domingo

Portanto, porque gosto tanto de Edward Hopper

Posso comecar pela simplicidade. Edward Hopper só pintava o estritamente necessário. Se repararem ele pintava os postes de eletricidade, mas nao os cabos. Vao lá ver, eu espero... O pintor do primeiro quadro que eu mostro (abaixo, num poste já ali abaixo) chamava-se John Sloan e se mirarem os seus quadros, é o arraial minhoto: é os prédios, é as roupas, é gatos a aparecerem em todas as esquinas, uma cena à esquerda, mais uma cara noutro lado. Eu espero outra vez...

Em segundo, há método em Hopper. Ele pintava quietude com horizontais e movimento com diagonais. Se repararem no quadro que eu pus abaixo, a diagonal é o braco da menina e, nao sei como é com voces, mas eu fico completamente fixada naquele braco. O quadro do Sloan é aquela roupa no estendal. E depois? Que me interessa a mim um monte de roupa no estendal? Mas aquela jovem, nao posso deixar de me interessar pelo que ela estará ali a fazer. Vai sair? Estar-se-á a preparar para a noite ou para o trabalho? Isto também se deve aqueles verticais, aquela porta que a enquadra, aquele relógio, os contrastes de cores (reparem as cores em Hopper, sao essenciais, trabalha com cores primárias e as suas oposicoes, como o vermelho com o verde) e o voyeurismo. A cena do Sloan é banal, as cores que usa normalmente sao uns pastéis entediantes e o que salta no quadro abaixo é o branco da roupa e roupa a secar deverá estar nos anais do NAO-INTERESSANTE. Além disso, nao há qualquer frisson no facto de estarmos a ver aquela mulher a estender roupa. O máximo que a minha imaginacao consegue fazer com aquilo é perguntar-se "onde está o cesto da roupa"? Isto é de por um hiper-activo a dormir.

Em terceiro, ele cria uma atmosfera nos seus quadros, como se algo estivesse para acontecer. Estamos num prestes, como no inicio de um filme de Hitchcock. Isto é um convite à imaginacao. Depois, Hopper pinta de maneira a que nós nos sentimos parte do quadro. Eu estou com aquela jovem. Ela nao sabe, mas eu estou ali a observa-la e sinto-me um pouco desconfortável por a estar a espiar. Mas eu quero saber quem ela é. A mulher a estender roupa? Naaaahhh.

O Hopper quando comecava a pintar já sabia como o quadro ia acabar. Já tinha planeado as cores, os contrastes, as linhas e as perspectivas. Ele já sabia o que queria provocar no observador. Os artistas que eu gosto sao sempre assim: pensam antes e trabalham muito, o que, para mim, poe em questao o géniozinho que por mero acaso é original. Eu de vez em quando visito um tipo que pinta. Os quadros sao horriveis (nunca lho disse). Penso que quando consegue algo minimamente de interesse, é por acaso. Ele simplesmente comeca a pintar. Vai espetando coisas pra lá, muda de ideias e o quadro acaba por ser camadas caoticas de tinta sobre tinta. Nao percebo quando é que ele decide que terminou. Para mim está tao horrivel como antes. Eu sempre me disse que eu nao percebo de arte. Mas será que quando um pintor é bom, mesmo que uma pessoa nao seja especialista, acaba por saber da qualidade, porque a arte diz-lhe algo. O nao especialista nao sabe porque, mas se observar, reconhece. Eu penso que precisamos de observar primeiro bastante, mas a certa altura ganha-se um sexto sentido, um certo gosto. Deve ser um pouco como aprender uma língua como um bébé. Nao se sabe a gramática, mas sabe-se falar.

Uma vez fui a um exame de pianistas na academia de música de Hamburgo. Eu nao percebo nada de musica, mas soube qual é que gostei ou nao. Os musicos com quem fui ficaram muito excitados, porque parece que eles concordavam comigo. Claro que eles explicavam tudo com muita tecnica, eu só gostei, gostei, sem saber porque, mas gostei. Tem piada, nao tem? Por vezes, é só uma questao de relaxar e nos deixarmos ir. Se formos é porque valeu a pena.

terça-feira

Há dias em que me apetece morrer

por favor, nao comentar, agora nao tenho tempo.

segunda-feira

Que bonito: Israel a aprender com os vizinhos

Os escandinavos estao sempre a meter-se nestes assados. Será a auto-censura, no resto desta Europa tao bem comportadinha? Ou serao os israelitas anti-louro-platinado?

