quinta-feira

Hoje não

Dias de escorrer vidros pelos dedos. Dias de não raiva, nem dor, só descontrole controlado por entre suspiros gemidos. Abre-se a boca e um bafo quente descontente sobe matando ideias. Esvai-se o bip bip pelos olhos enquanto se imagina a queda. Dias de inverno por entre a frialdade das emoções. E amanhã vem sol.

terça-feira

Não abras a boca ou entra bolo-rei

É pena o Cavaco Silva não ser bonito. Se o fosse, era bem capaz de ninguém dar conta que ele quer fazer uma campanha eleitoral calado.

quinta-feira

Pestes

Viver é levantarmo-nos sempre. Há pessoas que são como homens-elástico. São pessoas que não caiem nunca, mas o cair é uma desculpa para apanhar pulsão para a subida. Detesto estas pessoas, como só um bom pessimista pode detestar otimistas. Ou a sensação de potencial violência que submerge um mal-humorado que encara um bem-humorado desprevenidamente. Estou a falar de mim. Não há como um bom-humorado para estragar um dia perfeitamente razoável.

quarta-feira

Sinopse

Sou feita de extremos. Não consigo o meio-ponto, a virtude, a constância. Salto ondas, tropeço em penedos e caio em precipícios. Sou aparentemente calma submersa num mar revolto. No balancé da vida lutei em manter-me de pé. Agora deitei-me, fechei os olhos e gozo o balançar. Meus senhores, estou crescida. Enjoada, quase a vomitar, mas adulta.

terça-feira

indignação nascida do governo sombra

Estou indignada. É verdade! E pensei: não posso desperdiçar isto. E cá estou fazendo o grito moderno: postar na internet.

Portanto, estava escorregando na neve fresca a caminho do trabalho, enquanto ouvia o Governo Sombra, quando o João Miguel Tavares veio com uma das suas indignações: um homem deu dois estalos à ex-mulher e o tribunal superior bleleleh confirmou o juízo de primeira instância de que não foi caso de violência doméstica, mas só assalto blelelh simples. E o JMT começa uma das suas arengas confusas, em que de uma certa forma disse que estava indignado, mas por outro lado também não, mas como morreram muitas mulheres em Portugal, mais que dez do que no ano passado, estava, e ainda por cima ninguém faz filmes sobre isso como em Espanha, mas foram duas estaladas, também não é para, mas foram estaladas e... No final não se percebeu bem. Estava à espera do Pedro Mexia para dizer algo inteligente e ele conseguiu descer do nível do JMT e dizer a coisa mais básica possível: agressão física + meio doméstico = violência doméstica. E claro, o RAP disse uma chalaça.

Portanto, estes tipos não entendem o que é violência doméstica. Eu explico: violência doméstica implica um nível de expectativa aterrorizada. Pode até nem ser físico. Pode ser psicológico. Mas implica um temor como se todos os dias pudesse acontecer um terramoto. E não penso que diminuímos a verdadeira violência doméstica fazendo um gajo que perdeu a cabeça com a ex-mulher pagar por todos os animais que aí andam. Acho bem que pague pelo que fez, mas não que façam dele o bode expiatório de outros. Talvez o que o JMT queria dar era uma ideia para um filme para sermos mais como os espanhóis. O homem vai para a prisão e a irmã torna-se advogada para o salvar da injustiça. Ah, espera, já foi feito.

Mais à frente no programa, o JMT faz piadinha com o sexo surpresa de que a justiça na Suécia acusa o Assange. Portanto, que mal pode haver em sexo surpresa? Eu pessoalmente gostaria que a esposa do JMT pegasse numa banana e a enfiasse num sítio que eu cá sei enquanto o JMT dorme. Quem é que não gosta duma surpresa destas? Quem?

Ou seja, o JMT acredita uma injustiça para as mulheres que um homem não pague por outros homens e acha uma injustiça que um homem não possa ter sexo com uma mulher inconsciente. Isto é um feminista profundo.

quarta-feira

Conclusion:

The sex crime of the face of Wikileaks in Sweden was to leak.

