Entre o consenso e a impotencia, pergunto-me, porque entre, vai em quantos, 900 mortos, temos de passar pelas crónicas míseras? Na aldeia em que cresci, pelo menos no dia dos enterros, as comadres escondem-se. Nao seria possível o último respeito? Nem na morte? Estou farta, farta, farta até à pontinha da minha capacidade humana para os jornais e os seus cronistas. E se me vierem dizer que precisamos dos cronistas para sabermos que o Hamas se aproveita da situaçao, isso é como dizer que precisamos das comadres para resolver crimes.

sexta-feira

????

Apenas

Andava no Público a procurar o MEC e vejo este chamariz de crónica da Helena Matos:

"No dia em que escrevo, quarta-feira, confirma-se que mais uma vez uma cadeia de televisão europeia, a France 2, transmitiu imagens falsas numa reportagem que dedicou ao ataque israelita a Gaza. Crianças mortas e uma casa destruída ilustravam os efeitos dramáticos entre os civis palestinianos dos bombardeamentos efectuados pelo exército de Israel.
Poucas horas após a emissão da reportagem concluía-se que destas imagens apenas os cadáveres e o prédio destruído não foram ficcionados."

Fui logo ao Blasfémias para ver o que tinha sido ficcionado (não achei). Crianças feridas, peluches semeados pelos escombros, mulheres pagas para carpir? Afinal, o resto são apenas crianças mortas. Apenas. Apenas? Desculpe, APENAS?

quinta-feira

Voces ser esquisitos

Os portugueses adoram os seus telemóveis. Um dia hao de nascer já com telemovel incorporado e este com muitas capacidades. Podem-se ver filmes nos telemóveis. Nao consigo imaginar que alguém queira ver um filme num telemóvel, mas presumo que sim, coisas mais estranhas acontecem. Quando o bébé nascer, em vez de perguntarmos se é menina ou menino, pergunta-se pelo telemóvel, em vez de perguntarmos pela saúde, pergunta-se se tem rede. O meu telemóvel velhinho, que nem pode tirar fotos, que é uma daquelas coisas que já nem se pergunta se pode, nao me preparou para o linguajar técnico que os portugueses tem para descrever os seus telemóveis com ar de mini-televisao. No autocarro soube de coisas muito privadas em conversas de horas. Poderia ter posto os tampoes nos ouvidos, mas estava perplexa com o desnudamento e com a minha aparente invisibilidade e pouca importancia. No metro, um rapaz fazia chamadas umas sobre as outras, caminhando pela carruagem, saltitando pelos bancos, nos intervalos das chamadas parecia perdido. A minha sobrinha, que dormiu no meu quarto, deitava um alo para o escuro do meu sono enquanto, presumo, mandava mensagens. Havia telemóveis pelos móveis, entre os pratos á hora das refeiçoes, a mascararem-se de comandos. Na véspera de Natal, fiquei a falar prá parede enquanto quase todos os meus familiares que sao todos portugueses se afadigavam a responder ás boas festas. Ei, pessoal, vim da Alemanha para falar convosco. Nao, desculpa, temos de responder, nao, eram obrigados a responder, disseram-me, senao profundas rupturas sociais gerar-se-iam e imagino eu, no dia seguinte um vazio instalar-se-ia e ninguem jamais comunicaria. O desastre seria que talvez nao fosse mais preciso usar o telemóvel. Talvez devesse ter ficado na Alemanha, ligado o meu telemóvel e mandado mensagens. Isto se eu ainda fosse portuguesa, mas consigo ainda pensar o mundo sem telemóvel.

quarta-feira

Promete

Li na National Geographic uma coisa fascinante, de que estão vivas hoje mais pessoas do que todas as que morreram em toda a história da humanidade. Por outras palavras, se todos quisessem fazer Hamlet ao mesmo tempo, não o poderiam, pois não haveria suficiente nr. de crânios!

Em Extremely Loud & Incredibly Close de Jonathan Safran Foer


Tradução minha

gents and madams, deêm-me algo digno de admiração

Estive a ver as fotografias da India e reparei que o que mais me impressionou foi a relação dos hindus com os seus templos. Eu situo-me em terreno movediço. Sou agnóstica, mas fui criada católica e assim, entendo melhor o sagrado de uma igreja do que o sagrado de um templo. Mas não vi nada de sagrado nos templos hindus. Nao vi qualquer intento de colocar a religião num nível acima do mundo terreno, de ultrapassar os limites humanos, de ser mais e melhor. O templo hindu é uma extensão da vida terrena. Continua a ser, como o resto, um local sujo, barulhento, caótico, um local com tudo o que é indiano e humano e ordinário, um local onde se fazem piqueniques, se põe a roupa a secar e se faz negócio. No início pensei que seria uma limitação minha, da minha origem cristã. Quantas vezes me veio à ideia Jesus a expulsar os comerciantes do templo? Mas agora não estou tão certa. Não é do meu passado religioso o meu desprezo por uma religião extremamente utilitária. Se uma religião não tem caminho para um ideal, não sei por que ponta lhe pegar...

terça-feira

Israel e Palestina

Um cão ladra e o homem caminha até ao cão preso a uma árvore e dá-lhe um pontapé. O cão gane e o homem pontapeia, o cão guincha e o homem pontapeia, o cão morde e o homem pontapeia, o cão morde e o homem pontapeia e o cão morde e o homem pontapeia e o cão morde e o homem pontapeia e o cão... Quem vê diz: "Maldito cão que nunca mais se deita a morrer."

segunda-feira

Voces ser esquisitos

Vou-vos ser sincera. Eu fico estarrecida quando vou a Portugal com a vossa simpatia. É anormal! É como se houvesse um concurso qualquer e o mais simpático ganhasse a lotaria. Basta estar um minuto a olhar com ar de parvo para uma máquina qualquer e lá está alguém a explicar-te o funcionamento da geringonça. Perguntas pelo nome de uma rua e acompanham-te á rua para terem a certeza que nao te perdes. Pequenas conversas crescem por aqui e ali, sorrisos envergonhados e eu pasmo com essa espécie de pequeno paraíso em que todos gostam uns dos outros. Claro que me vejo obrigada a corresponder e acabo por sentir algo estranho como, sei lá, harmonia no mundo. Depois venho para a Alemanha e apetece-me dar-lhes pontapés, por serem assim, gélidos e tristes. E fico eu triste que eu nao possa parar numa qualquer esquina, por um ar perdido por um minuto, e vir alguém salvar-me. Aqui os salvamentos sao raros, a nao ser que estejas num edificio em chamas. Aqui os salvadores sao profissionais e ganham dinheiro por isso.

