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domingo

Os genes e o desperdício

De vez em quando vêm uns lamentos do Portugal triste que nao se desenvolve, até ao ponto de já alguém ter apontado os dedos aos nossos genes colectivos. Depois perguntam-se porque é que os portugueses até dao ares de mérito no estrangeiro, porque nao na pátria, porque é que aquele solo nao dá fruta (e etc e tal cliche)?

Esta semana, por duas vezes, gente da minha geracao, trintoes portanto, que se lamentam nos moldes anteriores e sao muito modernos e muito pela iniciativa privada e pela responsabilizacao individual e muito modernos e fazem muitos erros ortográficos e gramaticais, falavam dos intelectuais e das "elites" com um desprezo e apontaram-me o dedo como uma parasita que tem a sorte de mamar em tetas de ouro, quando o que é que eu faco realmente? Pode-se comer? Pode-se meter no tanque do carro? E eu faco ciencia. Imaginem se fosse artista!

Num país em que nao se percebe o poder da arte como propulsor da criatividade humana, e até a ciencia, até a ciencia lhes parece um desperdicio, acho que podemos parar de olhar para os genes.

quinta-feira

Sugestão: meter a estupidez no armário

Estou entediada com a discussão do casamento dos homossexuais. Eu queria estar confortavelmente entediada, mas não é possível. Os argumentos do pessoal contra é de tal maneira ofensivo, desrespeitoso, daquele desrespeitoso que faz úlceras no estomago, que não consigo em boa consciência virar a página e dizer "chiça, essas flores só se queixam."

Seus energúmenos encapuçados de pessoas de boas famílias: ISTO NEM DEVIA SER DISCUTIDO, ESTA DISCUSSÃO PÁRA NUM ESTADO COM DIREITOS IGUAIS PARA TODOS, E O CASAMENTO CIVIL DÁ DIREITOS IMPORTANTES QUE É OPÇÃO DE QUALQUER UM QUERER OU NÃO, SEM TER QUE SE JUSTIFICAR (repito CIVIL, no mundo das saias pretas eu não me meto, como gostaria que esse mundo deixasse O MEU MUNDO em paz). PÁREM DE INVENTAR O QUE FOI O CASAMENTO (leiam livros, suas ignorâncias) E PÁREM DE QUERER PARAR O MUNDO NUM LOCAL QUALQUER DA IDADE MÉDIA (que tal O FUTURO?), PÁREM DE MISTURAR E CONFUNDIR (e.g. e isto já foi dito até ao vómito, a adopção é independente do casamento! já viram como funciona a adopção? já viram que um homossexual já pode adoptar? duuuuhhh) PÁREM DE CONDESCENDÊNCIAS (que é basicamente a capacidade de ao mesmo tempo cuspir e beijar (n)uma pessoa, o que eu acho NOJENTO) E PÁREM DE DIZER QUE HÁ PRIORIDADES COMO A CRISE! SÃO VOCÊS QUE ARRASTAM ISTO E SE PARAREM DE ESPALHAR TUDO O QUE VOS PASSA PELA CABEÇA NO QUE VOS PARECE ARGUMENTAÇÃO, TALVEZ ISTO JÁ PUDESSE ESTAR RESOLVIDO. Eu estou tensa e a culpa não é d@s florzinhas!

p.s.: ligação a texto exemplo do estilo anti-flor.

sexta-feira

Será que estes jornalistas algum dia param a pensar: "que faço no mundo?"

Uma pessoa abre o jornal e extasia no quanto se pode fazer com nada.

quarta-feira

Gota de água

Está visto que depois de ter desistido de informaçao na televisao, quando ainda estava em Portugal, vou ter de desistir de informaçao nos jornais portugueses. A partir de agora, Portugal restringir-se-á á minha família, aos blogues (podem rir) e a notícias sobre pastéis de nata na imprensa internacional. Tenho a impressao que irei sobreviver.

sexta-feira

Nao se querem alimentos fumados

Eu sou uma pessoa limitada e para nao me perder, preciso de me agarrar a ideias simples e fundamentais. Assim, a lei do tabaco eu via-a como a protecçao dos efeitos nocivos do fumo, das pessoas que nao fumam, em locais públicos. Portanto, tudo o que fosse decidido a jusante era para obedecer a esta importante ideia-base. Agarrando-me a esta simples ideia, que eu corroboro, nao entendo a ponta de um corno do que é isto.

Segundo o DN, o director-geral de saúde, Francisco George, disse-lhes:"As discotecas não são restaurantes, não lidam com alimentos, pelo que não estão sujeitos às mesmas restrições de espaço para fumadores."

