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domingo
A estrela
O Roman Polanski foi talhado para a tragédia. Até a tragédia de estar entre dois mundos que teimam em ver o mundo da mesma forma, mas com óculos diferentes. Por ele ser artista supremo, puseram-no noutro nível de julgamento, de um lado como desculpabilizante, do outro como motivo de assédio. Se Roman não fosse Polanski, o caso ter-se-ia resolvido há 32 anos e não tendo sido resolvido teria sido esquecido por agora. Se Roman não fosse Polanski teria sido recambiado sem baixo-assinados e sem ministros. Mas quando se nasce com uma estrela, ela persegue até à morte. Se ele morrer atropelado por uma estrela cadente, não se surpreendam.
sábado
Fotos ilustrativas do meu poste abaixo (penso eu de que)
Exposição do Bauhaus: na secção das artes plásticas e representativas (sou eu a dar-lhe o nome). Esta geringonça movia-se e supostamente criava um espectáculo de luzes. Baixinho para que ninguém nos ouça: seca... Mas para tirar fotos era realmente interessante. Havia outras cenas mais interessantes, como as pinturas (o Mondrian estava lá, e eu que não sabia que ele tinha sido influenciado por alemães) e representações teatrais (havia uma que era dançarinos assim como a estátua ali debaixo, no palco a formarem formas... perceberam? têm que ir ver).
Bauhaus em Hamburgo? Será Mondrian 3D?
Esta é uma pequena parte (eu tenho a mania de fotografar partes de coisas) de uma escultura à frente do Reichstag em Berlim, que relembra os políticos que foram perseguidos pelos nazis. Cada placa contém o nome, datas de nascimento e morte, e local da morte (geralmente um campo de concentração).
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quarta-feira
Macedónia a partir da Bauhaus
Este fim-de-semana descobri que a modernidade é velha. Ando a reestruturar a minha ideia do mundo. Fui à exposição sobre o movimento Bauhaus na Alemanha. Seguidamente, vou escrever a minha superficialidade e escrevo esta declaração de pessoalidade, este óbvio de um blogue ser opinião, porque a Helena anda por aí e ela é uma especialista em Bauhaus e não quero que ela se me atire às canelas. Eu não estou a ensinar ninguém sobre o Bauhaus. Provavelmente estou só a ser moderna.
Portanto, a minha primeira declaração, talvez herética, é: o Bauhaus é o pai da IKEA. Só que o Bauhaus deu-se de 1919 a 1933 e foi um movimento extremamente rico de ideias. Os conceitos desenvolvidos estavam cimentados numa visão do futuro com várias dimensões: políticas, sociais, artisticas, etc. A IKEA é uma superficialidade, uma degenerescência. A IKEA é a actualidade: um mundo vazio de ideias e cheio de marcas. Portanto, a modernidade hoje é a superfície da modernidade de ontem.
A segunda impressão que me ficou da exposição é uma reposição do deslumbramento que eu sinto com essa Alemanha entre guerras, berço de tanta ideia revolucionária, que em 1933 começaram a ser mortas uma a uma, por uma ideia que se mostrou um horror: o nazismo. A pergunta tem que surgir: porquê esta e não outras? O que me têm ensinado é que as pessoas viviam uma situação económica que os fazia sentir de tal forma inseguros, que acolheram quem lhes desse um sentido forte.
Eu tenho um certo medo do futuro. O 11 de Setembro de 2001 aconteceu nos EUA, quando assassinaram à volta de 3000 pessoas e daqui os americanos deixaram que a administração Bush ratasse as suas apregoadas liberdades e pusesse em questão fundamentos de direito internacional. Aqui, metade do pessoal mete o rabinho entre as pernas cada vez que um gajo de toalha na cabeça grita e a outra metade chateia-se com meros lenços na cabeça das mulheres, enquanto o verdadeiro problema está submergido na confusão. Agora estamos em crise económica e finalmente demo-nos conta que é impossível o crescimento infinito que nos era propagado pelos economistas. Não sei que pensar, mas num mundo sem ideia, estaremos preparados para não deixar uma má ideia tomar conta de nós?
Portanto, a minha primeira declaração, talvez herética, é: o Bauhaus é o pai da IKEA. Só que o Bauhaus deu-se de 1919 a 1933 e foi um movimento extremamente rico de ideias. Os conceitos desenvolvidos estavam cimentados numa visão do futuro com várias dimensões: políticas, sociais, artisticas, etc. A IKEA é uma superficialidade, uma degenerescência. A IKEA é a actualidade: um mundo vazio de ideias e cheio de marcas. Portanto, a modernidade hoje é a superfície da modernidade de ontem.
A segunda impressão que me ficou da exposição é uma reposição do deslumbramento que eu sinto com essa Alemanha entre guerras, berço de tanta ideia revolucionária, que em 1933 começaram a ser mortas uma a uma, por uma ideia que se mostrou um horror: o nazismo. A pergunta tem que surgir: porquê esta e não outras? O que me têm ensinado é que as pessoas viviam uma situação económica que os fazia sentir de tal forma inseguros, que acolheram quem lhes desse um sentido forte.
