quinta-feira

Olho por olho, dente por dente

Quando li este poste (e já agora, se anda por aqui perdido, sou ateia), pensei, tanto burburinho por nada. Porque a não ser que me esfreguem as coisas no nariz, se me derem a amplitude para eu ignorar, eu estou na minha onda, vive e deixa viver. O cardeal patriarca falou quinze minutos na RTP1, no dia 24 de Dezembro. Pude ignorar? Pude. Ok, cardeal fala. Mas depois parei, porque eu não o ignorei. Porque da forma que falou, ele ofendeu os ateus. Portanto, não me chateou que o cardeal tenha falado, chateou-me a sua atitude. Não só ele usa um espaço privilegiado na estação pública, mas ele tem o topete de pensar que ele tem direito a ele e de o usar para denegrir parte das pessoas a quem aquele espaço pertence. E é isso que chateia. A mim não me chateiam as cruzes, a mim chateia-me que as pessoas para quem as cruzes são importantes, achem que têm o direito de as impingir aos outros. O que assusta o cardeal patriarca é que nós possamos vir a ser a maioria e que possamos ser tão arrogantes quanto ele e as suas ovelhas. O que o senhor cardeal patriarca deveria saber é que eu não me importaria nada de os deixar pôr cruzes onde querem ou ele falar na televisão pública, mas que quando ele se arma ao pincarelho com os ateus, eu apoio quem acha que devemos impôr limites rígidos. Porque se não me toleram a mim, porque é que eu os hei-de tolerar a eles?

11 comentários:

underadio disse...

Esta última frase com q terminas o post não tem parado de ecoar na minha mente, uma e outra vez, não só a propósito deste patriarca em causa, como de outros "patriarcas"...
Compreendo perfeitamente a tua irritação. Devo precisar mto, mto mesmo, de praticar a paciência, a tolerância e por aí adiante...

Helena disse...

Mas qual veio primeiro: o ovo ou a galinha?
Já agora: porque é que andou por aí um "autocarro ateu"?
Provavelmente era esse tipo de episódios que ele estava a comentar.
A Igreja tem um passado muito pesado, é certo. E mesmo após o Vaticano II vai fazendo das suas, e muito graves, é certo.
Mas, hoje em dia, a quem é que ela faz sombra?
Para que é preciso organizarem um autocarro ateu na Europa?
E porque é que ficam tão chateados se depois alguém da Igreja vem dizer "olhem, tenham paciência, mas a existência de Deus não depende de vocês" ou "não percebo porque é que fazem tanto alarde da vossa condição de ateus".

abrunho disse...

Porque estamos fartos da suposição de que não existimos, de que somos o branco da sociedade. O mais grave é quando os religiosos se juntam e decidem que são os garantes da moral. Acho que é uma saída do armário e como queremos ser notados, acaba por ser exagerado. É um bocado à gay. Nós existimos e agora vamos pôr penas na cabeça, dançar à vossa frente e têm de nos gramar como nós vos gramamos a vós.

Helena disse...

Vá, os religiosos juntam-se e decidem que são os garantes da moral deles. Os da maçonaria fazem o mesmo (é o que me disseram, que eu ainda não percebi nada desse grande perigo que existe em Portugal). E ninguém vos impede de existir e afirmar.
Mas se têm um ataque de sair por aí a menear as penas, não se queixem se as pessoas disserem "ai que penas tão despropositadas!"

Helena disse...

Muitocápranósmente, Abrunho: quem achas que apanha mais no espaço público português: a Igreja ou os ateus?

abrunho disse...

Eu acho que estás a precisar de um dia a ser ateu em Portugal. Porque não vês. Eu não posso mostrá-lo. Um religioso tem sempre o direito de expressar a sua opinião. Um ateu está a faltar ao respeito ou a ir contra a tradição. Nunca se está a faltar ao respeito a um ateu. Por exemplo. Os religiosos podem fazer marchas e é a sua tradição e as suas marchas nunca, mas nunca são ridículas (oops, ateu a faltar ao respeito). Se os ateus resolverem pôr frases num autocarro com dizeres, que é a coisinha mais inócua que se possa imaginar, são obviamente uns ridículos. Um ateu tem de argumentar, um religioso só tem que dizer que é a vontade de Deus e fecha a discussão. E pode fazê-lo sem parecer idiota, porque é religioso. Se fores mãe e pai ateu, tens de passar a vida a justificar porque é que decidiste condenar as tuas crianças.

Nós temos o direito de existir. Mas temos também o dever de explicar a nossa existência. É justo este dever?

Helena disse...

Provavelmente cada uma de nós está cega do olho que lhe dói mais.
A sério.
Tu achas difícil ser ateu em Portugal. Eu acho difícil ser católico em Portugal.
Provavelmente temos ambas razão.
Isto vai por aqui uma crise...
;-)

abrunho disse...

Porque é difícil ser católico em Portugal?

Difícil também não. Difícil seria se os religiosos fossem fundamentalistas e não são. É irritante.

Helena disse...

"Ser católico" é talvez a expressão errada. "Afirmar-se católico" é mais correcto.
Do mesmo modo que não custa ser ateu, o que é chato é afirmar-se ateu.
No espaço público, ambos os grupos estão tramados. Ou pior: um trama o outro. Um jogo de espelhos.

Queres um exemplo? Um pessoa diz que é contra o aborto porque acredita que desde o princípio se trata de um ser humano, e não de duas ou três células, e o pessoal à volta (se não forem todos católicos) desata a fazer chacota e a insinuar que essa pessoa vendeu a alma ao Vaticano - o que, por definição, é mais ou menos o mesmo que vender a alma ao diabo.

Queres um exemplo bem mais grave? Um bispo espanhol disse umas grandes enormidades sobre o Haiti. O blogue onde se falou disso em tom muito crítico publicara uns posts antes interpretações de outras religiões sobre catástrofes daquele género. No meu entender, igualmente ofensivas para o sofrimento de quem perdeu familiares e tudo o que tinha. Mas se vem dos budistas ou dos sei lá quem, ninguém diz nada. Se vem dos católicos, alto e pára o baile.

abrunho disse...

Eu acho o primeiro exemplo mais grave. É um desrespeito desargumentar dessa forma. Além disso, supostamente os ateus podem argumentar, os católicos é que se escondem. Fico desapontada com a minha gente. :)

Eu acho o segundo exemplo menos grave por duas razões: porque foi num blogue, pelo que podes ignorar; porque se se vai atacar religiões, ataca-se a que se conhece melhor. Tu podias ver pelo prisma positivo: ninguém quer saber dos budistas, mas os católicos falam, o pessoal ouve (faço aqui o mea culpa). :)

Helena disse...

Eu estava a dar exemplos sobre a dificuldade de se afirmar católico.
Por isso acho o segundo exemplo tão grave: se pessoas de outra religião disserem o mesmo ou pior, ninguém se chateia. A não ser que a outra religião seja o Islão, claro. Esses ainda apanham mais que o João César das Neves.
;-)