terça-feira

Crescer

Devo andar coisa menos coisa pelo meio da minha vida. Olho para trás e miro enternecida, envergonhada, espantada, os disparates em que acreditei, os medos que fomentei, os enigmas que desvelei muito tarde. Olho-me neste ponto e pergunto-me o tanto que esquecerei, os erros que remarcarei, o que finalmente aprenderei, esperando com imensa esperanca que seja capaz de alguma forma de ser melhor. Mas olho ao lado os outros adultos e as nódoas que ornamentam, mais fáceis de ver que em mim, e desespero. Tanta gente que nao aprende e é infantil ao ponto de anedota aos trinta, quarenta anos. Poderei eu ser diferente?

segunda-feira

Também me meti na junk movie

Fui com uns amigos ver um filme de acçao. Fui porque era de acçao e porque era dobrado em alemao. Assim, posso praticar a língua e pelo meio relaxo os neurónios a ver a batatada. Nao sabia nada do filme, mas o cartaz tinha pinta. Era o típico filme de acçao de hollywood. Muitos carros rechaçados, um argumento de lástima e um mau que é bom, porque se virou contra os maus do sistema e os bons do sistema sao bons, porque trabalham para o axis do bem. Essas merdas. Felizmente nao havia cenas sobre o islamofacismo, que já basta as notícias reais. O filme acaba e eu de cima da minha douta opiniao digo: "Veem, já se tao a preparar para a sequela. Ide pelas minhas palavras: vai haver o 2, o 3, o 4..." Fui entao informada que tinha acabado de assistir 'a sequela numero 3.

Esbanjamento de boa junk book

Estando eu em vias de me meter num aviao durante largas horas, acabei de esbanjar um bom livro para passar essas horas de desterro altitudinal. Sorvi-o todo num fim-de-semana de analgesia. Pergunto-me depois do disparate, porque fiz eu aquilo. O que me levou a desgracar um bom fim-de-semana a ler aquele livro? O meu pessimismo? O meu masoquismo? O facto de ter um esqueleto a dancar o vira na capa? O facto de ser levezinho? O facto do homem tirar conclusoes erradas e forcadas que me faziam deliciar no exercicio silencioso de chamar o autor "ganda animal!"? Agora vou ter que atacar a amazon e arranjar outra porcaria para ler no aviao. A ver se chega mesmo antes do voo, que e' pra nao me amandar 'as batatas fritas antes do tempo.

quinta-feira

Já repararam...

... que quando digo que me vou embora é quando volto?

Bem dizia a minha mae: sou mesmo do contra.

Maravilhas

Estou aqui a tentar ser sociável pelo que vou tentar responder ao Joao e numerar as minhas sete maravilhas. Portanto, uma maravilha terá que ser algo que me deixou maravilhada ao ve-la. Eu nao sou muito viajada, sou distraidissima e tenho a memoria de uma lagarta, mas aqui vai:

1) o mar. Eu poderia passar horas a olhar, ouvir, cheirar e sentir o mar. Boa Deus, estavas inspirado.
2) No ano passado quando estive numa cidadezinha perto de Denver ficava boquiaberta com os céus. Nao sei se é de viver em Hamburgo, em que parece que o céu começa a poucos centimetros da nossa cabeça numa camada eterna de nuvens cinzentas, mas penso que é mais que isso. Todos os dias haviam esculturas 3D de nuvens absolutamente maravilhosas e o azul parecia mais profundo, quase um azul impossivel.
3) A capela sistina. Indescrítivel. Estive boquiaberta umas duas horas, pelo menos.
4) A Noruega. É lindissima a cada curva e nem é preciso muito trabalho a tentar enquadrar o bonito nas fotografias. Tudo é bonito e nada é feio. Acho que é preciso procurar intencionalmente os aterros do lixo. Pena os noruegueses.
5) A ria de Aveiro e a ria Formosa. Os melhores pores-do-sol que eu vi e entao numa barca quando o ceu esta' de chumbo, mas com flechas de sol a trespassar e a fazer reflexoes incriveis na superficie da água e ,e ,e .....
6) Amesterdao, Paris e Sao Petersburgo. A primeira é a minha preferida, porque pelo menos nao foi preciso escravizar o pessoal e sugar-lhes o sangue para construir as maravilhas arquitectonicas que Paris e Sao Petersburgo contem (e os lindos resultados que deu). Amesterdao é de uma beleza especial porque é simples, humana e cosmopolita. Ou seja, pode-se dizer que é uma cidade ergonómica que maravilha pelo bem estar que nos faz sentir.
7) Entrar em Estocolmo por mar. Além disso, constitui a prova que até as maravilhas quando duram cinco horas, aborrecem.

terça-feira

Recordes

Esta cena dos recordes está-se a tornar macadora. Todos os dias ha um recorde, e depois ha' aqueles recordes que sao ultrapassados todos os dias.

Hoje, 3 de Setembro de 2007, outro minimo na cobertura de gelo no Polo Norte. Nunca mais comeca o Inverno. E depois? Havera' outro recorde que os nossos satelites pronunciarao. E mais outro e mais outro e mais outro e mais outro...

segunda-feira

Vou-te mandar uma música




Perdoa-me
ah, se eu pudesse, se eu tivesse podido
juro-te, teria dado significado aos teus sonhos
ao sol que me levaste a ver
a palavras e tristezas
se eu tivesse podido ser menos os outros
se eu tivesse podido ser eu melhor
se pudessemos renascer noutro mundo
se pudessemos escolher o que somos
se pudessemos juntar sem cicatrizes
se o amor fosse tao feroz quanto a vida
eu poderia ter-te amado.

terça-feira

My dears

Que dizer amigos? Para lá da sensacao de inutilidade em mover qualquer restia de mim? Nao, nao, nao há qualquer problema em ter a total consciencia da minha inutilidade. É a realidade e sempre tive uma certa afeiçao pela realidade nua e crua. O caminho fica livre para a liberdade. Os tempos que correm nao me dizem nada. Sento-me a olhar para o peitoril da janela que contém os meus livros e sinto prazer em reve-los como amigos em fotografias. Fico assim longos tempos, sem passado ou futuro. Posta no presente, imovel no tempo e no espaço, com pouco para dizer, a saborear a minha mortalidade. Bem, talvez retorne ou nao. Por agora vou fumar um cigarro. Beijos.

quinta-feira

meto a mão em pó
e retiro-te de quando eras outro
quando o teu azul era só azul
ainda não oceano
a tua palidez era encardida
ainda não prateada
as tuas mãos despercebidas
ainda não sentidas
a tua boca ruminando sons
em vez de beijos
todo tu ordinário
metido num sudário fantasista
que dispo com as unhas
raspo com os dentes
esmago
desfrutando algo
algum momento, algum sentimento, algo
quicá, quem sabe, algo que vem em brisa
que cheira a podre
que morre ao redor.

segunda-feira

Sr. blogospectador

fazemos aqui um intervalo na programacao para anunciar:

fonte...


Está Verão!!!! A emoção é tanta que não sei se aguento.

sábado

quinta-feira

Povoam-me monstros


de Peter Hapak.

O que leva os seres-humanos a perpretar actos desumanos?

Existem duas correntes explicativas na sociopsicologia: as disposições individuais e as situações em que o indivíduo se encontra. Philip G. Zimbardo no seu livro “The Lucifer effect: understanding how good people turn evil” defende a segunda como a fundamental. Ele descreve a sua experiência de 1971, em que colocou 24 voluntários, todos eles considerados saudáveis e normais, todos eles estudantes universitários, numa situação de prisão, 12 actuando como guardas e 12 como prisioneiros. Nas entrevistas que foram realizadas previamente, todos eles tinham afirmado que prefeririam actuar como prisioneiros, pois não se imaginavam na situação de serem guardas, mas na cultura universitária do tempo, com as demonstrações anti-guerra, eles pensavam que poderiam ser presos e a experiência poderia ser-lhes útil. Supostamente a experiência deveria durar duas semanas. Durou 6 dias. Por esta altura os guardas tinham-se tornado agressivos e desumanos, obrigando os prisioneiros a punições degradantes e humilhantes, de tal forma, que vários tiveram de ser libertados e os que ficaram comportavam-se como zombies. Com base nesta experiência e outros casos exemplificativos ele defende que todos nós podemos na situação adequada tornarmo-nos “guardas”. Ele defende um processo de despersonalização e anonimatização, em que em ordem para a actuação como “guarda”, adquirimos para nós o papel de “guarda” entre “guardas”. Na despersonalização livramo-nos dos nossos próprios pruridos morais, na anonimatização adquirimos o senso de impunidade.

É assim?

O livro de Jean Hatzfeld, “Machete Season: The killers in Ruanda speak.” parece corroborar o situacianismo. No poste anterior, nomeadamente no testemunho de Pio, existia essa sensacão de arrastamento pela situação. Primeiro dia da matança:

Testemunho de Fulgence: No dia 11 de Abril, o juiz do Município em Kibungo enviou os seus mensageiros para juntar lá os Hutus. Montes de interahamwe* tinham chegado em autocarros e camiões, que seguiam pelas estradas buzinando e forçando caminho. Parecia um engarrafamento na cidade.

Lá o juiz disse a toda a gente que a partir daí não iriamos fazer outra coisa senão matar Tutsi. Bem, nós entendemos: aquilo era um plano final. A atmosfera tinha mudado.

