domingo

O direito da escolha

Na Alemanha, quando as crianças tem 10-11 anos, sao escolhidas em termos de potencial, tu tens cabeça para estudar, tu mais pra pedreiro, tu rato de repartiçao e ali sao dirigidas para os futuros que lhes foram decididos almejar. Notem bem, aos 10-11 anos. Eu nessa idade nao tinha a menor ideia de um futuro, vivia na alegria infantil da brincadeira, nao me passava pela ideia ser uma estudante boa, os meus pais nao me pressionavam e se alguém me tivesse dito que eu era boa, no máximo, para cozinheira, eu tinha acreditado. Na Alemanha, se os pais nao estao lá para proteger as suas crianças do Estado, estas estao basicamente lixadas.

Assim, na Alemanha, o Estado processa eficientemente engenharia social. E quando eu vocifero contra isto, os alemaes ficam surpreendidos que eu ache mal. Eu dou-lhes o meu exemplo, o que seria eu na Alemanha com as minhas raizes? E eles respondem que seria cozinheira, mas acrescentam que eu seria feliz. Talvez, talvez eu fosse feliz, quem sabe, como podem eles saber dessa eficiente definiçao aos 11 anos de idade? Mas ainda que fosse verdade, essa felicidade certa prescrita por outros aos meus onze anos de idade, eu sinceramente prefiro um mundo em que eu tenha a possibilidade de escolher a minha própria (in)felicidade. Para mim este é um direito básico de qualquer ser-humano.

P.S.: Eu elimino o meu anterior post-scriptum porque é capaz de ser demasiadamente mauzinho. A Helena acha que isto é uma forma de organização civil. Eu desconfio de uma organização civil que passa pelo Estado.

16 comentários:

underadio disse...

Não fazia a mínima ideia q era assim, aí. Ainda pisquei os olhos p ver se estava a ler bem.
Seisse p esses gajos!

Anónimo disse...

Teria sido capaz de jurar que tal não era possível. Não, não na Alemanha.
De um modo geral não vou muito "à bola" com alemães, mas é-me pacífico que seja preconceito meu. As relações pessoais que tive com 2 não ajudaram nada a melhorar a opinião e parece que sempre encontro mais qq coisa a não me deixar mesmo mudar de opinião. :-(

Alexandra (Coimbra)
xana2000_2000@yahoo.com

Helena disse...

É um bocadinho mais complexo, não é?
Antes de mais: não concordo com essa divisão - acho uma brutalidade decidir aos 10 anos se uma criança têm capacidade ou não.
Para mim, o modelo ideal é o Jenaplan, em que os miúdos têm de dar o máximo de que são capazes, mas não são comparados com os outros.

Mas há muita gente nesta sociedade que acha que é importante que os alunos que têm boas capacidades não andem a ser travados pelos mais fraquinhos. Isto não é só o Estado a mandar, são as famílias também a organizar-se como acham que é melhor.

Uma amiga minha pôs uma das filhas propositadamente numa escola menos exigente, porque achava que o Gymnasium provocaria demasiado stress à miúda. Agora, 5 anos mais tarde, a miúda - que passou todo este tempo a aprender descansadamente - resolveu fazer um esforço suplementar e passar para o Gymnasium.

A minha cunhada, que é professora numa dessas escolas para os alunos "sem cabeça para estudar" diz que o ambiente lá é muito mais descansado, e que acha um crime os pais obrigarem os filhos a irem para o Gymnasium custe o que custar.

Mas por outro lado há pais que não querem os filhos num ambiente de estudo mais leve.

Em suma: não é só o Estado, isto é mesmo a sociedade politicamente organizada.

Quanto à história dos alemães: acho que estás a exagerar. Diz-me um país onde não haja "turmas de bons alunos", escolas de elite, etc.

abrunho disse...

O que a mim me preocupa sao as crianças que nao têm pais que se preocupem com elas ou pais que nao tenham a capacidade de se impôr aos professores e que lhes é "dito" a tua capacidade é esta. É isto que a mim me faz espécie. Quantas crianças têm nesta idade a segurança pessoal para pensar que os professores não têm a razão? Pergunto.

Uma criança "boa" se tiver uma biblioteca e outros materiais não precisa assim tanto dos professores para avançar. É uma questão de a deixar avançar e dar-lhe guias enquanto que aos outros dá-se-lhes mais apoio. Acho essa dos fortes com os fraquinhos uma melhor solução, do que numa idade tão precoce, dizer a alguém "não és capaz". Acho isto violento, porque não há desta pequena pessoa capacidade de resposta.

abrunho disse...

