sexta-feira
terça-feira
My dears
Que dizer amigos? Para lá da sensacao de inutilidade em mover qualquer restia de mim? Nao, nao, nao há qualquer problema em ter a total consciencia da minha inutilidade. É a realidade e sempre tive uma certa afeiçao pela realidade nua e crua. O caminho fica livre para a liberdade. Os tempos que correm nao me dizem nada. Sento-me a olhar para o peitoril da janela que contém os meus livros e sinto prazer em reve-los como amigos em fotografias. Fico assim longos tempos, sem passado ou futuro. Posta no presente, imovel no tempo e no espaço, com pouco para dizer, a saborear a minha mortalidade. Bem, talvez retorne ou nao. Por agora vou fumar um cigarro. Beijos.
quinta-feira
meto a mão em pó
e retiro-te de quando eras outro
quando o teu azul era só azul
ainda não oceano
a tua palidez era encardida
ainda não prateada
as tuas mãos despercebidas
ainda não sentidas
a tua boca ruminando sons
em vez de beijos
todo tu ordinário
metido num sudário fantasista
que dispo com as unhas
raspo com os dentes
esmago
desfrutando algo
algum momento, algum sentimento, algo
quicá, quem sabe, algo que vem em brisa
que cheira a podre
que morre ao redor.
e retiro-te de quando eras outro
quando o teu azul era só azul
ainda não oceano
a tua palidez era encardida
ainda não prateada
as tuas mãos despercebidas
ainda não sentidas
a tua boca ruminando sons
em vez de beijos
todo tu ordinário
metido num sudário fantasista
que dispo com as unhas
raspo com os dentes
esmago
desfrutando algo
algum momento, algum sentimento, algo
quicá, quem sabe, algo que vem em brisa
que cheira a podre
que morre ao redor.
quarta-feira
segunda-feira
sábado
quinta-feira
O que leva os seres-humanos a perpretar actos desumanos?
Existem duas correntes explicativas na sociopsicologia: as disposições individuais e as situações em que o indivíduo se encontra. Philip G. Zimbardo no seu livro “The Lucifer effect: understanding how good people turn evil” defende a segunda como a fundamental. Ele descreve a sua experiência de 1971, em que colocou 24 voluntários, todos eles considerados saudáveis e normais, todos eles estudantes universitários, numa situação de prisão, 12 actuando como guardas e 12 como prisioneiros. Nas entrevistas que foram realizadas previamente, todos eles tinham afirmado que prefeririam actuar como prisioneiros, pois não se imaginavam na situação de serem guardas, mas na cultura universitária do tempo, com as demonstrações anti-guerra, eles pensavam que poderiam ser presos e a experiência poderia ser-lhes útil. Supostamente a experiência deveria durar duas semanas. Durou 6 dias. Por esta altura os guardas tinham-se tornado agressivos e desumanos, obrigando os prisioneiros a punições degradantes e humilhantes, de tal forma, que vários tiveram de ser libertados e os que ficaram comportavam-se como zombies. Com base nesta experiência e outros casos exemplificativos ele defende que todos nós podemos na situação adequada tornarmo-nos “guardas”. Ele defende um processo de despersonalização e anonimatização, em que em ordem para a actuação como “guarda”, adquirimos para nós o papel de “guarda” entre “guardas”. Na despersonalização livramo-nos dos nossos próprios pruridos morais, na anonimatização adquirimos o senso de impunidade.
É assim?
O livro de Jean Hatzfeld, “Machete Season: The killers in Ruanda speak.” parece corroborar o situacianismo. No poste anterior, nomeadamente no testemunho de Pio, existia essa sensacão de arrastamento pela situação. Primeiro dia da matança:
Testemunho de Fulgence: No dia 11 de Abril, o juiz do Município em Kibungo enviou os seus mensageiros para juntar lá os Hutus. Montes de interahamwe* tinham chegado em autocarros e camiões, que seguiam pelas estradas buzinando e forçando caminho. Parecia um engarrafamento na cidade.
Lá o juiz disse a toda a gente que a partir daí não iriamos fazer outra coisa senão matar Tutsi. Bem, nós entendemos: aquilo era um plano final. A atmosfera tinha mudado.
Nesse dia, tipos mal informados tinham vindo sem trazerem uma machete ou outro instrumento para cortar. Os interahamwe repreenderam-nos: disseram-lhes que daquela vez passava, mas era melhor que não tornasse a acontecer. Disseram-lhes para se armarem com pedras e paus, para formar barreiras na retaguarda para cortar o caminho a fugitivos. A seguir, todos se juntaram em excitação a um líder ou aglomeraram seguidores, mas nunca mais ninguém esqueceu a sua machete.
Assim, com um historial antigo de demonização de Tutsi, com as autoridades a indicar o caminho (matar e somente matar), a despersonalização de assassino e do a assassinar parece que foi fácil. O ajuntamento excitado facilitou a anonimatização e a matança de 50 mil Tutsi num período de um mês tornou-se realidade.
E quanto às disposições individuais? Existindo pessoas que evitaram o assassinato, foram tão raras, que são extraordinárias. Os heróis são raridades.
Era perto do meio-dia do dia 11 de Abril, no primeiro dia da matança nos montes de Ntarama. Isidore Mahandago descansava de uma manhã de monda, sentado numa cadeira no terreiro da sua cabana. Ele era um camponês Hutu, de sessenta e cinco anos, que tinha chegado a Rugunga, no monte de Ntarama, vinte anos antes.
Uns tipos robustos, armados com machetes, passaram cantando pelo caminho junto à sua casa. Isidore chamou-os na sua voz velha e profunda e sermoneou-os na frente dos vizinhos: “Vós, jovens, sois malfeitores. Recuai e ide-vos. As lâminas das vossas machetes apontam na direcção da nossa tragédia. Não inflameis disputas demasiadamente perigosas para nós camponeses. Parai de atormentar os nossos vizinhos e retornai aos vossos campos.” Dois assassinos aproximaram-se dele, rindo-se, e sem palavras cortaram-no com as machetes. Entre o bando encontrava-se o filho de Isidore, que de acordo com testemunhas, não protestou nem parou para ver do pai. Os jovens continuaram o seu caminho cantando.