Eu tenho um certo medo do futuro. O 11 de Setembro de 2001 aconteceu nos EUA, quando assassinaram à volta de 3000 pessoas e daqui os americanos deixaram que a administração Bush ratasse as suas apregoadas liberdades e pusesse em questão fundamentos de direito internacional. Aqui, metade do pessoal mete o rabinho entre as pernas cada vez que um gajo de toalha na cabeça grita e a outra metade chateia-se com meros lenços na cabeça das mulheres, enquanto o verdadeiro problema está submergido na confusão. Agora estamos em crise económica e finalmente demo-nos conta que é impossível o crescimento infinito que nos era propagado pelos economistas. Não sei que pensar, mas num mundo sem ideia, estaremos preparados para não deixar uma má ideia tomar conta de nós?
domingo
Portanto, porque gosto tanto de Edward Hopper
Posso comecar pela simplicidade. Edward Hopper só pintava o estritamente necessário. Se repararem ele pintava os postes de eletricidade, mas nao os cabos. Vao lá ver, eu espero... O pintor do primeiro quadro que eu mostro (abaixo, num poste já ali abaixo) chamava-se John Sloan e se mirarem os seus quadros, é o arraial minhoto: é os prédios, é as roupas, é gatos a aparecerem em todas as esquinas, uma cena à esquerda, mais uma cara noutro lado. Eu espero outra vez...
Em segundo, há método em Hopper. Ele pintava quietude com horizontais e movimento com diagonais. Se repararem no quadro que eu pus abaixo, a diagonal é o braco da menina e, nao sei como é com voces, mas eu fico completamente fixada naquele braco. O quadro do Sloan é aquela roupa no estendal. E depois? Que me interessa a mim um monte de roupa no estendal? Mas aquela jovem, nao posso deixar de me interessar pelo que ela estará ali a fazer. Vai sair? Estar-se-á a preparar para a noite ou para o trabalho? Isto também se deve aqueles verticais, aquela porta que a enquadra, aquele relógio, os contrastes de cores (reparem as cores em Hopper, sao essenciais, trabalha com cores primárias e as suas oposicoes, como o vermelho com o verde) e o voyeurismo. A cena do Sloan é banal, as cores que usa normalmente sao uns pastéis entediantes e o que salta no quadro abaixo é o branco da roupa e roupa a secar deverá estar nos anais do NAO-INTERESSANTE. Além disso, nao há qualquer frisson no facto de estarmos a ver aquela mulher a estender roupa. O máximo que a minha imaginacao consegue fazer com aquilo é perguntar-se "onde está o cesto da roupa"? Isto é de por um hiper-activo a dormir.
Em terceiro, ele cria uma atmosfera nos seus quadros, como se algo estivesse para acontecer. Estamos num prestes, como no inicio de um filme de Hitchcock. Isto é um convite à imaginacao. Depois, Hopper pinta de maneira a que nós nos sentimos parte do quadro. Eu estou com aquela jovem. Ela nao sabe, mas eu estou ali a observa-la e sinto-me um pouco desconfortável por a estar a espiar. Mas eu quero saber quem ela é. A mulher a estender roupa? Naaaahhh.
O Hopper quando comecava a pintar já sabia como o quadro ia acabar. Já tinha planeado as cores, os contrastes, as linhas e as perspectivas. Ele já sabia o que queria provocar no observador. Os artistas que eu gosto sao sempre assim: pensam antes e trabalham muito, o que, para mim, poe em questao o géniozinho que por mero acaso é original. Eu de vez em quando visito um tipo que pinta. Os quadros sao horriveis (nunca lho disse). Penso que quando consegue algo minimamente de interesse, é por acaso. Ele simplesmente comeca a pintar. Vai espetando coisas pra lá, muda de ideias e o quadro acaba por ser camadas caoticas de tinta sobre tinta. Nao percebo quando é que ele decide que terminou. Para mim está tao horrivel como antes. Eu sempre me disse que eu nao percebo de arte. Mas será que quando um pintor é bom, mesmo que uma pessoa nao seja especialista, acaba por saber da qualidade, porque a arte diz-lhe algo. O nao especialista nao sabe porque, mas se observar, reconhece. Eu penso que precisamos de observar primeiro bastante, mas a certa altura ganha-se um sexto sentido, um certo gosto. Deve ser um pouco como aprender uma língua como um bébé. Nao se sabe a gramática, mas sabe-se falar.
Uma vez fui a um exame de pianistas na academia de música de Hamburgo. Eu nao percebo nada de musica, mas soube qual é que gostei ou nao. Os musicos com quem fui ficaram muito excitados, porque parece que eles concordavam comigo. Claro que eles explicavam tudo com muita tecnica, eu só gostei, gostei, sem saber porque, mas gostei. Tem piada, nao tem? Por vezes, é só uma questao de relaxar e nos deixarmos ir. Se formos é porque valeu a pena.
