sexta-feira

A conceção do mundo segundo eu ou é para esta merda assim que existem blogues, isto é, disparatar

O mundo não é redondo. Pode parecer uma esfera vista de fora, e até prescrutando pode-se observar que afinal é mais parecida com um ovo, mas de dentro é um cubo transparente. Dentro do cubo outras formas geométricas boiam num liquido amniótico a que os antigos filósofos chamavam éter. Durante a vida, movemo-nos lentamente de volta deste cubo, o que significa que nem a Terra gira à volta do Sol ou o Sol à volta da Terra. Aqui a malta gira à volta do mundo, ainda que de fora ou de dentro possa parecer de outra forma. Portanto, durante a vida o mundo muda, segundo equações muitíssimo complicadas escritas em poesias e sonhos. É só isto.

quarta-feira

Correção no: Não é sobre tolerância, é sobre decoro

Afinal é mesmo sobre tolerância. Fica aqui embaixo o texto original (itálico) e depois a minha adição.

Parece-me que muitos dos embates entre as sociedades ocidentais e os seus cidadãos muçulmanos se deve a que há regras de comportamento não escritas que os moradores mais antigos cumprem sem pensar, que os novos moradores não cumprem. Este não cumprimento é por duas razões: essas regras de comportamento aprendem-se sem palavras, pelo que os novos membros não as aprendem se não viverem essa sociedade e parece-me há agora uma predisposição para acicatar os outros. Um pouco como os forcados a atiçar o touro batendo com o pé no chão.

Por exemplo: construir uma mesquita no local da tragédia do 9 de Setembro. Imaginem que o meu irmão mata alguém. Eu não tenho culpa nenhuma no assassinato e só estou ligada a ele porque o assassino é meu irmão. Acham que devo ir ao funeral do morto? É isto que está em causa. Uma certa noção de como nos comportarmos em relação aos outros, que é amarfanhada numa luta de religiões, onde se perde o decoro.


A tal mesquita (que na verdade é um centro cultural islâmico) não está proposta para o local onde se situavam as Torres Gémeas. É perto. Portanto, sim, é pura intolerância.

sexta-feira

Desejos nas passas

Em momentos em que tinha de desejar algo, tinha sempre um desejo já ali, o agregador de todos os desejos, o pai de todos os desejos, pensava eu, satisfeita com a minha argúcia. E pensava "Quero ser feliz". Sintético e rápido, o que dava imenso jeito no final do ano e as suas perigosas (perigo: asfixia) passas. Agora, à espera das brancas, resolvi reavaliar esse desejo e querendo ser arguta e pragmática, penso "Quero ser contente", ou, porque estou mesmo no epicentro da minha fase minimalista, "Quero ser simples". Divirto-me a imaginar as reavaliações seguintes: uma década, "Quero ser satisfeita", duas décadas, "Quero ser", três décadas, "Quero existir"...

quinta-feira

ama o teu vizinho como te amas a ti

A conclusão de um inquérito sério nos EUA é de que os norte-americanos (exceto Canadá) não se amam, o que explica muitas mortes. A resolução deste problema poderia ser um blitzer de peluches.

quarta-feira

Há coisas em que não acredito

As pessoas que escrevem que a Internet tornou a informação eterna, estão a dizer que a eternidade depende da eletricidade, o que me custa a aceitar.

Erva

Pode-se comer todos os dias exactamente a mesma coisa. Esta descoberta maravilhosa mudou completamente a minha vida para melhor. Não tenho que pensar no que vou comer e não há restos no frigorífico, porque não há refeições perdidas como meias sem o par. No dia seguinte, o resto incorpora a nova refeição num prosseguir de perfeição canónica. Não há pacotinhos, frasquinhos ou latinhas de coisas que se usaram pela metade, como leites de coco ou ramas de hortelã. Menos lixo, portanto. O cozinhar é eficiente como bem faz a prática e não há perdas de tempo no comer, com pensamentos de gosto ou desgosto sobre o resultado final. Quando há um espreitar de aborrecimento compram-se novas ervas para a salada e assim se satisfaz aquela coisa tonta de novidade. Tenho vários frasquinhos de ervas para salada para dar, se quiserem... Tenho ervas de montanha suíça, de montanha italiana, de montanha ucraniana, ervas biológicas, ecológicas e que se lixe, ervas da provença, ervas indianas e algo que comprei no mercado negro das ervas, tenho marijuana e erva de hóstia e uma erva que mata formigas. É só contatar aqui no blogue. Obrigada.