Nesse dia, tipos mal informados tinham vindo sem trazerem uma machete ou outro instrumento para cortar. Os interahamwe repreenderam-nos: disseram-lhes que daquela vez passava, mas era melhor que não tornasse a acontecer. Disseram-lhes para se armarem com pedras e paus, para formar barreiras na retaguarda para cortar o caminho a fugitivos. A seguir, todos se juntaram em excitação a um líder ou aglomeraram seguidores, mas nunca mais ninguém esqueceu a sua machete.

Assim, com um historial antigo de demonização de Tutsi, com as autoridades a indicar o caminho (matar e somente matar), a despersonalização de assassino e do a assassinar parece que foi fácil. O ajuntamento excitado facilitou a anonimatização e a matança de 50 mil Tutsi num período de um mês tornou-se realidade.

E quanto às disposições individuais? Existindo pessoas que evitaram o assassinato, foram tão raras, que são extraordinárias. Os heróis são raridades.

Era perto do meio-dia do dia 11 de Abril, no primeiro dia da matança nos montes de Ntarama. Isidore Mahandago descansava de uma manhã de monda, sentado numa cadeira no terreiro da sua cabana. Ele era um camponês Hutu, de sessenta e cinco anos, que tinha chegado a Rugunga, no monte de Ntarama, vinte anos antes.

Uns tipos robustos, armados com machetes, passaram cantando pelo caminho junto à sua casa. Isidore chamou-os na sua voz velha e profunda e sermoneou-os na frente dos vizinhos: “Vós, jovens, sois malfeitores. Recuai e ide-vos. As lâminas das vossas machetes apontam na direcção da nossa tragédia. Não inflameis disputas demasiadamente perigosas para nós camponeses. Parai de atormentar os nossos vizinhos e retornai aos vossos campos.” Dois assassinos aproximaram-se dele, rindo-se, e sem palavras cortaram-no com as machetes. Entre o bando encontrava-se o filho de Isidore, que de acordo com testemunhas, não protestou nem parou para ver do pai. Os jovens continuaram o seu caminho cantando.

Isidore Mahandango é o Homem Justo de Ntarama.

Hatzfeld conta mais duas histórias, de cinco justos que foram assassinados. Mas escreve:

E os Justos ainda vivos, quem são e onde se encontram? Na verdade, depois de muitas visitas, de muito procurar, ainda não encontrei nenhum nos três montes de Kibungo, Ntarama e Kanzenze. Contudo, em vez, posso apontar outras pessoas merecedoras. Ibrahim Nsengiyumua, um comerciante próspero de Kibungo, pagou multa após multa ao ponto da ruína, para evitar participar na matança e nos saques. Ele fê-lo, explica Innocent [o guia Tutsi de Hatzfeld], “porque juntou suficiente riqueza para não arruinar a vida com sangue”.

Os merecedores também são poucos. E isto é o ser-humano.

* interahamwe – “Os que atacam juntos”: a milícia extremista Hutu criada pelo clã Habyarimana no início dos anos 90, treinada pelo exército ruandês e, por vezes, localmente, pelos soldados franceses.

Tradução minha do livro "Machete Season: The killers in Rwanda speak" a cor.

Quando se quer exterminar os outros


Andisheh Avini 2007
Installation View, I-20 Gallery, New York (February 20 - March 24, 2007) (Photo: Cary Whittier)


Estive a ler um livro sobre o genocídio no Ruanda: "Une saison de machettes" no original, mas eu li a edição americana. Consiste em entrevistas a um grupo de assassinos e apartes do autor. Este é um livro posterior a um outro, em que o autor, Jean Hatzfeld, entrevistou sobreviventes do massacre, livro este que pretendo ler também.

Obviamente que um primeiro passo ao ler este livro será entender o que é genocídio. Especialmente, quando esta é uma palavra usada sem discriminação, como hipérbole em hipérboles. O dicionário diz "destruição metódica de um grupo étnico, pela exterminação dos seus indivíduos." Jean dá uma definição que, para mim, contém o essencial elemento distintivo:

Será possível distinguir um genocídio entre o caos de uma guerra? A resposta (...) encontra-se noutra questão, simples e decisiva: quem são as vítimas de escolha?

Na guerra, os homens sāo mortos primeiro, porque eles sāo os mais prováveis na resposta armada; a seguir estão as mulheres que os poderão ajudar, os rapazes que irão tentar continuar o conflito e os velhos que podem dar conselhos de saber. Mas num genocídio, o assassino persegue todos, em particular bébés, raparigas e mulheres, porque elas representam o futuro.

Toda a envolvente de um genocídio sente-se irreal. Os que vemos à distância, queremos, imaginamos, esperamos, uma explicação que coloque o genocídio no domínio da loucura. Nós, os normais, não poderiamos ser assim. Doença colectiva que queremos compreender nos sintomas. No entanto aquelas pessoas são normais. A doença é humana e é o sentimento de pertença a uma tribo ou a uma nação (utilizando tribo para todas as associaçoes que nao sejam de estado: base religiosa, étnica, morfológica, tudo enfim em que a imaginaçao humana se baseia para criar linhas entre seres humanos).

Testemunho de Pio: No início de um genocídio existe uma causa, uma razão e pessoas que o acham vantajoso. A causa não chega por acaso; é afinada pelos intimidadores: o desejo de ganhar de vez o jogo. Contudo, as pessoas que são tentadas são as que por acaso vivem ali. Eu estava lá, em casa, quando a tentação veio chamar por mim. Eu não estou a dizer que fui forçado por Satanás ou algo assim. A ganância e a obediência levaram-me a achar a causa vantajosa e, assim, corri para os pântanos. Mas se eu tivesse nascido na Tanzânia ou na França, eu estaria longe da comoção e da sede por sangue.

Pessoas simples não podem resistir uma tentação como aquela, não sem a salvação da Biblia, pelo menos, não naqueles montes. Porquê? Por causa das maravilhosas palavras de sucesso total. Elas ganham-te. Depois a tentação não pode ir para a prisão, pelo que as pessoas são presas. E, mais à frente, a tentação pode reaparecer tão pavorosa quanto antes.

Quando alguém vê o seu melhor interesse vir na sua direcção e na dos seus colegas, essa pessoa não perde tempo à espera, a hesitar, essa pessoa já não considera sentimentos, já não ouve pedidos de piedade. Ele vê o Mal na forma do Bem e fica satisfeita. Ele pensa no que pode ganhar para si e para a sua família até ao fim dos seus dias. Ele segue o seu melhor interesse nos pântanos.

Depois, ele limpa-se da lama e do sangue e bebe uma cerveja. Isto foi o que eu fiz. Eu não nego a minha culpa. Mas eu sou, não só punido pelo meu erro, mas também pela minha má sorte.


O primeiro sintoma é a aceitação da linha de ruptura fictícia e a continuada malignização dos outros. Existe no domínio extremamente humano da incongruência. As pessoas conseguem e fazem-no automaticamente todos os dias: albergam duas ideias opostas dentro de si, sem racionalizarem a antítese.

Testemunho de Jean-Baptiste: Os Hutus sempre criticaram os Tutsi pela sua altura e por tentarem usar isto para mandar. O tempo nunca curou este rancor. Em Nyamata, como eu lhe disse, as pessoas diziam que as mulheres Tutsi pareciam demasiadamente magras para trabalharem nos nossos montes, que a pele delas era macia porque secretamente bebiam leite, que os seus dedos eram demasiadamente delicados para agarrar uma sachola e toda essa parvoíce.
Na verdade, os Hutus não viam nada disso nas mulheres Tutsi na sua vizinhança, que dobravam as costas lado-a-lado às mulheres Hutus e que iam buscar a água da mesma maneira. Contudo, os Hutus gostavam de repetir esta conversa. Também gostavam de dizer que um Hutu com uma mulher Tutsi era só para se armar, como no meu caso.
Eles tinham prazer em espalhar o mais inacreditável lixo para criar uma fina linha de discórdia entre os dois grupos étnicos. O importante era manter a distância entre os grupos e tentar agravar a situação. Por exemplo, no primeiro dia de escola, o professor tinha, ao chamar os alunos, de referir a origem étnica, de forma a que os Tutsi sentissem receio ao tomar os seus assentos numa classe de Hutus.
Testemunho de Pio: Talvez não odiássemos todos os Tutsi, especialmente não os nossos vizinhos e talvez não os víssemos a todos como inimigos. Mas entre nós diziamos que não queriamos viver mais com eles. Diziamos até que não os queriamos ver à nossa volta, que os queriamos fora da nossa terra. Dizer isto é grave - isto já é o aguçar da machete. Eu, eu não sei porque é que comecei a odiar os Tutsi. Eu era novo e o que eu mais gostava de fazer era jogar futebol: eu jogava na equipa de Kibungo com outros rapazes Tutsi da minha idade, passávamos a bola entre nós sem problemas. Nunca notei desconforto na companhia deles. O ódio apareceu na altura da matança; eu imitei os outros na sede do ódio, para pertencer ao grupo.
Testemunho de Léopord: É estranho falar de ódio entre os Hutus e os Tutsi, porque as palavras mudaram de significado depois da matança. Antes, nós podiamos estar na galhofa a dizer que os íamos matar a todos e no momento seguinte estar a compartilhar com eles uma bebida ou trabalhar lado-a-lado. Misturávamos as piadas e as ameaças. Já nem ouvíamos o que dizíamos. Podíamos pronunciar palavras horríveis sem pensamentos horríveis. Os Tutsi nem ficavam muito chateados. Quer dizer, eles não se iam embora quando começavam aquelas discussões. Mas agora pudemos ver: aquelas palavras trouxeram consequências terríveis.


