Esta cena dos recordes está-se a tornar macadora. Todos os dias ha um recorde, e depois ha' aqueles recordes que sao ultrapassados todos os dias.
Hoje, 3 de Setembro de 2007, outro minimo na cobertura de gelo no Polo Norte. Nunca mais comeca o Inverno. E depois? Havera' outro recorde que os nossos satelites pronunciarao. E mais outro e mais outro e mais outro e mais outro...
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terça-feira
sábado
Culpas
(...)
Quem pagará pelos efeitos trágicos de um clima a aquecer? Não serão os líderes políticos e os empresários que mencionei. Se ultrapassarmos o ponto crucial e as tragédias causadas pelas alterações climáticas começarem a desenrolar-se, a história julgará severamente os cientistas, os jornalistas, os interesses especiais e os políticos que falharam em proteger o planeta. Mas, no final, serão as nossas crianças a pagar o preço.
Os EUA têm uma pesada responsabilidade legal e moral no que está a acontecer. De todo o CO2 emitido a partir de combustiveis fósseis, desde sempre, somos responsáveis por quase 30%, uma quantidade muito maior da emitida pelos países seguintes na lista de poluidores, a China e a Rússia, cada um a contribuir com menos de 8%. Contudo, a nossa responsabilidade moral e legal pode ser ainda maior do que os números sugerem. Os EUA não podem com validade clamar ignorância das consequências. Quando nações tiverem que abandonar partes significativas dos seus territórios, qual será a nossa responsabilidade legal? E será que as nossas crianças, como pessoas adultas no mundo, terão de arcar com o peso da culpa, tal como os alemães depois da II Guerra Mundial, por muito injusta que seja uma culpa herdada?
(..)
Excerto do artigo "The threat to the planet" de Jim Hansen na New York Review of Books, 13 Julho de 2006.
Quem pagará pelos efeitos trágicos de um clima a aquecer? Não serão os líderes políticos e os empresários que mencionei. Se ultrapassarmos o ponto crucial e as tragédias causadas pelas alterações climáticas começarem a desenrolar-se, a história julgará severamente os cientistas, os jornalistas, os interesses especiais e os políticos que falharam em proteger o planeta. Mas, no final, serão as nossas crianças a pagar o preço.
Os EUA têm uma pesada responsabilidade legal e moral no que está a acontecer. De todo o CO2 emitido a partir de combustiveis fósseis, desde sempre, somos responsáveis por quase 30%, uma quantidade muito maior da emitida pelos países seguintes na lista de poluidores, a China e a Rússia, cada um a contribuir com menos de 8%. Contudo, a nossa responsabilidade moral e legal pode ser ainda maior do que os números sugerem. Os EUA não podem com validade clamar ignorância das consequências. Quando nações tiverem que abandonar partes significativas dos seus territórios, qual será a nossa responsabilidade legal? E será que as nossas crianças, como pessoas adultas no mundo, terão de arcar com o peso da culpa, tal como os alemães depois da II Guerra Mundial, por muito injusta que seja uma culpa herdada?
(..)
Excerto do artigo "The threat to the planet" de Jim Hansen na New York Review of Books, 13 Julho de 2006.
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domingo
Diminuir as emissões de CO2
(...) Existem dois grandes obstáculos para atingir o objectivo de diminuir as emissões de CO2: a enorme quantidade de veículos que processam ineficientemente o combustível e a continuação da emissão de CO2 pelas centrais térmicas. Os produtores de automóveis opõem-se a normas de eficiência e publicitam com proeminência os carros mais potentes e pesados, que originam os maiores lucros a curto-prazo. As companhias de carvão pretendem que novas centrais térmicas a queimar carvão sejam construídas brevemente, assegurando assim os lucros a longo-termo.