Em segundo, há método em Hopper. Ele pintava quietude com horizontais e movimento com diagonais. Se repararem no quadro que eu pus abaixo, a diagonal é o braco da menina e, nao sei como é com voces, mas eu fico completamente fixada naquele braco. O quadro do Sloan é aquela roupa no estendal. E depois? Que me interessa a mim um monte de roupa no estendal? Mas aquela jovem, nao posso deixar de me interessar pelo que ela estará ali a fazer. Vai sair? Estar-se-á a preparar para a noite ou para o trabalho? Isto também se deve aqueles verticais, aquela porta que a enquadra, aquele relógio, os contrastes de cores (reparem as cores em Hopper, sao essenciais, trabalha com cores primárias e as suas oposicoes, como o vermelho com o verde) e o voyeurismo. A cena do Sloan é banal, as cores que usa normalmente sao uns pastéis entediantes e o que salta no quadro abaixo é o branco da roupa e roupa a secar deverá estar nos anais do NAO-INTERESSANTE. Além disso, nao há qualquer frisson no facto de estarmos a ver aquela mulher a estender roupa. O máximo que a minha imaginacao consegue fazer com aquilo é perguntar-se "onde está o cesto da roupa"? Isto é de por um hiper-activo a dormir.
Em terceiro, ele cria uma atmosfera nos seus quadros, como se algo estivesse para acontecer. Estamos num prestes, como no inicio de um filme de Hitchcock. Isto é um convite à imaginacao. Depois, Hopper pinta de maneira a que nós nos sentimos parte do quadro. Eu estou com aquela jovem. Ela nao sabe, mas eu estou ali a observa-la e sinto-me um pouco desconfortável por a estar a espiar. Mas eu quero saber quem ela é. A mulher a estender roupa? Naaaahhh.
O Hopper quando comecava a pintar já sabia como o quadro ia acabar. Já tinha planeado as cores, os contrastes, as linhas e as perspectivas. Ele já sabia o que queria provocar no observador. Os artistas que eu gosto sao sempre assim: pensam antes e trabalham muito, o que, para mim, poe em questao o géniozinho que por mero acaso é original. Eu de vez em quando visito um tipo que pinta. Os quadros sao horriveis (nunca lho disse). Penso que quando consegue algo minimamente de interesse, é por acaso. Ele simplesmente comeca a pintar. Vai espetando coisas pra lá, muda de ideias e o quadro acaba por ser camadas caoticas de tinta sobre tinta. Nao percebo quando é que ele decide que terminou. Para mim está tao horrivel como antes. Eu sempre me disse que eu nao percebo de arte. Mas será que quando um pintor é bom, mesmo que uma pessoa nao seja especialista, acaba por saber da qualidade, porque a arte diz-lhe algo. O nao especialista nao sabe porque, mas se observar, reconhece. Eu penso que precisamos de observar primeiro bastante, mas a certa altura ganha-se um sexto sentido, um certo gosto. Deve ser um pouco como aprender uma língua como um bébé. Nao se sabe a gramática, mas sabe-se falar.
Uma vez fui a um exame de pianistas na academia de música de Hamburgo. Eu nao percebo nada de musica, mas soube qual é que gostei ou nao. Os musicos com quem fui ficaram muito excitados, porque parece que eles concordavam comigo. Claro que eles explicavam tudo com muita tecnica, eu só gostei, gostei, sem saber porque, mas gostei. Tem piada, nao tem? Por vezes, é só uma questao de relaxar e nos deixarmos ir. Se formos é porque valeu a pena.
terça-feira
A graca
Nao há duvida alguma que eu gosto mais do segundo quadro que do primeiro. Nao percebi a razao, até Domingo, quando fui ver uma exposicao sobre Edward Hopper no contexto dos seus contemporaneos. Edward Hopper fez quadros de que me é impossivel nao parar e observar. Há ali algo que chama, que pede e exige atencao. Porque? Na exposicao era possivel comparar e tentar perceber o que havia num e nao noutro. Depois, se me apetecer, conto.


segunda-feira
Arte e sociologia
Enquadramento jornalístico: The project immersion
By halfway through 2009, Cooper thinks he will have enough material to mount the first exhibition. 'Unreality is interesting,' he says. 'As a photojournalist, you're meant to look at moments of extreme emotion. It seemed to me, after a while of doing that… that is unreal as well. As Baudrillard said, the proliferation of images means we live in an increasingly unreal, mediated world. It's a challenge to try and capture that because you have to start dealing with the medium itself.'
A página do artista: Immersion blog
quinta-feira
Suspiros de cigarro

Beautiful Obsession 2003
Acrylic and ink on paper
Trine Boesen
O sol passa-me por cima em mortalha luminosa. O fumo do cigarro brinca com o pó transcendente, sobe levando os meus suspiros. Cada lufada um transbordo num mundo de fadas que dançam o sol e a brisa. Outro suspiro sobe e encontra-se com o anterior. Assisto a uma representaçao feita de leveza e luz, feita por mim e um astro. A música que chega quase me faz acreditar em algo mais que esta subtileza mínima. Que quando eu abandonar este espaço algo acontecerá para lá das leis da física que eu poetizo. Queria ser tao simplesmente bela quanto parece o mundo que vejo e sinto. A minha complexidade pesa-me.