A ideia está ali a gravitar: aqueles são outros, maus, perigosos, diferentes, manhosos, desmerecedores da vida, outros. Mas o mais fundamental e surpreendente é o poder da palavra. Num momento em que se discutem as palavras e o politicamente correcto como entediante censura social, seria importante aprender a lição de que as palavras têm poder. Chamar escarumba, paneleiro, puta, judeu a alguém, é mais do que dar nomes, é colocar aquela pessoa numa determinada esfera humana, que segundo o sentido dessas palavras pode ser uma esfera para lá dos laços de irmandade que nos protegem mutuamente do mal que somos. Não é o politicamente correcto que está a reinar, quando escolhemos ter cuidado com as palavras, mas aceitar o poder das palavras como decantadores de ideias, preconceitos, semente de violência contra o grupo adjectivado. Ter cuidado com as palavras que se usam com as pessoas é o humanamente correcto. É ter a inteligência de aprender com a história quem somos e do que somos capazes.

Testemunho de Adalbert: O genocídio não é uma ideia de guerras e batalhas. É uma ideia que as autoridades têm - de se livrarem de um perigo de uma vez por todas. Uma ideia conveniente que não necessita de ser nomeada ou encorajada, para lá de umas orquestrações maliciosas. É uma ideia bastante comum quando voa de palavra em palavra, por vezes, de piada em piada; torna-se extraordinária quando é apanhada na ponta das machetes.

Esta ideia não morre com as mortes, não morre depois da vitória ou depois da derrota. Autoridades no futuro podem recuperá-la para outro destino. Mas como pode alguém matar uma ideia, usada de forma tão extraordinária, se não se souber como matar a palavra, que a pode chamar à vida? Matar os inimigos, matar quem nos faz mal, matar os vizinhos - isto pode-se entender. Matar ideias e palavras - isto vai para além da inteligência, a inteligência de um camponês, pelo menos.


Tradução minha.
(continua)

terça-feira

Fingimento



São gotas grossas, metálicas, que caiem pelos telemóveis. Eu respiro muito devagar. Sou extremamente prática, racional, deixo o meu cérebro possuir-me, recta aguda, sem floreios, uma missiva formal de fim pontuado. Termina. Acaba. Silêncio. A recta transforma-se em punhal, abre-me de cima abaixo e deixa-me a escorrer pelos lençóis da cama. Parece que vou morrer, mas eu sei que é só fingimento do meu corpo. Fecho os olhos e deixo-me ir pelo chão de madeira, o sangue chega às escadas e desce-as, sai para a rua e faz um caminho vermelho invisível. Lento. Gelatinoso. Nojento. Deixo-me ir, mas sei que é só fingimento.


Amber Under Hours 2006
Acrylic and Pencil on Birch Panel
Sherry Wong

segunda-feira

Leituras

The Gross-Out Factor, Pauline W. Chen

(...) Pavlov, of the drooling dog fame, believed that habituation could be simply reversed. Others have asserted that repeat sensitization could interrupt a learned reflex. But for our human quandaries, extricating ourselves from habituation and the inevitable sliding ideals requires another, more complex process altogether. (...)



Welcome to 'Palestine', Robert Fisk

(...) I recall years ago being summoned to the home of a PA official whose walls had just been punctured by an Israeli tank shell. All true. But what struck me were the gold-plated taps in his bathroom. Those taps—or variations of them—were what cost Fatah its election. Palestinians wanted an end to corruption—the cancer of the Arab world - and so they voted for Hamas and thus we, the all-wise, all-good West, decided to sanction them and starve them and bully them for exercising their free vote. Maybe we should offer “Palestine” EU membership if it would be gracious enough to vote for the right people? (...)

sexta-feira

Linoleum



Tweaker & David Sylvian

quarta-feira

Tédio

Pára-me de repente o Pensamento...

— Como se de repente sofreado

Na Douda Correria... em que, levado...

— Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento



— Pára Surpreso... Escrutador... Atento

Como pára... um Cavalo Alucinado

Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...

— Pára... e Fica... e Demora-se um Momento....



Vem trazido na Douda Correria

Pára à beira do Abismo e se demora



E Mergulha na Noute, Escura e Fria

Um Olhar d’Aço, que na Noute explora...



— Mas a Espora da dor seu flanco estria...



— E Ele Galga... e Prossegue... sob a Espora!



Ângelo de Lima. Publicado em várias revistas literárias, com ligeiras alterações, de 1900 (O Portugal) a 1935 (Sudeste).



Ler um poema é também dialogar com as suas leituras anteriores e virtuais. Não posso deixar de mencionar que, embora o soneto não tivesse título no original autógrafo, e assim tenha sido mantido pelo seu editor, recebeu às vezes, nas versões publicadas, o de Tédio. Não se trata, obviamente, de um título escolhido ao acaso. As imagens e o ambiente do poema prestam-se, sem dúvida, à aproximação com a literatura do «mal do século», o spleen ou melancolia. Alguns dos temas e motivos encontrados no «dicionário da melancolia» (Pierre Dufour), em autores como Baudelaire e Borges, reconhecem-se no texto: a escuridão, a dor, a obsessão pela queda no abismo, a figura debruçada sobre o abismo ou sobre o espelho, etc. Essa leitura condiciona-se também pela circunstância de ter estado o poeta internado no hospital psiquiátrico de Rilhafoles, desde 1901 — isto é, um ano depois da primeira publicação do soneto (O Portugal, 12.6.1900) —, até a sua morte em 1921, o que talvez motivasse Fernando Pessoa a observar, ao publicá-lo no Sudoeste, em 1935, que nele o poeta descreve a sua entrada na loucura, em que longos anos viveu e em que morreu.

A controversa possibilidade de que a linguagem seja apta a dar voz à loucura (por mover-se fatalmente dentro dos limites da racionalidade) obriga-nos a tomar a observação de Pessoa com cuidado e, libertando-a do círculo logocêntrico, removê-la para zonas limítrofes. Com efeito, estudos sobre a literatura melancólica, a relação entre melancolia e gênio e o «discurso da loucura» têm ajudado a mapear territórios que, sem se distinguirem com absoluta nitidez, configuram tendências e delineiam certas zonas passíveis de sobreposição parcial: os discursos da cultura e da poesia e o discurso clínico. Desse ponto de vista, a experiência do tédio pôde ser considerada uma situação preliminar à precipitação na melancolia psicótica, e essa, às vezes, ser vista coexistindo, num mesmo autor, com a melancolia como estado de ânimo. O que aproxima os textos melancólicos, em geral, do poema de Ângelo de Lima, além dos motivos já mencionados, é a particular vivência do tempo: a oscilação entre a exaltação e a tristeza, com tendência à imobilização e rigidez, nulificando a dor e a esperança. O próprio Ângelo de Lima, na sua Autobiografia, confessa que se conservava horas imóvel quase na contemplação e reflexão sobre um só objecto, brinquedo ou espectáculo da natureza, atento fixo. Toda experiência de tédio ou de melancolia faz-se acompanhar de uma modificação na percepção do tempo, que se retarda e se detém, na sua fase depressiva. A assimetria entre o tempo interior, que tende à inércia, e o do mundo objetivo, constitui, dessa forma, uma categoria hermenêutica essencial para entender a profundidade da modificação fenomenológica do tempo na melancolia e no tédio (E. Borgna). Na vivência do tédio, portanto, o alongamento ou a extensão do presente traz como conseqüência a perda da noção de futuro e a redução do passado à sensação de aceleração que precede o presente. Já vimos como essas duas dimensões temporais são o arcabouço do soneto em causa.


Yara Frateschi Vieira

sexta-feira

I like birds



I cant look at the rocket launch

The trophy wives of the astronauts
And I wont listen to their words
cause I like
Birds

I dont care for walkin downtown
Crazy auto-car gonna mow me down
Look at all the people like cows in a herd
Well, I like
Birds

If youre small and on a search
Ive got a feeder for you to perch on

I cant stand in line at the store
The mean little people are such a bore
But its alright if you act like a turd
cause I like
Birds

If youre small and on a search
Ive got a feeder for you to perch on
Ive got a feeder for you to perch on
If youre small and on a search
Ive got a feeder for you to perch on
Ive got a feeder for you to perch on


Eels, I like birds

Eu também gosto de pássaros.
;-)

segunda-feira

Big-Blog (uma grande opiniao, que vos deve dar prá hora do almoço)

Vejo de vez em quando afirmaçoes de hiper-importancia da blogosfera na antítese aos media escritos. Como se fossem substitui-los. Isto seria possível se os media forem tao estupidos (e digamos que é isso que andam a demonstrar) que deixem de oferecer algo que a blogosfera oferece pouco: qualidade. A blogosfera é cacarejo. É divertido, mas corococo.