Isidore Mahandango é o Homem Justo de Ntarama.
Hatzfeld conta mais duas histórias, de cinco justos que foram assassinados. Mas escreve:
E os Justos ainda vivos, quem são e onde se encontram? Na verdade, depois de muitas visitas, de muito procurar, ainda não encontrei nenhum nos três montes de Kibungo, Ntarama e Kanzenze. Contudo, em vez, posso apontar outras pessoas merecedoras. Ibrahim Nsengiyumua, um comerciante próspero de Kibungo, pagou multa após multa ao ponto da ruína, para evitar participar na matança e nos saques. Ele fê-lo, explica Innocent [o guia Tutsi de Hatzfeld], “porque juntou suficiente riqueza para não arruinar a vida com sangue”.
Os merecedores também são poucos. E isto é o ser-humano.
* interahamwe – “Os que atacam juntos”: a milícia extremista Hutu criada pelo clã Habyarimana no início dos anos 90, treinada pelo exército ruandês e, por vezes, localmente, pelos soldados franceses.
Tradução minha do livro "Machete Season: The killers in Rwanda speak" a cor.
É assim?
O livro de Jean Hatzfeld, “Machete Season: The killers in Ruanda speak.” parece corroborar o situacianismo. No poste anterior, nomeadamente no testemunho de Pio, existia essa sensacão de arrastamento pela situação. Primeiro dia da matança:
Testemunho de Fulgence: No dia 11 de Abril, o juiz do Município em Kibungo enviou os seus mensageiros para juntar lá os Hutus. Montes de interahamwe* tinham chegado em autocarros e camiões, que seguiam pelas estradas buzinando e forçando caminho. Parecia um engarrafamento na cidade.
Lá o juiz disse a toda a gente que a partir daí não iriamos fazer outra coisa senão matar Tutsi. Bem, nós entendemos: aquilo era um plano final. A atmosfera tinha mudado.
Nesse dia, tipos mal informados tinham vindo sem trazerem uma machete ou outro instrumento para cortar. Os interahamwe repreenderam-nos: disseram-lhes que daquela vez passava, mas era melhor que não tornasse a acontecer. Disseram-lhes para se armarem com pedras e paus, para formar barreiras na retaguarda para cortar o caminho a fugitivos. A seguir, todos se juntaram em excitação a um líder ou aglomeraram seguidores, mas nunca mais ninguém esqueceu a sua machete.
Assim, com um historial antigo de demonização de Tutsi, com as autoridades a indicar o caminho (matar e somente matar), a despersonalização de assassino e do a assassinar parece que foi fácil. O ajuntamento excitado facilitou a anonimatização e a matança de 50 mil Tutsi num período de um mês tornou-se realidade.
E quanto às disposições individuais? Existindo pessoas que evitaram o assassinato, foram tão raras, que são extraordinárias. Os heróis são raridades.
Era perto do meio-dia do dia 11 de Abril, no primeiro dia da matança nos montes de Ntarama. Isidore Mahandago descansava de uma manhã de monda, sentado numa cadeira no terreiro da sua cabana. Ele era um camponês Hutu, de sessenta e cinco anos, que tinha chegado a Rugunga, no monte de Ntarama, vinte anos antes.
Uns tipos robustos, armados com machetes, passaram cantando pelo caminho junto à sua casa. Isidore chamou-os na sua voz velha e profunda e sermoneou-os na frente dos vizinhos: “Vós, jovens, sois malfeitores. Recuai e ide-vos. As lâminas das vossas machetes apontam na direcção da nossa tragédia. Não inflameis disputas demasiadamente perigosas para nós camponeses. Parai de atormentar os nossos vizinhos e retornai aos vossos campos.” Dois assassinos aproximaram-se dele, rindo-se, e sem palavras cortaram-no com as machetes. Entre o bando encontrava-se o filho de Isidore, que de acordo com testemunhas, não protestou nem parou para ver do pai. Os jovens continuaram o seu caminho cantando.
Isidore Mahandango é o Homem Justo de Ntarama.
Hatzfeld conta mais duas histórias, de cinco justos que foram assassinados. Mas escreve:
E os Justos ainda vivos, quem são e onde se encontram? Na verdade, depois de muitas visitas, de muito procurar, ainda não encontrei nenhum nos três montes de Kibungo, Ntarama e Kanzenze. Contudo, em vez, posso apontar outras pessoas merecedoras. Ibrahim Nsengiyumua, um comerciante próspero de Kibungo, pagou multa após multa ao ponto da ruína, para evitar participar na matança e nos saques. Ele fê-lo, explica Innocent [o guia Tutsi de Hatzfeld], “porque juntou suficiente riqueza para não arruinar a vida com sangue”.
Os merecedores também são poucos. E isto é o ser-humano.
* interahamwe – “Os que atacam juntos”: a milícia extremista Hutu criada pelo clã Habyarimana no início dos anos 90, treinada pelo exército ruandês e, por vezes, localmente, pelos soldados franceses.
Tradução minha do livro "Machete Season: The killers in Rwanda speak" a cor.
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Quando se quer exterminar os outros

Andisheh Avini 2007
Installation View, I-20 Gallery, New York (February 20 - March 24, 2007) (Photo: Cary Whittier)
Estive a ler um livro sobre o genocídio no Ruanda: "Une saison de machettes" no original, mas eu li a edição americana. Consiste em entrevistas a um grupo de assassinos e apartes do autor. Este é um livro posterior a um outro, em que o autor, Jean Hatzfeld, entrevistou sobreviventes do massacre, livro este que pretendo ler também.
Obviamente que um primeiro passo ao ler este livro será entender o que é genocídio. Especialmente, quando esta é uma palavra usada sem discriminação, como hipérbole em hipérboles. O dicionário diz "destruição metódica de um grupo étnico, pela exterminação dos seus indivíduos." Jean dá uma definição que, para mim, contém o essencial elemento distintivo:
Será possível distinguir um genocídio entre o caos de uma guerra? A resposta (...) encontra-se noutra questão, simples e decisiva: quem são as vítimas de escolha?