A legislatura da Califórnia passou uma regulamentação requerendo a diminuição em 30% das emissões de gases com efeito de estufa por veículos até 2016. Se esta regulamentação fosse adoptada a nível nacional, iria levar à poupança de 150 mil milhões de dólares na importação de petróleo. Em 35 anos, ter-se-ia poupado 7 vezes o que os Serviços Geológicos dos EUA [US Geological Services] estimam que exista no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Árctico [Arctic National Wildlife Refuge]. A lei da Califórnia encontra-se bloqueada devido à acção em tribunal interposta pelos produtores de automóveis e pela administração Bush. Muitos outros estados esperam o resultado, preparados para a adoptar. Mais reduções nas emissões seriam possíveis através da adopção de tecnologias agora em desenvolvimento. Por exemplo: brevemente estarão disponíveis carros híbridos com baterias maiores e a possibilidade de se ligarem a tomadas de parede; carros com a carroçaria feita de compósitos leves de carbono levariam a um menor consumo por quilómetro.
Para que as centrais térmicas cumpram os objectivos do cenário alternativo*, a sua construção deverá ser adiada até que novas tecnologias de captura e sequestração de CO2 possam ser operacionalizadas. Até lá, os novos requisitos em electricidade deverão ser cumpridos através de energias renováveis, como a eólica ou, também, a energia nuclear e outras fontes que não produzam CO2. Através da melhoria das normas de eficiência energética em edifícios, na sua iluminação e na eficiência dos aparelhos eléctricos, muito poderia ser feito na limitação de emissões. Estas melhorias estão totalmente ao nosso alcance, mas só uma forte liderança as poderiam pôr em prática. A tomada de acção mais eficiente, como eu já referi, seria o aumento gradual de uma taxa sobre o carbono, que poderia representar uma receita neutra ou cobrir parte dos custos da mitigação dos efeitos das alterações climáticas. (...)
Excerto do artigo "The threat to the planet" de Jim Hansen na New York Review of Books
* Um cenário é um conjunto de suposições, com base nas quais se intentam previsões. O cenário alternativo neste texto é aquele que considera que as emissões de CO2 estabilizam na actual década, diminuem lentamente nas décadas subsequentes e pela metade do século diminuem rapidamente com a ajuda de novas tecnologias. O outro cenário é o de "negócios-como-sempre" e está explicado num outro excerto do mesmo texto, que eu postei anteriormente.
Tradução minha
A legislatura da Califórnia passou uma regulamentação requerendo a diminuição em 30% das emissões de gases com efeito de estufa por veículos até 2016. Se esta regulamentação fosse adoptada a nível nacional, iria levar à poupança de 150 mil milhões de dólares na importação de petróleo. Em 35 anos, ter-se-ia poupado 7 vezes o que os Serviços Geológicos dos EUA [US Geological Services] estimam que exista no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Árctico [Arctic National Wildlife Refuge]. A lei da Califórnia encontra-se bloqueada devido à acção em tribunal interposta pelos produtores de automóveis e pela administração Bush. Muitos outros estados esperam o resultado, preparados para a adoptar. Mais reduções nas emissões seriam possíveis através da adopção de tecnologias agora em desenvolvimento. Por exemplo: brevemente estarão disponíveis carros híbridos com baterias maiores e a possibilidade de se ligarem a tomadas de parede; carros com a carroçaria feita de compósitos leves de carbono levariam a um menor consumo por quilómetro.
Para que as centrais térmicas cumpram os objectivos do cenário alternativo*, a sua construção deverá ser adiada até que novas tecnologias de captura e sequestração de CO2 possam ser operacionalizadas. Até lá, os novos requisitos em electricidade deverão ser cumpridos através de energias renováveis, como a eólica ou, também, a energia nuclear e outras fontes que não produzam CO2. Através da melhoria das normas de eficiência energética em edifícios, na sua iluminação e na eficiência dos aparelhos eléctricos, muito poderia ser feito na limitação de emissões. Estas melhorias estão totalmente ao nosso alcance, mas só uma forte liderança as poderiam pôr em prática. A tomada de acção mais eficiente, como eu já referi, seria o aumento gradual de uma taxa sobre o carbono, que poderia representar uma receita neutra ou cobrir parte dos custos da mitigação dos efeitos das alterações climáticas. (...)