A minha primeira descoberta

Já é dia 5?

A minha segunda ideia de 2009

Esteticamente falando os noves sao bonitos, mas pessoalmente acho que têm a mania.

A minha primeira ideia de 2009

Ouvi dizer que uma prova de inteligencia é nao cometer o mesmo erro duas vezes (eu concordo). As passagens de ano demonstram a estupidez generalizada e vergonhosamente recalcitrante. Tenho dito.

A perenidade

Para o Vaticano, pois, a possibilidade de acabar no mundo inteiro com a criminalização da homossexualidade levaria necessariamente à pressão para a aprovação dos casamentos homossexuais no mundo inteiro. E, portanto, a única forma de impedir que esse horror – a universalização do casamento homossexual – suceda é continuar a perseguir os homossexuais no maior número de países possível.

A primeira brecha na minha religiosidade foi quando soube da Inquisiçao. Visto daqui, os sentimentos que me submergiram na altura só poderiam ter aquela intensidade de terramoto porque era muito nova e muito crédula e muito ingénua. Era adolescente, o mundo era feito de preto e branco e eu nao entendia a possibilidade de me associar a uma instituiçao que perpretou aquilo. A minha mae dizia-me que tinha sido há muitos anos, imensos, as coisas tinham mudado. Apesar de a acreditar, eu nao consegui reaver o antes, como se tivesse comido uma espécie de maça.

Contudo, a minha mae está errada.

domingo

Professores

Daqui:

Eric Hanushek, um economista em Staford, estima que os alunos de um mau professor aprendem, em média, num ano escolar, o que valeria metade do programa. Os alunos nas classes de um professor excelente aprendem o valor de um programa e meio. A diferença corresponde ao que seria suposto aprender num ano inteiro. Os efeitos dos professores sobre a aprendizagem dos alunos são enormes quando comparados com os efeitos da escola: a sua criança está melhor numa escola "má" com um professor excelente do que numa escola excelente com um mau professor. A qualidade do professor é também mais importante do que o tamanho das turmas. Seria necessário diminuir o tamanho de uma turma média quase em metade para obter os mesmos efeitos de mudar de um professor com um desempenho médio para um professor no percentil 85. Lembrem-se que um bom professor custa o mesmo que um professor médio, mas cortar o tamanho das turmas para metade implica construir o dobro das salas de aula e contratar o dobro dos professores.

(...)

Thomas J. Kane, um economista na Escola de Educação de Harvard, Douglas Staiger, um economista em Dartmouth e Robert Gordon, analista de políticas sociais no Centro para o Progresso Americano [Center for American Progress] investigaram se ajuda ao desempenho de um professor obter a certificação profissional ou um mestrado. Ambos são processos demorados e caros que quase todos os empregadores esperam que os professores obtenham. Nenhum tem qualquer impacto dentro da sala de aula. Elementos que parecem relacionados com a aptidão de ensinar, como o valor das notas, pós-licenciaturas, certificados, parecem tão úteis em avaliar a qualidade de um professor como avaliar o valor de alguém como futebolista observando-o a pontapear uma bola no ar [no texto faz-se uma comparação com o futebol americano, o que não é episódico. Todo o texto é baseado numa comparação entre as dificuldades de contratar os melhores professores com o contratar os melhores "quarterback".]


Gostei imenso do texto em questão. No universo dos EUA, põe-se em questão o sistema de lá, que baseia a contratação dos professores em virtudes académicas, em vez de no que se passa dentro das salas de aula. O mesmo que em Portugal, que agora introduziu a oportunidade de avaliar os professores. Contudo, para meu espanto, li no jornal que os professores podem escolher se querem ser observados nas classes de aulas (!) e não vão ser consideradas as notas dos alunos (!). Se em termos absolutos é entendível que não se considerem as notas, em termos relativos não se percebe. Tirando o desempenho dentro da sala de aula e os resultados, afinal vai-se avaliar o quê? Pontualidade? O número de fotocópias? A cereja no bolo: os professores vão ser avaliados por colegas da própria escola. Adiante, militante.

sábado

Fezada

Continuando...

Estive este dia a tentar lembrar-me do que descobre a dona morte no seu íntimo no livro do Saramago "Intermitencias da Morte", mas nao consigo. Sei que é interessantíssimo, talvez tivesse podido incluí-la neste poste, mas já concluí que quando estiver brevemente em Portugal há uma amiga que visitarei.

Primeiro, ser racional para mim nao significa ser compreensível à luz das fraquezas humanas. A razao supostamente está um pouco acima da emoçao. Para um agnóstico o medo da morte é um desperdício, para um ateísta é ter medo de nada, para um religioso poderá ter fundamento dependendo do tipo de deus que estao à espera do outro lado. Os velhotes que eu conheço sao católicos e supostamente o lado de lá é melhor que este e deus é um tipo porreiro que gosta de perdoar à direita e à esquerda, desde que o pessoal se arrependa. Ou seja, basta nao fazer asneiras, o que sendo eles velhos e já limitados nao deve ser assim um enorme desafio, e focarem-se no arrependimento e está feito. O que eu acho é que este pessoal tem uma fé muito rota.

As pessoas querem viver porque é algo inato. Mesmo quem quer muito morrer tem que lutar enormemente contra essa força do corpo que nao quer morrer nem por nada. O instinto é algo com muita força.