I did not know Swedish had a sense of humor.

domingo

Interregno

Quando escrevia aqui todos os dias, escarrapachava opiniões. Um estágio opinativo. Continuo a ter opiniões e continuo a enunciá-las com tal paixão que sou tomada de arrogante. Talvez seja inatamente arrogante, mas digo-vos que luto contra isso. Mas se a humildade é virtude, a neutralidade parece-me desistência, escolher ser fungo a humano.

Eu sou dona de mim

Houveram dias em que escrevia aqui todos os dias. Houveram outros momentos que passaram e todos juntos fazem uma história sem história. O meu percurso trapo a trapo cozidos uns aos outros, cada trapo de cor diferente, uma colecção impar, como são impares todas e cada vida. Aos dez anos pensei: há 10 nasci; aos onze, há dez anos andei; aos doze, há dez anos falei e continuei assim até aos vinte. Hoje retorno a esse hábito adolescente e miro dez anos atrás. Que eu possa olhar para trás e ver tantas coisas diferentes, tantos trapos cozidos uns nos outros até aqui, que eu possa dizer, há dez anos tanto que eu não sabia, inspira-me confiança no manto que sou.

segunda-feira

Momento filosófico

Tirando aquele pós momento em que apanhamos a doença que nos há de matar, envelhecer é, como quase tudo na vida, a incongruência entre aquilo que somos e aquilo que deviamos ser. Uma pessoa apanha-se velha, mas a fazer com a mesma vontade tudo o que fazia antes e acha que não, que devia estar a fazer outra coisa qualquer. E pensa: "fodas, tenho de procriar, ou isso!" Felizmente, cada vez que solto este guincho, vem em meu socorro a minha misantropia. É como acordar de um pesadelo, em que me dou conta, que na verdade tudo continua na mesma e o alívio submerge-me em prazer.

sexta-feira

A conceção do mundo segundo eu ou é para esta merda assim que existem blogues, isto é, disparatar

O mundo não é redondo. Pode parecer uma esfera vista de fora, e até prescrutando pode-se observar que afinal é mais parecida com um ovo, mas de dentro é um cubo transparente. Dentro do cubo outras formas geométricas boiam num liquido amniótico a que os antigos filósofos chamavam éter. Durante a vida, movemo-nos lentamente de volta deste cubo, o que significa que nem a Terra gira à volta do Sol ou o Sol à volta da Terra. Aqui a malta gira à volta do mundo, ainda que de fora ou de dentro possa parecer de outra forma. Portanto, durante a vida o mundo muda, segundo equações muitíssimo complicadas escritas em poesias e sonhos. É só isto.

quarta-feira

Correção no: Não é sobre tolerância, é sobre decoro

Afinal é mesmo sobre tolerância. Fica aqui embaixo o texto original (itálico) e depois a minha adição.

Parece-me que muitos dos embates entre as sociedades ocidentais e os seus cidadãos muçulmanos se deve a que há regras de comportamento não escritas que os moradores mais antigos cumprem sem pensar, que os novos moradores não cumprem. Este não cumprimento é por duas razões: essas regras de comportamento aprendem-se sem palavras, pelo que os novos membros não as aprendem se não viverem essa sociedade e parece-me há agora uma predisposição para acicatar os outros. Um pouco como os forcados a atiçar o touro batendo com o pé no chão.

Por exemplo: construir uma mesquita no local da tragédia do 9 de Setembro. Imaginem que o meu irmão mata alguém. Eu não tenho culpa nenhuma no assassinato e só estou ligada a ele porque o assassino é meu irmão. Acham que devo ir ao funeral do morto? É isto que está em causa. Uma certa noção de como nos comportarmos em relação aos outros, que é amarfanhada numa luta de religiões, onde se perde o decoro.


