quarta-feira

Que se lixe a peugada



Nao há respeito pelo silencio. Já todos sabemos disso, pelo menos aqueles que nao vivem em ilhas desertas e até desejam que lhes gritem. Mas está-se muito pior que no meu tempo (o que eu desejei ter idade para comecar a dizer isto). Nao se entende o silencio. Parece que o silencio é a ausencia de barulho feito por seres viventes: o bébé a chorar, o casal a brigar, o vizinho a ressonar, o cao a ladrar, até o galo ou os grilos, por estas orelhas que hao de apodrecer no humus materno, já ouvi pessoas queixarem-se que acordaram com o galo ou que nao conseguiram adormecer com os grilos! Que mundo louco é este em que vivo? Pois aí fui de bilhete de comboio na mao, acomodar-me numa carruagem para dormir, como bem dizia à entrada, para uma boa dormidela até aos Alpes Suicos. Na carruagem tinham escrito confortável, nao um adolescente qualquer, nao, grafiti formalizado e permitido, pelo que me senti confiante e até deslumbrei que aquilo tinha dois andares, olha que fino, dois andares numa carruagem. Pois, meus amig@s, nao deitei nenhuma das sobrancelhas... Descobri como é um secador do cabelo por dentro. Disseram-me que era o ar condicionado e houve grande espanto que eu em vez de me sentir confortável, como seria o óbvio sentir depois de ter lido o exterior da carruagem, me sentisse cansada, até zangada. Muito pior seria estar com os outros, a dormir 4 ou 6 no mesmo compartimento. E eu sonhei acordada com o ressonar de 5 seres humanos, em vez da ventoinha parasitica que se albergava nas paredes da minha carruagem. Há momentos em que nao suporto este mundo. E é por isso, que neste momento de publicação, eu estarei num avião, porque pelo menos é uma tortura menos demorada. Com tanto ar condicionado ainda a peugada é igual.

segunda-feira

Episódio da vida de uma pessoa ensonada: limites

Bem, bem, bem. Estava aqui ensonada quando aparece no umbral da porta um italiano, assim a dar pró bom como o milho. Queria ir à net e se eu tinha o cabo e postou-se de portátil debaixo do braço com a confiança de quem sabe que a probabilidade de recusa é baixa. Acertou. Eu podia ficar aqui uns bons parágrafos a descrevê-lo, mas não tenho palavras que lhe façam juz.

Mas já o expulsei. Ausentei-me por uns momentos e encontrei-o na minha cadeira, ao telemóvel, a brincar com o meu teclado. Há limites e os meus são o meu computador e todos os seus periféricos. Tira a mãozinha.

sexta-feira

simpatias e confissöes III

Durante muito tempo nao se falou. Durante muito tempo acreditou-se que os estrangeiros iriam embora e poderiamos nunca falar, com regras nao faladas, mas compreendidas por todos. Um verniz agradavel de tolerancia colou-se-nos à pele, o que interessava mesmo era que nao falassemos. A tolerancia existia desde que o toleravel permanecesse à distancia. E um dia o toleravel esbofeteou-nos na cara e enquanto estavamos perplexos sem percebermos muito bem o que tinha acontecido, foi-nos dito que o melhor era nao falarmos. O toleravel só é intoleravel porque o nao toleramos como deve ser.

A minha pergunta é só esta: nao é esta a altura de falarmos? Porque neste momento, há os Geert Wilders que falam por nós e um sistema que se vende por uma ideia de tolerancia que nao é a mais justa. Para além da nossa tolerancia ser apenas o nao me chateies, essa tolerancia institucional serve os ideologos fanáticos e nao os comuns cidadaos que querem mais que o privilegio de existir sem chatear.

Seria bom falarmos, a sério. Sem clichés e ilusoes.

P.S.: contava-me um norueguês como a mäe arengava sobre os norte-americanos e o que eles tinham feito aos pobres pretos, mas os sama, esses eram todos uns malandros e ladrões a morar no fundo do fiorde.

p.s.: o teclado norueguês tem acentos! :)

segunda-feira

simpatias e confissões II

Nestes vários dias, andei a pensar naquilo que escrevi antes de ir. Na minha provocação, que foi obviamente consciente, o que eu queria era que vocês me dissessem que eu estava errada. Porque eu estava com simpatias e compreensões que queria atacadas e desterradas. De entre aquilo que mais me ajudou a reformar a minha ideia do problema foi esta entrevista a Jocelyne Cesari.

sábado

simpatias e confissões

Vou andar fora até ao fim do mês, amiguitas. Mas deixo um biscoito à Helena, que anda mesmo passada pelo fato dos partidos de direita terem elegido tanto deputado para o Parlamento Europeu.

E agora, como isto é um blogue, deixo a minha opinião: o que se vê é uma contra-reação a uma cultura de compreensão por comportamentos anti-liberdade, anti-direitos humanos, porque vêm de imigrantes de países que existem como símbolos de vitimas, vitimas da nossa colonização, do nosso imperialismo, sei lá que mais. Temos de os respeitar e compreender. E nos Países Baixos, mata-se e obriga-se pessoas a andar de guarda-costas e pressiona-se para eliminar direitos conquistados a muito custo. Eu confesso que tenho mais compreensão e simpatia por quem votou no partido de Geert Wilders e questiono-me sobre este homem, que precisa de ser corajoso ou insano para levar a vida que ele leva.

E agora desapareço antes que leve com um ovo eletrónico.

quarta-feira

La coisa ins verso

Depois, caro bloguista, de ter caído redondo no chão a dormir depois de ter tentado ler a constituição, de ter morto baratas simplesmente atirando-lhes com o tomo em cima e depois de ter usado metade das folhas para apanhar com as caganetas do coelho que encontrou meio-morto na rua, tentemos novamente ler esse fundamental documento. Em verso...


ARTICLE 60: REPRESENTATION

If a person, if only for an hour at a time, could borrow the bodies of others,
I would borrow yours, my brother, so that you could walk beside a river somewhere.’

* Eva Runefelt
* PART IV - Policies and Action

ARTICLE 74: SECURITY

One cat I got from an abandoned building site. His eye was glued shut, an ear
partly severed and in his fur you could still see the teeth marks of the dogs. He
lived under a cupboard for a week and didn’t sleep, each time I got on my knees
to look for him I’d find him crouching, with a glazed look, I could only tell he
was still alive from the sucking motion of his flanks, a frightened oxygen pump.
Later he would sometimes let you stroke him, if you were very careful he
wouldn’t bite. But one night he jumped onto the bed, a claw slashed into my
eyebrow, blood ran down my nose into my mouth, I dived under a pillow to
dodge the tiger in my house.
Another cat I found in the street, in a porch in the cold rain. She was so small
that she was still full of trust. The first night she already slept in my bed, fell into
such a deep sleep that all the life slid out of her young muscles, I played with her
paws, tail, she became a toy cat filled with sand. At night she didn’t hear
the neighbours’ dogs. That sleep is called: safety.
A friend who is deaf says: he’s got the sweetest tom cat in the world. One night
it jumps onto his head, his stomach, it viciously bites his toes. When he looks up,
bewildered, he sees how, in the dim light, the door handle of the bedroom moves
down, moves down without making any sound.
This is how cats talk to us: about the depths of sleep, the wild flesh of ancient fears.


ARTICLE 55: TIME OF TRANSITION

We live in a time of transition, which our grandchildren
May designate an epoch. We know nothing about ourselves but they
Will classify us as butterflies in History’s specimen cases.
We will be gazing through the glass with our lifeless
Eyes, and our children’s children, the conquerors
Of stars, will be thumbing through family albums. This
Old fashioned elderly gentleman is me, the photograph
Already faded. I’m standing motionless, eyes fixed
On the setting sun. In the top left corner
You can see a shining dot. And that’s precisely why
This old photograph has such significance. That was
The first sign. Then came the others.



ARTICLE 24: THE RIGHT TO LAZINESS

The good gardener prizes the shadow of the apple tree.

sábado

A cruz de ser portuguesa no estrangeiro

A proxima pessoa que me perguntar sobre o Cristiano Ronaldo vai receber o meu afamado olhar de arrogante-pila-grande-mamas-farfalhudas-seu-mentecapto.

P.S.: Isto sem qualquer juizo mau sobre o Cristiano. Mas presumo que o Cristiano ia fazer o seu afamado olhar fodas-mas-wat-the-fuck-dizes-tu-meu-cabrao, se lhe perguntassem sobre a minha pessoa.

P.S.2: E tambem nao sou especialista em peixe!

P.S.3: A piada sobre bigodes... Ah ah ahaaaaa zzzzzzzzzzzzzzzzzz.. Chatinha... Nao dava para inventarem outra?

Se nao sabem: em que dia e' que se vendem mais maquinas de barbear em Portugal? O dia da mae!

A T-shirt: "Nao me estou a cagar e tenho a(s) pila (mamas) grande(s)!"

Imaginemos uma casa muito grande, onde vivem dez pessoas. As dez pessoas decidiram que as tarefas relativas 'a casa nao sao decididas por decreto, por assim dizer, cada um faz de acordo com a necessidade de manter a ordem e a limpeza e no suposto que as dez pessoas sao adultas, conscienciosas, responsaveis. A coisa vai andando, ha' uns mais atinados, uns que so' limpam o seu quarto, outros que fazem, mas so' de vez em quando. Mas os atinados comecam a chatear-se a a queixar-se e a chamar os outros 'a sua obrigacao. E os outros viram-se para os atinados e dizem que nao ha' razao para fazerem nada, afinal a casa ate' esta' limpinha e em ordem! Os atinados acham que nao, que podia estar melhor e que nao tem de ser so' eles a limpar e a organizar e chateiam-se e chamam os outros de lamboes, irresponsaveis e de volta sao chamados de arrogantes e armados! Mas voces atinados pensam, o que? Que tem pilas grandes? Calem, mas e' essas bocas, porque se nao limpamos e' porque nao encontramos a vassoura perfeita, o aspirador mais potente, o pano de po' mais revelador da verdade do mundo e porque esta casa e' so' porcaria e nos temos alergias!