Quando se quer exterminar os outros

Andisheh Avini 2007
Installation View, I-20 Gallery, New York (February 20 - March 24, 2007) (Photo: Cary Whittier)
Estive a ler um livro sobre o genocídio no Ruanda: "Une saison de machettes" no original, mas eu li a edição americana. Consiste em entrevistas a um grupo de assassinos e apartes do autor. Este é um livro posterior a um outro, em que o autor, Jean Hatzfeld, entrevistou sobreviventes do massacre, livro este que pretendo ler também.
Obviamente que um primeiro passo ao ler este livro será entender o que é genocídio. Especialmente, quando esta é uma palavra usada sem discriminação, como hipérbole em hipérboles. O dicionário diz "destruição metódica de um grupo étnico, pela exterminação dos seus indivíduos." Jean dá uma definição que, para mim, contém o essencial elemento distintivo:
Será possível distinguir um genocídio entre o caos de uma guerra? A resposta (...) encontra-se noutra questão, simples e decisiva: quem são as vítimas de escolha?
Na guerra, os homens sāo mortos primeiro, porque eles sāo os mais prováveis na resposta armada; a seguir estão as mulheres que os poderão ajudar, os rapazes que irão tentar continuar o conflito e os velhos que podem dar conselhos de saber. Mas num genocídio, o assassino persegue todos, em particular bébés, raparigas e mulheres, porque elas representam o futuro.
Toda a envolvente de um genocídio sente-se irreal. Os que vemos à distância, queremos, imaginamos, esperamos, uma explicação que coloque o genocídio no domínio da loucura. Nós, os normais, não poderiamos ser assim. Doença colectiva que queremos compreender nos sintomas. No entanto aquelas pessoas são normais. A doença é humana e é o sentimento de pertença a uma tribo ou a uma nação (utilizando tribo para todas as associaçoes que nao sejam de estado: base religiosa, étnica, morfológica, tudo enfim em que a imaginaçao humana se baseia para criar linhas entre seres humanos).
Testemunho de Pio: No início de um genocídio existe uma causa, uma razão e pessoas que o acham vantajoso. A causa não chega por acaso; é afinada pelos intimidadores: o desejo de ganhar de vez o jogo. Contudo, as pessoas que são tentadas são as que por acaso vivem ali. Eu estava lá, em casa, quando a tentação veio chamar por mim. Eu não estou a dizer que fui forçado por Satanás ou algo assim. A ganância e a obediência levaram-me a achar a causa vantajosa e, assim, corri para os pântanos. Mas se eu tivesse nascido na Tanzânia ou na França, eu estaria longe da comoção e da sede por sangue.
Pessoas simples não podem resistir uma tentação como aquela, não sem a salvação da Biblia, pelo menos, não naqueles montes. Porquê? Por causa das maravilhosas palavras de sucesso total. Elas ganham-te. Depois a tentação não pode ir para a prisão, pelo que as pessoas são presas. E, mais à frente, a tentação pode reaparecer tão pavorosa quanto antes.
Quando alguém vê o seu melhor interesse vir na sua direcção e na dos seus colegas, essa pessoa não perde tempo à espera, a hesitar, essa pessoa já não considera sentimentos, já não ouve pedidos de piedade. Ele vê o Mal na forma do Bem e fica satisfeita. Ele pensa no que pode ganhar para si e para a sua família até ao fim dos seus dias. Ele segue o seu melhor interesse nos pântanos.
Depois, ele limpa-se da lama e do sangue e bebe uma cerveja. Isto foi o que eu fiz. Eu não nego a minha culpa. Mas eu sou, não só punido pelo meu erro, mas também pela minha má sorte.
O primeiro sintoma é a aceitação da linha de ruptura fictícia e a continuada malignização dos outros. Existe no domínio extremamente humano da incongruência. As pessoas conseguem e fazem-no automaticamente todos os dias: albergam duas ideias opostas dentro de si, sem racionalizarem a antítese.
Testemunho de Jean-Baptiste: Os Hutus sempre criticaram os Tutsi pela sua altura e por tentarem usar isto para mandar. O tempo nunca curou este rancor. Em Nyamata, como eu lhe disse, as pessoas diziam que as mulheres Tutsi pareciam demasiadamente magras para trabalharem nos nossos montes, que a pele delas era macia porque secretamente bebiam leite, que os seus dedos eram demasiadamente delicados para agarrar uma sachola e toda essa parvoíce.
Na verdade, os Hutus não viam nada disso nas mulheres Tutsi na sua vizinhança, que dobravam as costas lado-a-lado às mulheres Hutus e que iam buscar a água da mesma maneira. Contudo, os Hutus gostavam de repetir esta conversa. Também gostavam de dizer que um Hutu com uma mulher Tutsi era só para se armar, como no meu caso.
Eles tinham prazer em espalhar o mais inacreditável lixo para criar uma fina linha de discórdia entre os dois grupos étnicos. O importante era manter a distância entre os grupos e tentar agravar a situação. Por exemplo, no primeiro dia de escola, o professor tinha, ao chamar os alunos, de referir a origem étnica, de forma a que os Tutsi sentissem receio ao tomar os seus assentos numa classe de Hutus.