A tal mesquita (que na verdade é um centro cultural islâmico) não está proposta para o local onde se situavam as Torres Gémeas. É perto. Portanto, sim, é pura intolerância.

sexta-feira

Desejos nas passas

Em momentos em que tinha de desejar algo, tinha sempre um desejo já ali, o agregador de todos os desejos, o pai de todos os desejos, pensava eu, satisfeita com a minha argúcia. E pensava "Quero ser feliz". Sintético e rápido, o que dava imenso jeito no final do ano e as suas perigosas (perigo: asfixia) passas. Agora, à espera das brancas, resolvi reavaliar esse desejo e querendo ser arguta e pragmática, penso "Quero ser contente", ou, porque estou mesmo no epicentro da minha fase minimalista, "Quero ser simples". Divirto-me a imaginar as reavaliações seguintes: uma década, "Quero ser satisfeita", duas décadas, "Quero ser", três décadas, "Quero existir"...

quinta-feira

ama o teu vizinho como te amas a ti

A conclusão de um inquérito sério nos EUA é de que os norte-americanos (exceto Canadá) não se amam, o que explica muitas mortes. A resolução deste problema poderia ser um blitzer de peluches.

quarta-feira

Há coisas em que não acredito

As pessoas que escrevem que a Internet tornou a informação eterna, estão a dizer que a eternidade depende da eletricidade, o que me custa a aceitar.

Erva

Pode-se comer todos os dias exactamente a mesma coisa. Esta descoberta maravilhosa mudou completamente a minha vida para melhor. Não tenho que pensar no que vou comer e não há restos no frigorífico, porque não há refeições perdidas como meias sem o par. No dia seguinte, o resto incorpora a nova refeição num prosseguir de perfeição canónica. Não há pacotinhos, frasquinhos ou latinhas de coisas que se usaram pela metade, como leites de coco ou ramas de hortelã. Menos lixo, portanto. O cozinhar é eficiente como bem faz a prática e não há perdas de tempo no comer, com pensamentos de gosto ou desgosto sobre o resultado final. Quando há um espreitar de aborrecimento compram-se novas ervas para a salada e assim se satisfaz aquela coisa tonta de novidade. Tenho vários frasquinhos de ervas para salada para dar, se quiserem... Tenho ervas de montanha suíça, de montanha italiana, de montanha ucraniana, ervas biológicas, ecológicas e que se lixe, ervas da provença, ervas indianas e algo que comprei no mercado negro das ervas, tenho marijuana e erva de hóstia e uma erva que mata formigas. É só contatar aqui no blogue. Obrigada.

segunda-feira

Deste alto

Parece-me neste ponto da minha vida, que estar neste ponto da minha vida e talvez por um largo tempo que há de vir, que cada vez que pensar na minha vida, vou-me sentir como num miradouro, a mirar passado e futuro de cima, como se tivesse realmente aprendido algo. Parece-me, assim de cima, que qualquer que fosse o caminho que tivesse tomado, eu continuaria a considerar este miradouro muito longe da sua ideal perfeição e, no entanto, tentando ser verdadeira, muito dificilmente teria encontrado melhor miradouro. Arriscaria a pensar que quanto melhor a minha vida tivesse sido, quanto pior seria eu hoje.

sexta-feira

Nunca mais chega

Este blogue, é provável, morreu. É um corpo santo com a podridão invísivel. Isto digo eu a fazer tempo para a fresca da noite.

quinta-feira

Ahhhhhhhh, o fresco da noite

Numa noite de Verão, sento-me aqui querendo escrever o significado de algo muito importante para mim, porque sinto-me incapaz de não fazer uma enormidade que mude destinos e percursos. E no entanto, saiem-me sequências de palavras como sequências de segundos, despidos se não por nós, pelo que lhes colamos em cada respiração. Se eu disser que me sinto feliz, daquela felicidade simples e quente com uma brisa de noite de Verão, será que empresto a enormidade que preciso à minha apoucada sequência de palavras?