Além disso, num momento em que uma pessoa é famosa, aplaudida e na escala de sucesso da actualidade, é um expoente público com base em absolutamente nada, veem-se pessoas que realmente sabem e/ou fazem serem desprezadas nessa sua qualidade, como se o que estivesse a dar nos dias de hoje é ser somente imagem ou como se a opiniao de todos em tudo tivesse o mesmo valor. Nao tem. Há um desprezo pelo especialista num ramo do saber, como se quem sabe fosse uma elite e as elites sao um perigo para a democracia. Só que há democracia e meritocracia e esta última precisa de existir para nao entrarmos numa sociedade da parvalheira. Além disso, a própria democacracia melhora se houver alguém que realmente sabe alguma coisa, porque senao é o reino das galinhas: cacarejam e nao dizem nada. Mas anotemos uma ironia imbecil: a contrataçao pelos media de galinhas. Pessoas que tem opinioes em tudo. Isto é impossivel, a nao ser para as galinhas. E é aqui que os media resvalam para a blogosfera e poderao ser ultrapassadas por ela. Porque sao tao maus que mais vale ler a blogosfera! Quer dizer, muito pessoal escreve na blogosfera e escreve nos jornais e fala nas televisoes. Este pessoal nao tem tempo para mais nada senao cagar opinioes!

Contudo, ainda é pior! Para além dos jornais serem mais de metade opiniao, os artigos já nao respeitam aquilo que aprendemos na escola do quem, onde, como, quando. Lá aparece sorrateiramente o penso eu de que. Vamos por as coisas no seu lugar: EU NAO QUERO SABER O QUE OS JORNALISTAS PENSAM. SE ELES QUEREM DIZER O QUE PENSAM QUE FAÇAM UM BLOGUE.

E esta praga do opinianismo alastra-se! Os juízes do Supremo arrogam-se a capacidade de opinar sobre a psicologia do sofrimento, a psicologia educativa, a psicologia da mini-saia no predador-macho, definirem relativismos nisto e nisto basearem sentenças! (Para além que pelas suas opinioes (e isto obviamente é a minha opiniao) já cá andavam quando moisés dividiu o mar vermelho!).

Vejo um fenómeno interessante na blogosfera, que é o lamento de haver blogues da primeira liga (como dizem), como se muitos deles o fossem nao só porque os seus autores sao famosos para lá da blogosfera, mas alguns deles, sao-no porque fazem e escrevem coisas com qualidade (nem que seja qualidade blogosférica). É preciso pensar nesses filtros. Contudo, conceda-se que há pessoal instalado, bastante capaz numa área, a mandar bitaites professorais (e é esta pretensao-pavao que eu acho desonesta) onde nao sabem nada, simplesmente empoleirados na sua fama. Mas nós temos de avaliar de onde saiem as palavras, o que vale quem diz no que fala. E relativizar muito.

Na blogosfera, todos tem opiniao sobre tudo e acham-se no direito de exigir que os outros deem valor ao que escrevem porque está escrito, ainda que como opiniao, o seu valor depende da sua base. Mas, dizem eles, praga das pragas, que quem nao lhes dá atençao é porque é parvo, vendido, nao vemos os inconformistas, os reformadores, os cristos, os profetas, a luz! (Isto lembrou-me "A vida de Brian" dos Monthy Phyton...). Desculpem amigos, o messias já cá esteve e andou. Um pouco de humildade, s'il vous plait. A vossa opiniao, sem mais, tem a importancia que eu lhe dou e eu, e isto é a minha opiniao, nao sou parva.

Uma opiniao é livre, mas para acedermos a algo mais que um monte de palavras que se enfiam em regras gramaticais, com umas ideiazitas por baixo (até o padre da Banheira-de-Cima tem ideiazitas), é preciso mais que somente a capacidade de juntar palavras. Deveriamos poder vislumbrar saber e é esse saber que dá valor a uma opiniao para lá do momentaneo, do conversacional, do social de todos os dias, que antes ficava perdido no ar e que agora fica escrito nos computadores que dao forma 'a internet. Mas ainda que escrito, provavelmente vale menos que nada. Alguém com saber na base da sua opiniao, constrói nao só uma opiniao, mas uma estrutura racional que desagua num horizonte largo em que quem leu progrediu em saber. Saimos do universo das sensibilidades e superficialidades. Os nossos postes sao conversa, a nao ser que haja substancia por baixo. Para sermos verdadeiros á natureza do que é a blogosfera, todos nós deveriamos 99.9999999% fazer exactamente o que o maradona faz: apagar e sermos honestos relativamente 'a efemeridade e banalidade do que escrevemos. Isto é tudo um imenso e divertido cocorococo. Os media deveriam compreender isto, deixar a blogosfera de lado e darem-nos a qualidade de que necessitamos. Senao que anotem que a sua desvalorizaçao nao se deve 'a blogosfera, mas ao facto de serem blogosfera num formato que nao se adequa 'a blogosfera. A tristeza é que acabaremos esmilhafrados num Big-Blog.

Concluindo: isto é conversa de café e muito, muito raramente chega alguém com algo que valesse a pena ficar registado. Lixo, lixo, que se impregna nos átomos. Por isso, párem de narcisismos bacocos, jornais párem de nos importar (ó lástima, ó mundo, o joao miranda a opinar em papel, o maior googlador depois do próprio john google!), que eu sou condessa e me poem tensa.

sábado

O tempo

Não consigo apanhar o tempo. De vez em quando olho o relógio e passou tempo. No entretanto, vivi. E passou. É o que diz o relógio. Um objecto que existe para assinalar o passado e programar o futuro. Detesto relógios. Também detesto calendários. O relógio e o calendário constroem um tempo de fantochada. Como desenhar riscos no chão de cimento, que não podemos pisar, como desenhar setas no chão de cimento, que devemos seguir. Um mundo imaginário que nos faz mover todos aos mesmo tempo. Relógio, gosto do coração que acompanha, batido a segundos, o presente. O meu presente.

quarta-feira

Quem ganha com a G8

Há três características imediatamente detectáveis na polícia de choque alemã:

1) parecem chocantemente profissionais;

2) parecem mais militares que polícias;

3) parece que estão muito mal-dispostos e que nos odeiam as tripas.

Isto é: metem medo. Uma pessoa até pensa que alguém foi mal informado. Nós ali, uns pelintras com uns cartazes, mais parece passeio de sábado de manhã e estão ali aqueles brutamontes com cacetetes e escudos e pistolas (tenho fé que não verdadeiras, verdadeiras) e uns veículos que parecem tanques de guerra, mas esguicham água e mais uns autocarros com ar de nos irem levar para algum torturador. Se isto não fosse a Europa, eu acho que a primeira vez que vi aquela malta borrava-me de medo. Mas isto é a Europa, portanto eles não nos vão fazer mal, pois não?

O problema é que não há manifestações suficientes e aquela malta está entediada. Além disso, os tais tanques devem ter custado uma pipa de massa e eles têm que cobrir os custos. Portanto, isto até pode ser a Europa, mas aqueles gajos vão tentar provocar, vão-nos encurralar e tentar manipular-nos e, se tentarmos sair uma passada do que eles querem, vão-nos esguichar e geralmente não há cacetada, que nós somos gente pacífica, se não não tão parvos que queiramos andar à batatada com pessoal que em pequenino sonhou ser rambo e acabou naquilo. A manifestação acaba por ser um exercício de cães-pastor a brincar com as ovelhas e a guiá-las para uma das estações principais.

Isto é a polícia de choque alemã com uma manifestaçãozeca de sábado de manhã. Por isso não é de espantar o que acontece agora no G8. Veio malta de tudo o que é sítio, com ideias mais férreas de manifestação, que nem de provocação precisam e têm-se as imagens das ovelhas negras para os jornais. Não as ovelhas brancas que a maior parte de nós é. As negras é que são escolhidas para a foto da semana.

Há pouco mais de uma semana, parece ter havido já uma reunião preparatória aqui em Hamburgo. Eu soube porque havia barreiras policiais por tudo o que era sítio. Eu não vi nenhum manifestante, mas vi dezenas de carros de choque e tanques de água, tudo a abarrotar de polícias-brutamontes-andacáquetedigo, com as suas pistolas e cacetetes e escudos e trombas. E as putas das barreiras, que eu um dia em que vinha para casa de bicicleta, andei às voltas no centro e estava a ver que não achava a saída ao labirinto! É um exagero. Só a polícia de choque em Hamburgo tem quantitativos suficientes para dar cabo dos taliban no Afeganistão. Uma coisa é praticamente certa: os polícias-brutamontes-trombudos mal souberam que ia haver G8 na Alemanha devem ter-se-lhes entesado os cacetetes. Aqui em Hamburgo puderam deixar-se, por uns tempos, de esguichar os fãs do Sankt-Pauli (a equipa B de Hamburgo) quando saiem demasiado felizes do Estádio de futebol. Devem ter pensado para as suas pistolas de brincadeirinha: finalmente uma merda a sério.

Enquanto isso, na G8 propriamente dita:

segunda-feira

Do melhor

Porque tive a imensa sorte de conhecer duas bandas absolutamente espectaculares, no Fabrik, a melhor das melhores espeluncas de concertos de Hamburgo, em Altona, o bairro mais inaço de Hamburgo:

Panthéon Rococó, o melhor ska do Hemisfério Norte.

Auktyon, o melhor som e o vocalista com a melhor voz do Hemisfério Norte.

Eu não sei criticar música, digo só e somente que me vai custar a esquecer duas noites memoráveis. Sei lá, se não conhecem, conheçam.