A Rita faz a defesa do "pra que e' que eu hei-de limpar se a casa ate' ta' limpa", em que a casa e' a democracia e prontos estao a seguir a analogia. Eu devo agradecer a Rita que subiu o atinado um degrau na linha intelectual tuga, em que o atinado foi promovido de toto a arrogante. Obrigada, Rita.

segunda-feira

Os que merecem voz

Em vez de carpir os lambões-não-cidadãos-abstencionistas, que deviam receber a indiferença que merecem, deviamos falar dos 4.63% de brancos (164788 cidadãos) e 2% de nulos (71122 cidadãos) que demonstraram com todas as certezas que não se reveêm em nenhum dos partidos. É muita gente, no universo de quem falou, que merece ser atendida.

domingo

O meu plano

Acabei de chegar do consulado. Fui votar. Foi votar? Nao foi? A partir de hoje nao falo mais consigo. A partir de agora quando conhecer alguém pergunto o nome e se vota. Se nao, bem adeus, é óbvio que nao tenho de perder tempo consigo. Que me pode importar um nao-cidadao?

P.S.: É óbvio que faco excepcoes a boas justificacoes.

sexta-feira

Nostalgias programativas

Começo pelo início, João. Começo pela abelha maia. Depois também tenho esta imagem de uma cozinha na penumbra, fechando-se para o calor de Verão que começa a apertar pelas 11 da manhã, o barulho sussurrado de uma casa a tostar e eu a ver os estrumpfes. Também me lembro das janelas abertas e o sol a esparramar-se pelo tapete onde me deito expectante a olhar para uma circunferência com cores e um piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii a debitar enquanto espero que comece a emissão do Sábado de manhã com o sítio do picapau amarelo. Pobres de vós que não esperaram ao sol pelo Sítio do Picapau Amarelo. Ide e chorai. Também me recordo de pular de alegria no sofá pelo começo do Verão Azul.

Mais tarde, apaixonei-me pelo Jeremy Irons e o outro gajo que não se tornou famoso, no Revisitar Bride qualquer coisa e pelo Hari Kumar na Jóia da Coroa (ele aparece nos dois primeiros episódios e no último e eu andei a ver os episódios todos, enfim...). Nesta altura, enquanto me apaixonava por atores, gostava do Dartacão, por razões que completamente me ultrapassam e deviam ser investigadas (eu acho que colocaram droga naquela coisa). Também via o LA Law. E o Poirot e a Miss Marple e o Perry Mason e o programa do Hitchcok em que ele aparece de perfil. Só a música deste programa me fazia pesadelos. Depois ou antes dava a Quinta Dimensão, que via, mas de que não me lembro um único episódio, apesar de os ter visto todos.

Todas as sitcoms que alguma vez deram na televisão? Vi-as todas. Até do Alf gostei.

Richard Attenborough? Nunca gostei mais da natureza fora do meu prato. Mas gostava ainda mais do Herman José a gozar com o Richard Attenborough. Adorava de alma o Herman José e os seus programas. Adorei-o e aos seus programas até ele arranjar um programa de variedades e pintar o cabelo de louro branco.

Agora, ah agora, a inocência do mundo desaparecida, as expectativas desavindas, as ilusões esvanecentes, fico-me cínica de sorriso esgaçado a gostar do Dr. House...

Sim, a sério?

É difícil seguir uma campanha quando as pessoas que campanham não falam muito da Europa. Na nossa estação, o porta-voz do partido socialista [na França] Benoît Hamon disse "Vamos fazer destas eleições um voto de protesto às políticas de Sarkozy". Ele tem todo o direito de dizer isto, de dar esta direção. O problema é que os assuntos europeus ficam fora da campanha. Como podemos então interessar os franceses se os candidatos não se interessam? As pessoas que mais falam dos assuntos europeus são os eurocépticos, na verdade, os eurocépticos com as ideias mais extremas.
Diz Sophie Larmoyer, Chefe da secção de notícias externas da Europe 1.

Devo dizer-vos que cada vez gosto menos de jornalistas. Se eu pudesse votar em jornalistas, abstinha-me. Se algum dia um jornalista me tentar entrevistar, obrigo-o a engolir o gravador. A próxima vez que passar por uma câmara de filmar, dou-lhe um empurrão.

A sério, os jornalistas coitadinhos só podem seguir a manada. Dizem eles, enquanto vão à frente.

Não, a sério. Fui à net ver o programa especial eleições parlamento europeu com a Fátima Ferreira em que ela entrevistou os treze candidatos. Um feito heróico, como ela bem demonstrou no seu ar cansado-ponderoso, pois como é que os treze podem ter tempo para dizer algo de jeito? Não há tempo! Especialmente quando se fazem perguntas como "Devem aumentar os impostos agora?", porque todos sabemos que os deputados europeus irão decidir o aumento dos impostos agora. Também vi um programa de debate DEDICADO ao parlamento europeu moderado por uma jornalista chamada Fernanda Gabriel em que ela pergunta TRÊS vezes a deputados sobre a apresentação de candidatos à presidência da Comissão Europeia pelos partidos (não grupos, partidos, sim, mesmo isso que leram) depois de ter sido informada no programa por dois diferentes deputados, em duas intervenções, que isso não é da responsabilidade dos grupos políticos no parlamento europeu!

Não, agora a sério. Podem os que estão atrás na manada simplesmente passar a ferro os que estão à frente da manada? Obrigada.

Acabando em tom de seriedade: a Helena e outros estão muito preocupados, atemorizados, trespassados porque 4 deputados eurocépticos e anti-imigração dos Países Baixos foram eleitos para o parlamento europeu. Temos de olhar para o lado positivo que está ali nas últimas palavras de Sophie Larmoyer: finalmente vamos ouvir falar da União Europeia.

sexta-feira

se gostas de meter o bedelho na vida dos outros



Vou usar esta canção numa situação completamente fora: resposta ao inferno por que estou a passar no meu escritório em que um colega teima em passar a música alemã da eurovisão. Mais um "kiss kiss bang bang" e eu cometo um ato de violência!

quinta-feira

Levantado processo disciplinar a enfermeiro por reclamar em carta ao Presidente da República!

(...)
Na exposição ao PR, o enfermeiro queixa-se de ter sido transferido compulsivamente do serviço de otorrino para a pneumologia enquanto estava de férias, sem que lhe fosse dada oportunidade para se defender. "Não seria lógico, num quadro de alguma falta disciplinar, a instauração de um processo?", questionou.
(...)
Além do seu caso particular, o enfermeiro refere a existência de "um acumular de situações naquele serviço de extrema gravidade", acusando-o "de ser uma fábrica de números" e de estar instalada "uma concepção autoritária do poder". Pede a Cavaco Silva que "tenha um olhar atento e preocupado". E disponibiliza-se para prestar esclarecimentos.
(...)


Segundo o BE:
Alguns dias depois, esta carta, dirigida ao Sr. Presidente da República, serviu de pretexto para o Conselho de Administração (CA) decidir a abertura de um processo disciplinar contra o referido enfermeiro, tendo em vista o seu despedimento com justa causa, invocando para isso a natureza difamatória da missiva e o carácter ilícito do acto de escrever ao mais alto representante da nação.

Voltando ao i:
(...)
Contactado pelo i, o hospital confirma que a carta a Cavaco Silva é o motivo para ambos os processos, e explica que não está em causa a opinião pessoal do enfermeiro quanto às chefias, mas sim as acusações que faz "pondo em causa o bom nome da unidade no tratamento dos doentes". Sobre as denúncias do enfermeiro na carta, a unidade recusa fazer quaisquer outros comentários.
(...)
O Bloco de Esquerda já levou o caso à Assembleia da República, questionando a ministra da Saúde, Ana Jorge, sobre o assunto na última reunião da comissão parlamentar de saúde. Tendo ficado sem resposta, o deputado João Semedo apresentou um requerimento pedindo à ministra uma posição.
(...)
Questionada pelo i, a Presidência da República responde apenas que "tem por princípio não comentar publicamente a correspondência que recebe". Também o Ministério da Saúde recusou prestar declarações.
(...)

os ênfases nas fontes são meus. sou eu a passar-me

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Atualização no i:

Processo a enfermeiro é "inaceitável", diz Cavaco Silva



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Nova atualização no i:
A pressão do Palácio de Belém acabou por dar frutos, e a administração do S. João, invocando atender "ao superior interesse público e à consideração que merecem todas as instituições democráticas", decidiu-se pelo arquivamento do processo.

Já comeca a fazer escola escrever "interesse publico" quando se quer justificar merda. Talvez fosse melhor ir fazer formacao em democracia, meus senhores, nao é vergar o pescoco as instituicoes democraticas, é perceber a democracia! Idiotas.

quarta-feira

Os media e o parlamento europeu: uma relacao difícil
ficheiros pdf em ingles, frances e alemao em cima
O título original é um pouco diferente, mas depois de ler as entrevistas penso que este é mais apropriado.

sexta-feira


:fonte:


Harvest of Suicide
, de Vandana Shiva

Excerto:
"De acordo com dados oficiais, mais de 160 mil agricultores suicidaram-se desde 1997 na India. Estes suicídios são mais fequentes nas áreas de cultura de algodão e parecem diretamente ligados à existência de monopólios sobre as sementes. O fornecimento de sementes de algodão na India tem progressivamente passado das mãos de agricultores para as mãos de produtores globais de sementes como a Monsanto. Estas corporações gigantescas começaram a controlar as companhias locais de sementes através de aquisições, criação de consórcios e através de sistemas de licenciamento que conduzem ao monopólio no mercado de sementes.

Quando isto acontece, as sementes passam de um produto comum a serem "propriedade intelectual" das companhias como a Monsanto, e desta forma a corporação pode reclamar proveitos ilimitados através do pagamento de royalties. Para os agricultores isto significa o aprofundamento das suas dívidas.

