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sábado

Amo o Outono

Adoro o Outono. É um daqueles temas que me fazem desejar ter talento para escrever como um escritor, para por em palavras o que parece inexprimivel e no entanto... Sem talento, tenho de me apoiar em palavras como magia. Quanta magia existe num bem-estar feito de nenhuma causa para lá de estar vivo e ser capaz de sentir, bem, bem? É, portanto, a magia de estar vivo; um imponderável, portanto. Mas o Outono é um imponderável inexprimível de uma classe superior. Será que gosto especialmente de dourados? Porque o Outono é ouro. E qual o prazer do primeiro frio? No Outono caminho muito, vagueio pelas ruas, pisando a terra molhada, o crispar das folhas secas, na urgencia de completar um sonho perecível. Deixo de fumar, para ter espaco para o cheiro do Outono nos meus pulmoes, metendo-o também nas bochechas, reservando-o para o longo ano, até ao próximo Outono. As folhas chovem sobre mim e eu sorrio como se caíssem por mim: é o Outono a dialogar.

É tao difícil exprimir o Outono, que só posso concluir, que amo o Outono. Este é o momento mais luminoso e aguardado do meu mundo. Está a comecar e a mim só me apetece saltar, saltar como um boneco animado, saltar sobre o sofá e a cama. Sinto-me como quando era crianca, dentro do carro, a caminho das férias anuais na praia. A expectativa do que está a comecar, todos os dias de Outono que estao para comecar, nao sei onde meter o meu entusiasmo e rebento de alegria! É Outono!

segunda-feira

decisoes... :(

Tenho sobre a mesa uma proposta de trabalho para a Noruega. Já disse que a raca de pessoas que eu alguma vez tive o desgosto de conhecer que mais detestei foi os noruegueses? Como eu uma vez disse a uma chinesa, se ela quiser calor humano é melhor abracar um peixe que um noruegues. Ela riu-se muito, disse que era uma piada muito boa e eu depois de uma piada muito boa estou a pensar, se fosse piada. Uma italiana, imagino que para me confortar ou em piada, lembrou-me que o bacalhau vem da Noruega. Pois, realmente há lá muito peixe.

sábado

Boa frase

"Imagine life without death," Jules Renard wrote. "Every day you would want to kill yourself."

Imagine a vida sem morte. Todos os dias, cada dia, iria querer-se matar.

ou

Imagine a vida sem morte. Todos os dias o desejo da morte.

Imagine a vida sem morte. A vida seria como aqueles sítios que nunca visitamos porque estão perto e um dia quando houver tempo passamos lá.

terça-feira

Texto impressionante:

Desterrada

adeus

Trabalho junto a um arranha-céus e de tempos a tempos alguém suicida-se dali. Hoje pela primeira vez ouvi o grito do suicida. Eu senti a necessidade de colocar importância nos meus sentimentos, de não abanar a mão em sinal da prática inutilidade de mim. É nestes momentos que a religião faz falta, como cerimonial, como repositório de atos significantes. Mas como sou ateísta vim para aqui escrever a minha vontade de assinalar: hoje alguém decidiu morrer onde eu o ouvi e eu queria de alguma qualquer forma poder mandar um adeus.

sexta-feira

Filme singelo

Tenho um fraco por, o que chamo, filmes singelos. Imaginem que eu todos os dias passo por uma rua. Imaginem que um dia alguém vem comigo e me mostra a rua de uma outra perspectiva e que faz essa demonstracao de forma artística, de tal forma que essa rua, aos meus olhos, acende-se. Nada novo na rua, excepto os olhos de quem a ve. Agora imaginem que a rua é a vida e a pessoa que guia o olhar sao os filmes singelos. Assim, apaixonarmo-nos e fazermos papel de ursos, ou apaixonarmo-nos e ficarmos com remorsos por nao termos feito papel nenhum, a primeira vez que beijamos, que apalpamos, que vemos, a mentira envergonhada, a excitaçao dar lugar ao cinismo e ao aborrecimento, o aparente paradoxo do amor e do ódio entrelaçados, descobrirmos coisas muito simples demasiado tarde, cair-nos a alma com a morte de um pássaro ou olharmos embevecidos um gato a torturar um rato, passa a ganhar a dimensao de uma epopeia, repetida milhoes de vezes certamente, mas propensa a novidade na nossa efémera vida, se soubermos o quanto especial o é para nós. No entanto, esquecemos até que algo singelo e especial nos lembra. Por isso, tenho um grande fraco por filmes singelos.