Portanto, parece que eu preciso de reestruturar a minha ideia-base para: a lei do tabaco é a protecçao do acto de degustacao em locais de restauraçao.

Podiam ter dito mais cedo. No meu universo de pensamentos, a fumaçao de alimentos, chamem-me esnobe, nao é importante. Assim, no meu universo, esta lei é uma grande patetada e é necessária outra lei do tabaco, que realmente tenha o que é importante na ideia.

P.S.: Há mais umas pérolas na notícia, que demonstram como no mundinho lá deles os bois cavalgam os carros.
Quanto à eficácia dos sistemas de ventilação e às perspectivas para a sua aplicação pelos estabelecimentos de diversão nocturna, Francisco George admitiu que "é de difícil exequibilidade".

Até agora, os equipamentos que poderão melhor garantir o respeito pela lei ainda não estão homologados, sendo essa uma preocupação do sector.

terça-feira

sequoia sempervirens

Uma sequóia é um extremo. Qualquer árvore é um marco que só nao emociona as pessoas porque as pessoas sao intrinsecamente estupidas. Mas uma sequoia é tao fora das dimensoes a que estamos habituados que até uma pessoa que para além de estúpida, cega e em coma sentirá que há algo diferente no ar*. Um manto a pingar água segurado por colunas. Um cheiro a água e verde e fresco. Caminhar numa floresta de sequóias é a magia natural de uma floresta, os sons de fundo abafados, espécie de ecos, a neblina trespassada por gotículas de água, o sol que de repente se derrama por entre a fresta de uma árvore caída. A atencao tem de ser constante. Tento ouvir um pássaro, a água no ribeiro transparente, talvez um mamífero a fugir pelos arbustos, um cogumelo de cores vibrantes a esconder-se, os meus passos no caminho curvilíneo. Há algo de prazentoso no caminhar na natureza que obviamente nos deve estar escrito nos genes. Uma floresta de sequóias tem as proporçoes de um sonho, provavelmente dá o tipo de deslumbramento que sentia o pobre campones a entrar numa catedral medieval, demonstrando-lhe em tal imensidao a grandeza de Deus na Terra. Uma sequóia possui a desfiguraçao da imaginacao. É quando a realidade é melhor que a fantasia.

* Causou-me uma certa impressao as pessoas que observei na entrada do parque, que penetraram uns passos, tiraram umas fotografias, compraram parvalhices carissimas na loja de recordacoes e foram embora. Se isto nao é estupidez nao sei em que usar o adjectivo estúpido. Mas por outro lado, se nao houvesse muitos estúpidos, a floresta propriamente dita teria de ser interdita a todos. Por outro lado se nao houvesse muitos estúpidos, talvez houvesse mais florestas. Epá, isto dá para um livro: stupidity for dummies.

Disneylândia

Before Adam and Eve were expelled from paradise, museum visitors are told, all of the dinosaurs were peaceable plant-eaters. The evidence is found in Genesis 1:30, where God gives "green herb" to every creature to eat. There were no predators. T-Rex had such big teeth, the museum explains, so it could open coconuts. Only after Adam and Eve sinned and were cast out of paradise did the dinosaurs start to eat flesh. And Adam's sin is a key component of the belief system, for in the eyes of many creationists, in order for Jesus' death to be meaningful it had to atone for Adam's first sin.

sexta-feira

Humor preto

Na Alemanha, onde o aborto foi legalizado já não há crianças, só pretos. Querem que Portugal fique igual?

p.s.: Sim, Sabine, isto é o embate frontal com o país real.

p.s.2: provavelmente uma grunha do mesmo quilate, mas alema, diria que a grunha portuguesa tem razao e até apontaria na minha direcçao, nao fosse o caso de ter degenerado nos genes dos meus antepassados africanos.

quarta-feira

merda desta na minha caixa de correio é q nao

Agora os do Nao mandam-me textos para a minha caixa de correio. Num texto presunçoso de Luciano Amaral (começado a dizer que é um texto escrito sem presunçoes), somos informados que a despenalizaçao do aborto que os do Nao enbandeiram agora é um gesto de compromisso generoso aos do Sim (e eu, malévola, a pensar que este compromisso aos seus valores era porque querem ganhar um referendo). Segundo o dito: Cada um dos lados é obrigado a ceder em alguns pontos da sua
opinião em nome da convivência na mesma comunidade política. Ganhando o
Sim, a verdade é que esse equilíbrio compromissório se rompe.

Equilíbrio compromissório... Mas que equilíbrio existe hoje? Está-nos Luciano Amaral a dizer que os do Nao nao concordam com as actuais excepçoes 'a lei? Que já sao um compromisso?