Na guerra, os homens sāo mortos primeiro, porque eles sāo os mais prováveis na resposta armada; a seguir estão as mulheres que os poderão ajudar, os rapazes que irão tentar continuar o conflito e os velhos que podem dar conselhos de saber. Mas num genocídio, o assassino persegue todos, em particular bébés, raparigas e mulheres, porque elas representam o futuro.
Toda a envolvente de um genocídio sente-se irreal. Os que vemos à distância, queremos, imaginamos, esperamos, uma explicação que coloque o genocídio no domínio da loucura. Nós, os normais, não poderiamos ser assim. Doença colectiva que queremos compreender nos sintomas. No entanto aquelas pessoas são normais. A doença é humana e é o sentimento de pertença a uma tribo ou a uma nação (utilizando tribo para todas as associaçoes que nao sejam de estado: base religiosa, étnica, morfológica, tudo enfim em que a imaginaçao humana se baseia para criar linhas entre seres humanos).
Testemunho de Pio: No início de um genocídio existe uma causa, uma razão e pessoas que o acham vantajoso. A causa não chega por acaso; é afinada pelos intimidadores: o desejo de ganhar de vez o jogo. Contudo, as pessoas que são tentadas são as que por acaso vivem ali. Eu estava lá, em casa, quando a tentação veio chamar por mim. Eu não estou a dizer que fui forçado por Satanás ou algo assim. A ganância e a obediência levaram-me a achar a causa vantajosa e, assim, corri para os pântanos. Mas se eu tivesse nascido na Tanzânia ou na França, eu estaria longe da comoção e da sede por sangue.
Pessoas simples não podem resistir uma tentação como aquela, não sem a salvação da Biblia, pelo menos, não naqueles montes. Porquê? Por causa das maravilhosas palavras de sucesso total. Elas ganham-te. Depois a tentação não pode ir para a prisão, pelo que as pessoas são presas. E, mais à frente, a tentação pode reaparecer tão pavorosa quanto antes.
Quando alguém vê o seu melhor interesse vir na sua direcção e na dos seus colegas, essa pessoa não perde tempo à espera, a hesitar, essa pessoa já não considera sentimentos, já não ouve pedidos de piedade. Ele vê o Mal na forma do Bem e fica satisfeita. Ele pensa no que pode ganhar para si e para a sua família até ao fim dos seus dias. Ele segue o seu melhor interesse nos pântanos.
Depois, ele limpa-se da lama e do sangue e bebe uma cerveja. Isto foi o que eu fiz. Eu não nego a minha culpa. Mas eu sou, não só punido pelo meu erro, mas também pela minha má sorte.
O primeiro sintoma é a aceitação da linha de ruptura fictícia e a continuada malignização dos outros. Existe no domínio extremamente humano da incongruência. As pessoas conseguem e fazem-no automaticamente todos os dias: albergam duas ideias opostas dentro de si, sem racionalizarem a antítese.
Testemunho de Jean-Baptiste: Os Hutus sempre criticaram os Tutsi pela sua altura e por tentarem usar isto para mandar. O tempo nunca curou este rancor. Em Nyamata, como eu lhe disse, as pessoas diziam que as mulheres Tutsi pareciam demasiadamente magras para trabalharem nos nossos montes, que a pele delas era macia porque secretamente bebiam leite, que os seus dedos eram demasiadamente delicados para agarrar uma sachola e toda essa parvoíce.
Na verdade, os Hutus não viam nada disso nas mulheres Tutsi na sua vizinhança, que dobravam as costas lado-a-lado às mulheres Hutus e que iam buscar a água da mesma maneira. Contudo, os Hutus gostavam de repetir esta conversa. Também gostavam de dizer que um Hutu com uma mulher Tutsi era só para se armar, como no meu caso.
Eles tinham prazer em espalhar o mais inacreditável lixo para criar uma fina linha de discórdia entre os dois grupos étnicos. O importante era manter a distância entre os grupos e tentar agravar a situação. Por exemplo, no primeiro dia de escola, o professor tinha, ao chamar os alunos, de referir a origem étnica, de forma a que os Tutsi sentissem receio ao tomar os seus assentos numa classe de Hutus.
Testemunho de Pio: Talvez não odiássemos todos os Tutsi, especialmente não os nossos vizinhos e talvez não os víssemos a todos como inimigos. Mas entre nós diziamos que não queriamos viver mais com eles. Diziamos até que não os queriamos ver à nossa volta, que os queriamos fora da nossa terra. Dizer isto é grave - isto já é o aguçar da machete. Eu, eu não sei porque é que comecei a odiar os Tutsi. Eu era novo e o que eu mais gostava de fazer era jogar futebol: eu jogava na equipa de Kibungo com outros rapazes Tutsi da minha idade, passávamos a bola entre nós sem problemas. Nunca notei desconforto na companhia deles. O ódio apareceu na altura da matança; eu imitei os outros na sede do ódio, para pertencer ao grupo.
Testemunho de Léopord: É estranho falar de ódio entre os Hutus e os Tutsi, porque as palavras mudaram de significado depois da matança. Antes, nós podiamos estar na galhofa a dizer que os íamos matar a todos e no momento seguinte estar a compartilhar com eles uma bebida ou trabalhar lado-a-lado. Misturávamos as piadas e as ameaças. Já nem ouvíamos o que dizíamos. Podíamos pronunciar palavras horríveis sem pensamentos horríveis. Os Tutsi nem ficavam muito chateados. Quer dizer, eles não se iam embora quando começavam aquelas discussões. Mas agora pudemos ver: aquelas palavras trouxeram consequências terríveis.