Esta introduçao vem a propósito de um filme que eu vi agora, mas já é de 2005. Nada, absolutamente nada do que passa na vida das pessoas no filme é algo que nao poderia passar na minha vida ou na vida de pessoas que eu poderia conhecer ou vir a conhecer. Na verdade, a nao ser que estivessemos enclausurados, aquilo acontece de uma forma similar a mim e ás pessoas que conheço e vou conhecer. O que muda sao os olhos de quem ve. Os filmes singelos sao sobre a vida, a vida de todos os dias, a vida sem marcos de extraordinariedade. E no entanto... Que extraordinário é o olhar e que extraordinária é a vida de cada pessoa á luz desse olhar.

Um homem e uma mulher encontram-se numa rua. O encontro nao é casual. Antes, a mulher apaixonou-se por aquele homem. Cada um vai para o seu respectivo carro e a certo ponto da rua vao-se separar. Enquanto caminham e enchendo o espaço com palavras que é necessário encher quando se caminha com outra pessoa, eles acabam por construir naquele caminho as suas vidas juntos.

Um senhor compra um peixe vermelho para a filha, mas esquece o saco de plástico com o peixe sobre o tejadilho do carro quando arranca para casa. O destino daquele peixe torna-se uma ponte de solidariedade e o presságio mais que certo, de que é necessário aprender a dizer adeus.

Em súmula, adorei o filme.

Me and you and everyone we know de Miranda July.

quinta-feira

quarta-feira

Momento alto do dia

Desmaiar de sono.

quinta-feira

Vida (4)

A vida desenha uma árvore

e a morte desenha outra.

A vida desenha um ninho

e a morte põe-se a copiá-lo.

A vida desenha um pássaro

para que ele habite o ninho

e imediatamente a morte

desenha outra ave.

A mão que não desenha nada

passeia por entre todos os desenhos

e por vezes desloca um ou outro.

Por exemplo:

o pásssaro da vida

ocupa o ninho da morte

sobre a árvore desenhada pela vida

Outras vezes

a mão que não desenha nada

converte-se por si só

em imagem supérfula,

em figura de pássaro,

em figura de árvore,

em figura de ninho.

E então, e só então,

nada falta nem está a mais.

Por exemplo:

dois pássaros

ocupam o ninho da vida

sobre a árvore da morte.

Ou a árvore da vida

suporta dois ninhos

onde habita um único pássaro.

Ou um único pássaro

habita um único ninho

sobre a árvore da vida

e a árvore da morte.


Roberto Juarroz (1925-1995) -> X

terça-feira

Vida (3)

Tragedia a Tortorici, comune montano del Messinese
Muore soffocato da una mozzarella
Un giovane di 20 anni ha ingoiato un boccone troppo grosso ed è rimasto soffocato. Inutili i tentativi dei medici di rianimarlo

MESSINA - Ha ingoiata una mozzarella intera ed è morto soffocato. E’ accaduto ad un giovane di Tortorici, comune montano del Messinese. Calogero C.M., 20 anni, non ha avuto scampo, la mozzarella, ingoiata intera, gli ha provocato il blocco delle vie respiratorie, portandolo alla morte.
Inutili i tentativi dei medici del Presidio territoriale di emergenza di Tortorici, dove il giovane era stato portato dai familiari che lo avevano soccorso per primi. Il ventenne è spirato poco dopo.

