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terça-feira

Porque nao?

Imagino-me com ternura. Serei uma velha saudável, porque imagino-me a matar tempo, nao a ser torturada pelo tempo. Eu e o tempo seremos inimigos, nao pelas rugas que ele me quer dar, mas por indiferença. Faremos de conta que nos ignoramos e quando eu morrer, lá para o fim da minha reforma, ele há-de sentir-me a falta.

segunda-feira

monólogo

O desejo sem o conhecimento do desejado
É a fórmula da impossibilidade do acto
Fica no ar o desejo
sem saber em que direçao ir

Portanto desejo algo
sento-me e espero que se identifique
enquanto espero pergunto-me
o que significa o desejo

porque simplesmente nao há mais que faça
portanto penso se algum dia o desejo se cumprir
o que haverá para lá do desejo?
sou fatalista e de fins, proponho a morte

Após o desejo, a morte? E se assim for
caso o desejo me procure, irei ao seu encontro?
Irás, que tudo tem fim, até o desejo e a morte.

quinta-feira

Vai espaço entre a vontade e a destreza
eu quando penso que queria poemar
vêm verbos sobre alguém que hesita
não eu, que só não posso
alguém
alguém que eu talvez ame (senão porque pensaria nele?)
mas não conheço

sexta-feira

Rememorar-se

Ele acomoda-se na solidão da cozinha, despida da actividade do dia, a cheirar a limpo, confortável, feita para o aninhar doméstico da alma. Ele senta-se no banco de madeira grosso, a cheirar a velho e a histórias contadas por noites dentro. Ele ouve-se, lá dentro as músicas do seu passado, coladas a memórias. Ele rememora-se. É a semana entre o Natal e o Ano Novo e ele pára-se. O som do vento gelado fora aninha-o e o ar limpo assopra-o. Ele pesa-se e sente-se leve, uma penugem de recordações. Ele acalma-se na felicidade da quietude que vive neste momento, naquele instante, noutro tempo. Tudo está bem. O caminho foi tomado e a viagem progride pelo futuro. No fundo do túnel, um sorriso.

Sem título

Queria falar-te, mas nao sei que diga
Nao quero estragar este momento a tentar o sol e a vomitar a luz da rua.
Por isso calo-me e toco-te
mas como(?) uma festa que seja mais que um coçar de comichao.
Podia tentar um beijo, mas quantos me sairam tortos a raspar-te pelo nariz?
Podia ser na parte de trás do pescoço se nao fosse as codeas em massa folhada.
Podia ser um doce comprado na pastelaria da esquina, ahhh, mas as maos sujas do empregado...
Sinceramente, és difícil de amar!

quinta-feira

Suspiros de cigarro



Beautiful Obsession 2003
Acrylic and ink on paper
Trine Boesen


O sol passa-me por cima em mortalha luminosa. O fumo do cigarro brinca com o pó transcendente, sobe levando os meus suspiros. Cada lufada um transbordo num mundo de fadas que dançam o sol e a brisa. Outro suspiro sobe e encontra-se com o anterior. Assisto a uma representaçao feita de leveza e luz, feita por mim e um astro. A música que chega quase me faz acreditar em algo mais que esta subtileza mínima. Que quando eu abandonar este espaço algo acontecerá para lá das leis da física que eu poetizo. Queria ser tao simplesmente bela quanto parece o mundo que vejo e sinto. A minha complexidade pesa-me.
meto a mão em pó
e retiro-te de quando eras outro
quando o teu azul era só azul
ainda não oceano
a tua palidez era encardida
ainda não prateada
as tuas mãos despercebidas
ainda não sentidas
a tua boca ruminando sons
em vez de beijos
todo tu ordinário
metido num sudário fantasista
que dispo com as unhas
raspo com os dentes
esmago
desfrutando algo
algum momento, algum sentimento, algo
quicá, quem sabe, algo que vem em brisa
que cheira a podre
que morre ao redor.

terça-feira

Fingimento



São gotas grossas, metálicas, que caiem pelos telemóveis. Eu respiro muito devagar. Sou extremamente prática, racional, deixo o meu cérebro possuir-me, recta aguda, sem floreios, uma missiva formal de fim pontuado. Termina. Acaba. Silêncio. A recta transforma-se em punhal, abre-me de cima abaixo e deixa-me a escorrer pelos lençóis da cama. Parece que vou morrer, mas eu sei que é só fingimento do meu corpo. Fecho os olhos e deixo-me ir pelo chão de madeira, o sangue chega às escadas e desce-as, sai para a rua e faz um caminho vermelho invisível. Lento. Gelatinoso. Nojento. Deixo-me ir, mas sei que é só fingimento.