O mundo natural provavelmente nunca nos mostrará tudo o que é. Haverá limites, mas serao os limites humanos. Eu pessoalmente acho o conhecimento do mundo natural a coisinha mais interessante deste mundo. Contudo, se o que eu teria para saber pode estar limitado, tenho a certeza absoluta que a minha paciencia com a espécie humana (incluo-me a mim) nao é de forma alguma ilimitada. Acho que sem morte, o meu destino seria a loucura.

sexta-feira

Necessidades

A música que vibra pelo quarto é básica, ridícula se presto atenção à letra, inepta até à lágrima, desavergonhada de incompetente, mas de rabiosque a dar a dar, consegue suprir as necessidades de exuberância, num mundo um pouco cinzento. Para lá do sublime, necessito do medíocre.

quinta-feira

A morte e mais além

Acho interessante esta espécie de Emilie Poulain-ismo acerca da espécie humana. Contudo, eu contraponho que as pessoas não criam, as pessoas recriam. Assim, nao há-de haver ninguém, por mais entusiasta da espécie humana, que nao se chateie em algum ponto da imortalidade. Eu que sou realista e pró cínico, quero morrer (concordo com o irmao naquele texto que deu origem ao meu poste que deu origem àquele poste da snowgaze que está a dar origem a esta resposta, que dizia que o medo da morte é irracional). Contudo, não me importava de ressuscitar daqui a uns tempos para ver o que é que afinal aconteceu no longo filme humano: afinal houve a terceira guerra mundial? afinal bangladesh afogou-se? afinal é só paz e amor entre as naçoes? acabou o racismo? os homens dao á luz? serao todos castanhos e iguais? mad max? deus apareceu?

terça-feira

Liçoes de vida

Os meus pais na sua senda de criação deixaram as crias à sua sorte. Lembro-me dos meus amigos a irem pra casa muito aflitos que tinham de estudar para o teste do dia seguinte senão os pais isto e aquilo, e castigo e sermão e semanada cortada. Eu ficava sozinha, sem perceber porque é que os meus pais não me coagiam a estudar. Ali estava eu sem companheiros de brincadeira e sem castigos, sem sermoes, sem semanadas. Mas deixava a coisa pra lá e ia pra casa ver televisão. Um dia, depois de ouvir relatos sobre prémios de passagem de ano, lambretas e assim, resolvi finalmente impor-me. Eu ali a passar de ano todos os anos, sem lhes chatear a cabeça, nunca, nunca, nunca, onde estava o meu prémio de passagem? Ãh? O meu pai virou-se pra mim depois da minha exposição, que achei briiiiiiiilhante, e perguntou-me "Pra quem estás a trabalhar? Não é pra ti?". Não tive resposta e aprendi ali que o meu pai era menos brutinho do que parecia.

segunda-feira

A posteridade e mais além

O Alexandre III da Macedónia morreu com 32 anos e 11 meses, tendo conquistado o mundo conhecido a leste do seu reino com meio-nome de salada de Verão. Eu? Eu nao consigo ver sangue. Portanto vai ser mais Harvey Milk. Aos quarenta terei que me associar a um grupo injustificadamente odiado e colocar-me em posiçao de ser assassinada (rápido) e ficar mártir de algo. Ahhh, fixe, ainda tenho algum tempo.

sábado

Boa frase

"Imagine life without death," Jules Renard wrote. "Every day you would want to kill yourself."

Imagine a vida sem morte. Todos os dias, cada dia, iria querer-se matar.

ou

Imagine a vida sem morte. Todos os dias o desejo da morte.

Imagine a vida sem morte. A vida seria como aqueles sítios que nunca visitamos porque estão perto e um dia quando houver tempo passamos lá.

sexta-feira

Inoperancia

Nao, nao vao haver mais adiamentos, tenho, que tenho, dizem-me, de encontrar interesses visiveis, tangiveis, tocáveis, tenho de sair deste mundo abstrato em que vivo. Portantos, assim encostada á parede, visitei o meu quarto e entre todas as coisas tangíveis que nao acabei, deitei-me a sonhar. Isto foi há uns meses.

quarta-feira

Do vidroPara lá

Há uma imagem que recorrentemente me vem á cabeça que é o ato de eu colocar a mao sobre uma janela. Penso que é a minha maneira de assinalar aquele sentimento inultrapassável de estar desligada do resto do mundo. De haver uma barreira que sinto amiga e inimiga conforme os dias, mas a maior parte dos dias é uma alegoria para o meu sentir da minha vida em relaçao á vida dos outros e vice-versa. Quando na minha família tiram conclusoes sobre mim, sempre senti uma mistura de desapontamento e contentamento quando eles erram na minha própria ideia de mim e coro de humilhaçao e contentamento quando me apanham corretamente. Raramente componho ou reafirmo e fico chateada comigo quando caio nessa esparrela de me explicar. É como uma experiencia que deixo a correr a ver de que forma a imagem que têm de mim se afasta da minha imagem de mim. Enquanto isso tento descobrir a verdadeira eu, que está algures e nos momentos de maior frustraçao penso se nao estarei além, para lá do vidro.

terça-feira

I am Cabrao, Muito Cabrao

Das vezes que tentei ver filmes bond desisti por aborrecimento. Uma vez consegui atingir o fim da meta porque estava com o meu cunhado a achar as partes idiotas. A segunda vez, estava sozinha, mas pensei que a Halle Berry me conseguisse levar a bom porto, mas nao, nem a Halle Berry. Agora desisti. Aceito a minha incapacidade. Assim, o que eu sei do James Bond é do que ouço. Sobre o último filme, sei que o James Bond agora é um mole. Imaginem que gosta de mulheres, mas gosta mesmo, nao é só sexo! Meu Deus, ao que o mundo chegou! Eu concordei que é horrível fazerem um personagem frio de carisma ficar mole. Eu que passei horas a ver o Dexter e agora cheguei ao segundo segmento nao consigo ver mais, porque nao consigo aceitar a ideia de que talvez o Dexter possa ter sentimentos. Ele ainda nao mostrou sentimentos, mas só essa possibilidade me deixa o sangue frio. O choque seria demasiado para mim. Nao consigo, nao consigo, nao consigo. O Dexter é um monstro. Se o transformarem num ser-humano nao há mais Dexter e eu nao consigo ver o Dexter morrer. Pelo que entendo o meu amigo. O James Bond é um cabrao. Se deixar de ser cabrao, deixa de ser James Bond. Acabou. O fim de uma era, de um tempo, de um herói. O fim.

segunda-feira

A minha imagem pública: alienada

Extracto de conversa:

Alguém: Ainda tens aquela coisa branca no olho perto da iris. Ainda nao foste ao oftalmologista?