Assim, a morte de fetos até 'as 24 semanas que a actual lei permite foi uma exigencia do Sim? Será este um compromisso aceitável, ou é aceitável porque sao fetos malformados? Se for eugenia o Nao aceita? Os do Nao fazem propostas de despenalizaçao para durante toda a gravidez. É este um compromisso aceitável perante a inviolabilidade da vida, que está na nossa constituiçao? LA num parentesis de inteligencia duvidosa diz-nos que nos EUA está que todos os cidadãos da república têm certos “direitos
inalienáveis”, nomeadamente a “vida, a liberdade e a busca da felicidade”
, quando basta alguma informaçao para saber que para a lei americana um feto nao é um cidadao.

Vejamos, os do Nao podem comprometer-se nao só na inviolabilidade da vida humana, mas incluso vida humana sentiente, em casos particulares, de ética extremamente duvidável, num admirável mundo novo. Podem-se até comprometer num grau mais grave que o requerido na pergunta do actual referendo. Mas isto nao é um contra-senso aos seus fundamentos, é um compromisso fantástico.

Finalmente, não estou de acordo que o aborto seja despenalizado se feito
“até às dez semanas”, muito simplesmente porque é um limite (ou um limiar)
que não entendo.


Nao entende o Luciano Amaral. O LA quando nao entende, automaticamente nao concorda. Olha que estratégia mais inteligente... Inacreditavelmente burra num texto sobre compromissos!

Este texto só se admitiria no início da discussao. Agora, depois de tudo o que já foi argumentado, isto é de alguém que nao quis ver, nem ouvir. Isto é um texto de um autista intelectual, que acha que argumentar com os outros, ou simplesmente ler os outros com olhos de ler está abaixo de si. Nesta altura do campeonato isto é uma merda de texto. E merdas destas na minha caixa de correio é que nao. Spam abortavel (perdao pelo oximoro), fodas, poe-me mesmo chateada.

domingo

Porque sim, pá

Ontem encontrei um tuga numa festa. Dez minutos de conversação e passamos o resto da festa a evitarmo-nos. Para além de ignorante orgulhoso, há aquela postura do Portugal atrasado e quando "explica" (entre aspas, porque nao houve realmente explicaçao, houve uma enumeraçao de cliches) porque acha o país atrasado compreende-se que mais do que o país, o tipo é que é atrasado. Ah, ele é pelo sim no referendo, que ele nem sabia que ia acontecer, porque... Porque é moderno. Tão a ver? A razão é essa. Ele é pelo "Sim" porque os países não atrasados são pelo "Sim". Enfim...

sexta-feira

Cabroes

É nestes momentos que eu percebo as minhas amigas que veem a IVG como uma luta da mulher. Que veem a penalizaçao nao como a protecçao da vida, mas como uma mordaça. Vida é só para disfarçar. Quando eu leio a mentalidade que aqueles juízes ali embaixo vomitam eu dou-lhes razao. A discussao 'a volta da IVG nao é sobre vida! Eu nao tenho dedos para contar o nr. de tarados que de várias formas e feitios se exibiram, se masturbaram 'a minha vista e me apalparam. Eu visto-me como uma hippie montanheira, nao sou especialmente bonita ou elegante, nao uso mini-saia ou decotes, nao me pinto e sou tao rato de biblioteca que raramente me dou conta do que existe 'a minha volta, portanto, expliquem-me aqueles idiotas porque é que eu nao escapei, segundo a sua mentalidade sebosa, porque é que eu nao tenho dedos para contar os sustos que apanhei durante a minha vida? E sinceramente nao digo mais nada, que estou em vias de aspergir uma data de asneiras.

Eu desisto

do país que tendes.

p.s.: permisso, que eu vou ali ter um ataque de raiva.

Oh sr cónego

desculpe lá, que eu nao o conheço de lado nenhum, podia mas era mostrar a circular de Deus? Obrigado.

p.s.: e uma excomunhao prós juízes ali de cima? Arranja-se?

