Uma das primeiras palavras que aprendi na Alemanha foi gemütlich. Era-me óbvio que nas casas que visitava havia ali uma diferença, que inicialmente nao se deixava apanhar por palavras, entre autóctones e nao-autóctones. Mal se passava a porta até o ar era diferente. Os autóctones criavam como ninhos, cada pedacinho de palhinha, pauzinho uma construçao para um espaço de bem-estar pessoal. Acabei por definir que a grande diferença era a atitude para o espaço em que se vivia: as casas dos nao-autóctones eram garagens, onde se aparcam os pertences e o corpo, onde se realizam actividades de manutençao. Quando trouxe isto á conversa, a palavra apareceu: gemütlich, esse estado de conforto do corpo e do espírito no espaço que ocupam. Os autóctones também estranhavam a indiferença que notavam nos nao-autóctones. Em primeiro, nós nao sabiamos explicar, mas após algum esforço chegamos com uma hipótese: o clima. Vinhamos todos de países cheios de sol, em que a rua, os cafés, as esplanadas, as varandas, os alpendres, os terraços, a praia sao os nossos espaços de estar. Mas no Norte da Alemanha, o ar livre é normalmente inóspito, pelo que o estar e a vida social derivam para dentro da casa. No meu quinto ano na Alemanha, eu já absorvi um pouco desse gemütlich, pela impossibilidade de nao o fazer. Precisamos desse acolhimento exterior para o nosso interior, que se nao nos é dado pelo sol e pelos cheiros amenos, nos é proporcionado por esse mundo carinhosamente criado.
Tendo compreendido ás minhas custas o que pode significar a nossa casa no Norte da Europa, fiquei divertidamente perplexa, que uma afirmaçao que aqui encima é tao óbvia possa causar tal lucubraçao auto-denominada filosófica lá embaixo na praia do Oeste. Mas eu nao compreenderia a ironia há seis anos atrás. Há certas simplicidades da vida que só se compreendem ao vive-las.
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quarta-feira
terça-feira
O nivel informativo
Um amigo perguntou-me o que eu achava do caso Madeleine.
Eu respondi que nao tinha a minima ideia, mas que parecia que a imprensa portuguesa se andava a portar muito mal, assim como se ele me tivesse perguntado sobre os meus sobrinhos. "E tu?"
"Nada tambem, mas nao sei, acho que nao confio nos pais."
Mudei de assunto. Mal por mal, escuro no escuro, rumor por rumor, ignorancia por ignorancia, prefiro falar de terroristas. E' menos personalizado.
Eu respondi que nao tinha a minima ideia, mas que parecia que a imprensa portuguesa se andava a portar muito mal, assim como se ele me tivesse perguntado sobre os meus sobrinhos. "E tu?"
"Nada tambem, mas nao sei, acho que nao confio nos pais."
Mudei de assunto. Mal por mal, escuro no escuro, rumor por rumor, ignorancia por ignorancia, prefiro falar de terroristas. E' menos personalizado.
quinta-feira
Informaçao?
Eu vou lendo sobre a má qualidade dos telejornais, mas ainda assim, pouco habituada a ver televisao, fiquei boquiaberta que as vezes em que calhou ve-los em Portugal nao ter sabido nada de nada sobre tudo. Eu só me apercebi que eram telejornais porque havia alguem a introduzir os segmentos de qualquer coisa indefinida, entre fofoca e apontamento sociológico. Neste momento que estou a tentar lembrar-me de algo desse nada, só me lembro de uma senhora do jet-set (tinha um daqueles nomes de Pipi) a mostrar-nos que tem um Natal como todos os outros, esses outros com nomes totalmente banais e sem ponta de humor.
segunda-feira
quinta-feira
Geração sem guia
O tempo anda depressa. Com trinta anos, a minha idade de crescer pouco teve a ver com a da minha sobrinha seis anos mais nova e é de um país extra-terrestre comparada com a minha sobrinha dezassete anos mais nova. Sento-me no sofá ao lado da geração mais nova e peço-lhes que me expliquem o que estão a ver na televisão. É aborrecido. Não resisto. Pego numa revista. Que chata tia, estás sempre a ler!