Eu: Nao. Eu ainda consigo ver, por isso... Mas se calhar devia ir, que quando estava de férias choraram-me os olhos várias vezes.

Alguém: Nao era a poluiçao?

Eu: Sim. Mas outras vezes penso que nao. Era outra coisa.

Alguém: Nao estarias triste?

sábado

Téééééédio

Estou entediadérrima. Acabei de fazer um caldeirão de musse de chocolate (branco e preto) e estou a pensar ir comprar os ingredientes para fazer natas do céu. Ou me lembro de algo melhor que me apeteça fazer ou nos próximos dias vou engordar amigos, visitantes, colegas e companheiros de casa como porcos. Graças a deus, estou de dieta.

terça-feira

??

Segundo o que as pessoas me vao dizendo, parece que é mau ter preconceitos. O que eu nao entendo é como as pessoas decidem onde ir de férias sem preconceitos.

segunda-feira

Arte e sociologia





Enquadramento jornalístico: The project immersion

By halfway through 2009, Cooper thinks he will have enough material to mount the first exhibition. 'Unreality is interesting,' he says. 'As a photojournalist, you're meant to look at moments of extreme emotion. It seemed to me, after a while of doing that… that is unreal as well. As Baudrillard said, the proliferation of images means we live in an increasingly unreal, mediated world. It's a challenge to try and capture that because you have to start dealing with the medium itself.'



A página do artista: Immersion blog

quarta-feira

O primeiro suspiro do retorno

Ah, Helena,

a India não tem muitas vacas ou muitas moscas ou muitas melgas, a India tem muitos bigodes, demasiados bigodes, uma profunda tristeza estética.

terça-feira

Texto impressionante:

Desterrada

I am too idiot for my shirt

Agora o Obama ganhou a presidência dos EUA e os americanos parece que estão na vanguarda. Num país em que um solteiro ou homossexual ou ateísta tem mínimas chances de ser eleito, eles estão na vanguarda porque elegeram alguém que é castanho, numa terra em que que eu saiba há gente castanha há uns milénios. Ok, vou tentar não me rir. Mas aqui vem a minha notícia: eles já estavam na vanguarda, por há oito anos terem eleito um idiota. O resto do mundo agradece encarecidamente que os idiotas se tenham decidido pelo castanho com miolos. Ainda que tenha sido preciso confundir-lhes a caixa craniana com um desastre económico.

segunda-feira

ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

Sabe bem caminhar pelas ruas cinzentas com o meu tocador nos ouvidos e o frio a acariciar-me a cara, a sentir-me em casa. Quase parece que fui de férias para me assegurar que vivo no sítio certo. Depois de me empaturrar de croissants e café, de ir à sauna e tapar o furo na bicicleta, talvez me passe pela cabeça contar algo sobre onde andei. Por agora estou a gozar a possibilidade do silêncio e de estar só. Sem necessidades de tampões para os ouvidos ou meditações.

quinta-feira

Nada para fazer

Estou aqui a secar e lembrei-me de um jogo que fiz ontem na net e que agora nao acho. Aquilo é americano e é um conjunto de fotos que vao aparecendo no ecran. Se a pessoa na foto tem uma arma na mao carrega-se numa tecla, se tiver uma carteira ou um telemóvel ou uma lata, carrega-se noutra tecla. As pessoas ou sao pretas ou sao brancas. Consoante os erros e o tempo que demoramos a carregar as teclas é-se medido o racismo latente. Antes do teste nao me é perguntada a raça (sou branco), pelo que fiquei na dúvida, mas parece que os pretos tem o mesmo racismo que os brancos, concluindo-se assim que o racismo é cultural. Nao interessa a cor da minha pele, eu vou sempre achar que branco é que é. Foi assim que compreendi a premissa. Joguei o jogo e dos resultados que eles mostram (os tempos quando preto-arma-mau, preto-bom, branco-arma-mau, branco-bom) concluí que mato mais depressa um branco que um preto, mas demoro mais tempo a acreditar que um preto possa ter uma carteira ou um telemóvel. Ou seja, nao há conclusoes definitivas da minha boa pessoalidade.

segunda-feira

domingo

Indignação monstruosa

Estava num jantar; ponham juntos um grupo de falantes de línguas românicas e o único momento em que estaremos todos unanimemente interessados na conversa, será quando compararmos as nossas línguas-mães. Agora que já nos conhecemos há mais de quatro anos, somos como gente caquética, repetindo as mesmas histórias, mas estamos felizes. Mas por vezes há histórias novas: uma italiana esteve em Portugal e vinha com as histórias pitorescas da atitude corta-garganta da língua portuguesa. Imaginem que "A Bela e o Monstro" é noutras realidades "A Bela e a Besta". Eu estava incapaz de ver como ser uma besta é melhor que ser um monstro, mas parece que uma besta não perde a possibilidade de ser giro, um príncipe, uma carinha laroca. Eu tenho sobrinhos e cumpri a obrigação familiar de os aturar; nas alturas em que queria descansar e os punha a ver filmes no vídeo, "A Bela e o Monstro" era uma das chupetas visuais. O tipo era um monstro e esta é uma das bases da história: que a princesa amou o eu interior, que era bom, pelo que o tipo não podia ser uma besta! Chamá-lo uma besta para que possa ser bonito, é uma desfiguração da moral da história. Dizer "A Bela e a Besta" é inaceitável.

sábado

Grandes dissenções clássicas

A posição de um grego relativamente ao banho de água quente revelava imenso sobre os seus valores e um dos mais longos debates na história da higiene íntima centra-se nos méritos da água fria versus água quente. O historiador oitocentista Edward Gibbon estava convencido que uma das principais razões para o enfraquecimento e a queda de Roma foi os seus banhos quentes. Os homens vitorianos, influenciados pelos estudos da Grécia clássica, acreditavam que o Império Britânico estava fundado no revigorante banho frio matutino. É um preconceito que ainda vive hoje na expressão alemã Warmduscher para adjetivar um homem falho na sua masculinidade. Platão iria simpatizar com esta expressão, ele que reserva n'As Leis os banhos quentes para os velhos e os doentes. Contudo, apesar de Platão, os gregos jovens e saudáveis habituaram-se aos banhos quentes nas termas, se não mesmo nos ginásios.

