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sábado

A Wikipédia e o Acordo Ortográfico de 1990

O facto de presentemente existirem duas ortografias oficiais diferentes dentro do espaço da língua portuguesa (uma no Brasil e outra nos restantes países lusófonos) prejudica grandemente um projecto transnacional como é a Wikipédia. Basta ver que muitas das intermináveis discussões e dos pontos de conflito entre wikipedistas centram-se nestas diferenças de escrita.

Assim sendo, a Wikipédia é adepta natural de uma norma gráfica o mais unificada possível. Espera-se que o Acordo Ortográfico de 1990, que tem exactamente esse propósito, venha a ser adoptado por todos os países lusófonos dentro de um prazo razoável. No entanto, estas novas normas ortográficas só serão admissíveis na Wikipédia quando entrarem legalmente em vigor em, pelo menos, um dos países signatários.

Na eventualidade de não haver uma adesão simultânea por parte de todos os oito países de língua portuguesa e de, ainda que provisoriamente, serem oficiais duas ou três normas ortográficas diferentes, todas serão válidas na Wikipédia, enquanto esta hipotética situação se mantiver. É claro que todos desejamos que este eventual período transitório seja tão breve quanto possível.

Seja como for, talvez seja importante lembrar que as normas do Acordo Ortográfico de 1990 admitem um conjunto relativamente alargado de ortografias duplas (António/Antônio, facto/fato, secção/seção, etc.), pelo que haverá que continuar a respeitar a opção dos autores por uma ou outra forma.


Um exemplo, para o pessoal perceber que o acordo ortográfico é importante para o trabalho em conjunto. Para que não se tenha que estar a discutir pormenores e entrar logo no que interessa. Até agora há trocas entre os países lusófonos, mandam-se novelas, livros, músicas. E se quisermos trabalhar no mesmo? Como é? Salgalhada? Batatada? Sim, perda de tempo.

terça-feira

Faxina

Eu, a partir deste momento, irei começar a usar as novas regras do acordo ortográfico. Esta aplicação será realizada pacatamente à medida que vou aprendendo as regras. Começo o fácil deleite de chutar as consoantes mudas. Assim, aqui me lanço na feliz limpeza ortográfica.

sexta-feira

A pedido de várias famílias:



Nã. O João é que está muito chateado porque ninguém liga aos feitos do Francis Obikwelu. Que se fosse futebol e se não fosse o nacionalismo mesclado de racismo! O João está muito indignado com isto e se for mesmo assim, com toda a razão.

Eu não estou sintonizada no atletismo (talvez se estivesse em Portugal), pelo que me tem passado ao lado e tenho tido outros assuntos a ocuparem-me os neurónios. Mas fico feliz pelo Obikwelu. A pátria é na maior parte das vezes o sítio em que nascemos e crescemos. Crescer com determinados cheiros e sons, pode entranhar. Mas o mundo é mais largo. Há pessoas que vão mais além do que o que lhes ficou entranhado por osmose. Há pessoas que escolhem. De todos os lugares do enorme mundo, o Francis Obikwelu adoptou Portugal. É absolutamente entusiasmante. Ele quer pertencer à minha equipa. Não percebo bem porquê, é uma questão de lhe perguntarem, mas espero que ele goste e corra muito e seja feliz. Que tenha muitos Obikweluzinhos, que estamos necessitados de putos.

P.S.1: João, o Cristiano é lindo e não se fala mais nisso, ok? Se lhe chamas outra vez foca amestrada, desligo-te deste blogue. Estás avisado.

P.S.2: Nas fotografias que vi do Obikwelu (para escolher para pôr aqui) ele está sempre com aquele ar de quem vai apanhar o autocarro, mas até está naquela, que daqui a 5 minutos vem outro. Impressiona-me.

P.S.3: Tenho uma colega de trabalho que é da Nigéria. Estou-me a perguntar o que o nacionalismo dita do lado dela... Do que conheço suspeito coisas más.

P.S.4: Como é que é português com sotaque nigeriano? Tenho que ouvir!

terça-feira

As longas do novo cinema português em Hamburgo

O que é bom sempre se acaba. Terminou o certame do novo cinema português em Hamburgo. Um grande obrigado ao Instituto Camões e à Associação Luso-Hanseática, que apoiaram a iniciativa. No global, relativamente às longas-metragem, vi dois filmes extraordinários e uma seca. O que a minha pessoa se lembrou de escrever sobre cada um segue já a seguir:

"Kiss me" - Uma xaropada. Pessoal, não é por se pôr uma mulher belíssima num filme que este resulta! Ouviram? Aprendam a usar a banda sonora. Esta deve ser um acompanhamento de bom gosto, não uma forma de ridicularizar ou um empecilho. Christ! Os momentos em que a música está no sítio certo é na verdade quando esta é também personagem: a Laura (Marisa Cruz) a cantar o Kiss Me, na cena do Rachmaninov, no baile ou nos tangos. De resto um desastre auditivo de bradar às Valquírias e pedir-lhes vingança.

Os actores são bons. A Marisa Cruz surpreendeu-me. Todos conseguem vestir bem as personagens que têm e se alguma cena corre menos bem a culpa é do argumento ou da montagem. Os meus parabéns.