Para além disso, as sementes passam de um recurso regenerativo e renovável para um recurso não-renovável e uma mercadoria. A escassez de sementes deriva diretamente do monopólio de sementes, que aplicam como arma limite a semente "exterminador" que é criada para ser estéril. Isto significa que os agricultores não podem independentemente renovar o seu stock, mas necessitam de retornar ao monopolista a cada estação de plantio. Para os agricultores isto significa mais custos, para as companhias mais lucro."


tradução minha.

terça-feira

segunda-feira

Permita-me abordar a questão da democracia

Martin Schulz, PSE: “Os que pensam que o Tratado de Lisboa ou a constituição eram menos sociais do que o Tratado de Nice sob o qual estamos hoje, não leram o texto. Para responder claramente, é mais social. Não é o que pretendíamos, mas constitui mesmo assim um progresso. Mas permita-me abordar a questão da democracia. O colega Farage pertence a um grupo que defende a legitimidade do referendo. Isto implica que nos países que tradicionalmente não conhecem o referendo sobre os tratados internacionais, a ratificação parlamentar é menos válida do que um referendo, o que me parece pouco aceitável. Os Estados Unidos são um país que não sabe o que são os referendos e que é mesmo assim democrático. A Alemanha não tem uma tradição referendária. E vou dizer-lhe porque é que, na Alemanha, eu sempre estive contra os referendos. Vejamos o caso do alargamento… (Farage ri) Ouça-me primeiro e depois ri. Imaginemos que na Alemanha, por exemplo, na altura do alargamento, houvesse referendos sobre a Polónia, a República Checa, etc… Não me parece que teria sido uma boa ideia na Alemanha de submeter o alargamento da União Europeia a referendo. E a ratificação do Bundestag e do Bundesrat foi absolutamente democrática.

Para terminar, senhor Farage. Houve quatro referendos sobre a Constituição. Um na Holanda: contra; um em França: contra. Houve mais dois: em Espanha, com 72% a favor, e no Luxemburgo, com 60% a favor. No conjunto dos países que organizaram um referendo houve uma maioria de cidadãos a favor da Constituição. Respeite, o senhor também, a democracia.”

Nigel Farage, Ind/Dem: “O que está a dizer senhor Shultz, as implicações do que está a dizer em relação ao conceito de democracia são verdadeiramente terríveis. Está a dizer que não devemos perguntar aos alemães que opinião têm, que temos que os guiar. É assustador! Nunca me esquecerei que no dia a seguir ao “não” irlandês você disse no parlamento que ‘não nos devemos render ao populismo’ e espero que peça desculpa pelo que disse. É absolutamente… Você é anti-democrático. Você acredita que uma classe dirigente sabe o que é melhor para o cidadão comum. É monstruoso!”

Martin Schulz, PSE: “É uma honra ser tratado de anti-democrático por si. Muito obrigado!”


Antes que pensem que eu posto isto porque partilho as opiniões do Sr. Farage, afirmo já que não. Desculpem, mas não tenho uma alta opinião sobre as capacidades do cidadão comum em não ser manipulado através dos seus preconceitos. Nunca Portugal teria entrado na UE se o tivessem perguntado aos franceses, nunca a Polónia teria entrado na UE se o tivessem perguntado aos alemães. Nunca teria existido UE se o tivessem perguntado aos cidadãos. Alguém imagina o cidadão comum francês a querer juntar-se ao cidadão comum alemão e ao cidadão comum britânico e ao cidadão comum... Portanto, sejamos honestos e ponhamos a UE a referendo e terminemos já com isto. Na Suiça, onde se pergunta muita coisa aos cidadãos, nos anos 90 as mulheres tiveram finalmente o direito de votar em todos os cantões e ainda havia para lá um cantão perdido que não se tinha decidido a tal. Foi preciso o governo central dizer "desculpem lá, mas c'est fini!" Cá para mim, se tivesse sido por referendo, a escravatura ainda era legal. E vocês dizem, que ideia, somos tão civilizados. Li este artigo sobre o Dubai e o que mais impressão me fez foi como os europeus que aí vivem veem e aproveitam-se daquele sistema. Sem pejos ou problemas de consciência. Desculpem, o cidadão comum? O cidadão comum come-te o figado se acha que não és um deles e se ninguém existe que o puna. Se não concordam, exemplifiquem com um daqueles avanços civilizacionais de que gostamos de nos orgulhar que tenha sido promovido por voto popular.

Portanto, eu acho que referendos em que haja a figura dos "outros" não devem existir. Mas concordo com referendos sobre "nós". E não concordo com referendos em que só existe uma resposta possível e em que a resposta impossível não traz consequências. Quem votasse "não" saía e aí já podiamos tirar conclusões sobre a opinião do cidadão comum sobre a UE.

Esta confusão é culpa dos governos que não têm tomates para definir que se não existe aceitação do tratado saem e deixam os outros que aceitam ir no seu caminho, e mais destomatados são os que não arcam com a responsabilidade sem que possam oferecer subsídios ao cidadão comum.

Mas não é por não concordar com Nigel Farage que eu não o ache importante para a democracia:



P.S.: Eu diria que se fazem referendos nos EUA. Só que são ao nível estadual (e muito provavelmente local) e eles referendam tudo o que alguém se lembrar pôr a referendo e que tenha um nr. minimo de assinaturas. Quando estive no Colorado em 2006 estava a referendo, entre outras questões de que já não me lembro, a legalização da marijuana e usar certo dinheiro para comprar autocarros e outros materiais escolares.

P.S.2: snowgaze disse...

na Alemanha não há referendos??? Então e o referendo para decidir se parte das pequenas bibiliotecas municipais espalhadas pela cidade deveriam continuar abertas? E o referendo para decidir se se podiam construir prédios muito altos dentro da cidade? (estes dois em Munique) Não contam como referendos porquê?

11/Mai/2009 13:23:00

domingo

A nova inquisição?

A situação é pior do que eu pensava. Imaginem que um dia no futuro eu serei enviada a tribunal e que os meus postes neste blogue sirvam como a prova do meu ateísmo e eu seja obrigada a escolher entre uma religião e o ateísmo? Tenho que começar a pensar na minha decisão, entre a cobardia e um certo gosto pela ironia histórica. Seja como for, comprovaria a minha suspeita de que o nosso futuro não está situado na linha reta de cada vez mais valores humanistas, mas num círculo.

Sobre as regras - parte II e os ideais - parte I

Na continuação deste meu poste e pegando nos comentários aí escritos do jj.amarante e da Rita Maria,

Na minha relação com a religião com que fui criada passei por várias fases. Acho improvável que sendo quem sou neste momento eu possa retornar a ser religiosa sem ser deixando de ser quem sou. Mas tenho olhado para a religião como uma necessidade humana que importa, na minha percepção, não negar liminarmente por nós ateus. É um equilíbrio muito difícil de conseguir. Mais interessante para mim do que os religiosos, são os ateus e o percurso longo que cada um de nós tem de percorrer e se estou acostumada a ver os ateus que sabem minimamente da religião de que se afastaram, estou agora interessada numa nova casta de ateus, que cresceram assim e que têm que fazer um outro caminho. A minha irmã, que também é uma não crente, resolveu colocar os seus filhos em Aulas de Religião e eu concordei porque me pareceu que caso contrário correriamos o risco de sermos convidados para algum batizado aquando da sua chegada à idade adulta. Mas a minha irmã partiu de um outro pressuposto: o de que para compreender a sociedade em que vivemos precisamos de aprender também sobre a religião que formou a sociedade em que vivemos. Pouco a pouco tenho vindo a concordar com o ponto dela. O relato do Rui Tavares é mais um pormenor nessa ligação subtil entre o hoje secular e o ontem e hoje religiosos, que afeta os ateus.

Quando postei sobre regras estava a pensar naquelas que definem acordos necessários para que todos nós possamos viver em sociedade em harmonia, como decidir que se guia do lado direito. Não estava a pensar em ideais. Estava a pensar neste poste da Fernanda Câncio e nisto:

Há muitos anos atrás, arranjei num Outubro, um trabalho a ganhar o salário minimo nacional da altura. Seis meses depois arranjei outro trabalho a ganhar para aí o dobro e uns meses depois fui já nao me lembro onde candidatar-me ao arrendamento jovem. Havia uma base minima de apoio que era calculada pegando na declaração de IRS e dividindo por 12, o que no meu caso era: tres salarios minimos nacionais dividindo por 12 = mesada de papa e mama. A senhora informou-me que eu assim nao podia candidatar-me. Eu expliquei-lhe que aquilo nao tinha nada a ver com a minha situação e que podia trazer um comprovativo do meu rendimento atual. A senhora disse que nao, que a equaçao era aquela e acabou-se. Já nao me lembro quanto tempo fiquei a gaguejar "mas", mas a senhora lá passou ao ponto dois: como fazer gincana ao sistema. Os olhos sairam-me das órbitas e eu removi-me do antro. Nao quero que pensem que eu sou um anjo, porque nos finalmentes eu fiz a gincana ao sistema. Mas cá está o meu ponto: há a regra que é estúpida e portanto a solução é ser chico-esperto e isto é ensinado pelas pessoas que aplicam as regras. Agora, digam-me onde está a mula. Eu proporia quem fez a regra...



Penso que é necessário discriminar entre os ideais e as regras. Esta foi uma das minhas irritações com a chamada constituição, porque para mim a constituição é uma declaração de ideais e não um aglomerado frankensteiniano de regras e ideais como o que nos foi apresentado. A necessidade de uma constituição europeia clara parece existir quando somos confrontados com as notícias de dislates vários das nossas instituições quando confrontadas com grupos de pessoas imigradas recentemente que intentam em impôr costumes que nos afrontam. É necessário definir em constituição o que é um afrontamento válido, o que são ideais universais, aqueles que devem ser defendidos e impostos a todos neste espaço em que vivemos. Porque é extremamente importante fazermos esta reflexão e esta definição, fico zangada quando se mistura o que é um ideal com o que é uma regra. A homogeneidade populacional anterior parecia não necessitar de tal preciosismo, mas estes são outros tempos, senão ainda em Portugal, noutros países. Misturar regras com ideais é dificultar o raciocínio e termos de ler que o cardeal da igreja britânica acha que é aceitável que um grupo de pessoas por professar uma religião diferente podem sair fora da esfera do direito do estado em que vivem. Como se o estado definisse só um conjunto de regras e portanto que importa que outras pessoas queiram regras diferentes, mas e os direitos fundamentais, senhor cardeal? Outra faceta, é as pessoas menosprezarem um direito fundamental como se fosse uma mera regra, como o direito de liberdade de expressão, que não pode ser colocado em causa por delicadezas de sentimento de um grupo de pessoas. É, do meu ponto de vista, essencial que façamos esta discriminação, para sabermos onde podemos comprometer regras e onde não se pode nunca de forma alguma comprometer ideais.

