segunda-feira

Assombraçao

No Verao dos meus doze ou treze anos, o acaso dos meus olhos nos livros acomodados na estante escolheram duas obras que me lançaram numa quebra entre o antes e o depois. Uma era um conjunto de pesados tomos que me custaram a desalojar da prateleira mais alta sobre a segunda guerra mundial e que certamente me puseram em risco de queda e fracturas. A segunda era também um conjunto de vários volumes, mas mais leves, de "O Judeu" de Camilo Castelo Branco. Esta foi a partida para a descoberta da maldade humana e a descoberta da maldade humana na religiao que os meus pais me deram de herança. Nessa altura, a religiao era uma parte fundamental de mim. Além disso, era muito jovem e o que li foi chocante ao ponto de traumatizante. Nesse Verao, deu-se o início do meu abandono do catolicismo, porque acabei por sentir impossível a pertença a uma organizaçao com tal marca. Porque os padres que questionei deram-me respostas mesquinhas, porque enfim, nao havia qualquer razao para me sujar. Era repulsa o que sentia e olhando para trás nao sei quanto sangrou a minha ingenuidade. Os meus pais tomaram este resultado como o primeiro sinal da adolescencia. Rebeldia sem causa, devem ter pensado.

A minha ideia de Deus confundiu-se. Surgiu-me a questao que provavelmente chega a todos: como é que Deus deixa acontecer barbaridades? Mas largar Deus era um mergulho na escuridao e deixei-me viver na angústia. Mais tarde comecei a ler a Biblia e a descoberta nua e crua do Antigo Testamento irremediavelmente me lançou também fora da esfera daquele Deus. Era um Deus criado á imagem do Homem. Tudo começou nesse Verao, em que descobri que um povo que julgava da Biblia, que já nao existia, nao por violencia, mas por mudanças nominativas, assim como os fariseus e os canaenses, que esse povo ainda existia e que catástrofes inomináveis tinham submergido esse povo e com eles a minha ideia de e da humanidade e a minha religiao.

Assim, quando na blogosfera perguntam porque nos preocupamos tanto com Israel e os israelitas e nao tanto com os sudaneses ou os arménios, penso que nem tudo é explicado por anti-semitismo. O povo judeu está marcado na consciencia dos europeus a fogo e morte. O judaísmo é o pai do cristianismo. A Europa é a mae de Israel. O estranho seria que os judeus e Israel nao fossem uma presença marcada na consciencia dos europeus.

8 comentários:

Helena disse...

Não percebo nada do Antigo Testamento. Excepto umas luzes, tipo "olho por olho, dente por dente" era um avanço significativo em relação à lei anterior, "cabeça por olho, coração por dente".
Em todo o caso, a Bíblia não é para desbravar à letra.
Do Novo Testamento já percebo um pouco mais. Tem lá muitas passagens que não são de modo algum "um Deus feito à imagem do Homem".
Na tua adolescência, parecias o Papa Bento XVI em Auschwitz. Ele também não sabe... ;-)

Pois: o povo judeu está marcado na consciência dos europeus. Na má consciência.
Além disso, muitos deles vêm da nossa cultura. De algum modo, "eles" são parte de "nós", muito mais que árabes, sudaneses ou arménios. E depois, também há aquela questão de pormenor, a localização geo-estratégica de Israel.

abrunho disse...

O Antigo Testamento é entediante ou arrepiante. Tive melhores pensamentos e sentimentos a ler o "Frankenstein" da Mary Shelley. E aprendi mais também. Nao se aprende grande coisa no Antigo Testamento. O que me faz pensar quao similar é a Torah de hoje. Porque se aquele é o livro da religiao judaica, assim como espetaram na Biblia, bem... Tenho medo dos senhores barbudos de tranças.

abrunho disse...

Espera, nao é trancas, é rolo de caracóis á orelha.

Helena disse...

Abrunho, desculpa lá mas tenho de discordar. Há quem saiba ler muito e aprender muito no Antigo Testamento. A mim, faltam-me as chaves de leitura - mas é ignorância minha.
O livro de Job, por exemplo: que belíssima maneira de dizer que Deus não nos cabe no bolso. Quem somos nós para tirarmos conclusões sobre a lógica divina?, pergunta-se nesse livro. Ou, por outras palavras: deixem-se de ilusões, Deus não é feito à imagem do Homem.

Não sei como é que os judeus interpretam as Escrituras. Nem sei se todos interpretam da mesma maneira, ou se há escolas, variações. E como não sei, não me metem medo.

Mas sei de um sacerdote cristão, palestiniano, que foi estudar para uma escola de teologia em Israel, porque queria aprender com os judeus muito mais sobre o Antigo Testamento. Elias Chacour, um homem muito especial.

abrunho disse...

Nao metem medo, mas sao muito anti-sexy. ;)

Helena disse...

Bem, esse argumento agora arrumou comigo!
;-)

abrunho disse...

Nao e' argumento. E' a reposicao da verdade. E' o que penso quando os vejo. Ainda me chamam anti-semita... :)

Helena disse...

Então vá, conto-te um segredo: uma vez resolveram festejar na minha paróquia católica uma festa judaica. Tudo conforme os preceitos. Ao fim de meia hora o meu marido e eu abandonamos o local. Era muito chato...

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