Amber Under Hours 2006
Acrylic and Pencil on Birch Panel
Sherry Wong

sábado

O tempo

Não consigo apanhar o tempo. De vez em quando olho o relógio e passou tempo. No entretanto, vivi. E passou. É o que diz o relógio. Um objecto que existe para assinalar o passado e programar o futuro. Detesto relógios. Também detesto calendários. O relógio e o calendário constroem um tempo de fantochada. Como desenhar riscos no chão de cimento, que não podemos pisar, como desenhar setas no chão de cimento, que devemos seguir. Um mundo imaginário que nos faz mover todos aos mesmo tempo. Relógio, gosto do coração que acompanha, batido a segundos, o presente. O meu presente.

domingo

o deserto espraia-se
a vista é igual pra qualquer lado
não interessa o caminho tomado
os passos serão os mesmos passos
na mesma intensa sede
debaixo do mesmo sol
360 graus de vida ardente

terça-feira

E os deuses...

não se levantam...
E a alma não se mantém
Uma multidão ergue-se na garganta
Mas ninguém canta, ninguém
Algures...
Mulheres...
Nós...
Alguém...
estive de luto
mergulhei em tristeza
matei todos os sonhos
um a um
cada um um corte
muito devagar a lâmina cortou
a carne da alma
esvaziei-me de ti

digo-te isto
esvaziei-me de ti
e contudo amo-te
ou não?
continuo a amar o amor que te tive?
novos sonhos aparecem
despegados de ti
mas tu neles e eu em ti

quinta-feira

O mundo paralelo da felicidade
em que colocamos o pé
quando caminhamos neste

a gente pensa nuvens
chilreios de pássaros
entre as fuligens dos carros

de vez em quando chove no mundo de cá
e sentimo-nos secos lá
mas de vez em quando a água transborda de cá para lá
e sufocamos em todas as mágoas
de líquido metálico fluído escorrente fervente

congelamos em mutismo doloroso
que não doa mais
não, por favor, que não doa mais
que eu não aguento a laceração interna invisível cruel
{grande pausa}
gosto de ficar deitada, após, a sentir-me morta

segunda-feira

olho a tua ausência

a esperança que voltes

a certeza que não voltas

a esperança

a certeza

a angústia

algo se quebra...

não aguento

a sensação que não aguento

a esperança que não aguente

a certeza que aguento...

queria poder chorar

mas eu choro

choro a seco

a esperança da certeza...

domingo

obsesso sobre palavras
que leio incessantemente
a passa atordoa a mente
e adormece-me a responsabilidade
na eventualidade
de me dar conta
da barbaridade que é
a eternidade de cada dia.
o tempo não passa
talvez fora da mente
que se ilumina obsessivamente
na procura da massa
que compõe o entendimento.
a vida, a vida passa
por ali, por além
sem jeito ou interesse
obsesso na paralisia
que é a vida enquadrada
no seu normal aborrecimento.
a vida é isto
dia-a-dia a recolha
de um significado
que se entende no fim.

talvez.

a vida é isto:
episódios
a vida é tão pouco
que se faz muito do nada.
mas se sabes o nada que é a vida
és louco
pois a vida tem de ser amada
apesar do nada
(ordem dos prestativos doutores dos conselhos inúteis)
estás oco
estás seco
sem poder dar a golpada
que a engula
a vida
i.e.
o nada.

quarta-feira

Partida

Estavam parados no cais de embarque, pouco mais de dez minutos para a partida. Depois de horas a falar, o silêncio tornara-se imbatível. Que dizer? Que dizer? Que dizer? Ainda faltam dez minutos, ele diz. Ainda têm dez minutos. Ele afiança-a que o pode ir visitar, que é perto, já ali, que tudo vai correr bem. Ela sorri e diz-lhe que o verá em Portugal. Que ele vai gostar de Portugal. Sela assim o futuro com as mútuas ausências. Dez minutos. Ele abraça-a. Ela desprende-se. Ela não olha, vai-se embora. Espreme lágrimas dentro de si. Ainda quase dez minutos.

domingo

Solidão

Um dia ele deixou de escrever, pois a única palavra que conseguia escrever era solidão. Poemas inteiros com a palavra que se repetia, por entre vírgulas e pontos, sempre colocadas em linha e bicha, nenhuma palavra capaz de se encontrar com as outras palavras e deixarem juntas de ser solidão.

segunda-feira

aqui vai, caríssima

Dizes que sou incrível e parece que sou incrível
e toda a gente acha que sou incrível e parece que
neste meu papel de incredibilidade nao consigo
enquadrar-me no mundo.
Poderia concluir que nao há lugar no mundo para os incríveis.
Mas isso parece-me mal.
Eu pareço incrível, mas só sou estuque a cair sobre a cabeça das pessoas
que acham incrível que haja estuque a cair do céu.


Beijos.

quinta-feira

sou egoísta na dor
ou sou delicada na dor
ou sou respeitosa na dor
ou sou ciosa na dor

há a perda e a ausencia
partilhar a ausencia e a dor
é contaminá-la
no momento do adeus

o adeus é de mim para ti
que já aqui nao estás
é entre mim e eu
que vou viver sem ti

mas nunca entre a minha dor
e os outros
a minha dor e a tua ausencia
serao fieis no adeus

nao há convençao
nao há expectativa
nao há imposiçao
nao há nada de fora que me vá retirar do nosso adeus

porque, e já dizia alguém antes de mim,
a morte nao existe
só existe eu que morro e tu que morreste.

terça-feira

desilusao

fiquei à espera do meu amor
e a tristeza foi-me cobrindo como noite
ao adormecer estava fria
ao acordar estava morta