Finalmente, aproveitando que o poste do Rui Tavares citado pelo jj.amarante foi escrito durante a campanha do referendo sobre o aborto, faço esta pergunta: a lei de despenalização do aborto é um direito ou uma regra?

terça-feira

Declaracao de detesto

Eu detesto o Durao Barroso. Detesto-o desde aquela mentira desnecessária de dizer que nunca nos deixaria porque Portugal estava mal e precisava de estabilidade e pouco depois lá vai o Barroso para a Comissao. E eu pergunto porque? Eu consigo perceber que alguém queira mudar de emprego, mas para que mentir, para que ser mentiroso sem precisao? Mais uma tonelada de detestar porque deixou de presente o Santana Lopes, uma doenca crónica, ainda sem cura à vista. Depois detesto-o porque andou, como primeiro ministro de Portugal, a beijar as galochas do Blair, do Bush e do Aznar. Que ele fosse lá servir de carpete como Durao Barroso, o cidadao, se tal fosse possível sendo primeiro-ministro, ainda vá, mas nao, foi lá representando-nos e eu por proxi estava lá a beijar cus, coisa que ainda hoje me poe capaz de requebros de vómito. Detesto-o platonicamente, que nunca o conheci, mas detesto-o vivamente. Detesto-o com paixao, era capaz de lhe mandar com sapatos, tomates e ovos. Assobiar-lhe, dar-lhe estaladas e faze-lo ouvir a Manuela Moura Guedes cantar até ao fim dos dias. É um parasita, um oportunista, um lambe-botas. Detesto-o.

Fico enjoada quando após eu me indignar com a declaracao vinda do Sócrates, de que o PS apoiará o Durao Barroso a continuar na Comissao, me dizem que concordam, porque afinal o Durao Barroso é portugues. Ser portugues é um limpa-nódoas! Permitam-me muito vivamente discordar. Apaixonadamente discordar. Eu até poria a coisa ao contrário: um portugues para sair de Portugal para uma posicao de relevancia, devia ter um ónus maior em provar que é muito bom, para, no minimo, nao envergonhar os restantes de nós. Eu, ao Durao Barroso, escondia-o na cave.

Comecando um poste sobre regras

Na sociedade portuguesa é suposto nao cumprir as regras. Nao é síndrome do portugues, mesmo que o portugues nao queira ser chico-esperto, o portugues tem de o ser porque as regras estao feitas para isso. Faz-me lembrar uma frase que ouvi em miúda, talvez nao tao miúda, que ficou-me gravada, que era "Portugal tem das melhores leis do mundo." É claro que quando se poe mundo numa frase já se está a errar. Quem pode saber do mundo? Mas imaginemos que é verdade. Melhor como? Nesse dia em que ouvi essa frase e a boca se fez num O (uau, temos as melhores leis do mundo), tirei a conclusao: "a culpa é do portugues, que tendo das melhores leis do mundo, nao as sabe usar". Vinte anos depois a conclusao que eu tiro é outra: "essas leis nao sao para pessoas, nem para a vida que as pessoas fazem, sao para um ideal de pessoas e para um ideal de situacoes que vivem na cabeca de quem faz as leis".

quinta-feira

Que país?

A única coisa que é possível e certo concluir do caso Freeport é que os investigadores públicos nao sao independentes. Respondam-me: porque é que o caso hibernou de 2005 até hoje?

Uma pessoa é inocente até prova em contrário. Eu nao digo isto porque quero defender o Sócrates. Eu digo isto por um país que nao pode ser governado por suspeitas. Por um país em que nao pode ser possível atirar merda para o ar e ganha quem atirar mais merda. Isto nao pode funcionar assim por amor de nós todos, por amor da justica.

Que sistema é este, em que um inocente nunca poderá provar a sua inocencia e um culpado nunca verá a sua culpabilidade provada?

sexta-feira

A desnecessidade

Eu detesto viajar nos dias anteriores a viajar. Se vou de férias arengo-me sobre a desnecessidade de me colocar dentro de caixas-rolantes. E carpo-me em silencio, pelas horas nas bichas e as imagens a passar pela janela e a seca, a imensa seca e sair do outro lado e nao estar lá a minha casa. Ando uma semana a sofrer a viagem e durante a viagem estou tao preparada para o desastre, que tudo me parece espetacularmente bem, ótimo. Do outro lado provavelmente divirto-me terrivelmente e no dia anterior á volta começo a sofrer a necessidade que a viagem passe muito depressa para retornar a casa. A ansiedade é tanta que o sofrimento aumenta com a diminuiçao da distancia e quando finalmente chego... Nada.

quarta-feira

Os media que parece que merecemos

No Diário de Notícias "Massacre no Liceu Columbine comemora 10 anos". Prémio para a frase mais absurda dos últimos tempos.

No Público, hoje é o dia da Terra, pelo que confirmou-se o que eu suspeitava: o Público mudou-se (deve ser o "outsourcing" em reverso) para os EUA.

A Manuela Moura Guedes nao tem só uma cara com piada, também gosta de dizer piadas. A próxima vez que for à cirurgia plástica deve ser para mudar de nariz: daqueles vermelhos e redondos.

P.S.: Isto foi há uns dez anos, lembro-me que era uma Terça-feira, pois o comentador de serviço no telejornal de um canal privado era o Miguel Sousa Tavares (o meu grande ídolo da juventude). A grande notícia da altura, que foi escalpelizada com grave esmero pela Manuela Moura Guedes e a sua equipe foi o rejunevescimento da cara de uma socialite muito famosa, que agora nao me vem o nome à cabeça, mas há-de vir, que ela foi a primeira socialite de que soube o nome e estou aqui a pensar e só sei de mais uma, aquela que tem como primeiro nome o diminutivo de ancinho e o último é Jardim, pelo que a senhora combina roupas e nomes, uma vilha! O Miguelito começou a torcer-se todo enquanto a notícia passava nas suas diversas facetas e quando a Manela lhe pediu um comentário à desrugaçao da tal socialite ele quase teve um AVC! Foi das melhores cenas que eu alguma vez vi na televisao e imaginem, soube tao bem que me lembro hoje como se tivesse sido ontem. Ele recusou-se a fazer o comentário e disse algo que espremido era "tenha vergonha na cara". A Manela chateou-se e respondeu que eles mostravam o que o povo queria. Isto foi há cerca de dez anos. Agora, dos excertos que vejo dos telejornais nas minhas férias, conseguiu-se descer da retrete para o esgoto. E a Manela continua a nao ter espelhos em casa, nem vergonha na cara.

terça-feira

Planos pra minha reforma

Disse ao meu irmao para juntarmos o nosso dinheiro, comprarmos uma quinta e vivermos lá em feliz isolamento. Para minha surpresa ele concordou imediatamente, mas também começamos imediatamente a discordar nos particulares. Eu entrei disparada na decoraçao, nao fosse eu mulher, a descrever muros de 3 metros, arame farpado e caes assassinos. Ele diz que para o isolamento, basta nao haver estrada alcatroada. Homens e a sua passividade...

Porque nao?

Imagino-me com ternura. Serei uma velha saudável, porque imagino-me a matar tempo, nao a ser torturada pelo tempo. Eu e o tempo seremos inimigos, nao pelas rugas que ele me quer dar, mas por indiferença. Faremos de conta que nos ignoramos e quando eu morrer, lá para o fim da minha reforma, ele há-de sentir-me a falta.

quarta-feira

Os meus cheiros favoritos:

Ao sal do mar,
a terra molhada pela chuva de verao,
a erva cortada de fresco,
a giestas,
a morangos,
a graos de café,
à minha escola primária.

Até o cao!

É verdade, confesso, estive a ver isto: a apresentaçao do novo cao da família ?-Obama aos media americanos (agora torço o nariz, espeto-o para cima e suspiro com compenetrada gravidade, no verdadeiro estilo de superioridade europeia). Mas voltemos ao que interessa: o cao. Se repararem no filme, caso se queiram submeter a tal degradaçao de carater, é que o cao é mesmo portugues! Ele anda por ali a farejar meio maluco, como se nao conhecesse quem lhe pega na trela, de cauda esticada como antena de carro, mas basta o Barack Obama lhe tocar com o dedo mindinho e aquela cauda começa a abanar como uma hélice de aviao. Ele sabe bem a quem lamber as botas. Portugues de cauda a focinho.

terça-feira

Tweet ao fim da tarde

Estou muito chateada: roí uma unha até ao sabugo. Au!

Tweet a meio da tarde

Estou muito chateada: acabei de rasgar as calças.

Grrrrrrr

Eu por vezes acordo mal disposta, como é o caso hoje (depois de quatro dias grátis de lazer é difícil retornar ao mesmo ram-ram), e como sou uma pessoa normal, rabujo contra algo, mas como sou esquisita, arranjo temas de rabujo que eu estou consciente serem esquisitos. Hoje vinha pelo caminho (difícil continuar mal-disposta com o prato que a Primavera nos tem dado por aqui, mas eu sou teimosa) a rabujar contra a igreja católica e o papel desta na supressao da mulher durante os tempos, com a breve excepçao de quando o cristianismo começou, um movimento de esperança para todos os oprimidos e que inicialmente foi capaz de aceitar as mulheres. Felizmente, apesar de eu estar para lá da normalidade, os meus pais, segundo o último telefonema, ainda me amam.

quinta-feira

Ficou como eu gosto



Talvez deva pôr uma história nisto. Pois andava eu a deambular numa zona sem particulares atrativos, num dia ameno em que a Primavera começa a despontar (visualizar rebentos na parte superior), quando tirei uma foto. Por falar em Primavera, ela é muito melhor cá cima.

quarta-feira

A cruz política

Porque é que as pessoas nao se interessam por política? Eu acho que ninguém com sentido de retidao pode-se querer envolver em tal coisa. Sinceramente, quando eu ouço que o Durao Barroso quer ser presidente da Uniao europeia ou o Santana Lopes presidente da Camara de Lisboa e que o resto os apoia, eu só consigo sentir a política como um herpes. Uma coisa que aparece de vez em quando e a gente só queria um dia poder livrar-se disto, mas nao, sabemos que vai ser até ao fim das nossas vidas.

sexta-feira

segunda-feira

Schadenfreude.