A ideia está ali a gravitar: aqueles são outros, maus, perigosos, diferentes, manhosos, desmerecedores da vida, outros. Mas o mais fundamental e surpreendente é o poder da palavra. Num momento em que se discutem as palavras e o politicamente correcto como entediante censura social, seria importante aprender a lição de que as palavras têm poder. Chamar escarumba, paneleiro, puta, judeu a alguém, é mais do que dar nomes, é colocar aquela pessoa numa determinada esfera humana, que segundo o sentido dessas palavras pode ser uma esfera para lá dos laços de irmandade que nos protegem mutuamente do mal que somos. Não é o politicamente correcto que está a reinar, quando escolhemos ter cuidado com as palavras, mas aceitar o poder das palavras como decantadores de ideias, preconceitos, semente de violência contra o grupo adjectivado. Ter cuidado com as palavras que se usam com as pessoas é o humanamente correcto. É ter a inteligência de aprender com a história quem somos e do que somos capazes.
Testemunho de Adalbert: O genocídio não é uma ideia de guerras e batalhas. É uma ideia que as autoridades têm - de se livrarem de um perigo de uma vez por todas. Uma ideia conveniente que não necessita de ser nomeada ou encorajada, para lá de umas orquestrações maliciosas. É uma ideia bastante comum quando voa de palavra em palavra, por vezes, de piada em piada; torna-se extraordinária quando é apanhada na ponta das machetes.
Esta ideia não morre com as mortes, não morre depois da vitória ou depois da derrota. Autoridades no futuro podem recuperá-la para outro destino. Mas como pode alguém matar uma ideia, usada de forma tão extraordinária, se não se souber como matar a palavra, que a pode chamar à vida? Matar os inimigos, matar quem nos faz mal, matar os vizinhos - isto pode-se entender. Matar ideias e palavras - isto vai para além da inteligência, a inteligência de um camponês, pelo menos.
Tradução minha.
(continua)
terça-feira
Fingimento

São gotas grossas, metálicas, que caiem pelos telemóveis. Eu respiro muito devagar. Sou extremamente prática, racional, deixo o meu cérebro possuir-me, recta aguda, sem floreios, uma missiva formal de fim pontuado. Termina. Acaba. Silêncio. A recta transforma-se em punhal, abre-me de cima abaixo e deixa-me a escorrer pelos lençóis da cama. Parece que vou morrer, mas eu sei que é só fingimento do meu corpo. Fecho os olhos e deixo-me ir pelo chão de madeira, o sangue chega às escadas e desce-as, sai para a rua e faz um caminho vermelho invisível. Lento. Gelatinoso. Nojento. Deixo-me ir, mas sei que é só fingimento.
Amber Under Hours 2006
Acrylic and Pencil on Birch Panel
Sherry Wong
segunda-feira
Leituras
The Gross-Out Factor, Pauline W. Chen
Welcome to 'Palestine', Robert Fisk
(...) Pavlov, of the drooling dog fame, believed that habituation could be simply reversed. Others have asserted that repeat sensitization could interrupt a learned reflex. But for our human quandaries, extricating ourselves from habituation and the inevitable sliding ideals requires another, more complex process altogether. (...)
Welcome to 'Palestine', Robert Fisk
(...) I recall years ago being summoned to the home of a PA official whose walls had just been punctured by an Israeli tank shell. All true. But what struck me were the gold-plated taps in his bathroom. Those taps—or variations of them—were what cost Fatah its election. Palestinians wanted an end to corruption—the cancer of the Arab world - and so they voted for Hamas and thus we, the all-wise, all-good West, decided to sanction them and starve them and bully them for exercising their free vote. Maybe we should offer “Palestine” EU membership if it would be gracious enough to vote for the right people? (...)
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sexta-feira
quarta-feira
Tédio
Pára-me de repente o Pensamento...
— Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
— Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento
— Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...
— Pára... e Fica... e Demora-se um Momento....
Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora
E Mergulha na Noute, Escura e Fria
Um Olhar d’Aço, que na Noute explora...
— Mas a Espora da dor seu flanco estria...
— E Ele Galga... e Prossegue... sob a Espora!
Ângelo de Lima. Publicado em várias revistas literárias, com ligeiras alterações, de 1900 (O Portugal) a 1935 (Sudeste).
Ler um poema é também dialogar com as suas leituras anteriores e virtuais. Não posso deixar de mencionar que, embora o soneto não tivesse título no original autógrafo, e assim tenha sido mantido pelo seu editor, recebeu às vezes, nas versões publicadas, o de Tédio. Não se trata, obviamente, de um título escolhido ao acaso. As imagens e o ambiente do poema prestam-se, sem dúvida, à aproximação com a literatura do «mal do século», o spleen ou melancolia. Alguns dos temas e motivos encontrados no «dicionário da melancolia» (Pierre Dufour), em autores como Baudelaire e Borges, reconhecem-se no texto: a escuridão, a dor, a obsessão pela queda no abismo, a figura debruçada sobre o abismo ou sobre o espelho, etc. Essa leitura condiciona-se também pela circunstância de ter estado o poeta internado no hospital psiquiátrico de Rilhafoles, desde 1901 — isto é, um ano depois da primeira publicação do soneto (O Portugal, 12.6.1900) —, até a sua morte em 1921, o que talvez motivasse Fernando Pessoa a observar, ao publicá-lo no Sudoeste, em 1935, que nele o poeta descreve a sua entrada na loucura, em que longos anos viveu e em que morreu.