Adenda a 28.08.09: E depois do governo israelita confundir o jornalismo feito num país com o governo político desse país (como os seus vizinhos retrógados fazem), o jornalismo de Israel mostra que a esperanca de Israel está longe do seu governo político, mas perto do seu jornalismo (ou que, pelo menos, há liberdade de imprensa e gente com juízo):

Swedish article on organ harvesting was cheap and harmful journalism

Excerto: "Serious journalism's task is to document, investigate and prove - not to call on others to investigate, as the Swedish tabloid did. One may, for example, accuse the Swedish reporter of a crime, writing that he rapes little boys or girls, all based on suspicions and rumors, and call on the Swedish police to investigate. That's what the reporter did with his claims of trafficking in Palestinian organs."

terça-feira

A graca

Nao há duvida alguma que eu gosto mais do segundo quadro que do primeiro. Nao percebi a razao, até Domingo, quando fui ver uma exposicao sobre Edward Hopper no contexto dos seus contemporaneos. Edward Hopper fez quadros de que me é impossivel nao parar e observar. Há ali algo que chama, que pede e exige atencao. Porque? Na exposicao era possivel comparar e tentar perceber o que havia num e nao noutro. Depois, se me apetecer, conto.


Suicídio das pintarolas

A cada passada vi uma joaninha espalmada no chão. Porquê, meu deus, porquê? Logo hoje que o Biedermann ganhou!

P.S.: tou suada

P.S.2: hoje elas continuam a descer ao chao e a serem calcadas. O que é isto? Época de acasalamento e só podem foder no chao?

P.S.3: tou feliz

jaaaaaaaaaaaaaaaaaaavol!

Paul Biedermann ganhou algo na água ao Michael Phelps. E o meu título: foi o grito na rádio. Espero que nao hajam apitos na rua...

P.S.: tou entediada

P.S.2: diz o Phelps que foi a roupa, que foi batota do Biedermann. Até parece que ele nada de cuecas!

P.S.3: tou feliz

sexta-feira

decidido



Esperemos que a minha semi-nova vida nao seja mesmo montanha abaixo. Aparte: este desporto é absolutamente alucinante, nao é?

Para ser mais clara: eu decidi nao ir pra Noruega. Eu decidi ir prá Suica. Entre o petróleo e o banco, escolhi o último. Entre os de sangue frio e os trafulhitas, escolhi os últimos.

quinta-feira

Coisas fantásticas

Nas minhas últimas andancas comprei no aeroporto o livro "The undercover economist" de um homem que nao me lembra o nome. No inicio comecei a desapontar-me, pois na contra-capa prometiam-me que após aquele livro ia comecar a ver o mundo como a Eva depois de ter comido a maca. Mas lá pelo meio até encontrei umas cenas fantásticas, que nem eu no meu cinismo me tinha lembrado de esperar. O escritor comeca a descrever a estratégia número um entre as inúmeras estratégias para as companhias ganharem o maximo de dinheiro possivel. Porque para aqueles que nao vendem só para os perdulários ou só para os poupadinhos, o desafio é apanhá-los a todos, esmifrando bem os primeiros e esmifrando o melhor possível os segundos. Como fazer isto? Nao se pode vender a mesma coisa com dois precos. Portanto, por exemplo, numa daquelas marcas tótós de lojas de café que vendem canecas de café com todas as possíveis variacoes de ingredientes adicionais, tamanhos, mistura e espuma e uma pessoa pensa que merda de tótós é que bebem café nesta espécie de loja de café pra tótós?... O que os cérebros por tras destas marcas pretendem é fazer a coisa simples, tipo café com leite, um preco, espetam-lhe uns pós de chocolate, sobe o preco, com abanamento, sobe o preco, com uma camada de nata, sobe o preco, com canela, sobe o preco, com raspas de gelo, sobe o preco. O poupadinho compra a versao simples e os perdulários podem perder a cabeca pelas versoes mais caras. Para o vendedor a diferenca entre produzir a versao simples ou as versoes "melhoradas" é misera, mas a diferenca de precos pode ir até ao triplo! As lojas de roupa com saldos: na época dos saldos eles ganham dinheiro, o intuito é apanhar os poupadinhos; na época sem saldos apanham-se os outros que se estao a cagar pros precos. Portanto, o que as marcas tentam é ter a versao simples-saldo e a versao "melhorada"-premium, poucas diferencas de producao, mas oferecidas diferentemente conforme a facilidade com que o dono da carteira a abre. O que acontece com as marcas de computadores é entao fantástica: um produto informático é desenvolvido normalmente de raiz. E desenvolve-se um produto. Contudo, para apanhar todos é preciso duas versoes do mesmo produto. Portanto, o produto base é o premium. Neste produto desligam-se funcionalidades e tem-se a versao "simples". Ou seja, eles tem adicional trabalho para produzir a versao mais barata! E por vezes nem é só desligar funcionalidades, é mesmo sabotar o produto final! Nao é o mundo da economia fantástico?

quarta-feira

O tapete de boas vindas dos noruegueses

A visitor should depart and not always be in one place.
A friend becomes a nuisance if he stays too long in the house of another.



