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domingo

Professores

Daqui:

Eric Hanushek, um economista em Staford, estima que os alunos de um mau professor aprendem, em média, num ano escolar, o que valeria metade do programa. Os alunos nas classes de um professor excelente aprendem o valor de um programa e meio. A diferença corresponde ao que seria suposto aprender num ano inteiro. Os efeitos dos professores sobre a aprendizagem dos alunos são enormes quando comparados com os efeitos da escola: a sua criança está melhor numa escola "má" com um professor excelente do que numa escola excelente com um mau professor. A qualidade do professor é também mais importante do que o tamanho das turmas. Seria necessário diminuir o tamanho de uma turma média quase em metade para obter os mesmos efeitos de mudar de um professor com um desempenho médio para um professor no percentil 85. Lembrem-se que um bom professor custa o mesmo que um professor médio, mas cortar o tamanho das turmas para metade implica construir o dobro das salas de aula e contratar o dobro dos professores.

(...)

Thomas J. Kane, um economista na Escola de Educação de Harvard, Douglas Staiger, um economista em Dartmouth e Robert Gordon, analista de políticas sociais no Centro para o Progresso Americano [Center for American Progress] investigaram se ajuda ao desempenho de um professor obter a certificação profissional ou um mestrado. Ambos são processos demorados e caros que quase todos os empregadores esperam que os professores obtenham. Nenhum tem qualquer impacto dentro da sala de aula. Elementos que parecem relacionados com a aptidão de ensinar, como o valor das notas, pós-licenciaturas, certificados, parecem tão úteis em avaliar a qualidade de um professor como avaliar o valor de alguém como futebolista observando-o a pontapear uma bola no ar [no texto faz-se uma comparação com o futebol americano, o que não é episódico. Todo o texto é baseado numa comparação entre as dificuldades de contratar os melhores professores com o contratar os melhores "quarterback".]


Gostei imenso do texto em questão. No universo dos EUA, põe-se em questão o sistema de lá, que baseia a contratação dos professores em virtudes académicas, em vez de no que se passa dentro das salas de aula. O mesmo que em Portugal, que agora introduziu a oportunidade de avaliar os professores. Contudo, para meu espanto, li no jornal que os professores podem escolher se querem ser observados nas classes de aulas (!) e não vão ser consideradas as notas dos alunos (!). Se em termos absolutos é entendível que não se considerem as notas, em termos relativos não se percebe. Tirando o desempenho dentro da sala de aula e os resultados, afinal vai-se avaliar o quê? Pontualidade? O número de fotocópias? A cereja no bolo: os professores vão ser avaliados por colegas da própria escola. Adiante, militante.

terça-feira

Latim

Número de alunos a aprender Latim diminuiu 80 por cento em dois anos

Por experiência própria sei que o ter aprendido latim é uma vantagem, pelo menos para aprender alemão. Os meus colegas italianos punham-me debaixo do braço, com uns racíocinios que me deixavam completamente fora de corrida. Esta não foi a primeira vez que fiquei triste por nunca ter tido latim. Quando estudei biologia, naquela parte mega-seca de dar nomes aos bichos, sentia que se soubesse latim aquilo não teria sido tão seca. O que tem mais piada é que eu acho que teria escolhido latim no liceu se me tivesse sido possível, mas eu era da área científica e latim não era uma opção. O meu interesse na altura era somente romântico, se bem que com uma certa precaução amedrontada depois de ler o "Manhã submersa" do Vergílio Ferreira. Eu punha-me a namorar os livros de latim dos meus colegas e a perguntar-lhes se o professor deles me deixaria assistir às aulas. Contudo, não havia possibilidade de horário para eu o fazer e assim nunca estudei latim.

Provavelmente, estivesse eu no liceu hoje, não pensaria em ter latim. Hoje a escola começa cedo a ser funcionalista e no entanto na Universidade em que esse propósito devia existir, as pessoas deixaram de encher os cursos de direito?