segunda-feira

Deste alto

Parece-me neste ponto da minha vida, que estar neste ponto da minha vida e talvez por um largo tempo que há de vir, que cada vez que pensar na minha vida, vou-me sentir como num miradouro, a mirar passado e futuro de cima, como se tivesse realmente aprendido algo. Parece-me, assim de cima, que qualquer que fosse o caminho que tivesse tomado, eu continuaria a considerar este miradouro muito longe da sua ideal perfeição e, no entanto, tentando ser verdadeira, muito dificilmente teria encontrado melhor miradouro. Arriscaria a pensar que quanto melhor a minha vida tivesse sido, quanto pior seria eu hoje.

sexta-feira

Nunca mais chega

Este blogue, é provável, morreu. É um corpo santo com a podridão invísivel. Isto digo eu a fazer tempo para a fresca da noite.

quinta-feira

Ahhhhhhhh, o fresco da noite

Numa noite de Verão, sento-me aqui querendo escrever o significado de algo muito importante para mim, porque sinto-me incapaz de não fazer uma enormidade que mude destinos e percursos. E no entanto, saiem-me sequências de palavras como sequências de segundos, despidos se não por nós, pelo que lhes colamos em cada respiração. Se eu disser que me sinto feliz, daquela felicidade simples e quente com uma brisa de noite de Verão, será que empresto a enormidade que preciso à minha apoucada sequência de palavras?

terça-feira

Israel

Finalmente, o lobo já não consegue esconder o focinho na touca de avozinha. Mas foi preciso deixar a cabeça do capuchinho vermelho dentro da cama do caçador.

segunda-feira

A crise da meia-idade

Precisamos de simbologias, de efemérides, de pontos marcantes e viragens de 90 graus. Precisamos de nos levantar de manhã e em algumas dessas manhãs de nos darmos um estalo e marcar a dor um ponto, um ponto que inventamos ou a que damos importância, tipo os anos, nossos e doutros, um feriado, um golo ou um autógrafo. Diria a Igreja que é muito natural e o Sr. Presidente que é no interesse do país. É preciso o alternado dalgo ao marasmo da existência. A marcação cerrada ao que se prolonga pela linha de tempo que se esvai na morte. É preciso casar, descasar, juntar e quebrar os cacos em cacos, comprar uns brincos, fazer aquela viagem e aquela festa. É preciso chamar a alternativa e destruí-la em rotina. É preciso descansar em algo imenso como o oceano. É preciso viver e chamar-lhe vida.

quinta-feira

Quem tem prioridade?

A filha que faz anos no dia da Mãe ou a mãe da filha que faz anos no dia da Mãe?

domingo

O meu alter-ego

Não estou a sonhar. Estou na lua e vem-me esta imagem. Espero que ele se mova e talvez me mostre o caminho. Mas ele, o meu imaginado do lado de lá da minha mente, fica ali parado a olhar para mim.

Detesto a esperança

Detesto a esperança, pelo que tem de fé e expectativa. Detesto tudo o que esteja paralisado a meio tempo e meio espaço. Desprezo-me quando me apanho a mandar pedras mágicas nos ares dos meus pensamentos. No entanto, a esperança permanece impérvia aos meus ataques, como outras fraquezas não o foram. A religião foi canja, pareceu o caminho normal no processo de crescer e deitar fora as peles velhas das ideias parentais. O mesmo com as convenções sociais que me vão cuspindo na cara ao de leve quando visito Portugal e que me causam tanta mossa como a irritação leve de um mosquito norte-alemão (estes suíços já parecem ter alguma pica). Na minha ânsia por tentar chegar a qualquer pequeno ponto de ideias claras e objectivas, a porra da esperança vai aparecendo, estragando-me os cálculos meticulosamente enquadrados nos riscos da vida, aumentando esses riscos.

terça-feira

Caminhando esperançosamente na direcção, quem diria, do futuro

Há uns anos queriam escrever na sebastiana constituição europeia uma frase que registasse que a Europa é cristã. Pareceu que quem queria escrever essa frase, o fazia com a mesma intenção com que alguém põe uma ferradura atrás da porta. Façam-se as mezinhas que se quiserem nas portas da Europa, a história da Europa é cristã. Mas a história é passado sobre o qual se vai construindo o futuro a que se chama presente. Portanto, parece que quando as pessoas exigem que se admita essa história, estão a exigir a cópia em série e não a evolução.