Isto encontrei eu escrito no chão da estação de comboios no aeroporto de Oslo.

segunda-feira

decisoes... :(

Tenho sobre a mesa uma proposta de trabalho para a Noruega. Já disse que a raca de pessoas que eu alguma vez tive o desgosto de conhecer que mais detestei foi os noruegueses? Como eu uma vez disse a uma chinesa, se ela quiser calor humano é melhor abracar um peixe que um noruegues. Ela riu-se muito, disse que era uma piada muito boa e eu depois de uma piada muito boa estou a pensar, se fosse piada. Uma italiana, imagino que para me confortar ou em piada, lembrou-me que o bacalhau vem da Noruega. Pois, realmente há lá muito peixe.

quarta-feira

Que se lixe a peugada



Nao há respeito pelo silencio. Já todos sabemos disso, pelo menos aqueles que nao vivem em ilhas desertas e até desejam que lhes gritem. Mas está-se muito pior que no meu tempo (o que eu desejei ter idade para comecar a dizer isto). Nao se entende o silencio. Parece que o silencio é a ausencia de barulho feito por seres viventes: o bébé a chorar, o casal a brigar, o vizinho a ressonar, o cao a ladrar, até o galo ou os grilos, por estas orelhas que hao de apodrecer no humus materno, já ouvi pessoas queixarem-se que acordaram com o galo ou que nao conseguiram adormecer com os grilos! Que mundo louco é este em que vivo? Pois aí fui de bilhete de comboio na mao, acomodar-me numa carruagem para dormir, como bem dizia à entrada, para uma boa dormidela até aos Alpes Suicos. Na carruagem tinham escrito confortável, nao um adolescente qualquer, nao, grafiti formalizado e permitido, pelo que me senti confiante e até deslumbrei que aquilo tinha dois andares, olha que fino, dois andares numa carruagem. Pois, meus amig@s, nao deitei nenhuma das sobrancelhas... Descobri como é um secador do cabelo por dentro. Disseram-me que era o ar condicionado e houve grande espanto que eu em vez de me sentir confortável, como seria o óbvio sentir depois de ter lido o exterior da carruagem, me sentisse cansada, até zangada. Muito pior seria estar com os outros, a dormir 4 ou 6 no mesmo compartimento. E eu sonhei acordada com o ressonar de 5 seres humanos, em vez da ventoinha parasitica que se albergava nas paredes da minha carruagem. Há momentos em que nao suporto este mundo. E é por isso, que neste momento de publicação, eu estarei num avião, porque pelo menos é uma tortura menos demorada. Com tanto ar condicionado ainda a peugada é igual.

segunda-feira

Episódio da vida de uma pessoa ensonada: limites

Bem, bem, bem. Estava aqui ensonada quando aparece no umbral da porta um italiano, assim a dar pró bom como o milho. Queria ir à net e se eu tinha o cabo e postou-se de portátil debaixo do braço com a confiança de quem sabe que a probabilidade de recusa é baixa. Acertou. Eu podia ficar aqui uns bons parágrafos a descrevê-lo, mas não tenho palavras que lhe façam juz.

Mas já o expulsei. Ausentei-me por uns momentos e encontrei-o na minha cadeira, ao telemóvel, a brincar com o meu teclado. Há limites e os meus são o meu computador e todos os seus periféricos. Tira a mãozinha.

sexta-feira

simpatias e confissöes III

Durante muito tempo nao se falou. Durante muito tempo acreditou-se que os estrangeiros iriam embora e poderiamos nunca falar, com regras nao faladas, mas compreendidas por todos. Um verniz agradavel de tolerancia colou-se-nos à pele, o que interessava mesmo era que nao falassemos. A tolerancia existia desde que o toleravel permanecesse à distancia. E um dia o toleravel esbofeteou-nos na cara e enquanto estavamos perplexos sem percebermos muito bem o que tinha acontecido, foi-nos dito que o melhor era nao falarmos. O toleravel só é intoleravel porque o nao toleramos como deve ser.

