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quinta-feira

Levantado processo disciplinar a enfermeiro por reclamar em carta ao Presidente da República!

(...)
Na exposição ao PR, o enfermeiro queixa-se de ter sido transferido compulsivamente do serviço de otorrino para a pneumologia enquanto estava de férias, sem que lhe fosse dada oportunidade para se defender. "Não seria lógico, num quadro de alguma falta disciplinar, a instauração de um processo?", questionou.
(...)
Além do seu caso particular, o enfermeiro refere a existência de "um acumular de situações naquele serviço de extrema gravidade", acusando-o "de ser uma fábrica de números" e de estar instalada "uma concepção autoritária do poder". Pede a Cavaco Silva que "tenha um olhar atento e preocupado". E disponibiliza-se para prestar esclarecimentos.
(...)


Segundo o BE:
Alguns dias depois, esta carta, dirigida ao Sr. Presidente da República, serviu de pretexto para o Conselho de Administração (CA) decidir a abertura de um processo disciplinar contra o referido enfermeiro, tendo em vista o seu despedimento com justa causa, invocando para isso a natureza difamatória da missiva e o carácter ilícito do acto de escrever ao mais alto representante da nação.

Voltando ao i:
(...)
Contactado pelo i, o hospital confirma que a carta a Cavaco Silva é o motivo para ambos os processos, e explica que não está em causa a opinião pessoal do enfermeiro quanto às chefias, mas sim as acusações que faz "pondo em causa o bom nome da unidade no tratamento dos doentes". Sobre as denúncias do enfermeiro na carta, a unidade recusa fazer quaisquer outros comentários.
(...)
O Bloco de Esquerda já levou o caso à Assembleia da República, questionando a ministra da Saúde, Ana Jorge, sobre o assunto na última reunião da comissão parlamentar de saúde. Tendo ficado sem resposta, o deputado João Semedo apresentou um requerimento pedindo à ministra uma posição.
(...)
Questionada pelo i, a Presidência da República responde apenas que "tem por princípio não comentar publicamente a correspondência que recebe". Também o Ministério da Saúde recusou prestar declarações.
(...)

os ênfases nas fontes são meus. sou eu a passar-me

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Atualização no i:

Processo a enfermeiro é "inaceitável", diz Cavaco Silva



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Nova atualização no i:
A pressão do Palácio de Belém acabou por dar frutos, e a administração do S. João, invocando atender "ao superior interesse público e à consideração que merecem todas as instituições democráticas", decidiu-se pelo arquivamento do processo.

Já comeca a fazer escola escrever "interesse publico" quando se quer justificar merda. Talvez fosse melhor ir fazer formacao em democracia, meus senhores, nao é vergar o pescoco as instituicoes democraticas, é perceber a democracia! Idiotas.

domingo

Sobre as regras - parte II e os ideais - parte I

Na continuação deste meu poste e pegando nos comentários aí escritos do jj.amarante e da Rita Maria,

Na minha relação com a religião com que fui criada passei por várias fases. Acho improvável que sendo quem sou neste momento eu possa retornar a ser religiosa sem ser deixando de ser quem sou. Mas tenho olhado para a religião como uma necessidade humana que importa, na minha percepção, não negar liminarmente por nós ateus. É um equilíbrio muito difícil de conseguir. Mais interessante para mim do que os religiosos, são os ateus e o percurso longo que cada um de nós tem de percorrer e se estou acostumada a ver os ateus que sabem minimamente da religião de que se afastaram, estou agora interessada numa nova casta de ateus, que cresceram assim e que têm que fazer um outro caminho. A minha irmã, que também é uma não crente, resolveu colocar os seus filhos em Aulas de Religião e eu concordei porque me pareceu que caso contrário correriamos o risco de sermos convidados para algum batizado aquando da sua chegada à idade adulta. Mas a minha irmã partiu de um outro pressuposto: o de que para compreender a sociedade em que vivemos precisamos de aprender também sobre a religião que formou a sociedade em que vivemos. Pouco a pouco tenho vindo a concordar com o ponto dela. O relato do Rui Tavares é mais um pormenor nessa ligação subtil entre o hoje secular e o ontem e hoje religiosos, que afeta os ateus.