Testemunho de Pio: Talvez não odiássemos todos os Tutsi, especialmente não os nossos vizinhos e talvez não os víssemos a todos como inimigos. Mas entre nós diziamos que não queriamos viver mais com eles. Diziamos até que não os queriamos ver à nossa volta, que os queriamos fora da nossa terra. Dizer isto é grave - isto já é o aguçar da machete. Eu, eu não sei porque é que comecei a odiar os Tutsi. Eu era novo e o que eu mais gostava de fazer era jogar futebol: eu jogava na equipa de Kibungo com outros rapazes Tutsi da minha idade, passávamos a bola entre nós sem problemas. Nunca notei desconforto na companhia deles. O ódio apareceu na altura da matança; eu imitei os outros na sede do ódio, para pertencer ao grupo.
Testemunho de Léopord: É estranho falar de ódio entre os Hutus e os Tutsi, porque as palavras mudaram de significado depois da matança. Antes, nós podiamos estar na galhofa a dizer que os íamos matar a todos e no momento seguinte estar a compartilhar com eles uma bebida ou trabalhar lado-a-lado. Misturávamos as piadas e as ameaças. Já nem ouvíamos o que dizíamos. Podíamos pronunciar palavras horríveis sem pensamentos horríveis. Os Tutsi nem ficavam muito chateados. Quer dizer, eles não se iam embora quando começavam aquelas discussões. Mas agora pudemos ver: aquelas palavras trouxeram consequências terríveis.
A ideia está ali a gravitar: aqueles são outros, maus, perigosos, diferentes, manhosos, desmerecedores da vida, outros. Mas o mais fundamental e surpreendente é o poder da palavra. Num momento em que se discutem as palavras e o politicamente correcto como entediante censura social, seria importante aprender a lição de que as palavras têm poder. Chamar escarumba, paneleiro, puta, judeu a alguém, é mais do que dar nomes, é colocar aquela pessoa numa determinada esfera humana, que segundo o sentido dessas palavras pode ser uma esfera para lá dos laços de irmandade que nos protegem mutuamente do mal que somos. Não é o politicamente correcto que está a reinar, quando escolhemos ter cuidado com as palavras, mas aceitar o poder das palavras como decantadores de ideias, preconceitos, semente de violência contra o grupo adjectivado. Ter cuidado com as palavras que se usam com as pessoas é o humanamente correcto. É ter a inteligência de aprender com a história quem somos e do que somos capazes.
Testemunho de Adalbert: O genocídio não é uma ideia de guerras e batalhas. É uma ideia que as autoridades têm - de se livrarem de um perigo de uma vez por todas. Uma ideia conveniente que não necessita de ser nomeada ou encorajada, para lá de umas orquestrações maliciosas. É uma ideia bastante comum quando voa de palavra em palavra, por vezes, de piada em piada; torna-se extraordinária quando é apanhada na ponta das machetes.
Esta ideia não morre com as mortes, não morre depois da vitória ou depois da derrota. Autoridades no futuro podem recuperá-la para outro destino. Mas como pode alguém matar uma ideia, usada de forma tão extraordinária, se não se souber como matar a palavra, que a pode chamar à vida? Matar os inimigos, matar quem nos faz mal, matar os vizinhos - isto pode-se entender. Matar ideias e palavras - isto vai para além da inteligência, a inteligência de um camponês, pelo menos.
Tradução minha.
(continua)
terça-feira
Fingimento

São gotas grossas, metálicas, que caiem pelos telemóveis. Eu respiro muito devagar. Sou extremamente prática, racional, deixo o meu cérebro possuir-me, recta aguda, sem floreios, uma missiva formal de fim pontuado. Termina. Acaba. Silêncio. A recta transforma-se em punhal, abre-me de cima abaixo e deixa-me a escorrer pelos lençóis da cama. Parece que vou morrer, mas eu sei que é só fingimento do meu corpo. Fecho os olhos e deixo-me ir pelo chão de madeira, o sangue chega às escadas e desce-as, sai para a rua e faz um caminho vermelho invisível. Lento. Gelatinoso. Nojento. Deixo-me ir, mas sei que é só fingimento.
Amber Under Hours 2006
Acrylic and Pencil on Birch Panel
Sherry Wong
Censura
The French Embassy on Monday canceled a New York party for a book about Vichy France's collaboration with Nazi Germany because of the author's postscript that says Israel has oppressed Palestinians. (...)
"The French Cultural Attache read it and he was incredibly complimentary," said Callil, who was born in Australia and moved to London where she founded feminist publisher Virago Press and ran publisher Chatto i Windus.
But Callil said Tuesday's party was canceled after "a series of letters from various Jewish fundamentalists complaining. They take a view that that no one can say anything about Jews that is not 100 percent complimentary." She did not identify the letter writers by name. (...)
“A razão da decisão foi, simplesmente, para não chocar a população do bairro de Whitechapel, a maioria muçulmana”, explicou.(...)
Entre as obras de Bellmer (1902-1975), figuram bonecas de jovens raparigas nuas, em poses degeneradas, em protesto contra os ideais da raça ariana promovidos pelos nazis. (...)
"The French Cultural Attache read it and he was incredibly complimentary," said Callil, who was born in Australia and moved to London where she founded feminist publisher Virago Press and ran publisher Chatto i Windus.