Acho que é um pouco diferente turmas de bons alunos, do que escolas de bons alunos. É um nível de separação muito diferente. Eu andei numa turma de bons alunos, mas chama-me estúpida, só dei conta disso mais tarde. Eu na altura só achei muito azar meu estar na turma dos betinhos. Nos intervalos tentava estar com a minha melhor amiga, que tinha ficado noutra turma. Mas nenhuma de nós se deu conta do que realmente tinha acontecido, pelo que nenhuma de nós ficou com ideias parvas sobre as nossas potencialidades. Hoje, eu acho que ela é melhor que eu, mais responsável. Se tivessemos ido para escolas diferentes, ela teria ido para a Universidade? De certeza não tinhamos continuado amigas. Os meus amigos iam ser os betinhos! bleehhh

Helena disse...

Não me digas que estava escrito nas estrelas? O teu destino é ser betinha, e não reparaste?! ;-)

Eu acho terrível juntarem numa turma miúdos a quem, aos 10 anos, foi dito: "vocês vão ser falhados".
Claro que não é assim que se diz, mas é assim que eles sentem. Muitos professores dessas escolas desistem, porque não é possível trabalhar com um grupo que foi assim carimbado tão cedo.
Uma tragédia.
Por outro lado, tens os interesses dos pais dos outros, os "melhores" - querem que os filhos aprendam o mais possível, em vez de andarem a ser travados por aqueles. Acho que "ser travado" é uma palavra chave nesta problemática.
A gente pode falar da dimensão social, e dizer que os alunos não vão à escola apenas para aprender matemática e tal, mas para afinar a sua competência social - pois sim! estes pais querem que os filhos deles façam uma carreira escolar brilhante, em vez de perderem tempo com "associais". Pois...
Pior ainda: as escolas dos "bons" são uma espécie de privilégio. Quem não se portar bem (quem for indisciplinado, por exemplo) corre o risco de ser expulso. Já ouvi tanto adultos como crianças dizerem em relação a miúdos que têm problemas comportamentais: "ele que vá para uma escola dos da sua laia!"

Estamos aqui, estamos no Japão. Com as mães a ensinar letras e aritmética aos filhos ainda em gestação...


***

Na escola primária dos meus filhos uma mãe protestou por o filho não ter sido enviado para o Gymnasium. Dizia ela que estava a ser vítima da situação familiar (os pais eram emigrantes, de um país asiático). Com um argumento destes consegues imediatamente pôr a tua criança na escola que quiseres.
O problema, dizia-me a professora, é que o miúdo não tinha realmente capacidade para o Gymnasium. Falta de concentração, falta de capacidade de abstracção, etc.
Partindo do princípio que a professora tinha razão: os pais preocupam-se, forçam, põem o filho numa via de ensino muito mais stressante. Será que realmente lhe prestaram um bom serviço?

Conheço vários miúdos que só conseguem acompanhar o ritmo do Gymnasium à custa de Ritalina. Não sei se é grande ideia dopar as crianças para as pôr a render mais do que elas conseguem.

***

Se me deixassem mandar (hehehe) fazia assim: apenas dois níveis (em vez de três) diferentes de ensino, sendo que o mais fácil seria entendido como "mais fácil, com a possibilidade de a qualquer momento passar para o mais difícil, desde que o aluno tenha interesse em passar a um ritmo mais puxado e esteja disposto a recuperar o atraso".
E aumentava a rede de escolas Jenaplan. Pronto.

abrunho disse...

Eu acho muito perigoso achar que o sucesso académico significa sucesso na vida. Tenho exemplos do contrário. Eu tenho um amigo que tem um currículo académico de deixar os olhos em bico. E não falo do liceu, falo da Universidade. Como adulto, ele é incapaz de funcionar. Demorei a perceber o que por ali ia, mas penso que enquanto estudava, o domínio do saber estava limitado pelos professores. Ensinaram-lhe o que já está provado, pois claro. Contudo, o mundo não é assim, é rápido, é muita informação e ele não consegue traçar os limites e aceitar a impossibilidade da perfeição. É extremamente complicado fazê-lo aceitar a vida tal como ela é. Quando penso que o convenci, pois, não convenci. Eu própria tenho os meus problemas, se bem que nada como ele. Mas esta impossibilidade de abarcar o mundo pode ser complicado de aceitar.

underadio disse...