A minha pergunta é só esta: nao é esta a altura de falarmos? Porque neste momento, há os Geert Wilders que falam por nós e um sistema que se vende por uma ideia de tolerancia que nao é a mais justa. Para além da nossa tolerancia ser apenas o nao me chateies, essa tolerancia institucional serve os ideologos fanáticos e nao os comuns cidadaos que querem mais que o privilegio de existir sem chatear.

Seria bom falarmos, a sério. Sem clichés e ilusoes.

P.S.: contava-me um norueguês como a mäe arengava sobre os norte-americanos e o que eles tinham feito aos pobres pretos, mas os sama, esses eram todos uns malandros e ladrões a morar no fundo do fiorde.

p.s.: o teclado norueguês tem acentos! :)

segunda-feira

simpatias e confissões II

Nestes vários dias, andei a pensar naquilo que escrevi antes de ir. Na minha provocação, que foi obviamente consciente, o que eu queria era que vocês me dissessem que eu estava errada. Porque eu estava com simpatias e compreensões que queria atacadas e desterradas. De entre aquilo que mais me ajudou a reformar a minha ideia do problema foi esta entrevista a Jocelyne Cesari.

sábado

simpatias e confissões

Vou andar fora até ao fim do mês, amiguitas. Mas deixo um biscoito à Helena, que anda mesmo passada pelo fato dos partidos de direita terem elegido tanto deputado para o Parlamento Europeu.

E agora, como isto é um blogue, deixo a minha opinião: o que se vê é uma contra-reação a uma cultura de compreensão por comportamentos anti-liberdade, anti-direitos humanos, porque vêm de imigrantes de países que existem como símbolos de vitimas, vitimas da nossa colonização, do nosso imperialismo, sei lá que mais. Temos de os respeitar e compreender. E nos Países Baixos, mata-se e obriga-se pessoas a andar de guarda-costas e pressiona-se para eliminar direitos conquistados a muito custo. Eu confesso que tenho mais compreensão e simpatia por quem votou no partido de Geert Wilders e questiono-me sobre este homem, que precisa de ser corajoso ou insano para levar a vida que ele leva.

E agora desapareço antes que leve com um ovo eletrónico.

quarta-feira

La coisa ins verso

Depois, caro bloguista, de ter caído redondo no chão a dormir depois de ter tentado ler a constituição, de ter morto baratas simplesmente atirando-lhes com o tomo em cima e depois de ter usado metade das folhas para apanhar com as caganetas do coelho que encontrou meio-morto na rua, tentemos novamente ler esse fundamental documento. Em verso...


ARTICLE 60: REPRESENTATION

If a person, if only for an hour at a time, could borrow the bodies of others,
I would borrow yours, my brother, so that you could walk beside a river somewhere.’

* Eva Runefelt
* PART IV - Policies and Action

ARTICLE 74: SECURITY

One cat I got from an abandoned building site. His eye was glued shut, an ear
partly severed and in his fur you could still see the teeth marks of the dogs. He
lived under a cupboard for a week and didn’t sleep, each time I got on my knees
to look for him I’d find him crouching, with a glazed look, I could only tell he
was still alive from the sucking motion of his flanks, a frightened oxygen pump.
Later he would sometimes let you stroke him, if you were very careful he
wouldn’t bite. But one night he jumped onto the bed, a claw slashed into my
eyebrow, blood ran down my nose into my mouth, I dived under a pillow to
dodge the tiger in my house.
Another cat I found in the street, in a porch in the cold rain. She was so small
that she was still full of trust. The first night she already slept in my bed, fell into
such a deep sleep that all the life slid out of her young muscles, I played with her
paws, tail, she became a toy cat filled with sand. At night she didn’t hear
the neighbours’ dogs. That sleep is called: safety.
A friend who is deaf says: he’s got the sweetest tom cat in the world. One night
it jumps onto his head, his stomach, it viciously bites his toes. When he looks up,
bewildered, he sees how, in the dim light, the door handle of the bedroom moves
down, moves down without making any sound.
This is how cats talk to us: about the depths of sleep, the wild flesh of ancient fears.


ARTICLE 55: TIME OF TRANSITION

We live in a time of transition, which our grandchildren
May designate an epoch. We know nothing about ourselves but they
Will classify us as butterflies in History’s specimen cases.
We will be gazing through the glass with our lifeless
Eyes, and our children’s children, the conquerors
Of stars, will be thumbing through family albums. This
Old fashioned elderly gentleman is me, the photograph
Already faded. I’m standing motionless, eyes fixed
On the setting sun. In the top left corner
You can see a shining dot. And that’s precisely why
This old photograph has such significance. That was
The first sign. Then came the others.



ARTICLE 24: THE RIGHT TO LAZINESS

The good gardener prizes the shadow of the apple tree.