But Callil said Tuesday's party was canceled after "a series of letters from various Jewish fundamentalists complaining. They take a view that that no one can say anything about Jews that is not 100 percent complimentary." She did not identify the letter writers by name. (...)
“A razão da decisão foi, simplesmente, para não chocar a população do bairro de Whitechapel, a maioria muçulmana”, explicou.(...)
Entre as obras de Bellmer (1902-1975), figuram bonecas de jovens raparigas nuas, em poses degeneradas, em protesto contra os ideais da raça ariana promovidos pelos nazis. (...)
sexta-feira
segunda-feira
Arte...
...que se faz com água e a reacção dos "incultos". Não queria generalizar, mas uma coisa destas não tinha que vir de Inglaterra?
terça-feira
sábado
Discurso de Harold Pinter... (Actualização)
... para a cerimónia da entrega do Nobel da Literatura: Arte, Verdade e Política Actualização -> Versão em português!
Excertos:
In 1958 I wrote the following:
'There are no hard distinctions between what is real and what is unreal, nor between what is true and what is false. A thing is not necessarily either true or false; it can be both true and false.'
I believe that these assertions still make sense and do still apply to the exploration of reality through art. So as a writer I stand by them but as a citizen I cannot. As a citizen I must ask: What is true? What is false?
Truth in drama is forever elusive. You never quite find it but the search for it is compulsive. The search is clearly what drives the endeavour. The search is your task.
(...)
So language in art remains a highly ambiguous transaction, a quicksand, a trampoline, a frozen pool which might give way under you, the author, at any time.
But as I have said, the search for the truth can never stop. It cannot be adjourned, it cannot be postponed. It has to be faced, right there, on the spot.
(...)
Political language, as used by politicians, does not venture into any of this territory since the majority of politicians, on the evidence available to us, are interested not in truth but in power and in the maintenance of that power.
(...)
Look at Guantanamo Bay. Hundreds of people detained without charge for over three years, with no legal representation or due process, technically detained forever. This totally illegitimate structure is maintained in defiance of the Geneva Convention. It is not only tolerated but hardly thought about by what's called the 'international community'. This criminal outrage is being committed by a country, which declares itself to be 'the leader of the free world'. Do we think about the inhabitants of Guantanamo Bay? What does the media say about them? They pop up occasionally – a small item on page six. They have been consigned to a no man's land from which indeed they may never return.
(...)
Early in the invasion [of Iraq] there was a photograph published on the front page of British newspapers of Tony Blair kissing the cheek of a little Iraqi boy. 'A grateful child,' said the caption. A few days later there was a story and photograph, on an inside page, of another four-year-old boy with no arms. His family had been blown up by a missile. He was the only survivor. 'When do I get my arms back?' he asked. The story was dropped. Well, Tony Blair wasn't holding him in his arms, nor the body of any other mutilated child, nor the body of any bloody corpse. Blood is dirty. It dirties your shirt and tie when you're making a sincere speech on television.
(...)
I know that President Bush has many extremely competent speech writers but I would like to volunteer for the job myself. I propose the following short address which he can make on television to the nation. I see him grave, hair carefully combed, serious, winning, sincere, often beguiling, sometimes employing a wry smile, curiously attractive, a man's man.
'God is good. God is great. God is good. My God is good. Bin Laden's God is bad. His is a bad God. Saddam's God was bad, except he didn't have one. He was a barbarian. We are not barbarians. We don't chop people's heads off. We believe in freedom. So does God. I am not a barbarian. I am the democratically elected leader of a freedom-loving democracy. We are a compassionate society. We give compassionate electrocution and compassionate lethal injection. We are a great nation. I am not a dictator. He is. I am not a barbarian. He is. And he is. They all are. I possess moral authority. You see this fist? This is my moral authority. And don't you forget it.'
(...)
When we look into a mirror we think the image that confronts us is accurate. But move a millimetre and the image changes. We are actually looking at a never-ending range of reflections. But sometimes a writer has to smash the mirror – for it is on the other side of that mirror that the truth stares at us.
I believe that despite the enormous odds which exist, unflinching, unswerving, fierce intellectual determination, as citizens, to define the real truth of our lives and our societies is a crucial obligation which devolves upon us all. It is in fact mandatory.
If such a determination is not embodied in our political vision we have no hope of restoring what is so nearly lost to us – the dignity of man.
Excertos:
In 1958 I wrote the following:
'There are no hard distinctions between what is real and what is unreal, nor between what is true and what is false. A thing is not necessarily either true or false; it can be both true and false.'
I believe that these assertions still make sense and do still apply to the exploration of reality through art. So as a writer I stand by them but as a citizen I cannot. As a citizen I must ask: What is true? What is false?
Truth in drama is forever elusive. You never quite find it but the search for it is compulsive. The search is clearly what drives the endeavour. The search is your task.
(...)
So language in art remains a highly ambiguous transaction, a quicksand, a trampoline, a frozen pool which might give way under you, the author, at any time.
But as I have said, the search for the truth can never stop. It cannot be adjourned, it cannot be postponed. It has to be faced, right there, on the spot.
(...)
Political language, as used by politicians, does not venture into any of this territory since the majority of politicians, on the evidence available to us, are interested not in truth but in power and in the maintenance of that power.
