domingo
A velha ou nova ou contemporânea questão do que é arte
A arte pertence à classe de coisas que são difíceis de explicar, mas que quando se veêm identificam-se bem. Há pessoas cegas e até sem olhos, com duas rolhas com aspeto de olhos a tapar os buracos. Falo para aqueles que além de terem olhos, os usam e no caso da arte, acoplados àquele outro orgao, o coração. Hoje vi arte. No início, senti uma sensação estranha, depois um certo enlevo e no final estava em estado de embasbacado babamento. Se tiverem oportunidade: "Keshtzar haye sepid" de Mohammad Rasoulof.
terça-feira
O estranho caso do olho que chora
Com emoções na escala de Richter até 5, só me chora o olho direito. Quando o esquerdo chora, ou estou a ver um filme mega-super-tota-manipulativo (hás-de-te haver comigo Lars da Trier) ou acabou-se-me o Haagen Dasz de morango num sábado à noite (aqui aos Domingos mantém-se o descanso de 99.99% da população, o que acho bem quando não se me acaba um alimento essencial em casa.). Assim, o cinema é para mim um serviço de limpeza de olhos direitos. Eu só já dou conta quando se me começa a comichar a pele da bochecha direita com o sal. Aquilo é um rego constante de água. Eu já me pus a questão perspicaz, que não é a emoção que faz chorar o meu olho direito; é uma opinião muito pessoal dele contra o cinema que vejo. Até que penso que o levo a piores exposições de arte e aí ele não chora. Será que tem medo do escuro?
segunda-feira
O Presidente não-profissional
Já há algum tempo que a minha ligação aos assuntos correntes de Portugal é feita pelo programa Governo Sombra. O que é idiota, mas estou em boa companhia. Portanto, quem já considero o meu anti-pessoa, está indignado porque o Presidente da República não ganhará salário nos próximos cinco anos. Isto porque já não se pode acumular reformas com salários e o Cavaco Silva teve de escolher e escolheu o que era maior: as suas duas reformas. Segundo ele, 1) assim o nosso presidente é um amador e não um profissional. Esta para mim é nova. Eu não sabia que haviam Presidentes da República profissionais. Sendo assim, não entendo as últimas eleições. A escolha de um Presidente da República devia ser por concurso público de licenciados em presidência da república. Esta é mais uma grave lacuna nas nossas universidades. Segundo ele, 2) o voluntariado é um acto sem brio, em que o adjectivo de incompetente não se aplica. Um voluntário é alguém de que não se pode esperar muito. Portanto, o salário é-nos pago na expectativa de que ganhando dinheiro não fazemos merda. O que também é uma ideia interessante que não me tinha passado pela cabeça. Como anti, o que me indigna é que se possam receber duas reformas e trabalhar. O que é uma reforma? É, parece, um prémio vitalício de certos locais de trabalho. Isto indigna-me. Principalmente, porque tendo sido Cavaco Silva o Presidente e o Ministro que foi, prémios é coisa que eu não imagino que ele mereça. E mesmo em regime de voluntariado, este homem fica caro demais.
Como diria o outro: agora besuntem-se
Dá-me muita tristeza o resultado eleitoral de ontem. O que mais me torce as vísceras é que durante cinco anos lá estará o lembrete dos limites estreitos do país chamado Portugal. Viver fora não conforta.
sexta-feira
Apaguem as luzes à saída
Sempre disse que não tenho problemas em morrer. O meu problema é sofrer. Mas andei a estudar o caso. Admito agora neste momento que me mete impressão que um dia não possa pensar, nem me rir, nem me chatear, nem amar, nem desejar que o mundo acabe num grande estrondo. Vou deixar de existir e o resto continua. Admito. Isto mete-me impressão. É desonesto do mundo continuar como se nada tivesse acontecido. Mas vou ser sincera: eu far-lhe-ia o mesmo se pudesse.
quarta-feira
Um caso de segundos
Dizem que os peixinhos dourados têm, o quê?, dez segundos de memória. Assim, os peixinhos surpreendem-se sempre com o mundo. Eu sou como os peixinhos dourados. Ou talvez não. Não é esquecimento o meu problema. O meu problema é aceitação. Pelo que acordo e surpreendo-me com a existência do mundo e eu no mundo. Surpreende-me sofrimentos repetidos. Surpreende-me o amor. Estou pior que Tomé: não posso tocar. Assim, vivo na dúvida de que esta seja a realidade. E a dúvida é reciclada a cada sete segundos.