Quando postei sobre regras estava a pensar naquelas que definem acordos necessários para que todos nós possamos viver em sociedade em harmonia, como decidir que se guia do lado direito. Não estava a pensar em ideais. Estava a pensar neste poste da Fernanda Câncio e nisto:

Há muitos anos atrás, arranjei num Outubro, um trabalho a ganhar o salário minimo nacional da altura. Seis meses depois arranjei outro trabalho a ganhar para aí o dobro e uns meses depois fui já nao me lembro onde candidatar-me ao arrendamento jovem. Havia uma base minima de apoio que era calculada pegando na declaração de IRS e dividindo por 12, o que no meu caso era: tres salarios minimos nacionais dividindo por 12 = mesada de papa e mama. A senhora informou-me que eu assim nao podia candidatar-me. Eu expliquei-lhe que aquilo nao tinha nada a ver com a minha situação e que podia trazer um comprovativo do meu rendimento atual. A senhora disse que nao, que a equaçao era aquela e acabou-se. Já nao me lembro quanto tempo fiquei a gaguejar "mas", mas a senhora lá passou ao ponto dois: como fazer gincana ao sistema. Os olhos sairam-me das órbitas e eu removi-me do antro. Nao quero que pensem que eu sou um anjo, porque nos finalmentes eu fiz a gincana ao sistema. Mas cá está o meu ponto: há a regra que é estúpida e portanto a solução é ser chico-esperto e isto é ensinado pelas pessoas que aplicam as regras. Agora, digam-me onde está a mula. Eu proporia quem fez a regra...



Penso que é necessário discriminar entre os ideais e as regras. Esta foi uma das minhas irritações com a chamada constituição, porque para mim a constituição é uma declaração de ideais e não um aglomerado frankensteiniano de regras e ideais como o que nos foi apresentado. A necessidade de uma constituição europeia clara parece existir quando somos confrontados com as notícias de dislates vários das nossas instituições quando confrontadas com grupos de pessoas imigradas recentemente que intentam em impôr costumes que nos afrontam. É necessário definir em constituição o que é um afrontamento válido, o que são ideais universais, aqueles que devem ser defendidos e impostos a todos neste espaço em que vivemos. Porque é extremamente importante fazermos esta reflexão e esta definição, fico zangada quando se mistura o que é um ideal com o que é uma regra. A homogeneidade populacional anterior parecia não necessitar de tal preciosismo, mas estes são outros tempos, senão ainda em Portugal, noutros países. Misturar regras com ideais é dificultar o raciocínio e termos de ler que o cardeal da igreja britânica acha que é aceitável que um grupo de pessoas por professar uma religião diferente podem sair fora da esfera do direito do estado em que vivem. Como se o estado definisse só um conjunto de regras e portanto que importa que outras pessoas queiram regras diferentes, mas e os direitos fundamentais, senhor cardeal? Outra faceta, é as pessoas menosprezarem um direito fundamental como se fosse uma mera regra, como o direito de liberdade de expressão, que não pode ser colocado em causa por delicadezas de sentimento de um grupo de pessoas. É, do meu ponto de vista, essencial que façamos esta discriminação, para sabermos onde podemos comprometer regras e onde não se pode nunca de forma alguma comprometer ideais.

Finalmente, aproveitando que o poste do Rui Tavares citado pelo jj.amarante foi escrito durante a campanha do referendo sobre o aborto, faço esta pergunta: a lei de despenalização do aborto é um direito ou uma regra?

sábado

Os corpos indefesos

Li que está em Portugal a exposição dos corpos humanos. Eu vi essa exposição quando vim viver para Hamburgo, já há uns anos. A minha maior preocupação era que eu me desmelinguisse, já que as minhas capacidades para ver carne viva ou ossos descarnados não é famosa. A parte ética também me ocupava os pensamentos, mas sem certezas se realmente os rumores eram verdadeiros e crendo que dar o corpo para o conhecimento é um destino mais bonito que alimentar uma data de bichos, esta parte adormeceu. E lá fui. A exposição é interessante e aprende-se, contudo pareceu-me que essa aprendizagem é perfeitamente conseguida sem utilizar realmente corpos humanos (o mais pedagógico pareceu-me até uma secção somente com órgãos, uns doentes e outros saudáveis). Pelo que acabei incomodada. Quando já estava incomodada, entrei na parte da exposição em que não há nada de novo e então é exibição pura. Ter um esqueleto e músculos na pretensão de jogar basquetebol não acrescentava nada; ou olhar para mais dois cadáveres na posição de jogar xadrez só me levou a pensar nos escalpeladores e desconfiar da sua única intenção de demonstrar virtuosismo na técnica utilizada para criar aquelas cenas. Os corpos eram uma fonte lúdica e não de conhecimento. Eu saí da exposição desconfortável e triste naquela parte de mim que diz que devemos respeito à memória dos que morreram. Eu aconselharia a não ir, por essa parte de nós que vive na memória dos que partiram. Usar os corpos humanos mortos para divertimento parece-me mal. Sem falar de que muitos daqueles corpos vandalizados estão ali porque ninguém estava presente ou porque as pessoas foram impedidas de venerar a sua memória por um cerimonial que é quase tão velho quanto a espécie humana. Há ali um fracasso na nossa humanidade e sociabilidade. Se o fracasso colectivo no mundo deles não fosse suficiente, importamos esse fracasso para nosso divertimento. A utilização do corpo humano para a melhoria dos viventes é um fim nobre, mas aquilo não é nobre. Arrependo-me de o ter visto e espero que a minha tristeza e os meus pensamentos enquanto olhava aqueles corpos, a minha homenagem silenciosa, possa de alguma forma ter lavado a minha dignidade. Mas duvido.