Excerto do artigo "The threat to the planet" de Jim Hansen na New York Review of Books
* Um cenário é um conjunto de suposições, com base nas quais se intentam previsões. O cenário alternativo neste texto é aquele que considera que as emissões de CO2 estabilizam na actual década, diminuem lentamente nas décadas subsequentes e pela metade do século diminuem rapidamente com a ajuda de novas tecnologias. O outro cenário é o de "negócios-como-sempre" e está explicado num outro excerto do mesmo texto, que eu postei anteriormente.
Tradução minha
quarta-feira
Um rabo quieto hoje, outros rabos molhados amanhã
(...) Eu acredito que a maior ameaça para os seres humanos criada pelas alterações climáticas é a potencial desestabilização das enormes placas de gelo da Gronelândia e da Antártida. Por razões práticas*, tal como a extinção das espécies, a desintegração das placas de gelo é irreversível. Os nossos filhos, netos e muitas mais gerações terão de arcar com as consequências das escolhas que nós faremos nos próximos anos.
O nível do mar é primariamente o resultado de alterações no volume das placas de gelo e logo de modificações na temperatura global. Quando o planeta arrefece, as placas de gelo aumentam sobre os continentes e o nível do mar desce. Reversamente, quando a Terra aquece, o gelo derrete e o nível do mar sobe. A autora Elizabeth Kolbert conta no livro "Field Notes from a Catastrophe" [Notas de Campo de uma Catástrofe], do trabalho dos cientistas a tentarem perceber a aceleração do derretimento dos gelos e o Al Gore, no seu novo livro e filme "Uma verdade inconveniente", ilustra com gráficos o que poderá significar a subida do nível do mar na Flórida e noutros locais.
As placas de gelo aumentaram e diminuiram à medida que a Terra arrefecia e aquecia durante os últimos 500 mil anos**. Durante as épocas mais frias das idades glaciais, a temperatura média da terra era cerca de 5,5 graus centígrados mais fria que hoje. A maior placa de gelo, com uma espessura de 1,6 km, cobrindo a maior parte do Canadá e Norte dos EUA, emprisionava tanta água que o nível do mar era 120 metros mais baixo que hoje. Os períodos inter-glaciais eram cerca de 1 grau centígrado mais quentes e o nível do mar chegava a atingir mais 5 metros que hoje.
A efectiva subida do nível do mar futura dependerá dramaticamente do aumento dos gases com efeito de estufa, que irão ser determinantes em quanto será o aquecimento global. (...)
De forma a definirmos uma estratégia efectiva para enfrentarmos as alterações climáticas, dois cenários podem ser projectados. No cenário "business-as-usual" [negócios-como-sempre], as emissões anuais de CO2 continuam a aumentar à taxa actual durante, pelo menos, mais cinquenta anos, tal como outros agentes de aquecimento da atmosfera, como o metano, o ozono ou a fuligem. No cenário alternativo, as emissões de CO2 estabilizam na actual década, diminuem lentamente nas décadas subsequentes e pela metade do século diminuem rapidamente com a ajuda de novas tecnologias.
O cenário "negócios-como-sempre" origina um aquecimento global de 3 graus centígrados neste século, enquanto que o cenário alternativo origina um aquecimento de menos de 1 grau centígrado, durante o mesmo período. (...)
Excertos do artigo "The threat to the planet" de Jim Hansen na New York Review of Books
Notas da tradutora (eu):
* Em termos de placas de gelo o resultado é irreversível na dimensão temporal dos seres humanos. O mesmo acontece em termos funcionais na extinção de espécies. Contudo, quando se fala em termos composicionais, a extinção de espécies é irreversível para sempre. A unicidade de cada espécie torna-a irrecuperável.