terça-feira
Tristezas
O defeito que mais me custa a aturar é a hipocrisia. Tolero melhor um ateu sem compaixão que um católico. E no entanto, quando vou a Portugal dou-me conta da quantidade grande de católicos que parecem ter a religião como um seguro. Uma caixa de pedidos. Uma muleta do amor. É muito mais triste um católico sem fé que um ateu sem direção. O segundo está seguramente mais perto do destino.
quinta-feira
Hoje não
Dias de escorrer vidros pelos dedos. Dias de não raiva, nem dor, só descontrole controlado por entre suspiros gemidos. Abre-se a boca e um bafo quente descontente sobe matando ideias. Esvai-se o bip bip pelos olhos enquanto se imagina a queda. Dias de inverno por entre a frialdade das emoções. E amanhã vem sol.
terça-feira
Não abras a boca ou entra bolo-rei
É pena o Cavaco Silva não ser bonito. Se o fosse, era bem capaz de ninguém dar conta que ele quer fazer uma campanha eleitoral calado.
quinta-feira
Pestes
Viver é levantarmo-nos sempre. Há pessoas que são como homens-elástico. São pessoas que não caiem nunca, mas o cair é uma desculpa para apanhar pulsão para a subida. Detesto estas pessoas, como só um bom pessimista pode detestar otimistas. Ou a sensação de potencial violência que submerge um mal-humorado que encara um bem-humorado desprevenidamente. Estou a falar de mim. Não há como um bom-humorado para estragar um dia perfeitamente razoável.
quarta-feira
Sinopse
Sou feita de extremos. Não consigo o meio-ponto, a virtude, a constância. Salto ondas, tropeço em penedos e caio em precipícios. Sou aparentemente calma submersa num mar revolto. No balancé da vida lutei em manter-me de pé. Agora deitei-me, fechei os olhos e gozo o balançar. Meus senhores, estou crescida. Enjoada, quase a vomitar, mas adulta.
terça-feira
indignação nascida do governo sombra
Estou indignada. É verdade! E pensei: não posso desperdiçar isto. E cá estou fazendo o grito moderno: postar na internet.
Portanto, estava escorregando na neve fresca a caminho do trabalho, enquanto ouvia o Governo Sombra, quando o João Miguel Tavares veio com uma das suas indignações: um homem deu dois estalos à ex-mulher e o tribunal superior bleleleh confirmou o juízo de primeira instância de que não foi caso de violência doméstica, mas só assalto blelelh simples. E o JMT começa uma das suas arengas confusas, em que de uma certa forma disse que estava indignado, mas por outro lado também não, mas como morreram muitas mulheres em Portugal, mais que dez do que no ano passado, estava, e ainda por cima ninguém faz filmes sobre isso como em Espanha, mas foram duas estaladas, também não é para, mas foram estaladas e... No final não se percebeu bem. Estava à espera do Pedro Mexia para dizer algo inteligente e ele conseguiu descer do nível do JMT e dizer a coisa mais básica possível: agressão física + meio doméstico = violência doméstica. E claro, o RAP disse uma chalaça.
Portanto, estes tipos não entendem o que é violência doméstica. Eu explico: violência doméstica implica um nível de expectativa aterrorizada. Pode até nem ser físico. Pode ser psicológico. Mas implica um temor como se todos os dias pudesse acontecer um terramoto. E não penso que diminuímos a verdadeira violência doméstica fazendo um gajo que perdeu a cabeça com a ex-mulher pagar por todos os animais que aí andam. Acho bem que pague pelo que fez, mas não que façam dele o bode expiatório de outros. Talvez o que o JMT queria dar era uma ideia para um filme para sermos mais como os espanhóis. O homem vai para a prisão e a irmã torna-se advogada para o salvar da injustiça. Ah, espera, já foi feito.
Mais à frente no programa, o JMT faz piadinha com o sexo surpresa de que a justiça na Suécia acusa o Assange. Portanto, que mal pode haver em sexo surpresa? Eu pessoalmente gostaria que a esposa do JMT pegasse numa banana e a enfiasse num sítio que eu cá sei enquanto o JMT dorme. Quem é que não gosta duma surpresa destas? Quem?
Ou seja, o JMT acredita uma injustiça para as mulheres que um homem não pague por outros homens e acha uma injustiça que um homem não possa ter sexo com uma mulher inconsciente. Isto é um feminista profundo.