Os cheios de vida

de todos os argumentos esdrúxulos do não (desculpem lá a falta de, como dizer?, amabilidade dialogante ou mais propriamente hipocrisia diplomática, mas a mim soam-me todos do mais esdrúxulo que se possa imaginar), o que mais me deixa boquiaberta é o daqueles que frisam a semelhança entre a lei espanhola e a portuguesa e defendem que não é preciso mudar a lei portuguesa porque esta poderia e deveria ser aplicada 'como em espanha'.

como em espanha, portanto, permitindo-se às mulheres que abortem 'a pedido' até às 12 semanas alegando razões de saúde psíquica? é mesmo isso que estas pessoas querem? é isto que querem dizer?

teremos pois de concluir que para estes defensores do não, a proposta referendária peca por dois motivos: prazo demasiado curto e excesso de honestidade. nenhum problema, então, em que as mulheres abortem até às 10 semanas (estes queridos até acrescentam duas de bónus) desde que pareça que não é por decisão delas.

a não ser, claro, que quem assim argumenta esteja a apostar no que é óbvio -- uma lei em vigor há 23 anos e há 23 anos aplicada de uma determinada forma nunca será aplicada de outra maneira.

que tal serem mulherzinhas e homenzinhos e assumirem, de uma vez por todas, o que realmente querem e o que realmente os apavora?


Este pessoal do "nao" enterra-se a um ritmo que os do "nim" ainda os hao-de ter de salvar e fazer-lhes boca-a-boca. Eu por mim, que geralmente ando pelo "nim" e vou ouvindo os dois lados, ainda nao li nada de geito do lado deles e nao me apetece nada salvá-los (sendo o salvamento aqui, o limpar um pouco da vergonha das suas racionalizaçoes).

Ontem li no Público sobre um agrupamento de humanos pós-parto que sendo pelo "nao", se declarava de pró-vida. Seguramente eu partilho algumas ideias deles e seguramente nao partilho doutras. Um dia destes escrevo aqui a minha posiçao sobre o assunto, que eu sendo pró-escolha e pró-vida (sendo esta última redundante já que praticamente todos nós somos pró-vida, seja qual for a nossa resposta no referendo), também tenho os meus pontos em comum com os defensores do "nao" e também eu prioritarizei sensibilidades.

O que a mim me chateia nesta gente é a hipocrisia e a desonestidade. Nesta discussao dizer-se pró-vida, colocando-se isso em contra-ponto com os que nao concordam com eles, é ofensivo. Eu pelo menos sinto-me ofendidíssima. No mesmo nível de repulsa com que me sinto quando vejo as senhoras com as barrigas expostas e dizeres "esta barriga é minha", como se estivessemos a discutir fisiologias, numa reduçao do ser-humano e, por arrastamento, do que é viver numa sociedade. Eu nao me bato pelo direito absoluto. Nao há direitos absolutos. Quem os quiser deve mudar-se para uma ilha e morar sozinho.

Dizer-se pró-vida neste ambito é tao significativo como ser-se pró-atmosfera ou pró-entropia. Isso só tem significado como insulto. Considero-me insultada e cada vez menor é o meu respeito por esta trupe cheia de vida, mas falha de juízo.

Já que estou com a mão no absurdo

Se havia dúvidas de que Zidane é grande, maior que ele próprio, estão ultrapassadas com o uso da sua final cabeçada para as mais diversas e absurdas analogias e referências. O Bentozito ainda o há-de usar numa das suas homílias. É só esperar. Mas o uso de Zidane permeia a irracionalidade. Andava eu ontem pelo Haaretz e li que as autoridades francesas declararam que o ataque ao Líbano é desproporcionado. Não foram os únicos, mas os franceses foram os sacos de porrada dos comentários, que eles constituem os bodes expiatórios destas coisas. O argumento era de que os franceses são uns hipócritas, pois perdoaram a cabeçada de Zidane quando o italiano só disse meras palavras, o que é o perdoar de uma desproporção e não perdoam Israel da sua desproporção. Comparar a cabeçada de Zidane com o ataque ao Líbano? É daqueles momentos em que poderia começar às gargalhadas, se o assunto não fosse tão sério. Agora vou mandar um méil ao Bento a ver se há algum convento no Vanuatu.

segunda-feira

Andy Borowitz, Ann Coulter, Al Gore

A minha única informação sobre os escritos da Ann Coulter é o que vou apanhando n'O Insurgente. Nao me despertou e baseando-me naquele pedaço de ideia dela, penso até que é de evitar. Não porque ela seja uma céptica, mas porque é burra.

Coincidentemente, o texto semanal do comediante Andy Borowitz no Truthdig é sobre ela. Tem piada. Torna-se hilariante quando penso quem é o seu fã português.

Para equilibrar, ponho também aqui um texto anterior, do mesmo autor, sobre o Al Gore.

Espairecer faz sempre bem.

Agora a sério, ainda no Truthdig, leio que detractores do filme do Al Gore, atacam o filme comparando-o a estratagemas propagandistas do Hitler e Goebbels. Não dizem em que está errado, não, isso daria trabalho, comparam-no a propaganda nazi. Parece que o poder de argumentação dos cépticos do Aquecimento Global se baseia na asneira preguiçosa ou no insulto reles.