(...)
Look at Guantanamo Bay. Hundreds of people detained without charge for over three years, with no legal representation or due process, technically detained forever. This totally illegitimate structure is maintained in defiance of the Geneva Convention. It is not only tolerated but hardly thought about by what's called the 'international community'. This criminal outrage is being committed by a country, which declares itself to be 'the leader of the free world'. Do we think about the inhabitants of Guantanamo Bay? What does the media say about them? They pop up occasionally – a small item on page six. They have been consigned to a no man's land from which indeed they may never return.
(...)
Early in the invasion [of Iraq] there was a photograph published on the front page of British newspapers of Tony Blair kissing the cheek of a little Iraqi boy. 'A grateful child,' said the caption. A few days later there was a story and photograph, on an inside page, of another four-year-old boy with no arms. His family had been blown up by a missile. He was the only survivor. 'When do I get my arms back?' he asked. The story was dropped. Well, Tony Blair wasn't holding him in his arms, nor the body of any other mutilated child, nor the body of any bloody corpse. Blood is dirty. It dirties your shirt and tie when you're making a sincere speech on television.
(...)
I know that President Bush has many extremely competent speech writers but I would like to volunteer for the job myself. I propose the following short address which he can make on television to the nation. I see him grave, hair carefully combed, serious, winning, sincere, often beguiling, sometimes employing a wry smile, curiously attractive, a man's man.
'God is good. God is great. God is good. My God is good. Bin Laden's God is bad. His is a bad God. Saddam's God was bad, except he didn't have one. He was a barbarian. We are not barbarians. We don't chop people's heads off. We believe in freedom. So does God. I am not a barbarian. I am the democratically elected leader of a freedom-loving democracy. We are a compassionate society. We give compassionate electrocution and compassionate lethal injection. We are a great nation. I am not a dictator. He is. I am not a barbarian. He is. And he is. They all are. I possess moral authority. You see this fist? This is my moral authority. And don't you forget it.'
(...)
When we look into a mirror we think the image that confronts us is accurate. But move a millimetre and the image changes. We are actually looking at a never-ending range of reflections. But sometimes a writer has to smash the mirror – for it is on the other side of that mirror that the truth stares at us.
I believe that despite the enormous odds which exist, unflinching, unswerving, fierce intellectual determination, as citizens, to define the real truth of our lives and our societies is a crucial obligation which devolves upon us all. It is in fact mandatory.
If such a determination is not embodied in our political vision we have no hope of restoring what is so nearly lost to us – the dignity of man.
domingo
Perdido na tradução
Fui ver uma exposição de arte, daquele tipo de pintura abstracta em que pensas Eu poderia fazer aquela mancha muito melhor... Aquela mancha fazia-a eu aos 5! Estatelada à frente de um quadro branco com uma bola vermelha e uma bola azul eu pensei que a razão daquele quadro é o seu pintor. As pessoas que decidiram expôr aquele quadro conhecem o pintor e vêem nele o seu autor, as outras dimensões de criação. Aquele quadro precisava do conhecimento do pintor. Como eu não tinha ideia, o que ali estava era somente uma provocação à minha capacidade de pintar dois círculos numa tela.
sábado
A arte objectiva

A ilustração científica existe há muito tempo, quando ainda nem existiam métodos fotográficos. Mostra-se com clareza o que se pretende explicar. Salienta-se o objecto, sem faltar à verdade do acessório.
Estudo de Embriões de Leonardo da Vinci
Mesmo quando a fotografia apareceu, a ilustração científica continuou a ser fundamental, pois a fotografia não é muitas vezes clara para ilustrar a mensagem. Nem o objecto da explicação é muitas vezes fotografável, quando é um esquema de um apanhado de factos, como por exemplo um bom esquema do ciclo hidrológico do planeta.
Os computadores alargaram o domínio da ilustração científica dos lápis, pincéis, espátulas, para o desenho em computador. Produzem-se maravilhas como esta:

Agora a ilustração científica entra em mundos desconhecidos. Tenta construir um olhar do que só é conhecido indirectamente pela ciência.
O texto anexo à figura reza:
Deep inside the brain, a neuron prepares to transmit a signal to its target. To capture that fleeting moment, Graham Johnson based this elegant drawing on ultra-thin micrographs of sequential brain slices. After scanning a sketch into 3D modeling software, he colored the image and added texture and glowing lighting reminiscent of a scanning electron micrograph.
Ver a fonte: Science and Engineering Visualization Challenge
segunda-feira
Sentimento de segunda
Kazimir Malevich. Auto-retrato em duas dimensões 1915É segunda-feira, granda porra, mas está SOL, de Verão, daquele que até faz suar um pouquinho... Fantástico! Mesmo assim sinto-me um pouco como o Malevich... Esta abstracção em duas dimensões ainda me há-de matar...
sexta-feira
Contra o Centro Pompidou
Em Freiburgo comprei o livro "Neither here nor there" de um Bill Bryson. Tinha visto vários dos seus livros encertados na casa de vários amigos e dei-me conta que havia uma onda de sucesso que eu ainda não tinha experimentado. É um livro de viagens e o Sr. é um escritor de viagens encartado. Tem vários livros, e dos que eu desfolhei na livraria tratavam dos seus corropios na Austrália, no seu país natal (os EUA), a Grã-Bretanha (onde viveu metade da sua vida) e o que eu comprei que é sobre a sua deambulação por países europeus. O seu último livro nem é sobre viagens geográficas, mas pareceu-me viagens no mundo da ciência.