Prost!

domingo

o deserto espraia-se
a vista é igual pra qualquer lado
não interessa o caminho tomado
os passos serão os mesmos passos
na mesma intensa sede
debaixo do mesmo sol
360 graus de vida ardente

sábado

Queda

Relevâncias integrais

Antes do acórdāo propriamente dito há um texto de introdução. É um texto quase ternurento na sua ingenuidade. Foi decerto escrito por um estudante de leis que escreve o que pensa que deve ser em vez do que é. Ou então foi escrito por um corpo de justiça já formado e em funções que não entende o que é uma decisão fundamentada. Porque dizem eles, o que nos querem mostrar com a transcrição integral do acórdão são os fundamentos das decisões, pois "Não basta conhecer alguns reflexos de uma realidade, para conhecê-la." Agora que li o acórdão INTEGRAL fico embasbacada quando retorno a ler a introdução. Se os elementos do nosso corpo de justiça escrevem aquilo antes do acórdão, então não é um caso pontual de incompetência. Todos os acórdãos e todos os juízes têm a mesma ideia do que é uma adequada fundamentação das suas decisões e a mesma ideia dos reflexos da realidade que interessa conhecer. Eu li o acórdão e andei desesperadamente a procurar certos reflexos da realidade que eu acho fundamentais, notas a dizer que afinal não é a versāo integral, uma nota de uma adenda em falta, informação que existe, mas não foi incluída, algo que negue a integralidade do acórdão! Parece que não. Penso mesmo que irei ter pesadelos com esta palavra: integral. E com relevância.

Mas venham, entremos no acórdão. Qual é então a realidade que interessa conhecer? A descrição dos factos (com uma incongruência: ele começou a procurar crianças no ano 2000, mas nesse mesmo ano ele já tinha fama de abusar sexualmente de crianças, o que ou não está bem ou os rumores na terra é pior que fogo no mato. O homem ainda não tinha pensado e já o pessoal sabia) (com detalhes de extrema importância como a cor dos carros que usava quando abordava os rapazes). Das vítimas sabemos que são menores e do sexo masculino. Do acusado sabemos muito mais: a profissão, o estado civil, elementos da sua história, que não teve um pai presente, que era o mais novo de seis irmãos, de diferentes pais, mãe negligenciadora, ele os irmãos cresceram entregues a si próprios, fez a quarta classe com dificuldade, demonstrando problemas de aprendizagem, etc. Ou seja, o homem teve um crescimento difícil. O meu pai, o décimo primeiro de um magote de 12, que perdeu a mãe aos oito anos de idade, com um pai abusador, que foi criado ao deus-dará pelas irmãs, que fez a primeira classe mal, que sofreu fome, frio e necessidades que ainda hoje, sessenta anos depois lho podemos ler nos olhos, presumo que o meu pai neste jogo dos coitadinhos era bem capaz de ter uma pena ainda mais diminuída. Se calhar deviam dar uma medalha ao meu pai por nunca ter andado a molestar rapazes. Uma ideia. Contactem-me para eu lhes dizer onde ele mora.

Sabemos também que mantém uma relação afectiva estável e equilibrada com a cônjugue e os dois filhos. Aqui o meu pai ia ter a ficha estragada. O que me dá outra ideia: se calhar o facto de terem uma relação conjugal boa, faz os acusados vingarem-se da vida difícil de outras formas. Ou seja, o facto dele ter um bom casamento é um indício da sua culpabilidade! Podem usar este marcador para a decisão experiente em outros casos. Eu sei que isto não é fundamentado, mas estou a entrar no jogo mental dos senhores juízes. Todos podemos jogar o mesmo jogo. A diferença fundamental aqui é que eu escrevo num blogue e os senhores juízes influiem em vidas.

A descrição sobre a vida do arguido antes, durante e a fé para depois continua e quase nos sentimos mal que o homem vá para a cadeia. Deixo uma frase: "No seu quotidiano, o arguido privilegiava os momentos passados em contexto familiar e no exercício da sua actividade profissional, mantendo por isso escassas e pouco aprofundadas relações de amizade e convivência no contexto social. Contudo, beneficiava de uma positiva integração ao nível comunitário, sendo a sua imagem social relativamente favorável." O relativamente deve estar ali porque havia rumores na comunidade de que ele gostava de rapazinhos. Esta frase poderia ter sido escrita doutra forma. Poderia ter-se pegado na mesma base e ter-se escrito a frase de uma forma negativa. A realidade que nos dão no acórdão foi claramente escolhida, dando-nos o arguido numa luz boa. As vítimas simplesmente não existem para lá da descrição dos factos. Não sabemos sobre o seu ambiente familiar, não sabemos como estão a lidar com a agressão, não sabemos se as suas famílias os irão poder apoiar, não sabemos se tinham, têm, terão boas notas na escola, não sabemos como a comunidade os olha ou trata, não sabemos absolutamente nada das consequências dos actos do arguido! Pergunto-me como é que se define a culpa (e portanto a punição) sem saber as consequências dos actos do agressor sobre os rapazes? Ou seja, há uma página sobre o réu na atenuação da culpa e nada sobre as vítimas.

Importante para definir a punição é quem foi ter com quem, onde andaram os pénis, o estado de entumescimento dos ditos, o não ter sido provado coito anal e a idade das vítimas. Para esta frase "Por outro lado, não sendo necessária a coacção para a relevância da agressão ao referido bem jurídico, nos termos sobreditos, a verdade é que é diferente, em termos de ilicitude, ter ou não existido coacção, assim como é de considerar, em sede de determinação concreta da pena, o grau de desenvolvimento do menor, não sendo certamente a mesma coisa praticar algum dos actos inscritos no âmbito de protecção da norma com uma criança de 5,6 ou 7 anos, ou com um jovem de 13 anos, que despertou já para a puberdade, como é o caso dos autos, em que a vítima era capaz de erecção e de actos ligados à sexualidade que dependiam da sua vontade, ainda que se possa dizer que essa vontade é irrelevante para efeitos de caracterização do tipo." não se dá qualquer fundamentação especializada. Resta sobre o senso-comum dos juízes. Estes arrogam-se o conhecimento do grau quantitativo de trauma de abuso sexual. Usando o meu senso-comum, que também o tenho e que sendo eu do ramo das ciências naturais e eles das leis, penso estar ao mesmo nível de crédito, eu diria que há certamente uma diferença qualitativa, mas o grau de afectação dependerá mais da vítima em si. Se calhar o puto de cinco anos até nem sofre nada no momento, pensa que é uma brincadeira, talvez a coisa fique a marinar, talvez um dia tenha um eureca ou reprima. O puto de treze anos que já acordou, pode muito bem sofrer uma disfunção na sua estruturalização sexual. Ele acordou, mas ainda está a desenvolver a sua identidade sexual. A questão aqui é que eu não sei, não me parece óbvio e não entendo este graduar de culpa. Tanto eu como os senhores juízes precisariamos aqui de muito mais que o senso-comum.

Outra frase: "Por último, será necessário atentar em todo o condicionalismo que levou o tribunal de 1.ª instância, com o aval da Relação, a qualificar os diversos actos praticados pelo arguido como um crime continuado - condicionalismo em que avulta o facto de o menor ir comparecendo aos encontros marcados pelo arguido, o que veio a suceder sete vezes. Por sua vez, o arguido foi mantendo o seu comportamento sobre este menor, o que foi sendo propiciado pelo facto de o menor não contar a ninguém o que se ia passando, bem como pelo facto de não ser descoberto. Isto, muito embora, o ofendido FF, como se anota na mesma decisão, aliás de acordo com a matéria de facto, não contasse a ninguém, por vergonha e por receio do arguido, que se limitou a "ordenar" ao ofendido que não contasse o que se passava entre eles." Que se limitou a "ordenar". A luz dos factos é, notem bem, vista da objectiva do acusado. Não há aqui um olhar sobre os sentimentos do rapaz, o tumulto que estaria a registar-se dentro dele. O que interessa realmente é que o acusado não o prendeu, não lhe bateu, não lhe apontou nenhuma picareta. Um rapaz de treze anos. Se é para usar o senso-comum: nenhum dos juízes foi um rapaz de treze anos?

Outra: "Neste condicionalismo, considerando que o dolo, sendo directo, não apresenta especificidades em relação ao dolo requerido pelo tipo, e que a ilicitude é mediana, para usar a expressão usada na decisão da 1.ª instância, corroborada pelo acórdão da Relação, considerando ainda as circunstâncias relativas à personalidade do arguido e que foram destacadas na decisão recorrida a partir do relatório social, reproduzido na sua essência na factualidade provada, a sua primariedade, a sua integração familiar e, de acordo com a própria decisão condenatória, a sua estigmatização no meio em face deste processo, apesar de anteriormente se poder considerar que o arguido estava plenamente integrado socialmente , a pena aplicada mostra-se claramente excessiva e desproporcionada, justificando, assim, a intervenção correctiva deste Supremo Tribunal."

De novo, notem a ausência da vítima e o que se usa para abono do acusado, incluindo a sua actual estigmatização. Desde quando uma pena definida pelos tribunais é relativa a uma já apercebida pena social? Isto é para mim ridículo.

Eu podia continuar, mas estou cansada. Há mais uns pontos de bradar aos céus, mas estou aqui já há um tempo e estou a ficar sem bateria. O que eu gostaria de demarcar é que este não é um caso isolado de fundamentação incompetente, baseada num senso-comum duns senhores juízes. Isto é o estado da justiça e os juízes que temos. Muito cuidado em serem vítimas e já sabem, se forem atacados e se conseguirem defender-se e partirem uns dentes ao perpretante, é bem capaz de serdes acusados de maus-tratos.

