terça-feira

adeus

Trabalho junto a um arranha-céus e de tempos a tempos alguém suicida-se dali. Hoje pela primeira vez ouvi o grito do suicida. Eu senti a necessidade de colocar importância nos meus sentimentos, de não abanar a mão em sinal da prática inutilidade de mim. É nestes momentos que a religião faz falta, como cerimonial, como repositório de atos significantes. Mas como sou ateísta vim para aqui escrever a minha vontade de assinalar: hoje alguém decidiu morrer onde eu o ouvi e eu queria de alguma qualquer forma poder mandar um adeus.

4 comentários:

Helena disse...

Mandar um adeus, ou uma rede?
É muito triste.

abrunho disse...

Contaram-me que na Formosa há um edifício (ou vários) em que colocaram redes ä volta.

Neste caso em particular fala-se sempre pelos corredores em controlar as saídas e entradas do edifício ou em cerrar janelas e portadas. Mas isto seria só cosmética.

Helena disse...

Tirada de humor negro: redes para proteger os transeuntes...

Fechar as portas e janelas? É cosmética, sim. Eles vão matar-se noutro lado.

Quase a despropósito: naquele documentário que dois irmãos franceses fizeram, quase por acaso, durante o 11 de Setembro (agora estou sem tempo para ir verificar o nome deles), ouve-se o baque dos corpos a cair no chão. Eles decidiram filmar apenas o trabalho dos bombeiros, e respeitar a dignidade dos mortos, mas o filme todo é atravessado por aqueles "paaam" "paaaam" e daí a nada outra vez "paaam".

abrunho disse...

Eu nao penso que a ideia de retirar a facilidade seja despropositada. Simplesmente para evitar que alguém se mate por impulso. Entre o pensar e o atuar, se houver algo pelo meio, talvez a pessoa chegue á conclusao que tem de pensar melhor. Mas para aqueles que já pensaram muito bem, nem sei se nao será desrespeitoso querer salvar quem nao quer ser salvo.

Nao vi esse filme. Senao fosse o "paaam" anteontem eu nao me teria apercebido. Seria um grito de alguém, uma criancice entre amigos. Contudo, o grito seguido do "paaam" despertou-me. A seguir pela janela confirmei o acontecido (pela actividade da polícia, dos bombeiros e socorristas) e a seguir aquela dúvida do que fazer. Sentar-me novamente e recomeçar a trabalhar parecia-me uma ofensa. Os ateístas também precisam de parar e rezar.