** Não é que antes o mesmo não tenha acontecido. 500 mil anos é o registo conhecido.
O nível do mar é primariamente o resultado de alterações no volume das placas de gelo e logo de modificações na temperatura global. Quando o planeta arrefece, as placas de gelo aumentam sobre os continentes e o nível do mar desce. Reversamente, quando a Terra aquece, o gelo derrete e o nível do mar sobe. A autora Elizabeth Kolbert conta no livro "Field Notes from a Catastrophe" [Notas de Campo de uma Catástrofe], do trabalho dos cientistas a tentarem perceber a aceleração do derretimento dos gelos e o Al Gore, no seu novo livro e filme "Uma verdade inconveniente", ilustra com gráficos o que poderá significar a subida do nível do mar na Flórida e noutros locais.
As placas de gelo aumentaram e diminuiram à medida que a Terra arrefecia e aquecia durante os últimos 500 mil anos**. Durante as épocas mais frias das idades glaciais, a temperatura média da terra era cerca de 5,5 graus centígrados mais fria que hoje. A maior placa de gelo, com uma espessura de 1,6 km, cobrindo a maior parte do Canadá e Norte dos EUA, emprisionava tanta água que o nível do mar era 120 metros mais baixo que hoje. Os períodos inter-glaciais eram cerca de 1 grau centígrado
A efectiva subida do nível do mar futura dependerá dramaticamente do aumento dos gases com efeito de estufa, que irão ser determinantes em quanto será o aquecimento global. (...)
De forma a definirmos uma estratégia efectiva para enfrentarmos as alterações climáticas, dois cenários podem ser projectados. No cenário "business-as-usual" [negócios-como-sempre], as emissões anuais de CO2 continuam a aumentar à taxa actual durante, pelo menos, mais cinquenta anos, tal como outros agentes de aquecimento da atmosfera, como o metano, o ozono ou a fuligem. No cenário alternativo, as emissões de CO2 estabilizam na actual década, diminuem lentamente nas décadas subsequentes e pela metade do século diminuem rapidamente com a ajuda de novas tecnologias.
O cenário "negócios-como-sempre" origina um aquecimento global de 3 graus centígrados neste século, enquanto que o cenário alternativo origina um aquecimento de menos de 1 grau centígrado, durante o mesmo período. (...)
Excertos do artigo "The threat to the planet" de Jim Hansen na New York Review of Books
Notas da tradutora (eu):
* Em termos de placas de gelo o resultado é irreversível na dimensão temporal dos seres humanos. O mesmo acontece em termos funcionais na extinção de espécies. Contudo, quando se fala em termos composicionais, a extinção de espécies é irreversível para sempre. A unicidade de cada espécie torna-a irrecuperável.
** Não é que antes o mesmo não tenha acontecido. 500 mil anos é o registo conhecido.
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sexta-feira
Se tiverem perguntas nao me importo de responder
Eu só nao faço isto mais amigo, porque me dá seca explicar tudo muito explicadinho. Prefiro dialogar e aí dá-me gozo. Assim, ou perguntam ou eu nao digo mais nada. Eu tenho aqui mais uns postes com gajos, por isso...
Adenda: na verdade, se tiverem perguntas adorarei responder. :-)
Adenda: na verdade, se tiverem perguntas adorarei responder. :-)
Comecemos pelas boas notícias
O mar é nosso amigo.
Pois, um grupo de cientistas de Kiel andou pelo Mar do Norte e dizem que detectaram CO2 emitido pelo Homem a profundidades de até 4000 metros. Se o que eles acharam puder ser extrapolado para todos os sete oceanos, entao estes situar-se-ao na gama optimista do que poderao sugar da atmosfera.