Cala-te boca

Nesta última semana fui escrevendo largos postes, mas nao os publiquei.
Porque nao.
Podia ter sido porque sim.
Talvez eu tenha tentado poupar a estima que alguns ainda me tem. Porque num poste eu discutia a justeza da denominaçao Papa, principalmente quando contraposto a Aiatolá. Porque é que se precavem a audiencia para resguardar a tola? Haverá uma correspondencia católica? Será o Papa, um Papao de tolas? Haverá a conspiraçao do o no papa? Quem é realmente o Papa?
{aqui música tenebrosa} Noutro poste eu declarava o meu amor pelas Testemunhas de Jeová...
Noutro poste eu chamava toda a gente abébia e noutro ainda chamava toda a gente que gosta do último filme em que aparece o Clint Eastwood abébias ao quadrado e toda a gente que gostou daquela coisa com o Brad Pitt abébias ao cubo e toda a gente que acha o Slumdog Millionaire um filme espetacular, espetacularmente abébias.
Pelo meio da semana escrevi "A felicidade é um estado momentaneo de estupidez. Sim, ok, estou errada. Pode nao ser momentaneo." Pelo fim da semana escrevia isto á Helena: "Eu penso que há um influxo de temperança entre os ateus e os cristaos: os ateus limitam os ímpetos dogmáticos e os cristaos limitam os ímpetos materialistas. Se nos conseguíssemos entender acho que poderiamos vir a ser felizes juntos." Enfim... Quase parece que encontrei o Obama e o Bambi para uma bica. Acho que demonstrei a necessidade de me auto-censurar.

quarta-feira

Implicaçoes teológicas



Mensagem aos arqueólogos do futuro que estudam este presente que é passado: Eu tinha isto num canto escuro e poeirento da minha pasta de pessoais no meu computador no trabalho. Nao tenho a minima das minimas ideias de quem é.

segunda-feira

Acabar com a discriminaçao discriminando

Na UE há muita conversa sobre apoiar o igualitarismo entre os sexos e combater a discriminaçao baseado na idade, bla, bla, bla, bla....

Quando concorres a algo na UE as tres primeiras perguntas, as TRES primeiras perguntas na tua candidatura dao a tua idade e o teu sexo.

Chegando aqui eu penso que devo estar pedrada e nao estou a ver algo óbvio ou aquilo que me parece óbvio nao o é, o mundo simplesmente nao faz sentido.

Estou confusa, mas se a ideia é acabar com a discriminaçao, nao faz sentido nao fazer as perguntas que potenciam a tua discriminaçao? Quando eu fiz esta pergunta em voz alta, responderam-me que eles precisam de saber o meu sexo para fazer discriminaçao positiva. De novo: quao pedrada estou eu neste momento?

sexta-feira

o egoísmo vale a pena

há a impossibilidade de nao comunicar. de em cada movimento não se deixar transparecer o que vai por baixo da pele. sai e foge-nos como o cheiro. parece que somos nús, desamparados na incapacidade de nada dizer. até que de algum modo sabemos o que os outros pensam de nós. então sabemos que ou nao nos conhecemos ou a linguagem que emanamos é só nossa. se nao nos conhecermos seremos livros escritos em línguas mortas. em nós o egoísmo vale a pena.

terça-feira

No centro do poder alemão

Imaginem-se no planeta Siza Vieira e por entre vistas de curvas estilosas, brancos e sombras de vários tons, aconchegada num canto a que se tem de descer, encontram a cantina dos senhores deputados:



É muito gira, era só isso que eu vinha aqui adicionar.

quinta-feira

perceção

É favor seguir nesta direção para um texto que não obedece qualquer acordo ortográfico.

Notas duma odiosa

Ser portuguesa é muito difícil. Lenta e pausadamente anda-se a pastar a vida, sem grandes preocupações para lá de manter a atenção aos carros aquando da aventura do ar livre citadino, no esquecimento diário de pentear o cabelo (imaginando alegremente o calmo desespero da mãe que é minha), quando de esquinas súbitas dedos horizontais e sorrisos sabidos se nos apontam e algo como uma espécie de recorde de vergonha é-nos atirado à cara. O que é que vocês andaram a fazer?*

Ofereci o livro "Jangada de Pedra" a um colega, porque ele achou piada ao conceito. Tenho a impressão que pus demasiado enfâse (talvez tenha puxado a gravata à verdade) ao desalento dos espanhóis e dos portugueses quando se viram no mesmo barco. Vejo desapontamento no horizonte. Contudo, demonstrando que a generosidade é má política, ele falou de me dar um livro chamado (tapem os ouvidos) "Cona ácida". Parece que é feminista.

Este sábado vou a Berlim. Dá chuva. Nos últimos dias, no reino alemão, um edifício aterrou e um tiroteio espalhou-se. Vou ter que sair de casa. Está lá uma exposição sobre a vida e o trabalho de Manoel de Oliveira. Os prenúncios adensam-se.

* É claro que isto pode ser uma vingança coletiva à minha pessoa e não ter nada a ver convosco, já que a minha máxima capacidade para palear vai no sentido "Então agora proibem os autocarros ateus? O Berlusconi, digitalizar (literalmente) os ciganos, o Vaticano no meio. Não achas que a Itália se está a tornar um país fascista?" "O que é que anda a passar com os filandeses? É sempre o mosca morta com o telemóvel que se passa dos carretos." "Então pá? Que se passa lá na Grécia? Acabou o queijo de cabra?".

terça-feira

A pasmaceira diária das notícias

Achei esquisito a notícia da besteira excomunatória do bispo brasileiro só chegar agora a Portugal (ontem o José Bandeira tinha o cartune sobre o assunto. O cartune antes da notícia? Será que veio só no papel?). Na net andei a esfurancar o DN e pelo menos neste parece que hoje foi a primeira vez que isto foi relatado lá (fiz umas pesquisas no Público e nao encontrei nada, mas estou habituada a nao encontrar nada nas pesquisas no Público). Isto num país tao católico tao católico que parece só ser católico e com laços supostamente apertadinhos ao Brasil. Eu normalmente leio jornais alemaes e britanicos, pessoal menos católico e que tem a mania de querer falar espanhol comigo (os alemaes, os ingleses nem ingles sabem) e que tinham esta notícia escarrapachada em local visível há uma semana atrás. Portanto, as notícias no DN nético chegam com a mesma rapidez de há cem anos atrás.

Enfatizando

Argumentos insuficientes para o arcebispo de Olinda e Recife, José Cardoso Sobrinho, que resolveu excomungar os médicos e a mãe, que autorizou o aborto.

O pai da menina, evangélico, tinha-se mostrado contra. O padrasto, que se encontra detido e arrisca agora uma pena de 15 anos de prisão, não está abrangido: "Ele cometeu um crime enorme, mas não está incluído na excomunhão. Foi um pecado gravíssimo, mas, mais grave do que isso, sabe o que é? O aborto, eliminar uma vida inocente", enfatizou o arcebispo, que comparou o procedimento ao Holocausto.


Eu a enfatizar: Mas mais grave do que isso, sabe o que é? Violar uma criança, eliminar a inocencia de um inocente.

segunda-feira

O mundo exaspera-me

Hoje no escritório perguntaram-me pelo dia da mulher. A minha resposta foi "Hã?". Mas a certa altura achei que sim, que é um dia importante de sublinhar, pelas mulheres que sofrem injustiças terriveis pelo mundo por serem mulheres. Nisto contam-me da iraniana a quem um homem, por ter sido relegado por ela para casamento, lhe deitou ácido à cara. O caso foi a tribunal e foi julgado que ela, como tendo a importancia de metade de um homem, tinha o direito de deitar ácido num olho do homem. Ela recorreu e, grande vitória, foi julgado que afinal pode cegar o homem em ambos os olhos. Isto é considerado uma vitória para o lado da igualdade dos sexos. Eu fiquei estarrecida com toda a história e só digo uma coisinha: pessoas com mentalidade de pastores de camelos de há 4000 anos atrás, o máximo de tecnologia que deviam ser admitidos de possuir é calhaus e daqueles pequeninos.

P.S.: A Helena escreveu hoje do caso-exaspero no Brasil, que na semana passada já me teria promovido cabelos brancos, se a minha herança genética de XX nao fosse tao espetacular.

quinta-feira

A nossa sorte

Uma colega foi ver o filme "O Leitor" e disse-me que se tinha zangado imenso com ele. Porque é que ele fez o que fez durante duas décadas e tem o trabalho de arranjar trabalho e casa a ela, mas nao consegue um carinho? Eu diria que o que ele nao conseguiu foi o perdao. Talvez ele tenha conseguido um perdao, mas talvez nem esse, porque senao o que foi aquilo em Nova Iorque? Que bençao era aquela a que ele procurava? Alguém que conseguisse perdoar ou um apoio ao seu nao perdao?

Para mim, o filme está bem construído, no sentido de que nao me senti tentada a julgar. Observei o que cada um deles conseguiu alcançar e senti-me horrorizada pela cegueira dela e triste pela incapacidade dele de nao se libertar. Num mundo melhor tudo seria como nós nos imaginariamos a atuar, nós conseguiriamos ter a incapacidade dela, mas ser honestos e até sábios e nós conseguiriamos na perfeiçao fazer a escolha entre amar e perdoar ou nao perdoar e nao amar (esse amor que se fixou naquela decisao, que nem será amor, o que é um amor fixado?). E no entanto, no entanto, quantos erros pequenos que fizemos esquecemos, qual a nossa sorte de nao termos enfrentado tragédias a sério, em que o esquecimento nao é possível? A nossa sorte de nao termos encontrado as encruzilhadas que nos conduzem a lugares de que nao é possível retornar?

domingo

Nota muito positiva {conclui-se que nao é bem assim}

Porque eu nao quero dar uma negativa sem uma positiva, porque acho que os alemaes o merecem, quero aqui deixar a positiva. Na generalidade, os alemaes gostam das situaçoes claras, se lhes emprestamos dinheiro fica muito claro quando pagam de volta e fazem-no com um brio que espanta, definem claramente direitos e deveres, sao diretos e frontais e aceitam que o sejamos de volta. Nunca me aconteceu na Alemanha, o que me acontece em Portugal, que é eu fazer uma critica em trabalho e as pessoas ficarem pessoalmente ofendidas. Aquele rancor que cresce, mas que nao admitem, esta coisa de portugues que a mim me poe doente: o cortar na casaca e a critica mastigada. Isto, graças a uma verdade que eu admiro sem reservas, isto nunca me aconteceu na Alemanha.