Ainda bem q vos venho ler. Tendo a inclinar-me mais para ter uma opinião similar à da Abrunho. Eu própria fui uma miúda sempre,ao longo do secundário, em Portugal,inserida na turma dos "melhores" e, ainda hoje, penso q, se assim não tivesse sido, não teria conseguido tirar um curso superior. Mas também compreendo as afirmações da Helena; afirmações q me parecem mais práticas e resolutas mas ainda assim pq me deixam aquela sensação de:"pq temos de fazer alguma coisa" e "isto não é assim tão complicado". São precisas pessoas e acções, compreendo.Ou acho q compreendo.
Contudo, é como a Abrunho diz e bem: "o mundo não é assim".
Já adulta e no Politécnico e na Universidade eu escolhi o meu caminho mas escolhi-o mal. Mas poderei sempre dizer q tive a liberdade de errar, pq de facto tive-a.Mas importa dizer q no 9º ano houve uma professora de história q me disse para não ir p história pq iria p o desemprego.Eu era, a par com uma amiga, a melhor aluna dela e adorava história. E pq uma psicóloga q avaliou as minhas apetências me disse algo assim meio abstracto como: "olhe escolha trabalhos ao ar livre ou qq coisa ligada à música".Ela queria dizer algo onde não me controlassem mt e o q ela não sabia é q eu não tinha talento nenhum p a música, gostava era mt de música. Enfim, mas ainda, ontem, cá em casa, estive a falar com os meus primos q têm um miúdo de 17 anos e vivem na Holanda sobre isto q vocês abordaram e fiquei aliviada por saber q aqui tb não controlam de forma tão peremptória as vocações das crianças e q os pais e crianças podem ir escolhendo o q se lhes parecer melhor.
E isto pode mesmo ser assim: «eu acho muito perigoso achar que o sucesso académico significa sucesso na vida».

Rita Maria disse...

O problema maior é que estudar e usufruir de um bom sistema de ensino nao é só uma questao de futuro. O que uma sociedade (organisada num Estado ou organizada numa Filarmónica de bairro) que divide criancas pequenas de acordo com o seu potencial intelectual está a dizer é que aquilo que investe nelas tem de “valer a pena”.

E decide o que vale e o que nao vale: preciso de um advogado que tenha estudado Filosofia na juventude? Ah, e tal, dá jeito, até. Preciso que uma cozinheira se tenha preocupado com o existencialismo? Nao, ela nem ia gostar, ia ser uma seca para ela, e nao precisamos de que as cozinheiras tenham pensamentos filosóficos.

Isto é grave porque desiste das criancas antes mesmo de elas dessistirem delas próprias (o que nao tardará a chegar) mas é grave acima de tudo pela reducao de um ser humano à sua profissao futura, avaliada ainda por cima de acordo com critários cuja falibilidade nem me atrevo a imaginar.

Eu tive colegas de faculdade burrinhas, que só cantavam a lengalenga do tanta-teoria-para-nada e que de certeza tinham gasto o secundário a cantar a lengalenga nunca-vou-precisar-disto-que-eu-sei. Muitas nunca hao-de fazer profissionalmente aquilo para que estudaram e continuarao a achar que aquela teoria toda nao serviu de nada.

E se calhar nao serviu, mas eu, na minha, acho que contribuiu para as tornar mais activas e ágeis intelectualmente, que lhes deu capacidade crítica e que as tornou melhores pessoas e melhores cidadaos. O que é, a meu ver, o objectivo PRINCIPAL de uma educacao, especialmente se ela for financiada com os meus impostos. Formar cidadaos, de corpo inteiro, nao apenas profissionais. Gente que depois possa votar, por exemplo.

Aliás, mesmo do ponto de vista economicista de educar as criancas para profissoes, esta versao alema é uma tristeza: os alemaes ainda nao perceberam, mas o sistema económico actual nao dá hipótese nenhuma a alguém que tenha terminado com muito sucesso o curso de aprendiz de pintor para paredes irregulares às bolinhas.Pelo contrário, exige-nos flexibilidade, agilidade, capacidade crítica e de aprendizagem. Logo, mesmo de uma perspectiva economicista, um sistema que nos dá só aquilo que acha que conseguimos carregar e que poderemos precisar está a fazer um erro crasso.

Helena disse...