A controversa possibilidade de que a linguagem seja apta a dar voz à loucura (por mover-se fatalmente dentro dos limites da racionalidade) obriga-nos a tomar a observação de Pessoa com cuidado e, libertando-a do círculo logocêntrico, removê-la para zonas limítrofes. Com efeito, estudos sobre a literatura melancólica, a relação entre melancolia e gênio e o «discurso da loucura» têm ajudado a mapear territórios que, sem se distinguirem com absoluta nitidez, configuram tendências e delineiam certas zonas passíveis de sobreposição parcial: os discursos da cultura e da poesia e o discurso clínico. Desse ponto de vista, a experiência do tédio pôde ser considerada uma situação preliminar à precipitação na melancolia psicótica, e essa, às vezes, ser vista coexistindo, num mesmo autor, com a melancolia como estado de ânimo. O que aproxima os textos melancólicos, em geral, do poema de Ângelo de Lima, além dos motivos já mencionados, é a particular vivência do tempo: a oscilação entre a exaltação e a tristeza, com tendência à imobilização e rigidez, nulificando a dor e a esperança. O próprio Ângelo de Lima, na sua Autobiografia, confessa que se conservava horas imóvel quase na contemplação e reflexão sobre um só objecto, brinquedo ou espectáculo da natureza, atento fixo. Toda experiência de tédio ou de melancolia faz-se acompanhar de uma modificação na percepção do tempo, que se retarda e se detém, na sua fase depressiva. A assimetria entre o tempo interior, que tende à inércia, e o do mundo objetivo, constitui, dessa forma, uma categoria hermenêutica essencial para entender a profundidade da modificação fenomenológica do tempo na melancolia e no tédio (E. Borgna). Na vivência do tédio, portanto, o alongamento ou a extensão do presente traz como conseqüência a perda da noção de futuro e a redução do passado à sensação de aceleração que precede o presente. Já vimos como essas duas dimensões temporais são o arcabouço do soneto em causa.
Yara Frateschi Vieira
— Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
— Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento
— Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...
— Pára... e Fica... e Demora-se um Momento....
Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora
E Mergulha na Noute, Escura e Fria
Um Olhar d’Aço, que na Noute explora...
— Mas a Espora da dor seu flanco estria...
— E Ele Galga... e Prossegue... sob a Espora!
Ângelo de Lima. Publicado em várias revistas literárias, com ligeiras alterações, de 1900 (O Portugal) a 1935 (Sudeste).
Ler um poema é também dialogar com as suas leituras anteriores e virtuais. Não posso deixar de mencionar que, embora o soneto não tivesse título no original autógrafo, e assim tenha sido mantido pelo seu editor, recebeu às vezes, nas versões publicadas, o de Tédio. Não se trata, obviamente, de um título escolhido ao acaso. As imagens e o ambiente do poema prestam-se, sem dúvida, à aproximação com a literatura do «mal do século», o spleen ou melancolia. Alguns dos temas e motivos encontrados no «dicionário da melancolia» (Pierre Dufour), em autores como Baudelaire e Borges, reconhecem-se no texto: a escuridão, a dor, a obsessão pela queda no abismo, a figura debruçada sobre o abismo ou sobre o espelho, etc. Essa leitura condiciona-se também pela circunstância de ter estado o poeta internado no hospital psiquiátrico de Rilhafoles, desde 1901 — isto é, um ano depois da primeira publicação do soneto (O Portugal, 12.6.1900) —, até a sua morte em 1921, o que talvez motivasse Fernando Pessoa a observar, ao publicá-lo no Sudoeste, em 1935, que nele o poeta descreve a sua entrada na loucura, em que longos anos viveu e em que morreu.
A controversa possibilidade de que a linguagem seja apta a dar voz à loucura (por mover-se fatalmente dentro dos limites da racionalidade) obriga-nos a tomar a observação de Pessoa com cuidado e, libertando-a do círculo logocêntrico, removê-la para zonas limítrofes. Com efeito, estudos sobre a literatura melancólica, a relação entre melancolia e gênio e o «discurso da loucura» têm ajudado a mapear territórios que, sem se distinguirem com absoluta nitidez, configuram tendências e delineiam certas zonas passíveis de sobreposição parcial: os discursos da cultura e da poesia e o discurso clínico. Desse ponto de vista, a experiência do tédio pôde ser considerada uma situação preliminar à precipitação na melancolia psicótica, e essa, às vezes, ser vista coexistindo, num mesmo autor, com a melancolia como estado de ânimo. O que aproxima os textos melancólicos, em geral, do poema de Ângelo de Lima, além dos motivos já mencionados, é a particular vivência do tempo: a oscilação entre a exaltação e a tristeza, com tendência à imobilização e rigidez, nulificando a dor e a esperança. O próprio Ângelo de Lima, na sua Autobiografia, confessa que se conservava horas imóvel quase na contemplação e reflexão sobre um só objecto, brinquedo ou espectáculo da natureza, atento fixo. Toda experiência de tédio ou de melancolia faz-se acompanhar de uma modificação na percepção do tempo, que se retarda e se detém, na sua fase depressiva. A assimetria entre o tempo interior, que tende à inércia, e o do mundo objetivo, constitui, dessa forma, uma categoria hermenêutica essencial para entender a profundidade da modificação fenomenológica do tempo na melancolia e no tédio (E. Borgna). Na vivência do tédio, portanto, o alongamento ou a extensão do presente traz como conseqüência a perda da noção de futuro e a redução do passado à sensação de aceleração que precede o presente. Já vimos como essas duas dimensões temporais são o arcabouço do soneto em causa.
Yara Frateschi Vieira
terça-feira
sexta-feira
I like birds
The trophy wives of the astronauts
And I wont listen to their words
cause I like
Birds
I dont care for walkin downtown
Crazy auto-car gonna mow me down
Look at all the people like cows in a herd
Well, I like
Birds
If youre small and on a search
Ive got a feeder for you to perch on
I cant stand in line at the store
The mean little people are such a bore
But its alright if you act like a turd
cause I like
Birds
If youre small and on a search
Ive got a feeder for you to perch on
Ive got a feeder for you to perch on
If youre small and on a search
Ive got a feeder for you to perch on
Ive got a feeder for you to perch on
Eels, I like birds
Eu também gosto de pássaros.
;-)
segunda-feira
Big-Blog (uma grande opiniao, que vos deve dar prá hora do almoço)
Vejo de vez em quando afirmaçoes de hiper-importancia da blogosfera na antítese aos media escritos. Como se fossem substitui-los. Isto seria possível se os media forem tao estupidos (e digamos que é isso que andam a demonstrar) que deixem de oferecer algo que a blogosfera oferece pouco: qualidade. A blogosfera é cacarejo. É divertido, mas corococo.