Portanto, estava escorregando na neve fresca a caminho do trabalho, enquanto ouvia o Governo Sombra, quando o João Miguel Tavares veio com uma das suas indignações: um homem deu dois estalos à ex-mulher e o tribunal superior bleleleh confirmou o juízo de primeira instância de que não foi caso de violência doméstica, mas só assalto blelelh simples. E o JMT começa uma das suas arengas confusas, em que de uma certa forma disse que estava indignado, mas por outro lado também não, mas como morreram muitas mulheres em Portugal, mais que dez do que no ano passado, estava, e ainda por cima ninguém faz filmes sobre isso como em Espanha, mas foram duas estaladas, também não é para, mas foram estaladas e... No final não se percebeu bem. Estava à espera do Pedro Mexia para dizer algo inteligente e ele conseguiu descer do nível do JMT e dizer a coisa mais básica possível: agressão física + meio doméstico = violência doméstica. E claro, o RAP disse uma chalaça.
Portanto, estes tipos não entendem o que é violência doméstica. Eu explico: violência doméstica implica um nível de expectativa aterrorizada. Pode até nem ser físico. Pode ser psicológico. Mas implica um temor como se todos os dias pudesse acontecer um terramoto. E não penso que diminuímos a verdadeira violência doméstica fazendo um gajo que perdeu a cabeça com a ex-mulher pagar por todos os animais que aí andam. Acho bem que pague pelo que fez, mas não que façam dele o bode expiatório de outros. Talvez o que o JMT queria dar era uma ideia para um filme para sermos mais como os espanhóis. O homem vai para a prisão e a irmã torna-se advogada para o salvar da injustiça. Ah, espera, já foi feito.
Mais à frente no programa, o JMT faz piadinha com o sexo surpresa de que a justiça na Suécia acusa o Assange. Portanto, que mal pode haver em sexo surpresa? Eu pessoalmente gostaria que a esposa do JMT pegasse numa banana e a enfiasse num sítio que eu cá sei enquanto o JMT dorme. Quem é que não gosta duma surpresa destas? Quem?
Ou seja, o JMT acredita uma injustiça para as mulheres que um homem não pague por outros homens e acha uma injustiça que um homem não possa ter sexo com uma mulher inconsciente. Isto é um feminista profundo.
quarta-feira
Conclusion:
The sex crime of the face of Wikileaks in Sweden was to leak.
I did not know Swedish had a sense of humor.
I did not know Swedish had a sense of humor.
domingo
Interregno
Quando escrevia aqui todos os dias, escarrapachava opiniões. Um estágio opinativo. Continuo a ter opiniões e continuo a enunciá-las com tal paixão que sou tomada de arrogante. Talvez seja inatamente arrogante, mas digo-vos que luto contra isso. Mas se a humildade é virtude, a neutralidade parece-me desistência, escolher ser fungo a humano.
Eu sou dona de mim
Houveram dias em que escrevia aqui todos os dias. Houveram outros momentos que passaram e todos juntos fazem uma história sem história. O meu percurso trapo a trapo cozidos uns aos outros, cada trapo de cor diferente, uma colecção impar, como são impares todas e cada vida. Aos dez anos pensei: há 10 nasci; aos onze, há dez anos andei; aos doze, há dez anos falei e continuei assim até aos vinte. Hoje retorno a esse hábito adolescente e miro dez anos atrás. Que eu possa olhar para trás e ver tantas coisas diferentes, tantos trapos cozidos uns nos outros até aqui, que eu possa dizer, há dez anos tanto que eu não sabia, inspira-me confiança no manto que sou.
quinta-feira
A nova religião
Not content with being wrong throughout the 1990s, during the 2000s more voodoo economists likened Europe’s economy to that of a “sick, sclerotic old man,” until—surprise, surprise—it was discovered that Europe actually had surpassed the U.S., creating more jobs, higher per capita growth and higher productivity (which lasted until the 2008 collapse).
And how about the experts who still can’t tell us how the Dow plunged a thousand points within minutes on May 7, 2010, in a frenzy of computer trading gone wild. Or the experts who never suspected that the rating agencies, like Moody’s and Standard and Poor’s, were selling their AAA ratings to Goldman Sachs and others for investment derivative bombs that they knew were designed to detonate. Now those same rating agencies have been downgrading Greece, Portugal and Spain, sending them into speculative play. Why does anyone listen to these ratings agencies anymore?
Exactamente. Eu sabia que eu não seria a única pessoa a fazer estas perguntas. É incrível que abundem artigos com os mesmos pressupostos, os mesmos futurismos e que sejam lidos. Eu só posso concluir que os investidores e essa malta etc são de uma estupidez transatlântica ou então as transações virtuais, o dinheiro virtual, esses jogos a que chamam finança e economia são a nova religião. Não interessa a realidade, interessa... O que é que interessa?