"The dirt on clean: an unsanitized history" de Katherine Ashenburg, North Point Press, 2007, pág. 25. Tradução minha.

quinta-feira

Campanha agnóstica na Inglaterra



Provavelmente deus não existe. Agora pára de te preocupar e goza a vida.


Reacção:
Perhaps I’m simply not aware of the argumentative power of urban transit, but I find bus ads particularly unlikely to be compelling on matters of such importance. Is it really likely that some nice believer taking a walk, to brunch perhaps, or the park, will see the BHA ads lumbering by, with its grimy city smell and its noisy engine racket, and suddenly think: "Oh dear, oh dear. All that fluffy stuff about heaven is probably nonsense, isn’t it?" Whoosh! The bus roars by and the person’s faith disintegrates in a cloud of engine exhaust.

Talvez eu não esteja bem a ver o poder argumentativo do tráfego urbano, mas eu acho os anúncios, e particularmente aqueles em autocarros, desprovidos de apelo em assuntos de tal importância. Qual é a probabilidade de um simpático crente a descer a rua no seu caminho para o café ou para o jardim, ver o anúncio da Associação Humanista Britânica a passar, envolvido no cheiro sujo da cidade e no barulho do trânsito, e subitamente pensar: "Ai a minha vida! Toda aquela história melada sobre o paraíso é provavelmente um disparate!" Vrummm! O autocarro passa num ronco e a fé da pessoa desintegra-se numa nuvem de fumo de escape.


Ha ha ha ha ha
Os anglo-saxónicos são os mais engraçados a dissentir.
Não me parece que o objetivo do anúncio seja a conversão, mas acho piada imaginar o "Oh dear, Oh dear", estilo Miss Marple.

quarta-feira

Na cadeia

A Helena incluiu-me numa cadeia. Pensei em não reagir, porque 15 é muito trabalho. Eu visito 15 blogues, mas não sei se quero incluir aqueles blogues que realmente gosto, com aqueles que é um pouco como visitar as putas.

Blogues? Seja eu verdadeira, eu já ando há tanto tempo nisto, que metade dos quinze não é os blogues, mas um caso pessoal.

É óbvio para a Helena que a incluo a ela, porque se fossemos vizinhas num prédio, estariamos sempre na conversa nas escadas. E se eu não a encontrasse um dia, estaria a bater-lhe à porta e muito infeliz porque ela tinha ido de férias e não me tinha dito nada. Snif, snif.

A outra amiga é a Sabine. A diferença com a Helena é que usa óculos e só fala de coisas sérias. E eu sou, na maior parte dos dias, muito superficial. Assim, quando me encontro com ela nas escadas, ela está muito preocupada com as condições no Darfur e eu preocupada que começou a chover e tenho de apanhar as cuecas da corda.

Depois há o João, a quem gosto de moer a alma. Ele vive no apartamento abaixo do meu e eu vou atirando coisas pela janela que lhe caem na varanda.

Depois há o José, que se queixa imenso, trata da horta e tem cães e sempre que o vou visitar, ele tem de ir caminhar os cães à rua.

Depois há o Luís, mas ele é demasiado estranho... Ele nem se desculpa com os cães. "Desculpa abrunho, tenho de me passear à rua." Estranho, muito estranho.

Portantos, estes são os que vivem no meu prédio. Depois aquele a quem atiro pedras à janela é o jb, que retornou e que ainda não lhe tinha dito como me apraz encontrá-lo na esplanada, sentar-me na mesa ao teu lado e ficar a deitar o ouvido à tua mesa e educar-me nos gregos e em música clássica e os celtas e como estes se riram com o tamanho do Alexandre, o grande. Que faria eu sem a tua erudição clássica? Antes de te conhecer, eu pensava que grego era um estado de confusão cerebral com o que não entendemos.

Seguidamente, aqueles que vivem nas redondezas e que eu persigo, porque tenho paixões assolapadas por eles. Um é o maradona. Prontos, confessei. Envergonha-me profundamente e eu sei que tenho que ir ao médico. Depois a Palmira e a Câncio. Houve alturas em que duvidei da minha heterossexualidade com estas duas.

Depois, aqueles blogues que visito só pelo conteúdo... Deixa ver, faltam seis...

Hum, hmmmmmmm.....

Há o blogo existo, porque tenho esperanças que algum dia compreenda alguma economia e eu ainda nem sei se o blogue é sobre isso.

Depois há o terceira noite e os livros ardem mal, porque gosto de ouvir falar de livros e isso.

Faltam quatro...

O pente fino pela comédia.

Depois há o Andrew Sullivan, pela comédia e má língua.

O mundo perfeito, porque quero aprender a em dez anos não ser tão amarga.