P.S.:"Blogger Rita Maria disse...

Eu gosto da Alemanha e gosto até muito dos alemaes, mas sim, as pessoas aqui chateiam-se com críticas e vao fazer críticas ao teu trabalho directamente à gerência, sem pensar sequer que tepodiam apontar primeiro os erros a ti....nao sao nem directas, nem solidárias e eu sou boa pessoa, juro.

O que vale é que a gerência gosta de mim...

6/Mar/2009 10:51:00

Blogger abrunho disse...

Fiz uma sondagem entre os meus colegas alemaes e ficou concluido que eu é que nao percebo alemao. :)

9/Mar/2009 22:53:00"

Eu tentei ser positiva, eu tentei...

O direito da escolha

Na Alemanha, quando as crianças tem 10-11 anos, sao escolhidas em termos de potencial, tu tens cabeça para estudar, tu mais pra pedreiro, tu rato de repartiçao e ali sao dirigidas para os futuros que lhes foram decididos almejar. Notem bem, aos 10-11 anos. Eu nessa idade nao tinha a menor ideia de um futuro, vivia na alegria infantil da brincadeira, nao me passava pela ideia ser uma estudante boa, os meus pais nao me pressionavam e se alguém me tivesse dito que eu era boa, no máximo, para cozinheira, eu tinha acreditado. Na Alemanha, se os pais nao estao lá para proteger as suas crianças do Estado, estas estao basicamente lixadas.

Assim, na Alemanha, o Estado processa eficientemente engenharia social. E quando eu vocifero contra isto, os alemaes ficam surpreendidos que eu ache mal. Eu dou-lhes o meu exemplo, o que seria eu na Alemanha com as minhas raizes? E eles respondem que seria cozinheira, mas acrescentam que eu seria feliz. Talvez, talvez eu fosse feliz, quem sabe, como podem eles saber dessa eficiente definiçao aos 11 anos de idade? Mas ainda que fosse verdade, essa felicidade certa prescrita por outros aos meus onze anos de idade, eu sinceramente prefiro um mundo em que eu tenha a possibilidade de escolher a minha própria (in)felicidade. Para mim este é um direito básico de qualquer ser-humano.

P.S.: Eu elimino o meu anterior post-scriptum porque é capaz de ser demasiadamente mauzinho. A Helena acha que isto é uma forma de organização civil. Eu desconfio de uma organização civil que passa pelo Estado.

quinta-feira

O leitor, the reader, der Vorleser

Vi um dos filmes mais tristes da minha vida. Sem tréguas, há filmes tristes, mas este era uma continuidade e se nao estivesse plantada no meio do cinema tinha-me levantado e dito, nao consigo, tanta tristeza eu nao consigo. Mas fiquei e sobrevivi.

Agora que o vi, surpreende-me que das recensoes que li antes do filme ninguem viu o mesmo filme que eu. Li mais umas depois do filme e parece que há um filme que só eu vi, só meu, só eu senti o que senti, só eu. Um filme muito triste só meu.

segunda-feira

O fenómeno do anulamento de uma pessoa

Uma amiga de visita. Está grávida de uma menina. No Natal não lhe deram nada para ela, só coisas cor-de-rosa.

quinta-feira

Sugestão: meter a estupidez no armário

Estou entediada com a discussão do casamento dos homossexuais. Eu queria estar confortavelmente entediada, mas não é possível. Os argumentos do pessoal contra é de tal maneira ofensivo, desrespeitoso, daquele desrespeitoso que faz úlceras no estomago, que não consigo em boa consciência virar a página e dizer "chiça, essas flores só se queixam."

Seus energúmenos encapuçados de pessoas de boas famílias: ISTO NEM DEVIA SER DISCUTIDO, ESTA DISCUSSÃO PÁRA NUM ESTADO COM DIREITOS IGUAIS PARA TODOS, E O CASAMENTO CIVIL DÁ DIREITOS IMPORTANTES QUE É OPÇÃO DE QUALQUER UM QUERER OU NÃO, SEM TER QUE SE JUSTIFICAR (repito CIVIL, no mundo das saias pretas eu não me meto, como gostaria que esse mundo deixasse O MEU MUNDO em paz). PÁREM DE INVENTAR O QUE FOI O CASAMENTO (leiam livros, suas ignorâncias) E PÁREM DE QUERER PARAR O MUNDO NUM LOCAL QUALQUER DA IDADE MÉDIA (que tal O FUTURO?), PÁREM DE MISTURAR E CONFUNDIR (e.g. e isto já foi dito até ao vómito, a adopção é independente do casamento! já viram como funciona a adopção? já viram que um homossexual já pode adoptar? duuuuhhh) PÁREM DE CONDESCENDÊNCIAS (que é basicamente a capacidade de ao mesmo tempo cuspir e beijar (n)uma pessoa, o que eu acho NOJENTO) E PÁREM DE DIZER QUE HÁ PRIORIDADES COMO A CRISE! SÃO VOCÊS QUE ARRASTAM ISTO E SE PARAREM DE ESPALHAR TUDO O QUE VOS PASSA PELA CABEÇA NO QUE VOS PARECE ARGUMENTAÇÃO, TALVEZ ISTO JÁ PUDESSE ESTAR RESOLVIDO. Eu estou tensa e a culpa não é d@s florzinhas!

p.s.: ligação a texto exemplo do estilo anti-flor.

quarta-feira

Lições do museu de arte antiga

Estive no museu de arte antiga de Lisboa há uns dias e agora em insónia estou a imaginar a cena em que colocaram as tabuletazinhas junto aos pratos a dizer "pratos" e quando digo pratos digo outros inúmeros objetos. O único possível intuito que contém alguma inteligência é que os museus portugueses são na verdade locais para os estrangeiros aprenderem português.

Tenho a certeza que não houve um único vizinho do Sebastião que tenha dito aos jornalistas que ele parecia tão calmo e nunca se pensaria que ele pudesse fazer aquilo. Ele foi o caso impar do obviamente alucinado. No museu decidiram dar-lhe mais interessantes companhias: o mancebo giro de que ninguém sabe o nome e que lá deve ter morrido por causa do alucinado e o incrível retrato da freira com buço. Eu digo incrível porque pertence aos poucos retratos em que me fico a imaginar quem seria a pessoa. Não me apeteceu conhecer a mona lisa como queria saber daquela mulher. Para dizer a verdade, se visse a lisa na rua, eu resmungaria para a minha companhia, "olha prá pindérica, armada em boa."

O Nuno Gonçalves não gostava de ler, mas tinha uma panca esquisita por botões, cintos e malhas. Os livros são umas coisas baças em comparação. Obviamente, o Nuno adorava acessórios (piscar de olho entendido). Já ouvi falar por experiência própria de meias desemparelhadas, mas que ideia foi a da senhora de sair de casa com mangas diferentes?

Finalmente, daria toda a minha fortuna para ter um biombo niamba ou como se chama. Sabem aqueles em que parece que os portugueses e os seus escravos foram passear para o Carnaval enquanto os japoneses espreitam? E os portugueses são pintados narigudos porque foi uma proeminência que espantou os asiáticos e eu andei a palminhar cada figurinha para ver se algum estava a escarrar para o chão ou a mijar nalgum canto. Os japoneses foram incrivelmente simpáticos para os portugueses. Ou seria demais nojento para um biombo?

segunda-feira

Da lua nao há diferença

Amanha vou a Lisboa, que é aquela cidade estrangeira de que me perguntam pertença quando sabem que sou portuguesa. É um pouco cansativo. Mas o pessoal nao desiste, tentando saber com exatidao de onde venho e eu digo que sou do Norte, mas que em Portugal, o Norte é muito perto do Sul.

sexta-feira

Será que estes jornalistas algum dia param a pensar: "que faço no mundo?"

Uma pessoa abre o jornal e extasia no quanto se pode fazer com nada.

quinta-feira

Intermezzo

As pessoas perguntam: então onde andas? Eu? Eu ando a tentar ser feliz como os lobos. Se não percebem, não conhecem lobos. E não, não vou ensinar como são os lobos. Nem vale a pena pedir. Não.

sexta-feira

Oh D. Policarpo

Eu pessoalmente nao dou o ponto de um chavelho para o que um cardeal diz, mas como o gangue blogosférico em que ando fala destas coisas acabei por saber. Do que apanhei no meu desinteresse, sou capaz de estar ali com o Joao. Isto tem piada, porque estes assuntos afastam e nao aproximam, mas eu e o Joao discordamos de tudo, excepto nos assuntos fraturantes. Quanto ao fenómeno de alguém dizer algo e as pessoas resolverem ver no que digo o que elas pensam, pois D. Policarpo, compreendo-o completamente. Veja com olhos de ver o que me aconteceu nesta caixa de comentários. Escrevi uma frase, uma frase que á primeira vista daria para pouco e só esta frase mereceu-me liçoes (sabia que um muçulmano podia ser louro, ter olhos azuis e ser mais europeu que eu? Pois pode e isso até eu já tive visualizaçao comprovatória, ah, pois, imagine que eu já vi muçulmanos e falei com eles. Nao me custa acreditar que um muçulmano possa ser mais europeu que eu, mas a minha frase era sobre aqueles (muçulmanos ou nao) que tem laços essenciais para eles num país em que aquelas leis, que se pensarmos bem e comparativamente nos fazem muito bem á vida, nao existem. Mas a minha frase nao interessa, interessa todo um universo construído sobre a minha frase que nao é dominio meu. Já agora, sobre muçulmano ser só sobre religiao, aconselharia a ensinarem isso a pessoal que se reve como muçulmano para lá da religiao. Eles se calhar iam gostar de saber que estao enganados. O que eu gosto é que me preguem liçoes sobre generalizaçoes e nao generalizar e na liçao dizem-me que a generalizaçao de muçulmano é ser só sobre religiao, o que nao se enquadra com a realidade de como vários muçulmanos se sentem. Deve ser a pincelada humorística.). Pergunto-lhe, voce é cardeal, mas eu, que fiz eu a Deus para merecer isto?