Pois, um grupo de cientistas de Kiel andou pelo Mar do Norte e dizem que detectaram CO2 emitido pelo Homem a profundidades de até 4000 metros. Se o que eles acharam puder ser extrapolado para todos os sete oceanos, entao estes situar-se-ao na gama optimista do que poderao sugar da atmosfera.
quinta-feira
quarta-feira
terça-feira
Estamos fodidos
Our results are in line with Uslaner (2003), who argues that tax compliance in general is 'more about our reactions to government performance and honesty than to a sense of solidarity with our fellow citizens' (Uslaner, 2003: 4). Moreover, Scholz and Lubell (1998) argue that individuals are more inclined to comply with taxes if they trust that others will do the same, which means that if I trust that others will do their share, then I am more inclined to do mine. In the particular case of CO2 tax, everyone - apart from the relatively few who avoid fuel taxes by fuelling up in neighbouring countries and those who illegally escape taxes by buying fuel in the black market - complies, since they do not have a choice as long as they wish to drive their cars. Hence, supposedly, generalized trust is relatively more important in cases where one might suspect that others 'cheat'. If an increase in the CO2 tax is implemented it is quite hard to cheat, which also means that generalized trust is needed less. The trust in politicians, however, is important in order to support tax policies that a citizen might not fully understand.
Apart from finding a clear Green dimension in the support for climate policy, we also find signs of a 'trust' dimension in Green political issues. The comparison between the groups of high and low political trust shows that self-interest (measured by access to car) is only a statistically significant explanation in the low-trusting group. Hence, an interesting result is that the prevalence of high political trust among citizens tends to give larger weight to collective issues such as, for instance, solving the complex problem of a national climate policy. This means that support for climate policies is not mere a Green issue. It is also a matter of trust.
Henrik Hammar & Sverker C. Jagers, Can trust in politicians explain individuals' support for climate policy? The case of CO2 tax
[na Suecia] (2006). Climate Policy 5 613-625.
Apart from finding a clear Green dimension in the support for climate policy, we also find signs of a 'trust' dimension in Green political issues. The comparison between the groups of high and low political trust shows that self-interest (measured by access to car) is only a statistically significant explanation in the low-trusting group. Hence, an interesting result is that the prevalence of high political trust among citizens tends to give larger weight to collective issues such as, for instance, solving the complex problem of a national climate policy. This means that support for climate policies is not mere a Green issue. It is also a matter of trust.
Henrik Hammar & Sverker C. Jagers, Can trust in politicians explain individuals' support for climate policy? The case of CO2 tax
[na Suecia] (2006). Climate Policy 5 613-625.
sexta-feira
A lógica da batata - o ataque dos clones
Cá está porque não gosto de me meter nestas tricas. Pessoas que não se informam porque é que as alterações climáticas podem significar mais quente e mais frio e mais seco e mais molhado (como se diz na citação). O AAA não quer saber o porquê, nem mesmo pelo ensejo de fazer uma argumentação fundamentada. Cita uma menina da liga dele e está o caso arrumado na mais perfeita lambonice. O mais interessante é que até podia sentar-se no sofá e usar, mais ou menos, a sua lógica da batata. Pensava assim, agora há Inverno (frio e molhado) e também Verão (quente e seco). Com a mudança de fase no clima espera-se maior variabilidade. [Aqui o cérebro do AAA é capaz de aquecer um pouco e precisaremos de aplicar toalhas molhadas.] Isto significa mais eventos extremos de frio, de molhado, de quente e de seco. Sim? Não? Desenhos? Eu ponho um desenho:

O AAA sabe ler inglês, tal como o seu amigo tradutor e vai aqui onde se explica o conceito. E se fosse ler podia fazer uma argumentação interessante. Eu até podia fazê-la por si, mas não me apetece dialogar comigo mesma sobre o que já sei, nem educá-lo. Cada um educa-se a si mesmo quando chegamos à idade que temos.
Sendo que o AAA escolheu as alterações climáticas para correr atrás dos denominados "esquerda", eu aconselho-o e ao seu amigo a fazerem um esforço para entenderem um pouco do que estão a falar. A lógica que demonstram nos vossos postes é simplista e a cortar a direito. Eu nem digo que por vezes os media, os políticos (o Al Gore é na verdade um tipo que leu e domina bem o assunto, dizendo poucas asneiras) e outros não se esbarrem, não levem longe demais as suas conclusões. Por isso, o AAA e o seu amigo tradutor têm hipóteses de fazer um vistão a amandar abaixo pela lógica alguns "esquerdistas", mas é essencial que façam os trabalhos de casa.