Vá lá: o sistema não decide se uma criança de 10 anos vai ser professor universitário ou cozinheira. O sistema (os professores da escola primária) observam os miúdos e avaliam: este tem pedalada para trabalho intelectual, este tem mais inteligência prática.
Pode ser que se enganem. Também pode ser que a inteligência prática e a inteligência abstracta dependam por exemplo da quantidade de livros que se tem em casa e do tipo de impulsos que se recebe dos pais. Não vou discutir isso.

Por outro lado, também conheço filhos da "elite" que gostavam era de ser electricistas, ou artista de circo, e não os deixam. Ou deixam, os pais mais descomplicados deixam.

Não acredito que Gymnasium seja sinónimo de "flexibilidade, agilidade, capacidade crítica e de aprendizagem" (vejo-o mais como mata-touros, enfardar conhecimentos, disciplinar os alunos - a matéria é tanta, que ninguém consegue pensar, é só a enfardar, a esquecer, a enfardar, a esquecer). E que Realschule seja o contrário ou apenas uma pequena parte desse ensino para a flexibilidade, etc.

Não acho o sistema alemão muito bom - sobretudo aquela espécie de chumbo para a vida que pespegam aos miúdos de 10 anos.

Comparativamente, o que é que temos em Portugal? Um ramo de ensino único para todos, onde uma parte dos alunos anda desmotivada, porque não consegue acompanhar e não vê a necessidade de aprender aquilo. O sistema põe toda a gente no "Gymnasium", e depois vê-se o sucesso do modelo nas taxas de abandono da escola antes do 9º ano.
Como é que isso se resolve: com explicações e sessões de motivação? ou tentando criar um ramo de ensino que vá de encontro às suas necessidades e capacidades?

Não sei.
Só sei que gosto muito da Jenaplan (eu sei que me estou a repetir): cada um aprende tanto quanto consegue. Ninguém é obrigado a avançar ao ritmo dos outros.

Rita Maria disse...

Eu estudei num Gymnasium e foi uma experiência muito positiva. Nao me lembro de ter enfardado nada e decorar só mesmo para as aulas de Biologia, que eram dadas pelo programa Português que era infinito.De resto a escola fomentou as minhas noçoes de liberdade, pensamento crítico e, infelizmente também, um bocado de lata e uma convicçao de que também pode correr bem com metade do esforço. E sim, era uma escola exigente e puxavam por nós, mas acho que só nos fez bem.

Quanto a nós todos, havia mais burros e menos burros e nao me parece que isso complicasse a vida a ninguém. Aliás na vida há-de ser assim para sempre: terá sido assim na escola primária dos meninos protegidos que vao para o Gymnasium e voltará a ser assim mal eles saiam para o mercado de trabalho.

Logo, por uns anos alguém convence os meninos de que sao umas inteligências (e funciona, uns anos depois ainda contam histórias dos seus tempos do Gymnasium como se tivessem sido tempos de intensíssimo trabalho intectual) e elevam-nos da plebe para depois os voltarem a deitar às cobras, das quais se sentirao superiores. Conheço muitos, andarao a vida nisto orgulhosos do seu carimbo.

Nao basta falar dos erros que este sistema produz (e eu conheço uns quantos, tanto para um lado como para o outro) nem da sua imensa arbitrariedade. Eu também nao disse que o Estado manda alguém ser cozinheira, o que disse foi que a educa em funçao dessa tese e como se ser cozinheira fosse o objectivo daquele cidadao. Mas nao é porque, mesmo imaginando que ela vai ser cozinheira, mas também ser cidada, amiga, vizinha, mae, inimiga ou apoiante de alguém.

Esta é para mim a questao essencial: o que o ensino deve fazer é formar pessoas, de corpo inteiro. Nao acredito nem em decidir do futuro de uma criança de 10 anos nem na profissionalizaçao de jovens de 16. Nao quero voltar sempre ao mesmo exemplo, mas só mais uma vez: devemos formar cidadaos votantes que nao tiveram noçoes básicas de história, por exemplo?

Acredito num ensino obrigatório que forme cidadaos informados e pessoas felizes. Em Filosofia, Matemática, Literatura e por mim até Desporto e Electrotécnica, a cada um conforme as suas capacidades, vontades e necessidades, de acordo com o seu próprio juízo, sem nunca escapar a disciplinas essenciais. Num sistema em que aproveitemmos a curiosidade natural da adolescência e a vontade de fundar uma personalidade para lhes darmos nao só conhecimento mas também capacidade crítica. Em que aprendam nao só a ter boas notas mas também que somos todos diferentes, com capacidades diferentes, que lhes trannsmita o princípio básico da solidariedade.

Quanto à profissionalizaçao, que se ocupen dela depois universidades e escolas profissionais.