quinta-feira

my grand plan

Esclarecimento

Em Portugal, quem emigra é porque foi obrigado. Ninguém deixaria Portugal se Portugal nao fosse Portugal. Há aqui um amor-ódio, a ideia de que nao poderiamos partir (amor), mas temos de partir escorraçados por um lugar que nao nos merece (ódio). A minha emigraçao nao se enquadra nisto. O motivo porque parti compreende-se facilmente. Sentem-se á frente de um mapa-mundo. Observem. O que veem? Terra que nao é Portugal para onde se pode ir. Foi só isto e nada mais. Nenhum grande plano, nenhum desejo de conquista, nenhum amor ou ódio, somente o movimento de um corpo para fora de umas linhas traçadas. A minha vida nao melhorou, nao vim ganhar mais dinheiro, nao fiz nada mais importante. Mas aprendi o quao o vosso amor-ódio é desarrazoado.

quarta-feira

Apenas

Lembro-me de um artigo qualquer num jornal israelita em que se falava num inquérito na Europa sobre, imagino que chamassem o confronto israelito-palestiniano, mas sejamos francos, a ocupação israelita, e a maior parte do pessoal dizia-se farto. Eu que não respondi ao inquérito, declaro-me pertencente. Construam um muro a toda a volta, coloquem uma tampa e espreitemos daqui a dez anos a verificar se há viventes. E no entanto, numa parte de mim que estremece à vista da injustiça, tremo cada vez que leio os palestinianos defraudados da sua humanidade e sempre, para todo o sempre transformados em símbolos. São símbolos de tudo por todos nunca em benefício próprio. Serão sempre apenas símbolos, meios para chegar a algum lado e esse lado pode ser extremamente vazio, como para a Helena Matos escrever a sua crónica semanal, enquanto eles morrem, sobre, grande furo, os "insurgentes de sofá"! Portanto além dos media não reverem fontes também ficamos a saber que para cronistas têm os espirituosos do teclado. Só que a Helena Matos quer ser MEC com a tragédia.

Aos palestinianos seja Deus a dar redenção por cada vez que foram usados e terão o paraíso só pra eles. Que seja Deus, porque aqui em baixo discute-se que o desespero não é desculpa. Viver numa prisão não é desculpa. Viver com o arbítrio dos prepotentes não vale. Viver os dias a paredes meias com a injustiça não é argumento. O mundo só promete a benção em caso de paciência de santo, senão mesmo divina. Votar mal? Sem opções na política? Isso é para nós que discutimos a falta de opções na escolha. Para os palestinianos não há desculpas para defraudarem a democracia ou as nossas expectativas na democracia deles. Sejam apenas o que nos der jeito que sejam. Haverá melhor palavra para os palestinianos? Apenas. Só não são símbolos para o governo israelita que tem que ser pragmático na resolução do problema da sua existência. Para esses, os palestinianos ainda não são o que deveriam ser: apenas pó.

A única coisa que todos, mas todos, pedem aos palestinianos é que sejam mártires. Deste lado da cristandade quer-se o martírio de jesus, de gandi, de tianamen. Haverá algo mais admirável que o martírio dos outros? Voltem a face, deitem-se debaixo dos tanques, encarem as pedradas e os escarros, deixem-se morrer. Infelizmente para o nosso lado, há o outro lado, que não se importa de os ver mortos, mas um martírio mais abrangente, que leve daqui vítimas e algozes numa cajadada só. A única opção para um palestiniano é a morte. Há consenso universal: um bom palestiniano está morto.

Entre o consenso e a impotencia, pergunto-me, porque entre, vai em quantos, 900 mortos, temos de passar pelas crónicas míseras? Na aldeia em que cresci, pelo menos no dia dos enterros, as comadres escondem-se. Nao seria possível o último respeito? Nem na morte? Estou farta, farta, farta até à pontinha da minha capacidade humana para os jornais e os seus cronistas. E se me vierem dizer que precisamos dos cronistas para sabermos que o Hamas se aproveita da situaçao, isso é como dizer que precisamos das comadres para resolver crimes.

sexta-feira

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Apenas

Andava no Público a procurar o MEC e vejo este chamariz de crónica da Helena Matos:

"No dia em que escrevo, quarta-feira, confirma-se que mais uma vez uma cadeia de televisão europeia, a France 2, transmitiu imagens falsas numa reportagem que dedicou ao ataque israelita a Gaza. Crianças mortas e uma casa destruída ilustravam os efeitos dramáticos entre os civis palestinianos dos bombardeamentos efectuados pelo exército de Israel.
Poucas horas após a emissão da reportagem concluía-se que destas imagens apenas os cadáveres e o prédio destruído não foram ficcionados."

Fui logo ao Blasfémias para ver o que tinha sido ficcionado (não achei). Crianças feridas, peluches semeados pelos escombros, mulheres pagas para carpir? Afinal, o resto são apenas crianças mortas. Apenas. Apenas? Desculpe, APENAS?

quinta-feira

Voces ser esquisitos

Os portugueses adoram os seus telemóveis. Um dia hao de nascer já com telemovel incorporado e este com muitas capacidades. Podem-se ver filmes nos telemóveis. Nao consigo imaginar que alguém queira ver um filme num telemóvel, mas presumo que sim, coisas mais estranhas acontecem. Quando o bébé nascer, em vez de perguntarmos se é menina ou menino, pergunta-se pelo telemóvel, em vez de perguntarmos pela saúde, pergunta-se se tem rede. O meu telemóvel velhinho, que nem pode tirar fotos, que é uma daquelas coisas que já nem se pergunta se pode, nao me preparou para o linguajar técnico que os portugueses tem para descrever os seus telemóveis com ar de mini-televisao. No autocarro soube de coisas muito privadas em conversas de horas. Poderia ter posto os tampoes nos ouvidos, mas estava perplexa com o desnudamento e com a minha aparente invisibilidade e pouca importancia. No metro, um rapaz fazia chamadas umas sobre as outras, caminhando pela carruagem, saltitando pelos bancos, nos intervalos das chamadas parecia perdido. A minha sobrinha, que dormiu no meu quarto, deitava um alo para o escuro do meu sono enquanto, presumo, mandava mensagens. Havia telemóveis pelos móveis, entre os pratos á hora das refeiçoes, a mascararem-se de comandos. Na véspera de Natal, fiquei a falar prá parede enquanto quase todos os meus familiares que sao todos portugueses se afadigavam a responder ás boas festas. Ei, pessoal, vim da Alemanha para falar convosco. Nao, desculpa, temos de responder, nao, eram obrigados a responder, disseram-me, senao profundas rupturas sociais gerar-se-iam e imagino eu, no dia seguinte um vazio instalar-se-ia e ninguem jamais comunicaria. O desastre seria que talvez nao fosse mais preciso usar o telemóvel. Talvez devesse ter ficado na Alemanha, ligado o meu telemóvel e mandado mensagens. Isto se eu ainda fosse portuguesa, mas consigo ainda pensar o mundo sem telemóvel.

quarta-feira

Promete

Li na National Geographic uma coisa fascinante, de que estão vivas hoje mais pessoas do que todas as que morreram em toda a história da humanidade. Por outras palavras, se todos quisessem fazer Hamlet ao mesmo tempo, não o poderiam, pois não haveria suficiente nr. de crânios!

Em Extremely Loud & Incredibly Close de Jonathan Safran Foer


Tradução minha

gents and madams, deêm-me algo digno de admiração

Estive a ver as fotografias da India e reparei que o que mais me impressionou foi a relação dos hindus com os seus templos. Eu situo-me em terreno movediço. Sou agnóstica, mas fui criada católica e assim, entendo melhor o sagrado de uma igreja do que o sagrado de um templo. Mas não vi nada de sagrado nos templos hindus. Nao vi qualquer intento de colocar a religião num nível acima do mundo terreno, de ultrapassar os limites humanos, de ser mais e melhor. O templo hindu é uma extensão da vida terrena. Continua a ser, como o resto, um local sujo, barulhento, caótico, um local com tudo o que é indiano e humano e ordinário, um local onde se fazem piqueniques, se põe a roupa a secar e se faz negócio. No início pensei que seria uma limitação minha, da minha origem cristã. Quantas vezes me veio à ideia Jesus a expulsar os comerciantes do templo? Mas agora não estou tão certa. Não é do meu passado religioso o meu desprezo por uma religião extremamente utilitária. Se uma religião não tem caminho para um ideal, não sei por que ponta lhe pegar...

terça-feira

Israel e Palestina

Um cão ladra e o homem caminha até ao cão preso a uma árvore e dá-lhe um pontapé. O cão gane e o homem pontapeia, o cão guincha e o homem pontapeia, o cão morde e o homem pontapeia, o cão morde e o homem pontapeia e o cão morde e o homem pontapeia e o cão morde e o homem pontapeia e o cão... Quem vê diz: "Maldito cão que nunca mais se deita a morrer."

segunda-feira

Voces ser esquisitos

Vou-vos ser sincera. Eu fico estarrecida quando vou a Portugal com a vossa simpatia. É anormal! É como se houvesse um concurso qualquer e o mais simpático ganhasse a lotaria. Basta estar um minuto a olhar com ar de parvo para uma máquina qualquer e lá está alguém a explicar-te o funcionamento da geringonça. Perguntas pelo nome de uma rua e acompanham-te á rua para terem a certeza que nao te perdes. Pequenas conversas crescem por aqui e ali, sorrisos envergonhados e eu pasmo com essa espécie de pequeno paraíso em que todos gostam uns dos outros. Claro que me vejo obrigada a corresponder e acabo por sentir algo estranho como, sei lá, harmonia no mundo. Depois venho para a Alemanha e apetece-me dar-lhes pontapés, por serem assim, gélidos e tristes. E fico eu triste que eu nao possa parar numa qualquer esquina, por um ar perdido por um minuto, e vir alguém salvar-me. Aqui os salvamentos sao raros, a nao ser que estejas num edificio em chamas. Aqui os salvadores sao profissionais e ganham dinheiro por isso.

A minha primeira descoberta

Já é dia 5?