Já não somos todos cristãos. Os conceitos de pecado e salvação devem ter na sociedade secular o mesmo peso que os conceitos de reincarnação e nirvana. Tal como um hindu não pode reclamar isenção da justiça terrena, porque os seus crimes serão punidos por uma descida na escada de qualidade reincarnativa, também os cristãos não podem achar que o ciclo de prosternações até ao juízo final é uma excepção aceitável, porque estão aqui há muito tempo.

Felizmente, a cepa tem novos rebentos e os monges copistas morreram no passado.

quinta-feira

Vulcões pessoais

E num dia acordamos revestidos a sol, vestimo-nos de saia e vermelho, colocamos um lenço esvoaçante e sapatinhos leves e saímos como para uma festa às oito da manhã, hora a que noutros dias ainda estamos na cama a revolvermos de infelicidade. De passinho leve imitamos abelhas e borboletas, chegamos ao trabalho, arranjamos um café, colocamos música francesa, miramos as montanhas e suspiramos de contentamento. Escrevemos um poste, damo-nos conta que escrevemos no plural e sorrimos com a patetice, pomos um ponto final, publicamos e começamos o trabalho, tudo como se a perfeição fosse inquebrável.

quarta-feira

Calcanhar de Aquiles

Devo dizer que me sinto triste pelas tuas entradas no teu blogue sobre o último escândalo na igreja. Eu admiro nos teus raciocinios a procura da verdade e da justiça. Tens uma clareza de pensamento, que eu, por exemplo, não tenho. Parece que há limites para tudo e o teu é a tua religião.

Em primeiro lugar, desapontam-me os argumentos que pretendem calar o interlocutor, somente. Neste caso, a vitimização. Nós só criticamos porque é a Igreja Católica, senão não diziamos nada. Não diziamos nada sobre o abuso de crianças, porque afinal o que mais há é crianças abusadas e ninguém diz nada. Eu não sei que microcosmos da realidade portuguesa conheces Helena, mas no Portugal que eu conheço as crianças não são corriqueiramente abusadas e nunca presenciei qualquer comentário, acção ou intenção que desse a entender que o abuso de crianças é algo que devemos ignorar. Este fechar de olhos é ainda detectável em termos da violência doméstica contra mulheres, mas não crianças.

Este argumento é pérfido. Tu defines a sociedade portuguesa como uma sociedade que alberga a molestação de crianças! Porquê? Por causa do Caso Pia? O mais interessante, é que tu fazes este salto corajoso de generalização obscena e noutro ponto defendes que na Igreja Católica foi um caso de alguns individuos. Isto de saltos corajosos é só nalguns trampolins. Mas se eu generalizo para a hierarquia da Igreja Católica é porque há registos de altos responsáveis da Igreja Católica a delinar acções de acobertamento. A tua prova acerca da degeneração geral da sociedade portuguesa está aonde?

Mas noutro passo dizes que a protecção dada às crianças é recente. É verdade. É verdade que a criança é hoje vista com outros olhos, mas quando os crimes foram cometidos já eram crimes à luz da legislação da altura! Eu sei que a Igreja é antiga e que demora a acertar o passo, mas as vitimas ainda estão vivas! Se estivéssemos distraídos poderia parecer que estamos a desenterrar esqueletos e a acusar a Igreja Católica de torturas no Século XVI!

A tua defesa da Igreja Católica seria rapidamente e obviamente obscena se estivesses a liberar outros. Se alguém chegasse e argumentasse:

- Oh, Sr. Juiz, eu sei que fiz mal, mas não sou só eu.
- Oh, Sr, Juiz, eu sei que raptei aquela pessoa e a escravizei, mas sabe que é recente o respeito que se tem pela liberdade das pessoas.
- Oh, Sr. Juiz, eu sei que escondi e ajudei o criminoso, mas já pedi desculpa!