sexta-feira

Isto é outro nível

Sobre aquele vídeo Youtube da aluna e da professora a lutar por um telemóvel. Andei pela blogaria a ler opinioes (o normal, portanto) e quero aqui deixar a minha impressao (normal). Eu nao vou dizer que estamos perdidos e antigamente é que era, nem vou dizer que antigamente era igual. Eu tenho 32 anos de idade. Havia cenas de insubordinacao na minha idade da idiotice, mas há um aspecto da luta mostrada no Youtube, que eu acharia impensável naquela altura e que me deixaria de boca aberta na altura e me deixou de boca aberta agora (nao entrou mosca que por aqui está muito frio para esses bichos): o contacto físico. Nós faziamos coisas 'a cobardola, nas costas, pela frente de longe, 'a fugida, a assobiar pro' lado a fingir que nao foi nada connosco, uns a vigiar e outros a actuar. Agora, andar numa de corpo-a-corpo? Falar de cima ali a centímetros de uma professora? Isto é claramente outro nível de topete. Eu com 15 anos ficaria a olhar para aquela miúda como se ela tivesse um alo de transcendente. Provavelmente evitaria comunicar com ela, com medo que o seu olhar me transformasse em pó. Nós faziamos, mas nós eramos cobardolas. Na minha opiniao e baseada em poucos individuos, pois acho os adolescentes insuportáveis (incluindo-me a mim se me pudesse encontrar comigo com aquela idade), e no tal vídeo, essas novas promessas com borbulhas nao vao levar ao fim do mundo civilizado, mas vem de outro nível de idiotice.

P.S.: Eu continuo a apoiar o envio de humanóides dos 13 aos 20 anos para uma ilha. Eles sao insuportáveis mesmo sem telemóveis. É da fase que vivem e tem de ser, pelo que o melhor para os restantes que já ultrapassaram aquilo, é po-los de quarentena. Apoio qualquer iniciativa neste sentido.

terça-feira

As limitaçoes do ensino público

Nao sei bem o que mostra do sistema de ensino portugues: saboreei convenientemente esta cena do "Life of Brian" dos Monthy Phyton depois de ter começado a aprender alemao. O que é que se anda a fazer na escola se nao nos preparam para perceber, em camadas de significado, as piadas dos filmes? Hee?

quinta-feira

Geração sem guia

O tempo anda depressa. Com trinta anos, a minha idade de crescer pouco teve a ver com a da minha sobrinha seis anos mais nova e é de um país extra-terrestre comparada com a minha sobrinha dezassete anos mais nova. Sento-me no sofá ao lado da geração mais nova e peço-lhes que me expliquem o que estão a ver na televisão. É aborrecido. Não resisto. Pego numa revista. Que chata tia, estás sempre a ler!

As minhas sobrinhas, do que me é possível ver, são saudáveis, têm pais que lhes deram/dão apoio. Não será como as meninas deste artigo* que me deixou numa tristeza funda. A situação descrita é nos EUA, mas será só lá? Resumido: meninas no inicio da adolescência fazem sexo oral a colegas, vários numa mesma sessão. Parece que é uma moda. A cronista compara a sua idade de crescer com esta idade de agora e ainda que ela tenha uns 20 anos mais que eu, ela está mais perto do meu crescer. É habitual as pessoas ficarem surpreendidas com o saber das crianças. Sabem tudo. Nós não eramos assim, pois não? Só que o que aquele artigo me diz é o perigo de saberem demais de algo e de menos de outro. Sabem tudo sobre sexo, mas não sabem como o incorporar nas suas vidas. Sabem tudo sobre a mecânica e nada sobre o emocional. O segundo é normal, são crianças, adolescentes, estão a crescer. Contudo, com tanta informação, eles precisam dos pais presentes que lhes traduzam o que ainda não dá para compreenderem completamente. Antes, a sociedade era proibitiva, fechada, claustrofóbica. Contudo, tinha o positivo de serem os adolescentes a procurar e isto, de alguma forma, protegia-os de saber demasiadamente cedo. Agora com a informação a ser despejada literalmente sobre as pessoas, de tal forma que só fechando os olhos é que não se vê, se os pais não estão presentes para dar uma moldura à pintura, parece que pode acontecer o que é descrito no artigo. Crianças perdem a noção da realidade em programas aberrantes, como a MTV descrita aqui, que eu de vez em quando espreito como se estivesse a ver figuras circenses do século XIX, a mulher barbuda dos dias de hoje; crianças descompreendem as canções que têm letras destas:

Ain't my job
To fuck you on your birthday
Ain't my job
To fuck you on your birthday anymore


Mas isto é suave...

“You make a nigga wanna fuck your ass on the couch / While we’re still in the club, show your pussy love / Work that clit / Cum girl.”