And how about the experts who still can’t tell us how the Dow plunged a thousand points within minutes on May 7, 2010, in a frenzy of computer trading gone wild. Or the experts who never suspected that the rating agencies, like Moody’s and Standard and Poor’s, were selling their AAA ratings to Goldman Sachs and others for investment derivative bombs that they knew were designed to detonate. Now those same rating agencies have been downgrading Greece, Portugal and Spain, sending them into speculative play. Why does anyone listen to these ratings agencies anymore?
Exactamente. Eu sabia que eu não seria a única pessoa a fazer estas perguntas. É incrível que abundem artigos com os mesmos pressupostos, os mesmos futurismos e que sejam lidos. Eu só posso concluir que os investidores e essa malta etc são de uma estupidez transatlântica ou então as transações virtuais, o dinheiro virtual, esses jogos a que chamam finança e economia são a nova religião. Não interessa a realidade, interessa... O que é que interessa?
segunda-feira
Momento filosófico
Tirando aquele pós momento em que apanhamos a doença que nos há de matar, envelhecer é, como quase tudo na vida, a incongruência entre aquilo que somos e aquilo que deviamos ser. Uma pessoa apanha-se velha, mas a fazer com a mesma vontade tudo o que fazia antes e acha que não, que devia estar a fazer outra coisa qualquer. E pensa: "fodas, tenho de procriar, ou isso!" Felizmente, cada vez que solto este guincho, vem em meu socorro a minha misantropia. É como acordar de um pesadelo, em que me dou conta, que na verdade tudo continua na mesma e o alívio submerge-me em prazer.
sexta-feira
A conceção do mundo segundo eu ou é para esta merda assim que existem blogues, isto é, disparatar
O mundo não é redondo. Pode parecer uma esfera vista de fora, e até prescrutando pode-se observar que afinal é mais parecida com um ovo, mas de dentro é um cubo transparente. Dentro do cubo outras formas geométricas boiam num liquido amniótico a que os antigos filósofos chamavam éter. Durante a vida, movemo-nos lentamente de volta deste cubo, o que significa que nem a Terra gira à volta do Sol ou o Sol à volta da Terra. Aqui a malta gira à volta do mundo, ainda que de fora ou de dentro possa parecer de outra forma. Portanto, durante a vida o mundo muda, segundo equações muitíssimo complicadas escritas em poesias e sonhos. É só isto.
quarta-feira
Correção no: Não é sobre tolerância, é sobre decoro
Afinal é mesmo sobre tolerância. Fica aqui embaixo o texto original (itálico) e depois a minha adição.
Parece-me que muitos dos embates entre as sociedades ocidentais e os seus cidadãos muçulmanos se deve a que há regras de comportamento não escritas que os moradores mais antigos cumprem sem pensar, que os novos moradores não cumprem. Este não cumprimento é por duas razões: essas regras de comportamento aprendem-se sem palavras, pelo que os novos membros não as aprendem se não viverem essa sociedade e parece-me há agora uma predisposição para acicatar os outros. Um pouco como os forcados a atiçar o touro batendo com o pé no chão.
Por exemplo: construir uma mesquita no local da tragédia do 9 de Setembro. Imaginem que o meu irmão mata alguém. Eu não tenho culpa nenhuma no assassinato e só estou ligada a ele porque o assassino é meu irmão. Acham que devo ir ao funeral do morto? É isto que está em causa. Uma certa noção de como nos comportarmos em relação aos outros, que é amarfanhada numa luta de religiões, onde se perde o decoro.
A tal mesquita (que na verdade é um centro cultural islâmico) não está proposta para o local onde se situavam as Torres Gémeas. É perto. Portanto, sim, é pura intolerância.
Parece-me que muitos dos embates entre as sociedades ocidentais e os seus cidadãos muçulmanos se deve a que há regras de comportamento não escritas que os moradores mais antigos cumprem sem pensar, que os novos moradores não cumprem. Este não cumprimento é por duas razões: essas regras de comportamento aprendem-se sem palavras, pelo que os novos membros não as aprendem se não viverem essa sociedade e parece-me há agora uma predisposição para acicatar os outros. Um pouco como os forcados a atiçar o touro batendo com o pé no chão.
Por exemplo: construir uma mesquita no local da tragédia do 9 de Setembro. Imaginem que o meu irmão mata alguém. Eu não tenho culpa nenhuma no assassinato e só estou ligada a ele porque o assassino é meu irmão. Acham que devo ir ao funeral do morto? É isto que está em causa. Uma certa noção de como nos comportarmos em relação aos outros, que é amarfanhada numa luta de religiões, onde se perde o decoro.
A tal mesquita (que na verdade é um centro cultural islâmico) não está proposta para o local onde se situavam as Torres Gémeas. É perto. Portanto, sim, é pura intolerância.
terça-feira
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