Eu gostava de saber a vossa explicação para o facto do gelo boiar na água. Queria mesmo ver a vossa lógica brilhante a funcionar aqui. Sim, acho que a Ann Coulter não escreveu um livro contra a existência da água, essa molécula rebelde, esse paradoxo físico-químico. Penso mesmo que a H2O devia ser presa pela sua rebelião à lógica simples. Esta molécula é um perigo à lógica, é obviamente uma força subversiva, deve ser presa e obrigada a restabelecer-se ao senso-comum. Se a H2O se conformasse, o mundo acabava-se logo ali, mas pelo menos lavava-se a honra da lógica da batata.

O AAA sabe ler inglês, tal como o seu amigo tradutor e vai aqui onde se explica o conceito. E se fosse ler podia fazer uma argumentação interessante. Eu até podia fazê-la por si, mas não me apetece dialogar comigo mesma sobre o que já sei, nem educá-lo. Cada um educa-se a si mesmo quando chegamos à idade que temos.
Sendo que o AAA escolheu as alterações climáticas para correr atrás dos denominados "esquerda", eu aconselho-o e ao seu amigo a fazerem um esforço para entenderem um pouco do que estão a falar. A lógica que demonstram nos vossos postes é simplista e a cortar a direito. Eu nem digo que por vezes os media, os políticos (o Al Gore é na verdade um tipo que leu e domina bem o assunto, dizendo poucas asneiras) e outros não se esbarrem, não levem longe demais as suas conclusões. Por isso, o AAA e o seu amigo tradutor têm hipóteses de fazer um vistão a amandar abaixo pela lógica alguns "esquerdistas", mas é essencial que façam os trabalhos de casa.
Eu gostava de saber a vossa explicação para o facto do gelo boiar na água. Queria mesmo ver a vossa lógica brilhante a funcionar aqui. Sim, acho que a Ann Coulter não escreveu um livro contra a existência da água, essa molécula rebelde, esse paradoxo físico-químico. Penso mesmo que a H2O devia ser presa pela sua rebelião à lógica simples. Esta molécula é um perigo à lógica, é obviamente uma força subversiva, deve ser presa e obrigada a restabelecer-se ao senso-comum. Se a H2O se conformasse, o mundo acabava-se logo ali, mas pelo menos lavava-se a honra da lógica da batata.
quinta-feira
A lógica da batata (revisãozinha a azul)
Eu não me queria meter, mas acabei, num impulso de irritação por escrever isto, e como me comeu algum tempo e sarcasmo é algo que não gosto de desperdiçar, resolvi publicar. A arrogância do André Azevedo Alves é por vezes demais para aguentar. Surpreende-me o Rui Oliveira demonstrar, de barato, tanta ignorância. A questão não é ele ser tradutor, a questão é que sendo tradutor é um homem que sabe ler e até outras línguas, pelo que podia ter-se dado ao trabalho de ir buscar um livro e ler um bocadinho sobre a história da Terra. Mas não o fez. Ou então deixou mesmo assim, sabendo que entre os ignaros da matéria a piada iria ter eco.