terça-feira

Eu, pecadora, me confesso


Eu sou fumadora e logo uma potencial perturbadora. Eu poluo e tendo esta noção, sou uma fumadora envergonhada. Assim, sem pensar que tenho o direito absoluto de fumar quando me dá na veneta, na celeuma que anda pela blogosfera, eu andei a observar, dividida, mas não pelo meu estatuto de chaminé a quem impedem de defumar. Somente metia-me impressão que o Governo possa impedir o dono de um local de escolher as condições da sua propriedade, mas também me parecia que o Governo pode e deve proteger quem não fuma. Está provado que fumar afecta a saúde e não só de quem fuma. Portanto, estava dividida no plano ideológico.

Felizmente há pessoas que conseguem escrutinar e delinear um consenso: eu gosto deste consenso. Acho este texto brilhante.

quinta-feira

Nações Unidas e Darfur

Denying Darfur: UN Watch Confronts Sudan Regime

UN Human Rights Council concerns do not include Darfur

Tolerancia (revisto)

Sempre me irritou a mania dos alemaes relativizarem os direitos humanos 'as culturas de proveniencia das pessoas. Portantos, se uma mulher vem de uma cultura em que se usa burqa, a violencia é nao usar burqa. Tudo bem. Mas e se a mulher nao quer usar burqa? Aqui o raciocínio deles curto-circuita.

Agora já sei como resolvem o curto-circuito ao mais alto nível. A lei alema é só para os alemaes de origem alema. Os outros sao outras culturas e temos de ser tolerantes com as outras culturas. Temos disto: violencia doméstica permitida para alguns, os outros, que a gente até nem gosta, mas tolera.

Mas nao se riam. Em Portugal, tolera-se que todas as mulheres levem nas trombas. Porque a violencia doméstica só o é de forma continuada e grave. E depois cada juiz faz o que quer com as palavras "continuada" e "grave". E a cultura em Portugal é de igualdade na tolerancia 'a violencia contra as mulheres.

sexta-feira

Se és hetero diz não ao casamento

Teresa e Helena voltam a ver negada a pretensão de se casar.

Tem piada que ontem estava a conversar com uma amiga americana que anda em complicações para arranjar o visto para o namorado dinamarquês para se mudarem para os EUA. Da mesma forma, um amigo francês viu-se à nora para se acompanhar pela namorada de origem indiana, mas nacionalidade sueca, para a Austrália (os australianos devem ser os racistas mais desavergonhados na superfície do planeta). Em ambos os casos eu perguntei-lhes porque é que não se casavam e limitavam as chatices. Eles responderam-me que não queriam usar um sistema discriminatório. Chego à conclusão que é mesmo isso: os heterossexuais não devem usar um sistema que discrimina. Apetece mesmo dizer a esta gente que metam o seu casamento pelo ** acima.

terça-feira

Tanto mundo lá fora


No Chade, novembro de 2006, pessoas fugidas de ataques de milícias árabes. Foto de Kadir van Lohuizen

Selecçao da Human Rights Watch para o seu relatório de 2007.



Janeiro de 2006, Mikhail Baryshnikov, fotografado por Annie Leibovitz.


Selecçao Vanity Fair para o ano de 2006.

Grécia, 1963

O melhor de Elliott Erwitt, na Magnum.

quinta-feira

Afeganistao: o feminino

The woman who defied the Taliban, and paid with her life, Kim Segupta, The Independent

'The small advances women have made are now being wiped out', Leonard Doyle, The Independent

Afeganistao: o feminino infantil


A Ghulam Haider, de 11 anos, vai casar com Faiz Mohammed, de 40. Ela queria ser professora, mas quando ficou noiva foi forcada a desistir da escola.