Acho que descobrir como pode ser esse ensino nao passa por comparar Portugal com a Alemanha. Os resultados deste sistema alemao, que aliás muito poucos outros países adoptam, sao claros em estudos mais do que suficiente. O sistema reproduz um elitismo de base ad eternum, garantindo sempre o seu sustento.

Talvez o Jenaplan seja um bom princípio, ainda nao sei. Mas que este sistema alemao contraria o que eu acho que uma escola deve fazer, lá isso é verdade. E nao acho que qualquer uma outra separaçao resolvesse o problema.

abrunho disse...

Eu quando escrevo cozinheira e rato de repartiçao estou a forçar o argumento...

Eu também nao concordo com o sistema portugues porque de novo atrofia a escolha. A mim nao me atrofiou porque eu queria ir para a Universidade, mas sim, é um sistema que está voltado para um mesmo canal e isso nao é bom. O que eu acredito é em dar, o máximo possível, a liberdade de escolherem a sua vida e os seus interesses aos seus estudantes. Quando tinha catorze anos, no início do nono ano, informaram-nos que no ano seguinte teriamos que escolher a área de ensino, e que aqueles que pensavam que precisavam de ajuda podiam procurar a psicóloga. Eu fui e nao sei se realmente me ajudou na escolha da área vocacional, porque no fim foi só uma questao de decidir que as disciplinas que gostava estavam ligadas á ciencia, mas foi ótima aquela nova ideia para mim de poder escolher, estar na minha mao. Foi altamente. Nunca me esqueci daquele primeiro momento de dar-me conta que havia possibilidades, que a minha vida estava na minha mao e que poderia pedir ajuda. Foi retumbante. Pode parecer ingénuo, mas sinto que a vida faz-se destes momentos de descoberta de coisas simples e que se calhar ninguém se dá conta que é preciso ensinar. Foi uma liçao importante e ninguém se deu conta que ma estavam a ensinar.

Outro ponto é que para mim uma das funçoes da escola é formar cidadaos. Assim, as escolas devem ser integradas, serem um espelho da sociedade em que se vai viver, com os lentos e os rápidos, as várias religioes, as várias culturas, tudo junto a aprenderem-se. Sou contra qualquer forma de separaçao, que forme grupos, porque estes vao ser transportados para a sociedade em geral. Depois nao se queixem quando há intolerancias, racismos, antis vários e por aí fora. Para mim é tao óbvio que tudo isto começa e pode acabar nas escolas.... Nao quero chamar ninguém lento, mas estao-me a tornar a tarefa dificil.

Em Portugal, se o meu liceu tivesse tido uma biblioteca, eu diria que foi perfeito. Tive tempo para tudo, para aprender as minhas coisas, ver dos meus interesses e perder tempo. Se calhar, a única falha foi alimentar a minha preguiça. Apanhei um susto quando cheguei á Universidade, mas sobrevivi.

Rita Maria disse...

Acho que esta perspectiva é interessantes, mesmo se nao tem nada a ver com Portugal nem com a Alemanha!

abrunho disse...

Mein Gott! Esta perspectiva é pior que a alema ou a portuguesa! É pôr o sistema de pernas para o ar, em que a escola nao está para o aluno, mas o aluno para a escola!

Eu, em Dezembro, li este texto: http://www.newyorker.com/reporting/2008/12/15/081215fa_fact_gladwell?currentPage=all
Nao é tanto sobre escolher alunos, mas professores. Nao está diretamente ligado ao problema deste poste, mas para o caso de terem perdido este deveras interessante artigo, aproveito esta oportunidade.

Rita Maria disse...

É como quem diz: eu acho que tanto na Alemanha como em Inglaterra, os resultados vao dar ao mesmo: tens dinheiro, vais parar a uma boa escola, nao tens, vais para cozinheira (isto simplificando muito as coisas, claro ;))

abrunho disse...

Eu vejo uma diferença de intençao, que para mim é crucial. Na Alemanha escolhem-se os melhores alunos para depois potenciá-los, em Inglaterra escolhem-se os melhores alunos para a escola ser boa.

Na prática, é verdade que os melhores alunos vem normalmente das famílias com mais posses, pois sao estas que oferecem estímulo em casa. A escola pode até nao ter capacidade de mudar o escalonamento social, mas nao devia fixá-lo, que é o que acontece nos sistemas ingles e alemao. Seria preciso ir ver as escolas a funcionar para "desempatar" no desempenho.