P.S.: E se tiverdes mais de catorze anos, já haverá uma página sobre vós no processo, para demonstrar como estáveis mesmo a pedi-las.

P.S.2: Mas vejamos pelo lado positivo: as vitimas eram do sexo masculino. Se fossem do sexo feminino era pior. Era bem capaz de se ter decidido, logo em primeira instância, que não tinha havido crime.

terça-feira

:: displaced sadness ::



you in the dark you in the pain :: you on the run :: living a hell living your ghost :: living your end :: never seem to get in the place :: that i belong :: don't want to lose the time :: lose the time to come

whatever you say it's alright :: whatever you do it's all good :: whatever you say it's alright :: silence is not the way :: we need to talk about it :: if heaven is on the way

you in the sea on a decline :: breaking the waves :: watching the lights go down :: letting the cables sleep

silence is not the way :: we need to talk about it :: if heaven is on the way :: we'll wrap the world around it :: if heaven is on the way

i'm a stranger in this town :: i'm a stranger in this town

letting the cables sleep
do álbum The science of things
BUSH

segunda-feira

Animação


Para quem gosta de animação: o Daniel Carrapa descobriu a Madame Tutli-Putli. Neste filme, os criadores adicionaram olhos humanos às marionetes. As imagens são, ao mesmo tempo, fascinantes e arrepiantes.

Ganhos na Argélia

70% dos advogados e 60% dos juízes argelinos são mulheres. As mulheres dominam a medicina. Com o tempo, as mulheres contribuem progressivamente mais para o rendimento do agregado familiar. Investigadores universitários dizem que 60% dos estudantes universitários são mulheres.

Numa região em que as mulheres têm um perfil público decididamente discreto, elas são visíveis por todo o lado. Elas começam a guiar autocarros e táxis. Elas enchem os depósitos dos carros e atendem à mesa.

Ainda que os homens ocupem todas as posições formais de poder e as mulheres representem só 20% da força de trabalho, este valor é o dobro de há uma geração e elas parecem estar também a tomar conta da máquina do Estado.

Perdas no Iraque

Uma resposta de Yanar Mohammed, activista dos direitos das mulheres iraquianas, numa entrevista no Truthdig:

(...) o mito da democracia já matou meio milhão de iraquianos, o que seria perdoável se nos tivesse sido dada a real democracia, na qual as pessoas são representadas segundo as suas filiações políticas, o seu entendimento económico ou as suas sensibilidades em justiça social. Contudo, os iraquianos são representados segundo a sua religião e etnia. É como se a Administração dos EUA estivesse a tentar dizer ao mundo que os iraquianos não têm o direito ao entendimento político ou à actividade política. A fórmula que nos foi dada é um insulto a uma parte do mundo onde a actividade política é bastante dinâmica e onde existe toda uma gama de ofertas políticas - ao início da guerra inscreveram-se milhares de partidos políticos. E todos eles queriam competir, ou digamos, correr para a democracia; mas a quem foi dado o poder, quem foi apoiado? Na maior parte os grupos religiosos e os grupos étnicos. E os grupos de mulheres? A Administração americana não estava realmente interessada em falar com grupos de mulheres, digamos, livres. Preferiram trazer elementos decorativos para o parlamento, pessoas que parecem mulheres, mas que votam numa constituição que é contra as mulheres. A constituição, neste momento, impôs-nos a lei da Sharia, quando, antes da guerra, tinhamos uma constituição secular que respeitava os direitos das mulheres. Portanto, algo mais perdido nesta guerra.(...)

Tradução minha (o itálico no original)

sexta-feira

A rima nos sentidos perdidos


Há três dias fui ver o Inland Empire. Se eu escrevesse um poste logo depois de ver o filme, consistiria em: "daqui a um mês talvez possa dizer qualquer coisa". O problema do filme é que se pode falar um mês e arranjar novas coisas para dizer. É uma autêntica provocação à imaginação. Merecia uma violação num beco de Hollywood. É um filme de mini-saias! Uff.....

A primeira hora tem sentido, melhor, sentidos limitados, mesmo, a esperança de um sentido. É uma hora de argumento com a possibilidade de um caminho, pelo que na primeira hora eu estava aborrecida. Uma pessoa com pouca imaginação gosta é da primeira hora. A seguir as galinhas saiem da capoeira e é o tumulto no quintal. Aí o boi tem que ser domado. E digo-vos: a merda do boi arrasa-vos o cachaço. Não recomendável a pessoas de neurónios linearmente posicionados e facilmente enojados com cabelos no ralo do duche.

P.S.: falando a sério: achei-o um filme muito feminil. Todas as vidas/possibilidades/cruzamentos que temos cá dentro e o amor como a maior aspiração de uma mulher. Mas isto sou só eu. Se alguém disser que vê no filme a reflexão tónica do existencialismo num espelho estilhaçado; está bem. Ou: a esquizofrenia latente na manhã de cada um de nós; está bem. Ou até: a forma de uma nuvem numa chave de fendas; também está bem. É poesia, minha gente, PO-E-SIA. {não estou a sarcasmar, ok? Eu gostei da merda do filme! Sou capaz de não conseguir jamais escrever com sentido ao pensar nele, mas... Uff...}

quarta-feira

Arrepio

Ir ao cinema na Alemanha é demasiadas vezes uma experiência a esquecer. O pessoal comporta-se como se estivesse na sala de estar da casa deles, só que com muitos sofás. Um dia senti duas presenças estranhas de cada lado da minha cabeça. Quando olhei eram os pés descalços da senhora atrás. Acho que nunca fiquei tão atónita na minha vida. Outra vez, andei a fugir com todos os outros de um senhor que empestava. Como podem imaginar éramos vinte todos juntinhos de um lado da sala e o senhor e a esposa no lado oposto. Ela resmungava contra nós. Gerou-se ali um problema de racismo: os com nariz e os sem. Nem falo das normais grunhices com telemóveis e comidas (pipocas é aperitivo) e pessoas a falar como se estivessem no bar ao lado. Mas o que me põe fora de mim e já me fez começar a asneirar várias vezes é o uso que fazem do riso: eles riem-se com a tragédia. Não é por acaso que no alemão há uma palavra para o ficar feliz com a infelicidade dos outros (Schadenfreude). É desconcertante eu a entristecer com uma cena e de volta o eco ridente. É irritante. Mas não é só no cinema! Um dia destes estávamos num imbiss (um boteco onde se come comida rápida) e a namorada autóctone de um amigo meu lia o jornal, quando viu uma notícia de um corpo encontrado no rio. Ela riu-se. Não conseguiu explicar porquê. Depois, quando já nos tinhamos separado dela, o namorado repetia "Mas ela estava-se a rir...". "Ela estava-se a rir, não estava?" Digo-vos: arrepiante.

domingo

Este é para os médicos:



O corpo humano é um conjunto de sistemas que se interligam para fazer um mecanismo maravilhoso. Quando era criança adorava programas sobre o corpo humano e empolgava-me pelas correntes de sangue, o bater do coração, a imagem de uma potente bomba em síncopes, a pele, o que nos diziam da imensidade da pele, as camadas, as defesas, os pêlos a empertigarem-se de medo ou frio, as íris a responder à luz, os mensageiros, os soldados, as sinapses, as lágrimas a limparem-nos os olhos. O corpo humano é belíssimo e é um prazer aprender sobre ele. Mas somos muito mais e esse mais vive-se todos os dias quando as lágrimas também nos limpam as tristezas, o coração bate de amor, o sangue corre de excitação, a pele treme de prazer, a boca beija, os olhos sorriem, as sinapses levam anseios, todos nós um mundo de emoções. Somos, cada um de nós únicos nisto. Todos nós um maravilhoso mundo que não merece ser reduzido ao mecanismo. Blood makes noise.

sábado

Os miseráveis

Nenhuma entrevista me persegue mais que uma conversa que tive em 1996 com uma camponesa cambojana chamada Nhem Yen. Ela tinha 40 anos, mas parecia mais velha, e vivia com a família numa aberta da selva cambojana. A área era conhecida pelos surtos de malária, mas a família era ambiciosa, industriosa e pensaram que o dinheiro que podiam fazer a cortar e a vender madeira valia o risco.

A filha mais velha de Nhem Yen, de 24 anos e grávida do segundo filho, rapidamente apanhou malária. Sem dinheiro para comprar os medicamentos (um tratamento efectivo custaria menos de 10$), ela morreu no dia a seguir ao parto. Nhem Yen ficou a tomar conta dos seus cinco filhos, mais os dois netos.

A família possuía um mosquiteiro com capacidade para três pessoas. Estas redes são efectivas contra a malária, mas custam 5$ e a Nhem Yen não podia custear mais. Assim, todas as noites ela agonizava na decisão de quais das crianças colocar no mosquiteiro e quais deixar de fora.

"É muito difícil decidir," ela disse-me. "Mas não temos dinheiro para comprar outro mosquiteiro. Não temos escolha."

Esta é a verdadeira face da pobreza: não tanto a dor da fome ou a humilhação dos trapos, mas a das escolhas impossíveis.


Início de um texto excelente: "Wretched of the Earth" de Nicholas D. Kristof no The New York Review of Books.