As minhas sobrinhas, do que me é possível ver, são saudáveis, têm pais que lhes deram/dão apoio. Não será como as meninas deste artigo* que me deixou numa tristeza funda. A situação descrita é nos EUA, mas será só lá? Resumido: meninas no inicio da adolescência fazem sexo oral a colegas, vários numa mesma sessão. Parece que é uma moda. A cronista compara a sua idade de crescer com esta idade de agora e ainda que ela tenha uns 20 anos mais que eu, ela está mais perto do meu crescer. É habitual as pessoas ficarem surpreendidas com o saber das crianças. Sabem tudo. Nós não eramos assim, pois não? Só que o que aquele artigo me diz é o perigo de saberem demais de algo e de menos de outro. Sabem tudo sobre sexo, mas não sabem como o incorporar nas suas vidas. Sabem tudo sobre a mecânica e nada sobre o emocional. O segundo é normal, são crianças, adolescentes, estão a crescer. Contudo, com tanta informação, eles precisam dos pais presentes que lhes traduzam o que ainda não dá para compreenderem completamente. Antes, a sociedade era proibitiva, fechada, claustrofóbica. Contudo, tinha o positivo de serem os adolescentes a procurar e isto, de alguma forma, protegia-os de saber demasiadamente cedo. Agora com a informação a ser despejada literalmente sobre as pessoas, de tal forma que só fechando os olhos é que não se vê, se os pais não estão presentes para dar uma moldura à pintura, parece que pode acontecer o que é descrito no artigo. Crianças perdem a noção da realidade em programas aberrantes, como a MTV descrita aqui, que eu de vez em quando espreito como se estivesse a ver figuras circenses do século XIX, a mulher barbuda dos dias de hoje; crianças descompreendem as canções que têm letras destas:
Ain't my job
To fuck you on your birthday
Ain't my job
To fuck you on your birthday anymore
Mas isto é suave...
“You make a nigga wanna fuck your ass on the couch / While we’re still in the club, show your pussy love / Work that clit / Cum girl.”
Estas músicas são ouvidas por adolescentes. Eu sou adulta. Eu sei rir-me com as idiotices da MTV, a mim desgosta-me estas letras, eu não preciso de ser cool, as mulheres magrelas das revistas de moda não me afectam, não sou pressionada pelos meus pares, eu, afinal, tenho mais caminho percorrido. Eu sou eu, daquela forma que se alcança quando se é adulto.
Mas os adolescentes andam à procura deles mesmos e andam-se a perder e a aleijar-se. Talvez me engane. Talvez não seja assim. Talvez seja só na América. Se calhar estou fora. Mas se calhar até não e a única solução são os pais. Que chata tia, não percebes nada disto! Talvez não, mas faz-me triste.
* via Voz do Deserto
As minhas sobrinhas, do que me é possível ver, são saudáveis, têm pais que lhes deram/dão apoio. Não será como as meninas deste artigo* que me deixou numa tristeza funda. A situação descrita é nos EUA, mas será só lá? Resumido: meninas no inicio da adolescência fazem sexo oral a colegas, vários numa mesma sessão. Parece que é uma moda. A cronista compara a sua idade de crescer com esta idade de agora e ainda que ela tenha uns 20 anos mais que eu, ela está mais perto do meu crescer. É habitual as pessoas ficarem surpreendidas com o saber das crianças. Sabem tudo. Nós não eramos assim, pois não? Só que o que aquele artigo me diz é o perigo de saberem demais de algo e de menos de outro. Sabem tudo sobre sexo, mas não sabem como o incorporar nas suas vidas. Sabem tudo sobre a mecânica e nada sobre o emocional. O segundo é normal, são crianças, adolescentes, estão a crescer. Contudo, com tanta informação, eles precisam dos pais presentes que lhes traduzam o que ainda não dá para compreenderem completamente. Antes, a sociedade era proibitiva, fechada, claustrofóbica. Contudo, tinha o positivo de serem os adolescentes a procurar e isto, de alguma forma, protegia-os de saber demasiadamente cedo. Agora com a informação a ser despejada literalmente sobre as pessoas, de tal forma que só fechando os olhos é que não se vê, se os pais não estão presentes para dar uma moldura à pintura, parece que pode acontecer o que é descrito no artigo. Crianças perdem a noção da realidade em programas aberrantes, como a MTV descrita aqui, que eu de vez em quando espreito como se estivesse a ver figuras circenses do século XIX, a mulher barbuda dos dias de hoje; crianças descompreendem as canções que têm letras destas:
Ain't my job
To fuck you on your birthday
Ain't my job
To fuck you on your birthday anymore
Mas isto é suave...