Por vezes sou um pouco "snob" e talvez tenha sido por isso que pensei que os MEUS AMIGOS andando a ler livros de viagens teria de ser algo profundo de alguém introspectivo a dissertar sobre uma diferente cultura. OK. Não sou só snob, mas ridiculamente snob. Esqueci-me que o senhor escritor é norte-americano e que os livros dele são sucessos, logo eu deveria desconfiar que os livros dele são leves. Mas são positivamente leves, perfeitos para leituras em esplanadas. Ele tem um humor baseado na hipérbole e na detecção de disparates e incongruências que é delicioso para mim, pois tenho um humor parecido. Eu sou é menos competente no seu uso. Eu não escrevo livros e ganho a vida, eu rio-me das minhas piadas, geralmente só e contente (snob e egocêntrica). O meu núcleo de fãs é restrito, mas gosto de pensar, "profundo". :-)
Ele ganhou-me no momento em que criticou o Centro Pompidou em Paris. De todas as pessoas a quem perguntei o que acham do edifício recebo um discurso de como é original e interessante e fantástico. Tenho de reprimir o pensamento que me vem à cabeça: que aquilo é feio como a peste e que a maior parte das pessoas convencem-se que parece bem gostar porque senão ainda te acham um provinciano. Várias vezes observei cuidadosamente a monstruosidade intestinal a tentar identificar algo que me atraia. Acabo na fonte e viro as costas ao edifício. A fonte é castiça, mas não convida, talvez porque precisasse de espaço e verde e sol, em vez de estar entalada.

Se o edifício estivesse noutro local, com mais espaço e bastantes árvores a escondê-lo eu até seria capaz de gostar, mas ALI! Como sempre me senti sozinha no meu desprezo fiquei contentíssima quando li o que o Bill Bryson escreveu, tal como:
But what I really dislike about buildings like the Pompidou Centre, and Paris is choking on them, is that they are just showing off. Here's Richard Rogers saying to the world,'Look, I put all the pipes on the outside. Am I cute enough to kiss?' I could excuse that if some consideration were given to function. No one seems to have thought what the Pompidou Centre should do - that it should be a gathering place, a haven, because it's just crowded and confusing. It has none of the sense of space and light and majestic calm of the Musée d'Orsay. It's like a department store on the first day of a big sale. There's hardly any place to sit and no focal point - no big clock or anything - at which to meet someone. It has no heart.
Por vezes sou um pouco "snob" e talvez tenha sido por isso que pensei que os MEUS AMIGOS andando a ler livros de viagens teria de ser algo profundo de alguém introspectivo a dissertar sobre uma diferente cultura. OK. Não sou só snob, mas ridiculamente snob. Esqueci-me que o senhor escritor é norte-americano e que os livros dele são sucessos, logo eu deveria desconfiar que os livros dele são leves. Mas são positivamente leves, perfeitos para leituras em esplanadas. Ele tem um humor baseado na hipérbole e na detecção de disparates e incongruências que é delicioso para mim, pois tenho um humor parecido. Eu sou é menos competente no seu uso. Eu não escrevo livros e ganho a vida, eu rio-me das minhas piadas, geralmente só e contente (snob e egocêntrica). O meu núcleo de fãs é restrito, mas gosto de pensar, "profundo". :-)
Ele ganhou-me no momento em que criticou o Centro Pompidou em Paris. De todas as pessoas a quem perguntei o que acham do edifício recebo um discurso de como é original e interessante e fantástico. Tenho de reprimir o pensamento que me vem à cabeça: que aquilo é feio como a peste e que a maior parte das pessoas convencem-se que parece bem gostar porque senão ainda te acham um provinciano. Várias vezes observei cuidadosamente a monstruosidade intestinal a tentar identificar algo que me atraia. Acabo na fonte e viro as costas ao edifício. A fonte é castiça, mas não convida, talvez porque precisasse de espaço e verde e sol, em vez de estar entalada.

Se o edifício estivesse noutro local, com mais espaço e bastantes árvores a escondê-lo eu até seria capaz de gostar, mas ALI! Como sempre me senti sozinha no meu desprezo fiquei contentíssima quando li o que o Bill Bryson escreveu, tal como:
But what I really dislike about buildings like the Pompidou Centre, and Paris is choking on them, is that they are just showing off. Here's Richard Rogers saying to the world,'Look, I put all the pipes on the outside. Am I cute enough to kiss?' I could excuse that if some consideration were given to function. No one seems to have thought what the Pompidou Centre should do - that it should be a gathering place, a haven, because it's just crowded and confusing. It has none of the sense of space and light and majestic calm of the Musée d'Orsay. It's like a department store on the first day of a big sale. There's hardly any place to sit and no focal point - no big clock or anything - at which to meet someone. It has no heart.
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