Para o planeta Terra isto não é novo, se o planeta Terra tiver consciência de si próprio estar-se-á basicamente a cagar para nós, que no seu livro histórico nem a uma página temos direito. Somos um rodapé. E um dia seremos uma linha de pó entre camadas de terra. Como outras linhas de pó que já lá estão. Já houve várias extinções acima dos 90%, o planeta Terra já esteve 100% coberto de gelo [estava para aqui a ler um livro que diz que 100, 100 é capaz de não ter sido possível, já que a vida necessita de água no estado líquido. Ok, quase 100% - :-)], já houve zero de oxigénio, já houve mais CO2 na atmosfera que hoje, altura em que era hot, hot, hot, vegetação nos pólos, houve uma altura em que não havia carnívoros, até que um belo dia uma espécie de medusa deu uma dentada noutra espécie de medusa e agora andamo-nos a comer uns aos outros, e etc. Quem não se habituou morreu (olha a espécie de medusa que levou a dentada). O planeta Terra não dá subsídios. O planeta Terra está aqui na maior e outra grande extinção, outro período hot, hot, hot, não o vai chatear por aí além.
As alterações climáticas não interessam ao planeta Terra, interessam-nos a nós, que estamos neste preciso momento a viver sobre ele. Também interessariam a todos os outros bichos e plantas e outras coisas viventes que evoluiram connosco, mas esses pobres não têm voto na matéria. Se forem queridinhos, fofinhos, se nos divertirem e pudermos beneficiar deles ainda terão hipóteses de sobreviver, mas senão, azar. Fucking luck. Tivesses evoluído com um freaking big brain! Sai oh verme!
Para vossa educação, nós estamos a viver um período em termos climáticos calmo (ou estávamos, que as últimas duas décadas, com os seus diversos recordes, prognostica a passagem a outra fase). Foi devido a esta calmaria que pudemos desenvolver a agricultura e tudo o resto que por aí veio a seguir. Se um tipo andasse a plantar centeio e não pudesse estar mais ou menos atido que à primavera seguiria o verão não haveria agricultura. Na altura se houvesse azar morria-se à fome. Assim, quando esta previsibilidade começou há 10 000 anos atrás começaram uns tipos a plantar coisas, em vez de andarem sempre para cima e para baixo atrás de mamutes e veados e neandertais...
Portantos, porque tivemos a sorte de viver nesta calmaria somos o que somos hoje. Não sei bem se diga civilizados. Parece-me mais novo-ricos, arrogantes, com a mania. E com estas riquezas todas andamos a mudar o clima. Além disso, o Homem, aquele que não é preguiçoso como o Rui Oliveira, pode debruçar-se sobre o desconhecido e estudá-lo. Estudar mesmo, não sentados no sofá a mexer com a lógica. Eu acho muita piada quando se diz que com a lógica consegue-se definir se o Aquecimento Global é patacoada ou não. Mas dou de barato que os gregos antigos só com a lógica enunciaram a existência de átomos (benza neurónios) uns, quê?, 3,4 mil anos (bem, antes de Cristo) antes dos ditos serem realmente apanhados em flagrante, mas também levou as mesmas mentes brilhantes a achar que quando se junta sal a água, o sal se transforma em água. Prontos, a lógica não dá para tudo.
Os cientistas, para além de estarem no sofá a usar a lógica, usaram outros métodos para estudar os ciclos climáticos terrestres. Muito trabalhinho de mouro a estudar a correlação dos ciclos climáticos com ciclos solares, ciclos bioquímicos, eventos geológicos, impacto de meteoritos, através de métodos de análise laboratorial, medição instrumental, trabalho de campo (e mar e ar), estudos com modelos matemáticos para analisar os processos de causa-efeito e juntaram-se as peças de um puzzle que continua a ser construído na compreensão do clima terrestre. Pesando os meninos que usam a lógica e pelos seus postes parecem ainda não ter percebido o básico dos básicos nestas lides que é a diferença entre Efeito de Estufa e Aquecimento Global, com os cientistas e toda a sua labuta usando, matemática, física, química, biologia, geologia, todo esse amontoado de conhecimento a que se chamam ciências naturais, diversas estradas para chegar a uma conclusão: há aquecimento global e neste ponto actual do ciclo deve-se às actividades humanas. Deixa cá ver, ui, que difícil, deixa-me cá lançar uma moeda...