O que se está a observar é os membros da Igreja Católica serem objectores de consciência da lei criminal de vários países. Há outra organização com tal regalia? É nestes momentos, que se vê a delicadeza das nossas sociedades seculares, quão frágeis são ainda, que há dificuldade em não tornar especial o que aos olhos das nossas leis deveria ter o mesmo tratamento. Não é crime, é pecado. Noutro âmbito seria um escândalo óbvio, aqui desculpabiliza-se e misturam-se tempos, como se a Igreja vivesse no século XVI e a gente esqueceu-se de esperar por eles. Mas mais interessante: temos a obrigação de esperar. Coitados, aquilo é outro mundo. Ainda falam latim! Prova óbvia de uma deficiência que os exonera das leis de um país. É o mundo dos sacramentos, diz-se. São objectores de consciência, são incapazes mentais, são extra-terrestres, portanto, vivem além das leis dos países.

Um dos teus apontamentos causou-me calafrios. O que tu resolveste revolver na tua saga de defesa da Igreja Católica deixa-me sem respiração. Tu resolveste ir atrás da criança e usaste um argumento que já foi usado por um juíz portuguès num caso de abuso sexual, que na altura deixou-me quase em lágrimas de indignação. Para justificar a pena miserável que deu ao criminoso, uma das justificações era que o rapaz tinha catorze anos e, dizia o juíz, obviamente é mais grave abusar um miúdo de 6 anos, que um miúdo de 14 anos. Para mim isto não é nada óbvio, mas começo a chegar à conclusão, que a mentalidade reinante é essa. Pergunto-me se eu era a única pessoa de catorze anos que não era sedenta por experiências sexuais e que era mais fragilizada aos catorze que aos seis. Aos catorze tu sabes sem dúvidas que estás a ser abusado. Aos seis talvez. O juíz disse aquele óbvio sem apresentar qualquer avaliação psicológica do rapaz. As leis que existem para proteger os adolescentes dos adultos ao nível sexual, existem porque há os que ainda se lembram o que significa ser adolescente e para aqueles que já não se lembram, há pessoas a estudar esse período. É um período de imaturidade e crescimento e pensava que concordavamos em sociedade que é necessário protegê-los de abutres sexuais. Parece que a discussão agora anda a resvalar. Um dia destes, andamos a discutir as virtudes da educação espartana. Não sei é se ainda há montes bastante longe de um macdonalds para abandonar os putos de sete anos à sua sorte. Para os enregecer e preparar para a vida. Se as crianças encontrarem o pior logo no início, estão preparados para tudo. Só um ponto mais: crianças molestadas têm maior probabilidade de abusarem de crianças quando crescerem. Em vez de crianças, podem também pôr adolescentes antes. Depende da personalidade de cada um. Deve haver os que gostam. A adolescència é um momento de maturação, o segundo momento alto de construção cerebral. É altura de basear opiniões em factos quando eles existem e os estudos demonstram que os adolescentes precisam de guias e protecções. Não me parece que deixá-los à mercê de predadores sexuais seja uma boa ideia, tal como não acho uma boa ideia abandonar crianças de sete anos no cimo de um monte isolado.

Para terminar e até vou citar, que isto merece:

Há práticas "educacionais" nas famílias portuguesas que já hoje são consideradas crime noutros países europeus. Daqui a uns anos, acusarão as mães de não terem denunciado o marido por este bater nas crianças, como hoje acusam os bispos de não terem denunciado os padres.
Seria boa ideia estarmos muito atentos ao modo como falamos do papel dos bispos no escândalo da pedofilia, porque pode ser que se esteja a criar o modelo para o modo como daqui a uns anos falarão de nós (no nosso papel de pais ou de professores) por termos descurado as nossas responsabilidades no apoio às crianças que nos foram confiadas.


Eu sinceramente gostaria de saber que práticas "educacionais" são estas que são comparáveis a abusos sexuais de crianças! Dar um tabefe esporádico a uma criança? DEixá-las acordadas até tarde? A tua argumentação esperaria noutro blogue que eu definiria como intelectualmente desonesto. O que tu demonstras é que todos têm um calcanhar de aquiles, até aqueles que parecem racionais.

P.S.: É crime a violência física contra crianças na lei portuguesa. Eu gosto de pensar que há inteligência para ver a diferença entre o tabefe esporádico e o uso de agressão continuada sobre uma criança.

P.S.: Não sei se este foi um plano para me retirar da letargia e indignar-me, mas se foi, parabéns, conseguiste.

terça-feira

E assim na Páscoa, descobri

Miquel Barceló.



É muito raro descobrir novos mundos, pelo que assinalo aqui este singular momento.