Além disso, num momento em que uma pessoa é famosa, aplaudida e na escala de sucesso da actualidade, é um expoente público com base em absolutamente nada, veem-se pessoas que realmente sabem e/ou fazem serem desprezadas nessa sua qualidade, como se o que estivesse a dar nos dias de hoje é ser somente imagem ou como se a opiniao de todos em tudo tivesse o mesmo valor. Nao tem. Há um desprezo pelo especialista num ramo do saber, como se quem sabe fosse uma elite e as elites sao um perigo para a democracia. Só que há democracia e meritocracia e esta última precisa de existir para nao entrarmos numa sociedade da parvalheira. Além disso, a própria democacracia melhora se houver alguém que realmente sabe alguma coisa, porque senao é o reino das galinhas: cacarejam e nao dizem nada. Mas anotemos uma ironia imbecil: a contrataçao pelos media de galinhas. Pessoas que tem opinioes em tudo. Isto é impossivel, a nao ser para as galinhas. E é aqui que os media resvalam para a blogosfera e poderao ser ultrapassadas por ela. Porque sao tao maus que mais vale ler a blogosfera! Quer dizer, muito pessoal escreve na blogosfera e escreve nos jornais e fala nas televisoes. Este pessoal nao tem tempo para mais nada senao cagar opinioes!
Contudo, ainda é pior! Para além dos jornais serem mais de metade opiniao, os artigos já nao respeitam aquilo que aprendemos na escola do quem, onde, como, quando. Lá aparece sorrateiramente o penso eu de que. Vamos por as coisas no seu lugar: EU NAO QUERO SABER O QUE OS JORNALISTAS PENSAM. SE ELES QUEREM DIZER O QUE PENSAM QUE FAÇAM UM BLOGUE.
E esta praga do opinianismo alastra-se! Os juízes do Supremo arrogam-se a capacidade de opinar sobre a psicologia do sofrimento, a psicologia educativa, a psicologia da mini-saia no predador-macho, definirem relativismos nisto e nisto basearem sentenças! (Para além que pelas suas opinioes (e isto obviamente é a minha opiniao) já cá andavam quando moisés dividiu o mar vermelho!).
Vejo um fenómeno interessante na blogosfera, que é o lamento de haver blogues da primeira liga (como dizem), como se muitos deles o fossem nao só porque os seus autores sao famosos para lá da blogosfera, mas alguns deles, sao-no porque fazem e escrevem coisas com qualidade (nem que seja qualidade blogosférica). É preciso pensar nesses filtros. Contudo, conceda-se que há pessoal instalado, bastante capaz numa área, a mandar bitaites professorais (e é esta pretensao-pavao que eu acho desonesta) onde nao sabem nada, simplesmente empoleirados na sua fama. Mas nós temos de avaliar de onde saiem as palavras, o que vale quem diz no que fala. E relativizar muito.
Na blogosfera, todos tem opiniao sobre tudo e acham-se no direito de exigir que os outros deem valor ao que escrevem porque está escrito, ainda que como opiniao, o seu valor depende da sua base. Mas, dizem eles, praga das pragas, que quem nao lhes dá atençao é porque é parvo, vendido, nao vemos os inconformistas, os reformadores, os cristos, os profetas, a luz! (Isto lembrou-me "A vida de Brian" dos Monthy Phyton...). Desculpem amigos, o messias já cá esteve e andou. Um pouco de humildade, s'il vous plait. A vossa opiniao, sem mais, tem a importancia que eu lhe dou e eu, e isto é a minha opiniao, nao sou parva.
Uma opiniao é livre, mas para acedermos a algo mais que um monte de palavras que se enfiam em regras gramaticais, com umas ideiazitas por baixo (até o padre da Banheira-de-Cima tem ideiazitas), é preciso mais que somente a capacidade de juntar palavras. Deveriamos poder vislumbrar saber e é esse saber que dá valor a uma opiniao para lá do momentaneo, do conversacional, do social de todos os dias, que antes ficava perdido no ar e que agora fica escrito nos computadores que dao forma 'a internet. Mas ainda que escrito, provavelmente vale menos que nada. Alguém com saber na base da sua opiniao, constrói nao só uma opiniao, mas uma estrutura racional que desagua num horizonte largo em que quem leu progrediu em saber. Saimos do universo das sensibilidades e superficialidades. Os nossos postes sao conversa, a nao ser que haja substancia por baixo. Para sermos verdadeiros á natureza do que é a blogosfera, todos nós deveriamos 99.9999999% fazer exactamente o que o maradona faz: apagar e sermos honestos relativamente 'a efemeridade e banalidade do que escrevemos. Isto é tudo um imenso e divertido cocorococo. Os media deveriam compreender isto, deixar a blogosfera de lado e darem-nos a qualidade de que necessitamos. Senao que anotem que a sua desvalorizaçao nao se deve 'a blogosfera, mas ao facto de serem blogosfera num formato que nao se adequa 'a blogosfera. A tristeza é que acabaremos esmilhafrados num Big-Blog.
Concluindo: isto é conversa de café e muito, muito raramente chega alguém com algo que valesse a pena ficar registado. Lixo, lixo, que se impregna nos átomos. Por isso, párem de narcisismos bacocos, jornais párem de nos importar (ó lástima, ó mundo, o joao miranda a opinar em papel, o maior googlador depois do próprio john google!), que eu sou condessa e me poem tensa.
Além disso, num momento em que uma pessoa é famosa, aplaudida e na escala de sucesso da actualidade, é um expoente público com base em absolutamente nada, veem-se pessoas que realmente sabem e/ou fazem serem desprezadas nessa sua qualidade, como se o que estivesse a dar nos dias de hoje é ser somente imagem ou como se a opiniao de todos em tudo tivesse o mesmo valor. Nao tem. Há um desprezo pelo especialista num ramo do saber, como se quem sabe fosse uma elite e as elites sao um perigo para a democracia. Só que há democracia e meritocracia e esta última precisa de existir para nao entrarmos numa sociedade da parvalheira. Além disso, a própria democacracia melhora se houver alguém que realmente sabe alguma coisa, porque senao é o reino das galinhas: cacarejam e nao dizem nada. Mas anotemos uma ironia imbecil: a contrataçao pelos media de galinhas. Pessoas que tem opinioes em tudo. Isto é impossivel, a nao ser para as galinhas. E é aqui que os media resvalam para a blogosfera e poderao ser ultrapassadas por ela. Porque sao tao maus que mais vale ler a blogosfera! Quer dizer, muito pessoal escreve na blogosfera e escreve nos jornais e fala nas televisoes. Este pessoal nao tem tempo para mais nada senao cagar opinioes!
