sábado

Os corpos indefesos

Li que está em Portugal a exposição dos corpos humanos. Eu vi essa exposição quando vim viver para Hamburgo, já há uns anos. A minha maior preocupação era que eu me desmelinguisse, já que as minhas capacidades para ver carne viva ou ossos descarnados não é famosa. A parte ética também me ocupava os pensamentos, mas sem certezas se realmente os rumores eram verdadeiros e crendo que dar o corpo para o conhecimento é um destino mais bonito que alimentar uma data de bichos, esta parte adormeceu. E lá fui. A exposição é interessante e aprende-se, contudo pareceu-me que essa aprendizagem é perfeitamente conseguida sem utilizar realmente corpos humanos (o mais pedagógico pareceu-me até uma secção somente com órgãos, uns doentes e outros saudáveis). Pelo que acabei incomodada. Quando já estava incomodada, entrei na parte da exposição em que não há nada de novo e então é exibição pura. Ter um esqueleto e músculos na pretensão de jogar basquetebol não acrescentava nada; ou olhar para mais dois cadáveres na posição de jogar xadrez só me levou a pensar nos escalpeladores e desconfiar da sua única intenção de demonstrar virtuosismo na técnica utilizada para criar aquelas cenas. Os corpos eram uma fonte lúdica e não de conhecimento. Eu saí da exposição desconfortável e triste naquela parte de mim que diz que devemos respeito à memória dos que morreram. Eu aconselharia a não ir, por essa parte de nós que vive na memória dos que partiram. Usar os corpos humanos mortos para divertimento parece-me mal. Sem falar de que muitos daqueles corpos vandalizados estão ali porque ninguém estava presente ou porque as pessoas foram impedidas de venerar a sua memória por um cerimonial que é quase tão velho quanto a espécie humana. Há ali um fracasso na nossa humanidade e sociabilidade. Se o fracasso colectivo no mundo deles não fosse suficiente, importamos esse fracasso para nosso divertimento. A utilização do corpo humano para a melhoria dos viventes é um fim nobre, mas aquilo não é nobre. Arrependo-me de o ter visto e espero que a minha tristeza e os meus pensamentos enquanto olhava aqueles corpos, a minha homenagem silenciosa, possa de alguma forma ter lavado a minha dignidade. Mas duvido.

3 comentários:

Luis disse...

Excelente post!

Helena disse...

Não duvides! A tua dignidade transparece limpa nessa homenagem silenciosa e neste texto.

Anónimo disse...

Tb não vejo razão nenhuma para duvidares.
Qd se trata de corpos tudo é mt estranho.