Estas músicas são ouvidas por adolescentes. Eu sou adulta. Eu sei rir-me com as idiotices da MTV, a mim desgosta-me estas letras, eu não preciso de ser cool, as mulheres magrelas das revistas de moda não me afectam, não sou pressionada pelos meus pares, eu, afinal, tenho mais caminho percorrido. Eu sou eu, daquela forma que se alcança quando se é adulto.

Mas os adolescentes andam à procura deles mesmos e andam-se a perder e a aleijar-se. Talvez me engane. Talvez não seja assim. Talvez seja só na América. Se calhar estou fora. Mas se calhar até não e a única solução são os pais. Que chata tia, não percebes nada disto! Talvez não, mas faz-me triste.

* via Voz do Deserto

sábado

O que vem abaixo de rasca?

Estava eu a ler o contributo, na habitual enxurrada, da f. do Glória Fácil* quando ela me dirige a isto.

A pergunta que me veio à tola foi: "Se a minha geração é a rasca, esta é qual?"

* linco, não linco, linco, não linco, linco, não linco, linco, não linco, linco, não linco, linco, não linco, linco, não linco, linco, não linco, linco, não linco... Eu só não quero que digam que eu parasito os grandes, estão a ver?

quinta-feira

A lógica dos professores

Mais: o ministério compromete-se a "fornecer meios tecnológicos actualizados, designadamente computadores portáteis e kits multimédia, para apoio do trabalho dos professores". Para as medidas anunciadas o Governo tem, para gastar em 2006, 40 milhões de euros. Quanto ao facto de não ter sido possível chegar a acordo com os restantes sindicatos, a governante explicou que tal não aconteceu "devido ao centramento" dessas estruturas no regime de faltas dos professores e na questão das aulas de substituição - "não podemos aceitar propostas que passam pela suspensão dos despachos que permitam a ocupação plena dos tempos escolares", referiu. "O princípio das actividades de substituição não estava em cima da mesa para negociação, mas reconhecemos a necessidade de clarificar conceitos", continuou. "É preciso ter a noção de que hoje o quotidiano das escolas está muito alterado e daí surge alguma insatisfação que necessariamente o tempo se encarregará de mitigar. Não tenho dúvida de que o que estamos a fazer é em favor de uma escola de qualidade."

No Público de hoje


De tudo o que leio relativamente à educação, aos professores e às minhas recordações de aluna não tenho um infimo de dúvida em apontar o dedo aos professores. Se não gostam de ser professores façam um favor à gente e mudem de área. É triste que não haja muitos empregos em que possam passar as horas a ler a Máxima e a Bola e depois irem pra casa tirarem a folha amarfada com o plano das aulas do próximo dia, que é o mesmo de há anos. Aqueles primeiros anos em que se tem que realmente preparar algo. Eu sei como pode ser cansativo aturar crianças. Por isso é que não sou professora. Entendem a lógica? A gente escolhe aquilo que gosta, não aquilo que dá possibilidades de menos trabalho.

quarta-feira

Manifestem-se!

Disse-me uma amiga que os senhores professores estão de luto e que a apoteose será na próxima sexta-feira (sexta, absolut teacher), porque coitadinhos estão muito desmotivados (Sócrates faz-lhes umas festinhas), as crianças deixam-nos esgotados (já tenho ali o bastão para quando vir os terroristas dos meus sobrinhos), tanta coisa para preparar e tudo em 35 horas de trabalho por semana (isto é a escravatura!), sem condições de trabalho (isto não sei porquê vem sempre no fim das queixas).

Eu pergunto-me porque é que os outros, os que trabalham mais e que não têm direito a desmotivações, os que são avaliados ao fim do mês de acordo com o que produzem (e não corridos a "bom" mesmo que nem saibam a diferença entre o teclado e a bengala do encosto), porque é que não se manifestam. Ah, pois. Porque não têm tempo. Porque andam a dar o litro a trabalhar por eles e pelos outros. Os desmotivados que choram as mágoas à frente da bica. A vida é dura.

De colegas que entraram para a função pública ouvi sempre a mesma queixa: se queres trabalhar és ostracizado. Nas avaliações o trabalhador recebe o mesmo que o preguiçoso. Os pobres andavam desmotivados, andavam.

Se me perguntarem, acho a crise muito boa. Para acabar com os acomodados. Aí, a dançar o vira minha gente.