Contudo, ainda é pior! Para além dos jornais serem mais de metade opiniao, os artigos já nao respeitam aquilo que aprendemos na escola do quem, onde, como, quando. Lá aparece sorrateiramente o penso eu de que. Vamos por as coisas no seu lugar: EU NAO QUERO SABER O QUE OS JORNALISTAS PENSAM. SE ELES QUEREM DIZER O QUE PENSAM QUE FAÇAM UM BLOGUE.
E esta praga do opinianismo alastra-se! Os juízes do Supremo arrogam-se a capacidade de opinar sobre a psicologia do sofrimento, a psicologia educativa, a psicologia da mini-saia no predador-macho, definirem relativismos nisto e nisto basearem sentenças! (Para além que pelas suas opinioes (e isto obviamente é a minha opiniao) já cá andavam quando moisés dividiu o mar vermelho!).
Vejo um fenómeno interessante na blogosfera, que é o lamento de haver blogues da primeira liga (como dizem), como se muitos deles o fossem nao só porque os seus autores sao famosos para lá da blogosfera, mas alguns deles, sao-no porque fazem e escrevem coisas com qualidade (nem que seja qualidade blogosférica). É preciso pensar nesses filtros. Contudo, conceda-se que há pessoal instalado, bastante capaz numa área, a mandar bitaites professorais (e é esta pretensao-pavao que eu acho desonesta) onde nao sabem nada, simplesmente empoleirados na sua fama. Mas nós temos de avaliar de onde saiem as palavras, o que vale quem diz no que fala. E relativizar muito.
Na blogosfera, todos tem opiniao sobre tudo e acham-se no direito de exigir que os outros deem valor ao que escrevem porque está escrito, ainda que como opiniao, o seu valor depende da sua base. Mas, dizem eles, praga das pragas, que quem nao lhes dá atençao é porque é parvo, vendido, nao vemos os inconformistas, os reformadores, os cristos, os profetas, a luz! (Isto lembrou-me "A vida de Brian" dos Monthy Phyton...). Desculpem amigos, o messias já cá esteve e andou. Um pouco de humildade, s'il vous plait. A vossa opiniao, sem mais, tem a importancia que eu lhe dou e eu, e isto é a minha opiniao, nao sou parva.
Uma opiniao é livre, mas para acedermos a algo mais que um monte de palavras que se enfiam em regras gramaticais, com umas ideiazitas por baixo (até o padre da Banheira-de-Cima tem ideiazitas), é preciso mais que somente a capacidade de juntar palavras. Deveriamos poder vislumbrar saber e é esse saber que dá valor a uma opiniao para lá do momentaneo, do conversacional, do social de todos os dias, que antes ficava perdido no ar e que agora fica escrito nos computadores que dao forma 'a internet. Mas ainda que escrito, provavelmente vale menos que nada. Alguém com saber na base da sua opiniao, constrói nao só uma opiniao, mas uma estrutura racional que desagua num horizonte largo em que quem leu progrediu em saber. Saimos do universo das sensibilidades e superficialidades. Os nossos postes sao conversa, a nao ser que haja substancia por baixo. Para sermos verdadeiros á natureza do que é a blogosfera, todos nós deveriamos 99.9999999% fazer exactamente o que o maradona faz: apagar e sermos honestos relativamente 'a efemeridade e banalidade do que escrevemos. Isto é tudo um imenso e divertido cocorococo. Os media deveriam compreender isto, deixar a blogosfera de lado e darem-nos a qualidade de que necessitamos. Senao que anotem que a sua desvalorizaçao nao se deve 'a blogosfera, mas ao facto de serem blogosfera num formato que nao se adequa 'a blogosfera. A tristeza é que acabaremos esmilhafrados num Big-Blog.
Concluindo: isto é conversa de café e muito, muito raramente chega alguém com algo que valesse a pena ficar registado. Lixo, lixo, que se impregna nos átomos. Por isso, párem de narcisismos bacocos, jornais párem de nos importar (ó lástima, ó mundo, o joao miranda a opinar em papel, o maior googlador depois do próprio john google!), que eu sou condessa e me poem tensa.
sábado
O tempo
Não consigo apanhar o tempo. De vez em quando olho o relógio e passou tempo. No entretanto, vivi. E passou. É o que diz o relógio. Um objecto que existe para assinalar o passado e programar o futuro. Detesto relógios. Também detesto calendários. O relógio e o calendário constroem um tempo de fantochada. Como desenhar riscos no chão de cimento, que não podemos pisar, como desenhar setas no chão de cimento, que devemos seguir. Um mundo imaginário que nos faz mover todos aos mesmo tempo. Relógio, gosto do coração que acompanha, batido a segundos, o presente. O meu presente.
quinta-feira
quarta-feira
Quem ganha com a G8
Há três características imediatamente detectáveis na polícia de choque alemã:
1) parecem chocantemente profissionais;
2) parecem mais militares que polícias;
3) parece que estão muito mal-dispostos e que nos odeiam as tripas.
Isto é: metem medo. Uma pessoa até pensa que alguém foi mal informado. Nós ali, uns pelintras com uns cartazes, mais parece passeio de sábado de manhã e estão ali aqueles brutamontes com cacetetes e escudos e pistolas (tenho fé que não verdadeiras, verdadeiras) e uns veículos que parecem tanques de guerra, mas esguicham água e mais uns autocarros com ar de nos irem levar para algum torturador. Se isto não fosse a Europa, eu acho que a primeira vez que vi aquela malta borrava-me de medo. Mas isto é a Europa, portanto eles não nos vão fazer mal, pois não?