A Majabin Mohammed, de 13 anos, senta-se 'a esquerda do seu marido, Mohammed Fazal, 45, juntamente com a sua primeira mulher e filho. A Majabin foi dada em casamento em pagamento de uma divida de jogo.

As raparigas sao trabalhadoras valiosas numa terra em que a sobrevivencia e' arrepanhada de meio acre de solo [1 acre = 0.4 ha]. Em casa do marido o seu valor e' ainda maior. Podem ter sexo e filhos.

Fotografias e texto obtidas em pop-up no sitio do "The New York Times". Traducao minha.

Nota: ha' umas duas semanas escrevi um texto sobre a minha posicao sobre a poligamia. Este e' um exemplo a corroborar o meu negativismo.

sábado

A sociedade, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a poligamia

Na arena dos que defendem a abertura do casamento civil a pessoas do mesmo sexo, se eu me dispuser 'a divisao entre a esquerda e a direita, facilitando a geometria da discussao, eu poderia dizer que esta passa na esquerda pela exigencia da igualdade e 'a direita pela higienizacao do casamento 'a sua componente contratual. Leio as duas estrategias com interesse.

Contudo, a direita tem uma mania: o de incluir na discussao a poligamia. Introduzindo este novo factor, o raciocinio descoordena-se. O que a direita parece nao se dar conta e' a base da nossa sociedade. Esta e' centrada no individuo, na sua independencia, liberdade, livre arbitrio. Se esses senhores analisarem onde e' que existe poligamia, verificarao que e' em sociedades em que o colectivo social sobrepoe-se ao individual. A poligamia copia a estrutura autoritaria (machista) da sociedade envolvente e desdobra-a na vida conjugal, num sistema de poderes em que uns se submetem a outros. Este tipo de estrutura e' contrario ao que nos somos. Uma estrutura poligama nao pode sobreviver, se nao existir subjugacao. Ser contra a poligamia e' defender a nossa liberdade, os nossos valores de independencia. O casamento entre pessoas do mesmo sexo nao poe em causa a estrutura social. E' basicamente o mesmo, so' que entre pessoas do mesmo sexo.

Irrita-me que nao se note a diferenca, que envolvidos em jogos de palavras nao se deem conta da essencia da poligamia: opressao social. Introduzir este elemento seria oposto a aumentar o espectro de liberdades, pelo contrario, seria dar guarida a nucleos de nao liberdade.

quinta-feira

A China

Já ando há um mês para fazer um poste sobre a China. Como já estou a ver que a procrastinação promete arrastar-se, resolvi simplesmente deixar umas ligações a uns artigos de Robert Weil, professor norte-americano que realizou várias visitas à China, que resultaram em vários artigos e um livro sobre as condições de trabalho, a economia e a política chinesas.

Concordando ou não com o autor, a parte descritiva permite verificar como a afirmação de que as empresas multinacionais estão a salvar camponeses da fome nos arrozais é um grande disparate [estou a fazer a tangente ao João Miranda].

Mas agora não tenho tempo para me alongar e deixo somente informação para quem a quiser.

Em 1994 e 1995 ele descreveu a situação da China assim:
China at the brink: class contradictions of "market socialism." - parte 1 [Dez 1994] e parte 2 [Jan 1995]

É interessante verificar como a situação é hoje:
Conditions of the working classes in China, June 2006

Finalmente um bónus, num artigo sobre a percepção dos direitos humanos na China e nos EUA:
Of human rights and wrongs: China and the United States, 1994

quarta-feira

O condicionamento

Tenho uma querida amiga que é homossexual. Muito antes dela mo dizer, já eu desconfiava. Nunca me causou problemas e eu considero-me uma pessoa sem preconceitos. Contudo, no dia em que ela me disse que era homossexual eu reagi com uma cara de surpresa e disse um longo "Nãaaaaooo", que a levou a perguntar-me "Tens algum problema com isso?" Eu fiquei surpreendídissima com a minha reacção. Mas porque é que eu reagi assim?