E o arquiteto de barriga, porque parece um bom blogue.

segunda-feira

Jogar o jogo

O jogo da sedução tão parvo. Alguém se lembra do que se falou ou bebeu? Lembram-se os movimentos, como se caminhou, como a mão rodou pelo ar antes de estatelar-se a meio caminho do objectivo, lembram-se os olhares evitados por pouco, os sorrisos e os risos complicados de modular. O jogo da sedução é uma dança que finge ouvir a música.

sábado

Vao-se catar

Há característisticas muito humanas e que nos foram e ainda podem ser muito úteis, que se usadas em demasia podem ser maléficas. Como tudo, o sal, a companhia da mae, os beijos cheios de bactérias. Estou a falar da tendencia que temos para encontrar o modelo de tudo e comparar e viver tudo relativo a esse modelo. Gaja, duas tetas e uma vagina. Vida de gaja, um casamento e putos ranhosos. Gajo, um pénis. Vida de gajo, brincar com o pénis. Isto é um problema, porque nem a gaja, nem o gajo sao só isto. Eu sei que simplifiquei neste poste e sei que ninguém percebeu a profunda profundeza do que quero dizer e no entanto, apesar disso me chatear, chatear-me-ia mais, chatear-me com a vossa educaçao.

quinta-feira

Os homossexuais deviam ganhar o prémio nobel da paz


Lembram-se desta fotografia? Ou da história, daquelas histórias que se pensa só podem ser inventadas por bons comediantes. Mas não, foi verdade, passou-se. Cabeças vindas de três religiões monoteístas juntaram-se todos em Jerusalém em 2005 para se pronunciarem contra a procissão flamejante que os homossexuais planeavam na cidade. Depois levantaram-se, cumprimentaram-se e desapareceram nas suas igrejas, templos, mesquitas e sinagogas para continuarem o discurso da desunião. Mas naquele momento histórico, os homossexuais uniram o que deus nunca uniu.

Continuando, que a minha vida meteu-se de permeio a este poste.

O que aconteceu foi um milagre. Um milagre sao fenómenos raros e incríveis. Era de toda a justiça que os homossexuais fossem honrados com ouro e mirra, que as medalhas olímpicas de ouro todas desde o início dos tempos lhes fossem dadas, mais o Mónaco e Andorra e títulos de sir expeddidos da Inglaterra. Mas quando dao a oportunidade a este pessoal de se pronunciar o que é que eles pedem: queremos casar pelo cívil e queremos criar crianças. O que? Como? Diga lá outra vez. Estao doidos? Uma pessoa começa a pensar que haverá algo mais que nos escapou e começamos a olhar para o namorado e os putos ranhosos na mesa do lado na esplanada com outros olhos. Mas nao. Por mais que se olhe, a ideia de pensar em fazer um contrato duradouro com o namorado começa a tornar o namorado muito pouco atrativo e depois de uma tarde a tentar ter uma conversa com uma amiga enquanto servimos de paraquedas ás suas crias, chega-se a casa derreado e pensa-se: aquele pessoal é doido! Mas no computo final é simplesmente a roda da história no seu movimento lento: pessoal que faz milagres é doido e passa muitos maus bocados ás maos das figuras governantes. Mas já acabamos com a cruz, certo?

Proibido assumir

Eu sou como a Sarah Palin: from a small town with small town values. Nessa aldeia com valores de aldeia existe tolerância por comportamentos, como dizem, fraturantes. Mas há um limite e esse limite é, como dizer, pavonear esses comportamentos. Um padre pode, na maior, ter filhos, mas chama-lhes afilhados, um homem pode bater na mulher, mas tem ser dentro de casa (este é a fratura literal), um homem pode ter uma amante, mas não pode andar com ela à frente da esposa, um homem pode dormir no trabalho, mas não pode ressonar (piadinha), um como dizem, paneleiro pode ser paneleiro, mas não pode apresentar-se paneleiro com outro paneleiro. Dos inúmeros comentários que eu leio e ouço, eu concluí que a mentalidade da aldeia é algo generalizado e de uma forma, que podem considerar perniciosa, é-me divertido ver esses valores com que cresci, serem expressos por pessoas educadas, como a Maria José Nogueira Pinto dizer que a gente já tolera os homossexuais. Sim, claro que sim, há centenas de anos, na lei de que não o assumes. Aí já é intolerável.

quarta-feira

Respeito, tolerância

Numa sociedade multicultural temos que aprender a viver juntos e a definir o que devemos/podemos ou não tolerar. Julgo que este é o maior desafio no nosso futuro, numa Europa que mostra reacções indesejáveis à imigração. Na Áustria, 29% dos votos nas últimas eleições foram em partidos da extrema-direita. Os opiniadores dizem-nos que não tem a ver com as ideias debitadas pelos seus líderes, mas porque os partidos moderados demonstram incapacidade de governar. Uma questão de votar nos que não estão a governar. Mas a Áustria com as leis mais duras na Europa em imigração e asilo e uma amnésia gritante relativamente ao seu passado nazi põe-me a duvidar.

Enquanto na Áustria se foca na expulsão e limitação férrea da imigração, na Alemanha resolveu-se exigir um pouco mais dos imigrados. Ultrapassada a ideia de que os imigrantes que tinham sido convidados a trabalhar vinham mesmo só de visita, resolve-se agora exigir conhecimentos mínimos de alemão a alguns dos novos imigrantes e agora há testes sobre a cultura alemã para obter a cidadania alemã. As vozes discordantes dizem que está-se a exigir a quem vem o que quem está não sabe. Muitos alemães não sabem falar bom alemão, dizem-me colegas alemães, e não sabem as respostas de muitas das perguntas no teste. Eu posso discutir o teor das perguntas. Mas a ideia do teste agrada-me se assinalar aos estudantes da nova cidadania que aqui há uma maneira de ver o mundo que deve ser respeitada por quem vem e se tal não for possível, por favor não venha viver neste país.

Só que isto do respeito é um bicho de mais que uma cabeça e não nos afeta só em termos de imigração. Porque o que enfrentamos é um mundo em que teremos de tolerar o que não respeitamos. E teremos de definir bem o que é extremamente importante que todos respeitemos e o que teremos de tolerar e o que simplesmente é intolerável e impossível de ser respeitado. Quando falamos de novas regras, deveriamos ter isto em mente. Só que isto implica pensar em nós, nas nossas sociedades e definir já, pensar já, o que fica em cada compartimento e entendermo-nos entre nós sobre estes assuntos antes de os querermos ensinar aos imigrantes.