Tradução minha.

quinta-feira

Efeitos do fumo:



Tommy Lee fotografado por David LaChapelle.

terça-feira

E os deuses...

não se levantam...
E a alma não se mantém
Uma multidão ergue-se na garganta
Mas ninguém canta, ninguém
Algures...
Mulheres...
Nós...
Alguém...
estive de luto
mergulhei em tristeza
matei todos os sonhos
um a um
cada um um corte
muito devagar a lâmina cortou
a carne da alma
esvaziei-me de ti

digo-te isto
esvaziei-me de ti
e contudo amo-te
ou não?
continuo a amar o amor que te tive?
novos sonhos aparecem
despegados de ti
mas tu neles e eu em ti

domingo

O pseudofeminismo mortal


Andava a ver na estante da minha amiga por um filme e acabei por escolher o "Thelma & Louise", que vi pela primeira vez. Tinha a ideia, pelo que as pessoas tinham comentado do filme, que era um filme 'feminista'. Mas, na minha opinião, está longe de o ser. A minha ideia de feminismo não é que as mulheres se vejam encurraladas num mundo machista e na circunstância de resolverem a situação aos tiros. Que se tenham de vingar dos homens, que os tenham de fazer sofrer e que no fim sejam mártires. A ideia de que este filme tem uma mensagem feminista, ofende-me.

Gostei do filme, é uma bonita história de amizade, faz-nos gostar das personagens, mas não há ali mulheres que controlam as suas vidas. Aquilo é uma história de vítimas. Amigas minhas disseram-me que, na adolescência, as personagens deste filme tinham sido para elas imagens de heroínas! Há aqui algo muito errado. Extremamente errado no que as raparigas veêm como modelos femininos!

Histórias de feminismo são aquelas de mulheres que lutam de formas construtivas por um mundo mais livre e igual no plano do género e/ou que querem escolher o seu próprio caminho contra convenções sociais e/ou que têm os seus inevitáveis problemas particularmente femininos na vida. Não, cujas opções são o homicídio e o suicídio.

sábado

Os corpos indefesos

Li que está em Portugal a exposição dos corpos humanos. Eu vi essa exposição quando vim viver para Hamburgo, já há uns anos. A minha maior preocupação era que eu me desmelinguisse, já que as minhas capacidades para ver carne viva ou ossos descarnados não é famosa. A parte ética também me ocupava os pensamentos, mas sem certezas se realmente os rumores eram verdadeiros e crendo que dar o corpo para o conhecimento é um destino mais bonito que alimentar uma data de bichos, esta parte adormeceu. E lá fui. A exposição é interessante e aprende-se, contudo pareceu-me que essa aprendizagem é perfeitamente conseguida sem utilizar realmente corpos humanos (o mais pedagógico pareceu-me até uma secção somente com órgãos, uns doentes e outros saudáveis). Pelo que acabei incomodada. Quando já estava incomodada, entrei na parte da exposição em que não há nada de novo e então é exibição pura. Ter um esqueleto e músculos na pretensão de jogar basquetebol não acrescentava nada; ou olhar para mais dois cadáveres na posição de jogar xadrez só me levou a pensar nos escalpeladores e desconfiar da sua única intenção de demonstrar virtuosismo na técnica utilizada para criar aquelas cenas. Os corpos eram uma fonte lúdica e não de conhecimento. Eu saí da exposição desconfortável e triste naquela parte de mim que diz que devemos respeito à memória dos que morreram. Eu aconselharia a não ir, por essa parte de nós que vive na memória dos que partiram. Usar os corpos humanos mortos para divertimento parece-me mal. Sem falar de que muitos daqueles corpos vandalizados estão ali porque ninguém estava presente ou porque as pessoas foram impedidas de venerar a sua memória por um cerimonial que é quase tão velho quanto a espécie humana. Há ali um fracasso na nossa humanidade e sociabilidade. Se o fracasso colectivo no mundo deles não fosse suficiente, importamos esse fracasso para nosso divertimento. A utilização do corpo humano para a melhoria dos viventes é um fim nobre, mas aquilo não é nobre. Arrependo-me de o ter visto e espero que a minha tristeza e os meus pensamentos enquanto olhava aqueles corpos, a minha homenagem silenciosa, possa de alguma forma ter lavado a minha dignidade. Mas duvido.

quinta-feira

Efeitos do fumo:

Alguém célebre fotografado por Ezequiel de la Rosa.

Elogio aos modelos matemáticos

Tanta poesia na Science é raro. Eu confesso que me emocionei. Até tenho outro amor ao meu modelinho....

My world embraces and celebrates them all. All manner of models, to be chosen (like a set of tools) to suit the particular task. Lay stakeholders in the here and now, doing what they do best (imagining their worst fears and best hopes for the future) with their mental models, fuzzy calculus, or belief network models. Webs of tentative cause-effect couples fed, perhaps, by bizarre boundary and initial conditions, hence to deduce a rich heterogeneity of future patterns of environmental behavior--some radically different from what we have come to know and love. Quantitative modelers (engineers indeed) doing what they do best: mobilizing the current science base (uncertainties, warts, and all) into a computational model; thus to assess the plausibility of the imagined futures, under gross uncertainty; thus to identify what we would most like to understand much better, in the here and now, about the uncertainties (be they elements of the science, the policies, or the technologies) that are crucial to discriminating between the reachability of our worst fears or our greatest hopes. Nothing stands still: not images of the future, nor our qualitative models, nor our quantitative models. Call this living in a "recursive predictive world" [as I have labeled it elsewhere (4)], a collective form of adaptive community learning. We condition the step we take today on contemplation of where we might be several steps hence and revisit such conditioning and contemplation each and every day. No hint here of forecasting the state of nature at some point on the globe at some instant in the future.

M. Bruce Beck in Science 13 April 2007: Vol. 316. no. 5822, pp. 202 - 203 DOI: 10.1126/science.1140778

quarta-feira

Eu, pecadora, me confesso



No De Rerum Natura faz-se uma visita a Dawkins, actualmente o mais famoso ateísta deste planeta. Dawkins é uma pessoa fascinante, interessante, inteligente e tem o sotaque mais sexy deste planeta. Além disso, é um cientista brilhante. Será possível um homem ser tao perfeito? Ve-lo a explicar por que ser ateísta nao é de forma alguma uma forma negativa de ver a vida (pelo contrário), é um consolo para a alma, o que torna completamente desnecessária a religiao, cujas propriedades de conforto baseadas em desrazao, sao a sua unica razao válida. Por isso, fora com as esclerosadas amenidades da fé, venham as amenas racionalidades: ide ao De Rerum Natura, sigam as ligaçoes e aprendam com o meu pastor.

terça-feira

Eu, pecadora, me confesso


Eu sou fumadora e logo uma potencial perturbadora. Eu poluo e tendo esta noção, sou uma fumadora envergonhada. Assim, sem pensar que tenho o direito absoluto de fumar quando me dá na veneta, na celeuma que anda pela blogosfera, eu andei a observar, dividida, mas não pelo meu estatuto de chaminé a quem impedem de defumar. Somente metia-me impressão que o Governo possa impedir o dono de um local de escolher as condições da sua propriedade, mas também me parecia que o Governo pode e deve proteger quem não fuma. Está provado que fumar afecta a saúde e não só de quem fuma. Portanto, estava dividida no plano ideológico.

Felizmente há pessoas que conseguem escrutinar e delinear um consenso: eu gosto deste consenso. Acho este texto brilhante.

segunda-feira

Feminismo Pavlov

Birth control pill manufacturer Wyeth has whipped up a new product, Lybrel, that will not only prevent pregnancies but will apparently eliminate menstrual periods altogether. Does this development constitute a liberating break from biology for women or a subtle message that their bodies need to be somehow ‘fixed’?

New York Times: And studies have found no extra health risks associated with pills that stop menstruation, although some doctors caution that little research has been conducted on long-term effects.

The topic has, however, inspired an hourlong documentary by Giovanna Chesler, “Period: The End of Menstruation?,” currently screening on college campuses and among feminist groups.

Ms. Chesler, who teaches documentary making at the University of California, San Diego, said she became concerned about efforts to eliminate menstruation when she first heard about the idea several years ago.

“Women are not sick,” she said. “They don’t need to control their periods for 30 or 40 years.”

Eu há uns tempos li isto e fiquei sem saber o que pensar. Não me pareceu nada mau não ter que passar pelo período menstrual, que pode por vezes ser bastante desconfortável (estou a falar de dores, meus senhores). Contudo, já tenho idade suficiente, para compreender e esperar que as pessoas imponham simbologias a processos naturais. Contudo, as feministas irritam-me um pouco, pois reajem à Pavlov: olham para o mundo pelas lentes anti-homem, em vez de olhar pelas pró-mulher e nisto quem sofremos somos nós, numa guerra tola.

O que eu pensei foi: será mesmo natural parar a menstruação? Não é suposto acontecer e não nos fará mal não ter? Aí, por uma coincidência feliz, este fim-de-semana li isto (podem saltar logo para o último parágrafo, se bem que acho que vale a pena ler tudo):

Of all the hormones that inhibit the reproductive system during stress, prolactin is probably the most interesting. It is extremely powerful and versatile; if you don't want to ovulate , this is the hormone to have lots of in your bloodstream. It not only plays a major role in the suppression of reproduction during stress and exercise, but it also is the main reason that breast feeding is such an effective form of contraception.

Oh, you are shaking your head smugly at the ignorance of this author with that Y chromosome; that's an old wives' tale; nursing isn't an effective contraceptive. On the contrary, nursing works fabulously. It probably prevents more pregnancies than any other type of contraception. All you have to do is do it right.

