segunda-feira

Certitude

Uma das melhores coisas na Alemanha é a respeitabilidade de se ser honesto. Em Portugal, ser honesto é ser papalvo. Só é roubar tirar de um indivíduo. O Estado é uma árvore que importa pilhar. Quem nao pilha é parvo. O que quer que se faça em Portugal dá sabor amargo, ser honesto e ético é amargo e ser desonesto e nao ético é amargo. Na Alemanha, as pessoas sao rectas e se bem que isto possa ser irritante, quando demasiadas rectas se tornam paralelas ao senso-comum, pelo menos há uma clareza de proposito e de aplicacao. 2+2 sao quatro.

Outra face do prisma portugues, é a capacidade que existe socialmente de ver o cisco nos outros, enquanto a cavaca está espetada num dos olhos.

Há uns dias estive com uns portugueses e depois de se terem queixado da corrupçao, dos interesses, dos nepotismos, passaram á parte em que me contaram as suas pilhagens individuais. Eu nao digo nada, calmamente vivendo a certitude deste espectáculo. Obviamente, eles acham a Alemanha o exemplo a seguir. A minha mae continua a criticar-me a falta de amigos portugueses. Em minha defesa, a certitude cansa-me. A minha quota está completa.

Tenho amigos desonestos, mas eles nao me fazem discursos de padre virgem. Dava um certo jeito para eu suportar os portugueses que acabo por nao conhecer.

P.S.: Os italianos e os portugueses sao aparentados na sua especial lógica.

4 comentários:

Helena disse...

Essa lembra-me um português que conheci na Alemanha. Era comunista, muito anti-imperialista, muito pela igualdade e pelo operariado, mas ia de guia de vinhos na mão roubar o supermercado. Só queria os melhores vinhos, as melhores patés, etc.

Achas os alemães honestos? Tinhas de ver um alemão a contar a um americano os truques que tem para fugir ao fisco, e a cara do americano. Como se o alemão lhe estivesse a contar como é que se assaltam velhinhas na paragem do autocarro.

abrunho disse...

Há de tudo em todo o lado. Mas pelo menos na Alemanha nao te sentes estúpido por seres honesto. Assim, só me sinto mal quando fiz algo mal, o que faz a vida da minha consciencia mais fácil. Em Portugal, podes sentir-te mal das duas maneiras.

Helena disse...

Eu diria que o nível de desonestidade é um bocado diferente. Roubar o fisco com truques legais é aceitável aqui, e não é aceitável nos EUA.

E também há um fenómeno novo, o de sangrar o Estado até ao último cêntimo, mesmo que não se justifique do ponto de vista moral. Há por aí um livro de consulta para pessoas que vivem integralmente da ajuda da Segurança Social, para que elas conheçam os seus direitos e não abram mão de nada. Ficam especialistas, que depois vão viver para a Flórida ou fazer férias no Bali por conta da Segurança Social.
E a sociedade começa a dividir-se entre os que dizem que é uma vergonha e os que acham que se devia criticar os directores das empresas em vez de andar a perseguir a arraia miúda, coitadinhos.

abrunho disse...

Sim, e' verdade. Essa dos truques legais ja' eu vi. E para uma estrangeira como eu, estou aqui a pensar que conheco um par de marmanjos que nao vao para a Florida, mas andam a abanar o capacete sem ter a mota. Tenho que perguntar frequentemente pelo novo emprego, a ver se se envergonham.