Abordando o casamento de homossexuais, que andou a rodar de novo pelos blogues e que enlameou outra vez o PS, partido que tem feito muito empenho em se borrar, e não digo isto só porque votou contra, mas porque fazem aqueles malabarismos discursantes e impõem regras de voto na assembleia que me chateiam pessoalmente. O meu gosto pessoal é que me fodam pela frente. Numa estratégia de arrastão trouxe-se para a discussão a poligamia. Isto para mim é muito interessante porque permitir casamentos poligamos faz-me repulsões. Imagino que seja este tipo de reacção primária que submerge quem argumenta contra o casamento de homossexuais. Do que tenho lido, as argumentações são reviravoltas mais ou menos inteligentes que usam a estratégia do foder por trás, quando o que realmente interessa é que as pessoas sentem uma repulsão primária pela ideia de que os homossexuais, que fazem coisas que todos nós fazemos, mas entre pessoas que conhecem intimamente o terreno inimigo, possam ser aceites às claras. Porque não andem às voltas do elefante na sala, que o busílis é este: as pessoas sabem que se os homossexuais casarem, eles estão a obter a carta de respeito. A Maria José Nogueira Pinto disse uma vez, a gente já os tolera. Eu pessoalmente tenho outra ideia de tolerância, que não a de não perseguir ativamente as pessoas. A tolerância seria mesmo deixar casar os homossexuais, mesmo que não respeite o fato deles terem mau gosto (esta do mau gosto é do maradona, outubro de 2008), porque o eles casarem não põe em questão nenhum fundamento cívico das nossas sociedades. Dizem-nos que põe em questão o casamento, mas esta asserção só seria aceitável se pusesse na prática em questão o casamento de outros. Isto, depois de muitas linhas lidas, não me foi demonstrado.

Olhando para mim e as minhas capacidades de tolerância e respeito, eu diria que me prepararei para discutir a questão de permitir por lei a poligamia. Ainda que sinta que neste caso não é somente uma questão de tolerar mau gosto. Eu sei que nunca respeitarei a prática da poligamia, mas pode ser que o possa tolerar, se me convencerem que com a poligamia não se fragilizam os direitos humanos na nossa sociedade, algo que cairia no compartimento do intolerável. Eu penso que o caminho seria este, o de hierarquizar o que é intolerável, tolerável, respeitável, compreendê-lo, ensiná-lo e só assim poderemos viver todos juntos e com as melhores oportunidades de sermos todos juntos felizes.

domingo

Postegrafia: do casamento

-->No lida insana.

Fausto na Ar´bia



Tive pena do McCain neste vídeo. Não sei se ele sentiu, mas eu senti que ele sentiu o peso de Fausto. McCain quer ser presidente dos EUA e sabe que esta seria a sua última oportunidade. Baseado na sua experiência passada resolveu vender a alma à máquina republicana que vende votos a pessoas que não quereriamos nem a viver na aldeia mais próxima, quanto mais como vizinhos. Agora, talvez tenha sentido peso na consciência, mas é tarde demais.

Noutro apontamento, há racismos que andam escondidos e neste momento da história espera-se isso e o grande espanto é quando alguém é racista às claras. Mas eu não estava habituada a pessoas serem racistas às claras e ninguém dar conta. O Obama é apelidado de árabe e o McCain faz a antítese com ser-se uma pessoa decente! E é o mesmo noutros programas que vi hoje que roçaram isto, em que ninguém, ninguém, repito, ninguém exprimiu o, para mim, óbvio. Imagino que isto do preconceito vai por partes. Ou vai e volta, consoante as guerras.

sábado

O segredo da felicidade

Enquanto estive na Inglaterra fui lendo um livro do Bill Bryson sobre a Inglaterra. A maior parte do livro era seca, porque era sobre terriolas onde nunca fui e as piadas do Bill Bryson já não conseguem substituir o interesse. Acontece-me muito, encontrar um autor de cujo estilo gosto, ler meia dúzia de livros e a partir daí ver-me a não conseguir mais ler esse mesmo autor. Ficam como períodos, o período Isabel Allende, o período Paulo Coelho, o período Saramago, o período Camilo Castelo Branco e está oficial que o período Bill Bryson já era.

O que me interessava, como pedacinhos de chocolate numa bolacha, era quando ele escrevia sobre o temperamento dos ingleses. Ele falava da forma espartana com que eles olham para a vida, pontuada de prazeres, que sendo pequenos são vividos como grandes nesse fundo de miniminalismo. Bill Bryson fazia a antítese com a forma de ver americana (ele é americano) onde a abundância e o hedonismo são tidos como adquiridos. Bill Bryson que vive já há um bom tempo na Inglaterra dizia que desde que começou a olhar para a vida como os ingleses, tornou-se mais feliz. Lembra-me agora a lição do porquê das drogas duras serem perigosas, não só em termos de saúde, mas porque destroem no nosso cérebro a capacidade de sentir os pequenos prazeres, ao massacrar os recetores com quantidades enormes dos químicos que os espoletam.

Eu diria que a moral deste poste é que o segredo da felicidade está na temperança e nela preservar a capacidade de sentir os pequenos prazeres.

sexta-feira

De molho



No meu caso é só mesmo vírus. O ser pobre tem a vantagem de olhar para esta crise nos bancos como de longe. Eu sempre achei a economia e a finança incompreensíveis e agora só me parece que eu não era a única ignorante. Eu sempre me apoiei no meu único saber nesta matéria: gastas só o que tens. Sinto-me muito sábia com esta crise.