Enviado por méile por amigo, provavelmente a pensar no meu humor negro. Digamos que nao é assim tao negro.

domingo

obsesso sobre palavras
que leio incessantemente
a passa atordoa a mente
e adormece-me a responsabilidade
na eventualidade
de me dar conta
da barbaridade que é
a eternidade de cada dia.
o tempo não passa
talvez fora da mente
que se ilumina obsessivamente
na procura da massa
que compõe o entendimento.
a vida, a vida passa
por ali, por além
sem jeito ou interesse
obsesso na paralisia
que é a vida enquadrada
no seu normal aborrecimento.
a vida é isto
dia-a-dia a recolha
de um significado
que se entende no fim.

talvez.

a vida é isto:
episódios
a vida é tão pouco
que se faz muito do nada.
mas se sabes o nada que é a vida
és louco
pois a vida tem de ser amada
apesar do nada
(ordem dos prestativos doutores dos conselhos inúteis)
estás oco
estás seco
sem poder dar a golpada
que a engula
a vida
i.e.
o nada.

quarta-feira

Vida (2)

Talvez isto seja um pouco estranho, já que a vida teve imenso tempo para desenvolver as suas ambições. Se imaginarmos os 4500 milhões de anos da vida na Terra comprimidos num dia, então a vida começa cedo, pelas 4 da manhã, com o surgimento do primeiro ser unicelular, mas então não existe mais nenhum avanço nas próximas 16 horas. Só pelas 20h30, quando 5/6 do dia já passaram, é que a Terra tem algo para mostrar ao Universo: uma película vibrante de micróbios. Então, finalmente, aparecem as primeiras plantas marinhas, vinte minutos depois aparece a primeira medusa e a enigmática fauna Ediacarana vista, pela primeira vez na Austrália, por Reginald Sprigg. Às 21h04 os trilóbitas nadam em cena, seguidos mais ou menos imeditamente pelas criaturas elegantes da camada de Burgess. Quase, quase às 22h, as plantas começam a surgir sobre a terra. Pouco depois, com menos de 2h para que o dia acabe, as primeiras criaturas terrestres aparecem. Graças a 10 minutos de tempo ameno, pelas 22h24 a terra está coberta de grandes florestas carboníferas, cujos resíduos fornecem-nos hoje todo o nosso carvão e os primeiros insectos com asas são evidentes. Os dinossauros arrastam-se pesadamente em cena poucos antes das 23h, dominando-a durante 3/4 de hora. Aos 21 minutos para a meia-noite os dinossauros desaparecem e a temporada dos mamíferos começa. Os humanos emergem 1 minuto e 17 segundos antes da meia-noite. Nesta escala, a nossa história registada não é mais que uns segundos, uma única vida humana um instante.

A short history of nearly everything de Bill Bryson

Tradução minha.

sábado

Vida (1)

Como a maior parte das coisas que vivem em ambientes hostis, os líquenes crescem devagar. Um líquen pode demorar meio século a ter o tamanho de um botão de camisa. Assim, os líquenes com o tamanho de um prato terão, como escreve David Attenborough, "provavelmente centenas, senão mesmo, milhares de anos." É difícil imaginar uma vida mais insatisfatória. "Eles simplesmente existem", continua Attenborough, "demonstrando o facto emocionante de que a vida, até nos seus níveis mais simples, aparentemente existe só por si mesma."

É fácil esquecer que a vida simplesmente é. Como humanos temos a tendência de sentir que a vida tem um sentido. Nós temos planos, aspirações e desejos. Nós queremos aproveitar todas as oportunidades que a existência intoxicante nos oferece. Mas o que é a vida para um líquen? Contudo, o seu impulso para existir, para ser, é tão forte quanto o nosso - discutivelmente maior. Se alguém me dissesse que eu teria de passar décadas como uma camada felpudinha sobre uma rocha numa mata, eu acho que perderia a vontade de viver. Os líquenes não. Como virtualmente tudo o que é vivente, eles sofrerão qualquer trabalho, aguentarão qualquer insulto, para existir um pouco mais. Em súmula, a vida quer ser. Mas - e este é um ponto interessante - na maior parte dos casos, a vida não quer ser muito.

A short history of nearly everything de Bill Bryson

Tradução minha.