Breast feeding causes prolactin secretion. There is a reflex loop that goes straight from the nipples to the hypothalamus. If there is nipple stimulation for any reason (in males as well as females), the hypothalamus signals the pituitary to secrete proctalin. And as we now know, prolactin in sufficient quantities causes reproduction to cease.

The problem with nursing as a contraceptive is how it is done in Western societies. During the six months or so that she breast-feeds, the average mother in the West allows perhaps half a dozen periods of nursing a day, each for 30 to 60 minutes. Each time she nurses, prolactin levels go up in the bloodstream within seconds, and at the end of the feeding, prolactin settles back to pre-nursing levels fairly quickly. This most likely produces a scalloping sort of pattern in prolactin release.

This is not how most women on earth nurse. A prime example emerged a few years ago in a study of hunter-gatherer Bushmen in the Kalahari Desert of Southern Africa (the folks depicted in the movie 'The Gods must Be Crazy'). Bushman males and females have plenty of intercourse, and no one uses contraceptives, but the women have a child only about every four years. Initially, this seemed easy to explain. Western scientists looked at this pattern and said, "They're hunter-gatherers: life for them must be short, nasty, and brutish; they must all be starving." Malnutrition induces cessation of ovulation.

However, when anthropologists looked more closely, they found that the Bushmen were anything but suffering. If you are going to be nonwesternized, choose to be a hunter-gatherer over being a nomadic pastoralist or an agriculturist. The Bushmen hunt and gather only a few hours a day, and spend much of the rest of their time sitting around chewing the fat. Scientists have called them the original affluent society. Out goes the idea that the four-year birth interval is due to malnutrition.

Instead, the lenghty interval is probably due to their nursing pattern. This was discoverd by a pair of scientists, Melvin Konner and Carol Worthman. When a hunter-gatherer woman gives birth, she begins to breast-feed her child for a minute or two approximately every fifteen minutes. Around the clock. For the next three years. (Suddenly this doesn't seem like such a hot idea after all, does it?) The young child is carried in a sling on the mother's hip so he can nurse easily and frequently. At night, he sleeps near his mother and will nurse every so often without even waking her (as Konner and Worthman, no doubt with their infrared night-viewing googles and stopwatches, scribble away on their clipboards at two in the morning). Once the kid can walk, he'll come running in from play every hour or so to nurse for a minute.

When you breast-feed in this way, the endocrine story is very different. At the first nursing period, prolactin levels rise. And with the frequency and timing of the thousands of subsequent nursings, prolactin stays high for years. Estrogen and progesterone levels are suppressed, and you don't ovulate.

This pattern has a fascinating implication. Consider the life history of a hunter-gatherer woman. She reaches puberty at about age thirteen or fourteen (a bit later than in our society). Soon she is pregnant. She nurses for three years, weans her child, has a few menstrual cycles, becomes pregnant again, and repeats the pattern until she reaches menopause. Think about it: over the course of her life span, she has perhaps two dozen periods. Contrast that with modern Western women, who typically experience hundreds of periods over their lifetime. Huge difference. The hunter-gatherer pathern, the one that has occurred throughout most of human history, is what you see in nonhuman primates. Perhaps some of the gynecological diseases that plague modern westernized women have something to do with this activation of a major piece of physiological machinery hundreds of times when it may have evolved to be used only twenty times; an example of this is probably endometriosis (having uterine lining thickening and sloughing off in places in the pelvis and abdominal wall where it doesn't belong), which is more common among women with fewer pregnancies and who start at a later stage. (Remarkably, the same is now being reported in zoo animals who, because of the circumstances of their captivity, reproduce far less often than those in the wild).

"Why zebras don't get ulcers. The acclaimed guide to stress, stress-related diseases, and coping." (2004) Robert M. Sapolsky. Owl books. Terceira edição. págs 132-134.


O que parece significar:
FEMINISMO IDIOTA - 0 | 1 - BIOLOGIA FEMININA

sábado

Homo simplex

A noite prolonga-se e ele, sem nunca parar para respirar (será que pratica mergulho em apneia?), afirma que as mulheres falam, em média, muito mais que os homens. Quantos homens, meu deus, sem dizerem nada, para compensarem este tonto. Continua por esse mundo mágico da generalização, afirmando que os homens são simples enquanto que as mulheres: é o que se sabe. Eu começo a passar revista aos homens que conheço e a simplicidade escapa-se-me. Entre aquele que obsessa há quatro anos pela mesma mulher inalcançável, o que obsessa pela organização do frigorífico (what a freak), o que anda a espalhar suspiros mal-humorados pela casa e se se lhe pergunta o que tem, faz um sorriso falso e diz "quem eu?", até que finalmente explica o que se se fez para o chatear, o que inventa angústias mil, no que parece ser uma estratégia para acordar o lado maternal das mulheres que conhece ("a vida é complicada!" - diz com trejeitos trágicos), o que passa os dias ganzado (a realidade entedia), o incapaz de viver sozinho (namoradas como expedientes anti-solidão), o que nega a sua própria felicidade com justificações misteriosas (sim, mas não), o que colecciona quecas (selos e garrafas de coca-cola)... Agora atira-se umas pitadas de egoísmo, incapacidade de ver no espelho, liquídos com uma certa percentagem de álcool (para a anestesia), voilá!... Simples.

quinta-feira

i walk alone

Experiente

É uma pequena cidade, vizinha a Roma, empoleirada no pinoco de um monte. As vistas são deslumbrantes, as ruas estreitas e patuscas. Há festa, saltimbancos esforçam-se com ar entediado para alegrar os turistas, ainda mais entediados. O desejo de não desiludir a mãe católica do meu bom amigo, leva-nos, a ambos, a visitar um convento. Durante a visita fazemos caretas um ao outro para nos distrairmos, enquanto a pequena freira conta a história aborrecida da fundação do convento. No pequeno pátio: uma estátua bruta do falecido papa, em que se tenta dar movimento à pedra e esta rebela-se, acentuando toda a sua monolítica passividade. A freira fala da sua devoção pelo João Paulo II e eu lembro-me de uma pintura que vi algures (museu do Vaticano?) de uma freira que olha para Jesus Cristo de uma forma altamente inapropriada. A santidade do falecido foi diagnosticada por ela ainda antes dele ter morrido e assim ter passado a merecer o título. O deleite é tanto que presumo que ela seja a fã número um.

Os vestígios da origem palaciana do convento foram aniquilados pela restauração. Na biblioteca bocejante ela tenta vender-nos um chá para maleitas. Numa prateleira, numerosos livros sobre a interpretação de sonhos. Presente: Freud. Num salão enorme (finalmente algo realmente interessante), onde se imaginam cavaleiros medievais a lambuzarem-se com bocados desmesurados de javali enquanto planeiam o assassinato do Papa, ela tenta vender-nos os bordados das diligentes freirinhas. Ponho-me à janela escancarada, a admirar as vistas soberbas sobre os vales pintalgados. O meu amigo aproxima-se e diz-me ao ouvido que não poderei ser freira. Finjo-me destroçada e pergunto porquê. "Só até aos trinta." "Porquê?" "Depois considera-se que as mulheres têm experiência a mais." Dou uma risada sonora que cavala pela sala enorme. A freira olha-me. Eu sorrio feliz. Sou uma mulher experiente. Infantil, mas experiente.

quarta-feira

Cépticos

Get Fuzzy de Darby Conley.

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Literatura: abrir algo entre a palavra e o silêncio

No se trata de hablar,
ni tampoco de callar:
se trata de abrir algo
entre la palabra y el silencio.
Quizá cuando transcurra todo,
también la palabra y el silencio,
quede esa zona abierta
como una esperanza hacia atrás.
Y tal vez ese signo invertido
constituya un toque de atención
para este mutismo ilimitado
donde palpablemente nos hundimos.

Roberto Juarroz

terça-feira

A tragédia na literatura

Quando andava a ler o último livro do António Lobo Antunes, o 'Ontem não te vi em Babilónia', escrevi isto. Sinto realmente que a literatura é uma forma nobre de expressar sentires dificilmente explicáveis. Uma forma de expressarmo-nos, como outras formas de arte, usando letras, palavras, pontos, gramáticas, em vez de tintas, pianos, pernas e braços. Há a necessidade humana de comunicar, seja de que forma fôr, incluindo escrever em blogues. Quando essa comunicação é de tanta honestidade que leva um pouco da alma da pessoa, é especial.

Alguns escritores escrevem magistralmente, de forma original, tocam-nos, são exímios no ponto e na vírgula. Outros têm sucesso, mas só contam boas histórias. Outros escrevem-se e muitos nem publicam, mas o que escrevem não tem valor?

Eu, numa caixa de comentários neste poste, escrevi a minha ideia de literatura de acesso à alma. Disse-me uma amiga que prefere falar, talvez pensando nos meus pseudopoemas. Cada um é como é, mas quando alguém escolhe escrever e os outros escolhem não ler, não usar essa porta, parece-me uma perda. Estava nestes raciocínios quando me lembrei de um texto interessantíssimo ao quadrado que um elemento do 5 dias teve a amabilidade de traduzir do francês.

Parece-me que nem todas as pessoas falam e muitas que falam falham a verdade e há muitas maneiras de ver a sério os outros e acho que muitas vezes pode-se chegar mais facilmente até aos outros por outros meios comunicacionais. É uma perda a estreiteza e por vezes até, uma tragédia.