A ideia subjacente ao filme é boa, poderia ter resultado. Mas não resulta. O filme é como ir em primeira do Porto a Tavira. Quando a coisa está a ganhar velocidade dá-se conta que é só um declive no terreno. O alemão ao meu lado estava também entediado. Pensei em perguntar-lhe se tinha um canivete. Cortávamos os pulsos para nos entretermos. Mas lá conseguimos sobreviver e no fim saltamos por cima dumas portuguesas empinocadas e amandamo-nos para a liberdade do Verão. Ah, aragem, kiss me!

"A costa dos murmúrios" - é um filme perfeito. Poderia parar aqui porque não há palavras para a perfeição. Se continuo estrago tudo.

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Não, eu escrevo, eu escrevo. Começo pela banda sonora que eu sou peixe que morre pelo ouvido. É perfeita. Estou tramada. Só me sai este adjectivo. É um filme muito português no sentido de ser intimista. Tudo fala por dentro, pelos olhos e pelos diálogos esparsos. Cada cena dá um pouco mais de cada personagem, que pode ser por um sorriso, por uma frase, por um enquadramento, pelo maneio de uma cintura, pelo timbre da voz, tudo no sítio certo, na medida certa. A história é-nos dada no passo de um passeio à beira-mar, somos mantidos em competência na expectativa, lembrados nos momentos adequados de que algo está para vir, deixados em união docemente dolorosa com aquelas vidas no écran. Cada migalha é comida com deleite respeitoso. No fim percebe-se o quanto tudo foi absolutamente disposto da forma mais... perfeita. Estou apaixonada pela Beatriz Batarda. Que é... Pois. Gostava de abraçar o Luís (Filipe Duarte) e salvá-lo. Agora um grande suspiro e a lágrima que não chegou a desprender na sala do cinema.

"Alice" - Lisboa e Mário e Luísa.

Quando me conhecem as pessoas geralmente perguntam-me se sou de Lisboa. Há como um brio por mostrarem que sabem a capital de Portugal e devem saber que, por norma, não erram. Ficam sempre com um ar desiludido quando digo que não. Mas aí devem também saber do Porto ou do Algarve, pelo que fazem a pergunta que os atola: "Então de onde és?" Eu digo muito devagarinho. Que cara triste fazem. Venho então em seu auxílio: formo, traço um rectângulo e digo: aqui é Lisboa, aqui é o Porto e eu sou daqui. Ficam muito contentes e dizem o nome da minha cidade devagar e mal. Mais tarde hei-de dizer como Lisboa é linda, o sol, o rio, o casario, mas que nunca moraria lá. Só faço visita a lugares seleccionados. Quem não foi a Lisboa não me entende. Mas a minha amiga francesa perguntou em "Alice": "É Lisboa?". "Sim , é." E fez um ar entendido, como se eu tivesse absoluta razão de não pôr qualquer hipótese de lá morar, no meu jeito decisivo e fatal. Lisboa é muito fria em "Alice", tão indiferente esta Lisboa molhada, cinza e azul.

Essa amiga francesa também me perguntou em mais uns tons de Sassetti combinados aos olhos e ao perfil triste de Mário, se a história ia acabar bem. Respondi-lhe: "É um filme português." enquanto abanava a cabeça. Foi este fatalismo que me enterrou no fim, sabendo que Mário não ia voltar atrás, que Mário iria caminhar em frente naquele preciso momento, refazer a vida com Luísa, naquele momento. O queixo começou-me a tremer e, no genérico, eu chorei desconsoladamente por ser tão fatal.

Beatriz Batarda e Nuno Lopes são incríveis. Sem palavras. Só eles, é a sensação que dá. Só eles poderiam ser o Mário e a Luísa. Dar corpo à dor, à perda, à solidão, à esperança. Que inveja, que alguém seja tão bom no que faz.

sexta-feira

Mais curtas

"As melhores", anunciavam no folheto do cinema. Se eu não adormeci nas primeiras, que não foram etiquetadas de melhores então estas iam ser o máximo. Não é que foram? Não estou muito habituada a ter as expectativas alcançadas, pelo que ainda me sinto estupefacta. E isto já foi na segunda-feira.

Uma eu já sabia que era muito boa. "A suspeita" (1999) de José Miguel Ribeiro e já aviso: se não viram não merecem respirar. É um filme "stop-motion" e é perfeito. Outro que nem consigo acreditar que gostei é o "I'll see you in my dreams" (2004) de Miguel Angél Vivas. É um filme de zombies. Eu detesto filmes de zombies. No género prefiro vampiros. Pelo menos são sexy e inteligentes. É impossível ter pachorra para pessoal tão mal vestido e que só grunhe. Mas aqui os zombies suportam-se bem. A impressão que dá é que um grupinho juntou-se à volta de uns copos e começou, na brincadeira, a arquitectar um gozo de filme. E saiu muito bem. Além disso, agora quando encontro o amigo que foi comigo começamos a dizer as palavras iniciais [finais], mais ou menos, assim: "Árvores, árvores e mais árvores. Estou farto desta aldeia, mas o que eu já não posso é com a merda dos zombies!" O suspense está muito bem montado e está sempre a surpreender. Além do humor. Amei o "História trágica com final feliz" (2005) de Regina Pessoa, ainda que o meu amigo tenha achado uma coisa batida. É desenho animado. O "Cinemaamor" (1999) de Jacinto Lucas Pires é uma delícia, assim como um refresco numa esplanada no Verão. Para completar e também não é mau (o seu favorito, disse o senhor que organizou o certame): "A drogaria" (2001) de Elsa Bruxelas.

Para além das curtas há as longas. Mas isso faço outro poste. Depois de ver "Alice". Estou cheia de expectativa.