O problema é que não há manifestações suficientes e aquela malta está entediada. Além disso, os tais tanques devem ter custado uma pipa de massa e eles têm que cobrir os custos. Portanto, isto até pode ser a Europa, mas aqueles gajos vão tentar provocar, vão-nos encurralar e tentar manipular-nos e, se tentarmos sair uma passada do que eles querem, vão-nos esguichar e geralmente não há cacetada, que nós somos gente pacífica, se não não tão parvos que queiramos andar à batatada com pessoal que em pequenino sonhou ser rambo e acabou naquilo. A manifestação acaba por ser um exercício de cães-pastor a brincar com as ovelhas e a guiá-las para uma das estações principais.
Isto é a polícia de choque alemã com uma manifestaçãozeca de sábado de manhã. Por isso não é de espantar o que acontece agora no G8. Veio malta de tudo o que é sítio, com ideias mais férreas de manifestação, que nem de provocação precisam e têm-se as imagens das ovelhas negras para os jornais. Não as ovelhas brancas que a maior parte de nós é. As negras é que são escolhidas para a foto da semana.
Há pouco mais de uma semana, parece ter havido já uma reunião preparatória aqui em Hamburgo. Eu soube porque havia barreiras policiais por tudo o que era sítio. Eu não vi nenhum manifestante, mas vi dezenas de carros de choque e tanques de água, tudo a abarrotar de polícias-brutamontes-andacáquetedigo, com as suas pistolas e cacetetes e escudos e trombas. E as putas das barreiras, que eu um dia em que vinha para casa de bicicleta, andei às voltas no centro e estava a ver que não achava a saída ao labirinto! É um exagero. Só a polícia de choque em Hamburgo tem quantitativos suficientes para dar cabo dos taliban no Afeganistão. Uma coisa é praticamente certa: os polícias-brutamontes-trombudos mal souberam que ia haver G8 na Alemanha devem ter-se-lhes entesado os cacetetes. Aqui em Hamburgo puderam deixar-se, por uns tempos, de esguichar os fãs do Sankt-Pauli (a equipa B de Hamburgo) quando saiem demasiado felizes do Estádio de futebol. Devem ter pensado para as suas pistolas de brincadeirinha: finalmente uma merda a sério.
Enquanto isso, na G8 propriamente dita:

1) parecem chocantemente profissionais;
2) parecem mais militares que polícias;
3) parece que estão muito mal-dispostos e que nos odeiam as tripas.
Isto é: metem medo. Uma pessoa até pensa que alguém foi mal informado. Nós ali, uns pelintras com uns cartazes, mais parece passeio de sábado de manhã e estão ali aqueles brutamontes com cacetetes e escudos e pistolas (tenho fé que não verdadeiras, verdadeiras) e uns veículos que parecem tanques de guerra, mas esguicham água e mais uns autocarros com ar de nos irem levar para algum torturador. Se isto não fosse a Europa, eu acho que a primeira vez que vi aquela malta borrava-me de medo. Mas isto é a Europa, portanto eles não nos vão fazer mal, pois não?
O problema é que não há manifestações suficientes e aquela malta está entediada. Além disso, os tais tanques devem ter custado uma pipa de massa e eles têm que cobrir os custos. Portanto, isto até pode ser a Europa, mas aqueles gajos vão tentar provocar, vão-nos encurralar e tentar manipular-nos e, se tentarmos sair uma passada do que eles querem, vão-nos esguichar e geralmente não há cacetada, que nós somos gente pacífica, se não não tão parvos que queiramos andar à batatada com pessoal que em pequenino sonhou ser rambo e acabou naquilo. A manifestação acaba por ser um exercício de cães-pastor a brincar com as ovelhas e a guiá-las para uma das estações principais.
Isto é a polícia de choque alemã com uma manifestaçãozeca de sábado de manhã. Por isso não é de espantar o que acontece agora no G8. Veio malta de tudo o que é sítio, com ideias mais férreas de manifestação, que nem de provocação precisam e têm-se as imagens das ovelhas negras para os jornais. Não as ovelhas brancas que a maior parte de nós é. As negras é que são escolhidas para a foto da semana.
Há pouco mais de uma semana, parece ter havido já uma reunião preparatória aqui em Hamburgo. Eu soube porque havia barreiras policiais por tudo o que era sítio. Eu não vi nenhum manifestante, mas vi dezenas de carros de choque e tanques de água, tudo a abarrotar de polícias-brutamontes-andacáquetedigo, com as suas pistolas e cacetetes e escudos e trombas. E as putas das barreiras, que eu um dia em que vinha para casa de bicicleta, andei às voltas no centro e estava a ver que não achava a saída ao labirinto! É um exagero. Só a polícia de choque em Hamburgo tem quantitativos suficientes para dar cabo dos taliban no Afeganistão. Uma coisa é praticamente certa: os polícias-brutamontes-trombudos mal souberam que ia haver G8 na Alemanha devem ter-se-lhes entesado os cacetetes. Aqui em Hamburgo puderam deixar-se, por uns tempos, de esguichar os fãs do Sankt-Pauli (a equipa B de Hamburgo) quando saiem demasiado felizes do Estádio de futebol. Devem ter pensado para as suas pistolas de brincadeirinha: finalmente uma merda a sério.
Enquanto isso, na G8 propriamente dita:

segunda-feira
Do melhor
Porque tive a imensa sorte de conhecer duas bandas absolutamente espectaculares, no Fabrik, a melhor das melhores espeluncas de concertos de Hamburgo, em Altona, o bairro mais inaço de Hamburgo:
Panthéon Rococó, o melhor ska do Hemisfério Norte.
Auktyon, o melhor som e o vocalista com a melhor voz do Hemisfério Norte.
Eu não sei criticar música, digo só e somente que me vai custar a esquecer duas noites memoráveis. Sei lá, se não conhecem, conheçam.
Prost!
Panthéon Rococó, o melhor ska do Hemisfério Norte.
Auktyon, o melhor som e o vocalista com a melhor voz do Hemisfério Norte.
Eu não sei criticar música, digo só e somente que me vai custar a esquecer duas noites memoráveis. Sei lá, se não conhecem, conheçam.
Prost!
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