Estão a apanhar como somos armadilhados? Ainda que racionalmente se possa não ser homofóbico, os preconceitos estão empacotados num quarto traseiro da nossa mente que nos apanha de assalto. Ainda que os meus pais nunca tenham literalmente me dito que ser homossexual é mau e não natural, eles e a sociedade inculcaram-mo. Pelo uso carregado negativamente dos adjectivos paneleiro, maricas, por um discurso que paulatinamente nos injectou o opróbrio de ser homossexual. Eu não sou a única. Outros heterossexuais se queixaram desta carga que os faz racionalmente ver a homossexualidade como natural, mas ainda assim incapazes de lidar naturalmente quando uma situação assim o pediria.

Compreendam assim a importância para todos nós, especialmente homossexuais, mas também heterossexuais de não sermos condicionados desta maneira. O intuíto em Espanha de ensinar em aulas cívicas a pluralidade de naturezas sexuais e de famílias é o sinal de que o condicionamento poderá ter fim. Nunca me senti assim, mas começo a invejar Espanha.

terça-feira

Adopção

(...) Idália Moniz, secretária de Estado Adjunta e da Reabilitação, afirma que "os portugueses querem crianças pequeninas, sem irmãos e caucasianas (brancas). Quem vem buscar os outros, por incrível que seja, são os estrangeiros".

(...)

"em Portugal, quase temos mais pessoas que querem adoptar do que crianças para serem adoptadas", diz a secretária de Estado. O paradoxo reside no facto de haver mais candidatos a pais, desde que seja de crianças pequenas, caucasianas, sem irmãos ou deficiências. Só que bebés, há poucos.

(...)

Se, por um lado, temos o facto do processo de adopção poder levar até quatro anos; por outro, lamenta Idália Moniz, "não ajudam as preferências dos candidatos portugueses".

Recorde-se que, em Portugal, há mais de 15 mil jovens institucionalizados. Destes, determinou um estudo do Instituto da Segurança Social, levado a cabo em 2004, há apenas 10.800 entre os zero e os 21 anos (o JN encontrou internados com mais de 25 anos); e dos 10.800, apenas 800 reunem condições para a adopção, refere o levantamento. (...)


No Jornal de Notícias de hoje.


Sobre a adopção escreve o Carlos Furtado do Nortadas, num poste intitulado "A agenda de alguns, bem minoritários":

(...) Acredito que a familia tradicional é o mais forte pilar de uma sociedade. Apesar de todas as vicissitudes que os casamentos passam, uns aguentam e outros fraquejam, continua a ser esta a melhor forma organizacional e aquela onde melhor se consegue educar uma criança.

É entre um pai e uma mãe, entre um homem e uma mulher, que uma criança aprende o que é viver em sociedade. Aprende o que é uma sociedade.

Só que o processo de adopção ainda é quase um processo infinito. Os tempos de espera são verdadeiramente desesperantes, quer para quem pretende adoptar quer para quem deseja ser adoptado.
(...)
Infelizmente os prazos ultrapassam e muito os três anos. Não conheço muitos casos, mas os que conheço já vão nos 4 anos, já passaram uma série de exames, todos eles têm já um filho, mas ainda assim continuam à espera.

Imagine-se agora que a este processo lento e demorado, conseguimos meter umas areias mais: os casais homossexuais.


Vamos a imaginar que os homossexuais, essas areias entre os pilares da sociedade, em vez de verem a adopção como o adquirir o bébé de medida, côr e marca ideal, talvez sejam mais humildes. Em vez de se olharem no espelho com jactância achando que são os suportes da nossa civilização, talvez tenham uma visão da sociedade mais generosa. Talvez sabendo eles próprios o que é ser-se considerado os minoritários anormais, os refugos, talvez eles não se importem em dar guarida e amor aos outros que não estão dentro das imaginações de perfeição dos casais heterossexuais. Desta forma talvez estas crianças tenham uma ideia mais rica do que é a sociedade, do que é a variedade humana, talvez estas crianças melhorem a nossa sociedade. É a minha imaginação. Que numa sociedade ninguém é areia no mecanismo. Que todos fazemos parte e ninguém merece ser excluído porque não é da maioria padrão.

segunda-feira

Uma mensagem cristã

(...)

In her no-nonsense style, Annie Proulx said of Brokeback Mountain, “It is a story of destructive rural homophobia.” (...)

A reasonable hope of belonging to a safe place and to safe people is often an anxious prayer for many people. Who doesn’t desire to be safe in our own home, at work, at school, in our church, in our own skin? Yet this is not the real or perceived reality for most lesbian, gay, bisexual and transgendered people in our communities and congregations, even when “Will and Grace” airs on prime-time. Two-thirds of out LGBT youth in the U.S. were threatened or injured with a weapon at school last year. Matthew Shepherd’s crucifixion on a Wyoming stock fence, less than a year after the publication of Brokeback Mountain, still serves as a compelling symbol of the coercive, violent force of homophobia, and not only in the rural West. Wyoming is merely a metaphor.