A minha segunda ideia de 2009

Esteticamente falando os noves sao bonitos, mas pessoalmente acho que têm a mania.

A minha primeira ideia de 2009

Ouvi dizer que uma prova de inteligencia é nao cometer o mesmo erro duas vezes (eu concordo). As passagens de ano demonstram a estupidez generalizada e vergonhosamente recalcitrante. Tenho dito.

A perenidade

Para o Vaticano, pois, a possibilidade de acabar no mundo inteiro com a criminalização da homossexualidade levaria necessariamente à pressão para a aprovação dos casamentos homossexuais no mundo inteiro. E, portanto, a única forma de impedir que esse horror – a universalização do casamento homossexual – suceda é continuar a perseguir os homossexuais no maior número de países possível.

A primeira brecha na minha religiosidade foi quando soube da Inquisiçao. Visto daqui, os sentimentos que me submergiram na altura só poderiam ter aquela intensidade de terramoto porque era muito nova e muito crédula e muito ingénua. Era adolescente, o mundo era feito de preto e branco e eu nao entendia a possibilidade de me associar a uma instituiçao que perpretou aquilo. A minha mae dizia-me que tinha sido há muitos anos, imensos, as coisas tinham mudado. Apesar de a acreditar, eu nao consegui reaver o antes, como se tivesse comido uma espécie de maça.

Contudo, a minha mae está errada.

domingo

Professores

Daqui:

Eric Hanushek, um economista em Staford, estima que os alunos de um mau professor aprendem, em média, num ano escolar, o que valeria metade do programa. Os alunos nas classes de um professor excelente aprendem o valor de um programa e meio. A diferença corresponde ao que seria suposto aprender num ano inteiro. Os efeitos dos professores sobre a aprendizagem dos alunos são enormes quando comparados com os efeitos da escola: a sua criança está melhor numa escola "má" com um professor excelente do que numa escola excelente com um mau professor. A qualidade do professor é também mais importante do que o tamanho das turmas. Seria necessário diminuir o tamanho de uma turma média quase em metade para obter os mesmos efeitos de mudar de um professor com um desempenho médio para um professor no percentil 85. Lembrem-se que um bom professor custa o mesmo que um professor médio, mas cortar o tamanho das turmas para metade implica construir o dobro das salas de aula e contratar o dobro dos professores.

(...)

Thomas J. Kane, um economista na Escola de Educação de Harvard, Douglas Staiger, um economista em Dartmouth e Robert Gordon, analista de políticas sociais no Centro para o Progresso Americano [Center for American Progress] investigaram se ajuda ao desempenho de um professor obter a certificação profissional ou um mestrado. Ambos são processos demorados e caros que quase todos os empregadores esperam que os professores obtenham. Nenhum tem qualquer impacto dentro da sala de aula. Elementos que parecem relacionados com a aptidão de ensinar, como o valor das notas, pós-licenciaturas, certificados, parecem tão úteis em avaliar a qualidade de um professor como avaliar o valor de alguém como futebolista observando-o a pontapear uma bola no ar [no texto faz-se uma comparação com o futebol americano, o que não é episódico. Todo o texto é baseado numa comparação entre as dificuldades de contratar os melhores professores com o contratar os melhores "quarterback".]


Gostei imenso do texto em questão. No universo dos EUA, põe-se em questão o sistema de lá, que baseia a contratação dos professores em virtudes académicas, em vez de no que se passa dentro das salas de aula. O mesmo que em Portugal, que agora introduziu a oportunidade de avaliar os professores. Contudo, para meu espanto, li no jornal que os professores podem escolher se querem ser observados nas classes de aulas (!) e não vão ser consideradas as notas dos alunos (!). Se em termos absolutos é entendível que não se considerem as notas, em termos relativos não se percebe. Tirando o desempenho dentro da sala de aula e os resultados, afinal vai-se avaliar o quê? Pontualidade? O número de fotocópias? A cereja no bolo: os professores vão ser avaliados por colegas da própria escola. Adiante, militante.

sábado

Fezada

Continuando...

Estive este dia a tentar lembrar-me do que descobre a dona morte no seu íntimo no livro do Saramago "Intermitencias da Morte", mas nao consigo. Sei que é interessantíssimo, talvez tivesse podido incluí-la neste poste, mas já concluí que quando estiver brevemente em Portugal há uma amiga que visitarei.

Primeiro, ser racional para mim nao significa ser compreensível à luz das fraquezas humanas. A razao supostamente está um pouco acima da emoçao. Para um agnóstico o medo da morte é um desperdício, para um ateísta é ter medo de nada, para um religioso poderá ter fundamento dependendo do tipo de deus que estao à espera do outro lado. Os velhotes que eu conheço sao católicos e supostamente o lado de lá é melhor que este e deus é um tipo porreiro que gosta de perdoar à direita e à esquerda, desde que o pessoal se arrependa. Ou seja, basta nao fazer asneiras, o que sendo eles velhos e já limitados nao deve ser assim um enorme desafio, e focarem-se no arrependimento e está feito. O que eu acho é que este pessoal tem uma fé muito rota.

As pessoas querem viver porque é algo inato. Mesmo quem quer muito morrer tem que lutar enormemente contra essa força do corpo que nao quer morrer nem por nada. O instinto é algo com muita força.

O mundo natural provavelmente nunca nos mostrará tudo o que é. Haverá limites, mas serao os limites humanos. Eu pessoalmente acho o conhecimento do mundo natural a coisinha mais interessante deste mundo. Contudo, se o que eu teria para saber pode estar limitado, tenho a certeza absoluta que a minha paciencia com a espécie humana (incluo-me a mim) nao é de forma alguma ilimitada. Acho que sem morte, o meu destino seria a loucura.

sexta-feira

Necessidades

A música que vibra pelo quarto é básica, ridícula se presto atenção à letra, inepta até à lágrima, desavergonhada de incompetente, mas de rabiosque a dar a dar, consegue suprir as necessidades de exuberância, num mundo um pouco cinzento. Para lá do sublime, necessito do medíocre.

quinta-feira

A morte e mais além

Acho interessante esta espécie de Emilie Poulain-ismo acerca da espécie humana. Contudo, eu contraponho que as pessoas não criam, as pessoas recriam. Assim, nao há-de haver ninguém, por mais entusiasta da espécie humana, que nao se chateie em algum ponto da imortalidade. Eu que sou realista e pró cínico, quero morrer (concordo com o irmao naquele texto que deu origem ao meu poste que deu origem àquele poste da snowgaze que está a dar origem a esta resposta, que dizia que o medo da morte é irracional). Contudo, não me importava de ressuscitar daqui a uns tempos para ver o que é que afinal aconteceu no longo filme humano: afinal houve a terceira guerra mundial? afinal bangladesh afogou-se? afinal é só paz e amor entre as naçoes? acabou o racismo? os homens dao á luz? serao todos castanhos e iguais? mad max? deus apareceu?

terça-feira

Liçoes de vida

Os meus pais na sua senda de criação deixaram as crias à sua sorte. Lembro-me dos meus amigos a irem pra casa muito aflitos que tinham de estudar para o teste do dia seguinte senão os pais isto e aquilo, e castigo e sermão e semanada cortada. Eu ficava sozinha, sem perceber porque é que os meus pais não me coagiam a estudar. Ali estava eu sem companheiros de brincadeira e sem castigos, sem sermoes, sem semanadas. Mas deixava a coisa pra lá e ia pra casa ver televisão. Um dia, depois de ouvir relatos sobre prémios de passagem de ano, lambretas e assim, resolvi finalmente impor-me. Eu ali a passar de ano todos os anos, sem lhes chatear a cabeça, nunca, nunca, nunca, onde estava o meu prémio de passagem? Ãh? O meu pai virou-se pra mim depois da minha exposição, que achei briiiiiiiilhante, e perguntou-me "Pra quem estás a trabalhar? Não é pra ti?". Não tive resposta e aprendi ali que o meu pai era menos brutinho do que parecia.

segunda-feira

A posteridade e mais além

O Alexandre III da Macedónia morreu com 32 anos e 11 meses, tendo conquistado o mundo conhecido a leste do seu reino com meio-nome de salada de Verão. Eu? Eu nao consigo ver sangue. Portanto vai ser mais Harvey Milk. Aos quarenta terei que me associar a um grupo injustificadamente odiado e colocar-me em posiçao de ser assassinada (rápido) e ficar mártir de algo. Ahhh, fixe, ainda tenho algum tempo.

sábado

Boa frase

"Imagine life without death," Jules Renard wrote. "Every day you would want to kill yourself."

Imagine a vida sem morte. Todos os dias, cada dia, iria querer-se matar.

ou

Imagine a vida sem morte. Todos os dias o desejo da morte.

Imagine a vida sem morte. A vida seria como aqueles sítios que nunca visitamos porque estão perto e um dia quando houver tempo passamos lá.

sexta-feira

Inoperancia

Nao, nao vao haver mais adiamentos, tenho, que tenho, dizem-me, de encontrar interesses visiveis, tangiveis, tocáveis, tenho de sair deste mundo abstrato em que vivo. Portantos, assim encostada á parede, visitei o meu quarto e entre todas as coisas tangíveis que nao acabei, deitei-me a sonhar. Isto foi há uns meses.

quarta-feira

Do vidroPara lá

Há uma imagem que recorrentemente me vem á cabeça que é o ato de eu colocar a mao sobre uma janela. Penso que é a minha maneira de assinalar aquele sentimento inultrapassável de estar desligada do resto do mundo. De haver uma barreira que sinto amiga e inimiga conforme os dias, mas a maior parte dos dias é uma alegoria para o meu sentir da minha vida em relaçao á vida dos outros e vice-versa. Quando na minha família tiram conclusoes sobre mim, sempre senti uma mistura de desapontamento e contentamento quando eles erram na minha própria ideia de mim e coro de humilhaçao e contentamento quando me apanham corretamente. Raramente componho ou reafirmo e fico chateada comigo quando caio nessa esparrela de me explicar. É como uma experiencia que deixo a correr a ver de que forma a imagem que têm de mim se afasta da minha imagem de mim. Enquanto isso tento descobrir a verdadeira eu, que está algures e nos momentos de maior frustraçao penso se nao estarei além, para lá do vidro.