quarta-feira

A ressacar

Estou ressacada de viagem. Sempre que faço uma viagem de avião há uma sessão no tribunal da minha consciência onde sou obrigada a provar a necessidade absoluta de ter imposto ao meu corpo as horríveis posições, as horas de espera, a sensação de vaquice que me submete no aeroporto onde cordas limitam os movimentos da manada, que é tocada, prescrutada, conduzida a manjedouras duty free, vai pastando nas alcatifas esperando o momento de ser conduzida ao pequeno espaço onde felizmente sou suficientemente pequena para caber, onde a maior felicidade que poderia haver era trazerem-nos comida em caixinhas e em talheres pequeninos e em copinhos, pelo que podemos fazer de conta que tornamos a ter cinco anos e estamos a brincar ao chá das cinco com o puto do vizinho, mesmo antes de irmos atirar lama a uma casa a fazer de conta que somos construtores civis. Mas agora nem esse pequeno momento temos. Agora é só o desconforto e se formos na Ryanair podemos ter o surpreendente desprazer de ao tentarmos dormitar um pouco, sermos acordados com publicidade em duas línguas. Li num jornal que antigamente viajar era uma excitaçao. Acho que me lembro vagamente, por entre as dores de costas.

sexta-feira

Vou à aventura

Vou pra um país onde bichos selvagens nos esperam em cantos inesperados e onde se morre da comida. Posso não voltar. Gostei muito de estar convosco. Inté.

segunda-feira

Fidelidades

Neste domínio de nos perguntarem fidelidades e abstractos sentimentos pela tribo, como o húngaro a perguntar-me o que é ser europeu, um dia, há uns anos, perguntaram-me se eu, como portuguesa, me sentia mais próxima dos brasileiros ou dos outros habitantes dos outros países na Uniao Europeia. Isto provocou-me uma mistura de convulsoes na amigdala cerebral, que me impediu de responder por largo tempo, o que deu tempo a que o frontal tenha conseguido alinhar uma resposta brilhante, portanto improvável de ser original. Eu respondi que os brasileiros é como os irmaos, a gente nao os escolhe, tem que os aturar, vivemos às bicadas, mas no fundo gostamo-nos e há peculiaridades que partilhamos porque crescemos irmaos. Os outros países europeus sao os amigos que escolhemos para partilhar coisas, a vida, as conversas, os sentires, as contas, as férias, as idas ao cinema, a casa, as bebedeiras, e etc e tal.

quinta-feira

Cá está:



Obrigada amiguita que não vai ser nomeada.

quarta-feira

Como lidar com os problemas

Um amigo meu enviou-me um daqueles emails de comparaçao entre culturas, neste caso a chinesa (vermelho) e a alema (azul). Os políticos portugueses sao mais parecidos com quem?

terça-feira

Os deserdados

Li que agora isto de ser emigrante para o Estado português poderá vir a ser ainda mais parlapuê. Isto de limitar as possibilidades de voto, só consigo pensar nos EUA, para as pessoas que cometeram crimes. Para os portugueses vai bastar sair do país!

Eu sempre pensei no ato de votar como a expressão da minha cidadania. Juro, eu sou mesmo assim com ideias esquisitóides. Em adolescente, quando era ainda mais esquisitóide, ao completar dezoito anos, fiz duas coisas: registei-me como eleitor e fui dar sangue. Foram as duas ações que para mim assinalavam a minha maioridade. E como era esquisitóide, senti-me orgulhosa. Como agora sou esquisitóide, mas também cínica, o que o PS fez tem no meu caso a praticalidade de que agora quando me perguntarem a minha nacionalidade não direi portuguesa. Digo, cresci como portuguesa, tal como digo pra religião, cresci católica (tal como cresci PS). Ou entao digo que sou cidadã do mundo (passo a ser esquisitóide armada) e quando tiver que escrever em qualquer lado, escreverei "portadora de passaporte português". Assim, pra não me chatear muito na burocracia. De resto, retribuo ao PS o sentimento: estou-me positivamente a cagar pra suas excelências.

terça-feira

Desvantagens globalizantes

Desabituei-me de toques. Em Maio quando estive em Portugal, estava a conversar com alguém que me agarrou no braço e o ia apertando em intermitencia leve enquanto conversavamos. Conversavamos nao é correto, enquanto ele falava, pois eu estava completamente concentrada naqueles apertinhos desconfortáveis. Na Alemanha, quando eles decidem que sao meus amigos, a coisa é ainda mais cruel. Na Alemanha dao-se abraços e estes implicam uma superfície enorme de corpo em contato direto. Além disso, eu sou baixa, pelo que geralmente um abraço sou eu perdida algures, com um braço no ar a pedir salvamento. Por vezes consigo despistá-los: quando começo a cheirar despedidas, insiro na conversa elogios á falta de toques na Alemanha. Naquele casamento multinacional a que fui, foi um pesadelo. No ajuntamento de costumes, houve uma decisao implicita a que eu nao juntei a surda voz, que por defeito era a desbunda. Até os suecos resolveram que deviam imitar o resto e começaram aos beijos e abraços. Eu bem guinchava que comigo nao era preciso, que vivo na Alemanha, mas parecia que a minha falta de louridade os fazia pensar que eu dizia aquilo por dizer. Comecei a atirar com passo-bens para todos os lados, tentando escapar da guerra de pretensos afectos, mas tirando um homem com 2 metros de altura, cujo movimento descendente ao meu baixo nível foi extremamente fácil de evitar, perdi em toda a linha. É algo que me assusta: a globalizaçao do toque social.

sexta-feira

O esbanjamento de fontes

A Sabine enviou-me uma ligaçao para uma noticia, que eu ainda agora estou a gargalhar.

Sao 4 parágrafos, QUATRO! É uma notícia minuscula, mas consegue nomear seis instituiçoes:
1) o banco de portugal
2) a Imprensa Nacional da Casa da Moeda
3) a Direccao geral do tesouro
4) o Ministério das Financas
5) a Federaçao Portuguesa de Futebol
6) o Banco Portugues de negocios.

Portanto, a notícia diz que:
o 2 fez moedas, que o 4 comprou/recebeu/herdou(?) e deu ao 5, que fez lucro. Além disso, o 6 comprou moedas ao 2 (penso). Agora, o 6 tem moedas a mais que quer devolver. O 2 e o 3 nao aceitam devoluçoes, mas parece que o 1 vai recebe-las do 6 e pagar de acordo.

Parece que isto é um escandalo. Mas é demasiado para a minha cabeça. É como um filme do Poirot: um morto e 12 suspeitos.