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terça-feira

Quando a gente ama

estive de luto
mergulhei em tristeza
matei todos os sonhos
um a um
cada um um corte
muito devagar a lâmina cortou
a carne da alma
esvaziei-me de ti

digo-te isto
esvaziei-me de ti
e contudo amo-te
ou não?
continuo a amar o amor que te tive?
novos sonhos aparecem
despegados de ti
mas tu neles e eu em ti

segunda-feira

Por amor

Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse

em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia

na saia a mordedura quente, a ferida, a marca

de todos os enganos, faria quase tudo


por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,

e guardaria calados fantasmas do medo, que são

os donos das maiores verdades. Já de outra vez mentira


e por amor haveria de sentar-se à mesa dele

e negar que o amava, porque amá-lo era um engano

ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, punha-se


a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre

a cair da folha, a prolongar o desencontro.

E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;

arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.

Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira

O verdadeiro amor. É normal,

é sério, é prático?

O que é que o mundo ganha com duas pessoas

que vivem num mundo delas próprias?



Colocadas no mesmo pedestal sem mérito nenhum,

extraídas ao acaso entre milhões, mas convencidas

que era assim que tinha que ser - em prémio de quê?

[ De nada.

A luz desce de qualquer lado.

Porquê nestas duas e não noutras?

Não é isto uma injustiça? É sim.

Não é contra os princípios estabelecidos com diligência,

e derruba a moral do seu cume? Sim, as duas coisas.



Olha para este casal feliz.

Não podiam ao menos tentar esconder-se,

fingindo um pouco de melancolia, por cortesia com

[ os seus amigos.

Ouçam como riem - é um insulto

a linguagem que usam - ilusoriamente clara.

E aquelas pequenas celebrações, rituais,

as mútuas rotinas elaboradas -

parece mesmo um acordo feito nas costas da humanidade.



É difícil prever a que ponto as coisas chegariam,

se as pessoas começassem a seguir o seu exemplo.

O que é que aconteceria à religião e à poesia?



O que é que seria recordado? Ou renunciado?

Quem quereria ficar dentro dos limites?



O verdadeiro amor. É mesmo necessário?

O tacto e o silêncio aconselham-nos a passar por cima dele

[ em silêncio,

como sobre um escândalo na alta roda da vida.

Crianças absolutamente maravilhosas nasceram sem a sua

[ ajuda.

Nem um milhão de anos conseguiriam povoar o planeta.

Ele chega tão raramente.



Deixem que as pessoas que nunca encontraram o verdadeiro

[ amor,

continuem a dizer que tal coisa não existe.


Com essa fé será mais fácil para eles viver e morrer.



DE Wislawa Szymborska (1923) -> X

terça-feira

O amor é um caso de farmácia

Os neuroquímicos envolvidos na ligação sentimental e os envolvidos no desejo e prazer sexual são diferentes. Os primeiros são a oxitocina e a vasopressina, ambas produzidas nas gónadas e no hipótalamo. Para o sexo o mais importante é a testosterona. Contudo, estas substâncias afectam-se mutuamente. Em certas condições o aumento em testosterona também aumenta os níveis de oxitocina e vasopressina, de forma a que o prazer sexual promove o estabelecimento ou o fortalecimento da ligação amorosa. Inversamente, o aumento em oxitocina e vasopressina pode resultar no aumento da testosterona, de forma a que a atracção também possa conduzir a luxúria. Quando isto acontece o romance leva a desejos sexuais. Contudo, se os níveis de testosterona excedem certos limites pode-se criar um efeito paradoxal: os níveis de oxitocina e vasopressina diminuem muito e logo as possibilidades de ligação sentimental. Assim, um pouco de excitação sexual ajuda o enamoramento, mas demasiado mata-o. Também demasiada vasopressina diminui a testosterona e logo o desejo. Há aqui um problema complexo de doseamento.


"Hardwired behavior: What neuroscience reveals about morality" de Laurence Tancredi. Cambridge University Press, 2005. Pág. 106.

Tradução minha

sábado

Explicação

Um dia olhei-te...

Já não me eras amigo...

É por te amar que te não suporto.