“You make a nigga wanna fuck your ass on the couch / While we’re still in the club, show your pussy love / Work that clit / Cum girl.”
Estas músicas são ouvidas por adolescentes. Eu sou adulta. Eu sei rir-me com as idiotices da MTV, a mim desgosta-me estas letras, eu não preciso de ser cool, as mulheres magrelas das revistas de moda não me afectam, não sou pressionada pelos meus pares, eu, afinal, tenho mais caminho percorrido. Eu sou eu, daquela forma que se alcança quando se é adulto.
Mas os adolescentes andam à procura deles mesmos e andam-se a perder e a aleijar-se. Talvez me engane. Talvez não seja assim. Talvez seja só na América. Se calhar estou fora. Mas se calhar até não e a única solução são os pais. Que chata tia, não percebes nada disto! Talvez não, mas faz-me triste.
* via Voz do Deserto
quarta-feira
Viver numa bolha II
A minha amiga respondeu-me de novo. Diz-me ela que nós tivemos 16 anos há 14 anos atrás!!! (Pontos de exclamação dela). Que a juventude hoje tem a informação toda que precisa, que há internet nas escolas e concertos em que se distribui brochuras e até um preservativo, que há os "Morangos com Açucar"!
Querida amiga, eu continuo céptica, mas desejosa que tenhas razão. Espero que seja eu na bolha.
Espero também que a discussão que se avizinha nos esclareça...
Querida amiga, eu continuo céptica, mas desejosa que tenhas razão. Espero que seja eu na bolha.
Espero também que a discussão que se avizinha nos esclareça...
Viver numa bolha
Uma amiga respondeu-me ao meu último poste dizendo que achava impossível que com a comunicação social de hoje uma jovem de 16 anos não estivesse informada sobre doenças de transmissão sexual, métodos contraceptivos...
Eu sorri e pensei que eu acho exactamente o contrário. Com a comunicação social de hoje aprende-se pouco. Estão mais interessados em notícias flamejantes, chocantes, esfusiantes, do que o aborrecimento de informar com conta e medida. Para ser-se informado tem de se procurar a informação e uma jovem de menos de dezasseis anos pode não ter os meios ou o discernimento de saber onde procurar.
Imaginei-me com dezasseis anos. Com dezasseis anos eu não tinha qualquer ideia sobre métodos contraceptivos. Sabia a biologia da coisa, mas ninguém se tinha dado ao trabalho de me explicar o pragmático da questão. Tive sorte. A minha vida sexual começou mais tarde, quando já tinha procurado por mim a informação. Se tivesse ficado grávida na altura estava lixada.
As pessoas vivem em bolhas. As pessoas não entendem que para se procurar a informação é necessário perceber que se necessita de informação. Que nem toda a gente é bem ou tia. É por isto que é necessário estender a mão. É necessário que a informação chegue antes.
Eu sorri e pensei que eu acho exactamente o contrário. Com a comunicação social de hoje aprende-se pouco. Estão mais interessados em notícias flamejantes, chocantes, esfusiantes, do que o aborrecimento de informar com conta e medida. Para ser-se informado tem de se procurar a informação e uma jovem de menos de dezasseis anos pode não ter os meios ou o discernimento de saber onde procurar.
Imaginei-me com dezasseis anos. Com dezasseis anos eu não tinha qualquer ideia sobre métodos contraceptivos. Sabia a biologia da coisa, mas ninguém se tinha dado ao trabalho de me explicar o pragmático da questão. Tive sorte. A minha vida sexual começou mais tarde, quando já tinha procurado por mim a informação. Se tivesse ficado grávida na altura estava lixada.
As pessoas vivem em bolhas. As pessoas não entendem que para se procurar a informação é necessário perceber que se necessita de informação. Que nem toda a gente é bem ou tia. É por isto que é necessário estender a mão. É necessário que a informação chegue antes.
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