I believe that the official rulings and language of our churches about something we call “homosexuality” only serves to strengthen homophobia’s hateful grip on our world. The recent United Methodist and Vatican rulings do not simply function as ecclesial decisions guarding ordination and church membership. Like judgments from the Inquisition, they are as lethal as a tire iron in the hands of violent men, for these rulings continue to isolate human beings from communities which are called upon to be life-giving. Couple this isolation with language that dehumanizes men and women as “innately disordered” or worse, and the self-hate and desperation often lead to death. Gay and lesbian teenagers in the U.S. attempt suicide at more than five times the national average. Annie Proulx noted the “fact that Wyoming has the highest suicide rate in the [U.S.], and that the preponderance of those people who kill themselves are elderly single men.” Ennis and Jack managed to stay alive for each other as long as they could, the way soldiers do in war, not fighting for great causes or honor, but for those particular soldiers with whom they had become inextricably bound.

Brokeback Mountain, in addition to magnifying the destructive power of homophobia, also shatters a compelling myth in our divisive discourse about sexuality, the myth that we freely choose our “sexual orientation.” When Jack and Ennis were raised to despise “queers” and when they knew first-hand the life-threatening risks of getting caught, they would have been insane to make such a choice - in 1963 or in 2006. They chose this love like they chose to be wet when it rained or cold when it snowed. “Without a single polemical speech, [Brokeback Mountain] dramatizes homosexuality as an inherent and immutable identity, rather than some aberrant and elective ‘agenda’ concocted by conspiratorial ‘elites.’” (Frank Rich, N.Y.Times, 12/18/05). Hopefully the church can let this myth die.

(...)

I wonder as I wander at the foot of Brokeback Mountain if the church has the capacity and courage to declare a Jubilee... a time and space in which it would listen to the sacred love stories of Jack and Ennis ... setting aside worn-out labels such as “homosexual” for words we understand: son, daughter, friend, neighbor, sister, brother, partner. Could we listen well to the flesh-and-blood stories of fear and desolation, joy, discovery, liberation, belonging, and love? Like the Truth and Reconciliation hearings in South Africa, could we bear to hear our own stories of crucifixion? Could we go to those places which have been off-limits to pulpits and pot-luck-suppers?


David Jenkins, professor na Escola de Teologia de Calder, Universidade de Emory, Atlanta

sexta-feira

Não percebo

Não, eu não acredito que a cultura ocidental é superior. Nem considero que a excisão feminina é cultura. Cultura não é atropelos aos direitos humanos. Cultura é a expressão positiva da humanidade. O que a mim me repugna nas sociedades islâmicas do Médio Oriente não é a cultura. É o governo dessas sociedades.

A nossa sociedade é superior, porque está estruturada pelo e para o indivíduo. Não é perfeita, mas permite que cada um de nós siga o seu caminho. Nós temos mais mundo e opções que um cidadão comum no Médio Oriente.

A linha entre a civilização e o barbarismo é ténue. Há nódoas. No nosso passado cometeram-se horrores e, espero, somos hoje uma sociedade melhor por essas memórias. No nosso presente há horrores, mas há a liberdade de cada um de nós se opôr, esbracejar, protestar. O nosso futuro poderá ser o presente das sociedades islâmicas. Mas haverá por aí alguém que não concorde que essa seria uma despromoção? Que seriamos globalmente mais infelizes, mais limitados e mais parcos na esperança de nos cumprirmos?

Não percebo quando leio cuspidelas numa sociedade que dá a liberdade de pensamento, de religião, de ser. Pela compreensão de uma sociedade repressora. Ainda por cima, cometendo-se o dislate de confundir a repressão com o que é cultura e o que é religião.

Lembram-se d'"O planeta dos macacos"? Os seres humanos são animais da selva, sem capacidade de fala, escrita, cultura. São caçados e utilizados em experiências médicas por macacos que evoluíram para uma sociedade inteligente. Lá para o fim descobre-se que os seres humanos "simplificaram-se" por opção própria. Será este o destino? Esquecermos o que somos? Por um pretenso respeito pelos outros e nisto aceitar o barbarismo? É isto? As mulheres excisadas, os homossexuais mortos, os mutilados, os esquecidos, os calados agradecem. É a cultura deles, não é?