De tudo o que se sabe e compreendeu, neste ponto do ciclo natural, havendo uma alteração do clima natural deveria ser para frio, não para quente. Para além do sentido, o mais relevante é a rapidez com que está a acontecer. É a rapidez da mudança que não permitirá a adaptação dos outros seres vivos (mas, tendo em atenção que os metemos numas ilhas biológicas que vão encolhendo progressivamente também a sua extinção seria uma questão de tempo). Excepto os oportunistas. Ficaremos muito bem acompanhados, com as baratas, os ratos, as pombas, enquanto que os outros estarão em bibliotecas biológicas. Há gente que duvida que mesmo nós nos consigamos adaptar. Eu cá sou optimista. O mundo vai ser diferente, pobre, homogéneo, mono, a viver de memórias, por gerações inúmeras (realço inúmeras), mas eu acredito que havendo centros comerciais, a novela das cinco e um jogo de futebol de vez em quando, toda a gente será relativamente feliz. Além, que a gente tira bués de fotografias para os que não vão ver nada disto. Para quem gosta de ver álbuns vai ser mega-giro. O pior é que os putos terão aulas de história que nunca mais acaba. Não sei se vai haver tempo no programa para ensinar os descobrimentos. Mas o que interessa é: alguém se vai sentir mal? Uns parolos nostálgicos, mas quem é que quer saber desses tipos?
Assim, cá andamos, os seres humanos que andam de carro e têm centrais termoeléctricas e aviões e essas cenas giras e que nos fazem a vida tão mais confortável, mas que infelizmente seguem a merda da lei de Lavoisier. Andamos a retirar substâncias que estavam sepultadas nas entranhas da Terra e andamos a metê-las na atmosfera. Chamam-se gases com efeito de estufa. O efeito de estufa existe desde os primórdios da Terra. É um processo em que estes gases retêm parte da energia que nos vem do Sol, permitindo que a Terra estabilize a temperaturas superiores do que se estes gases não fizessem parte da atmosfera. Sem o efeito de estufa a Terra seria um berlinde de gelo. O efeito de estufa não existe só no planeta Terra. Falando dos planetas que nos estão mais próximos: existe em Vénus, só que o equilíbrio energético que se estabeleceu neste planeta transformou-o num forno. Quanto a Marte, devido ao seu tamanho é incapaz de prender a si uma atmosfera, pelo que exceptuando esparsos períodos em que houve emissão de gases formando uma atmosfera, estes acabam por escapar para o espaço e de novo Marte restabelece o seu eu mais gélido. Ao introduzirmos gases com efeito de estufa na atmosfera estamos a mover o equilíbrio energético da Terra. Esta está a reter mais energia vinda do sol e consequentemente a mover-se para temperaturas médias globais superiores. Como o planeta Terra é um sistema de ciclos e contra-ciclos, se mexemos neste equilíbrio energético, mexemos noutras variáveis e daí estas alterações climáticas.
Nós estamos num momento do saber em que negar a correlação entre os gases com efeito de estufa (que estão na atmosfera por arte nossa) e o aquecimento global seria como virar um copo de água sobre a cabeça de alguém e negar que essa acção teve alguma coisa a ver com o facto da pessoa estar a escorrer água da cabeça. Está-me a culpar a mim? Já viu se está a chover lá fora?
A questão agora é perceber em que consistirão as alterações climáticas. O que vai acontecer exactamente? Estudar o passado da Terra é uma grande ajuda. Analisar como era o planeta Terra quando os gases de estufa estavam em concentrações mais elevadas, entender o que levou às várias alterações climáticas, como é o ciclo climático e o que o "despista" é uma das formas de responder à questão do futuro que nos aguarda.
Assim, o que está em causa é um mundo em mudança e caso a gente não goste muito do que vem aí, azar. Fucking luck. É desconfortável para muitos pensar que somos nós os responsáveis por estas alterações climáticas e que sendo nós os responsáveis poderiamos fazer algo para retroceder o processo. Pessoalmente, acho que estamos demasiadamente confortáveis no nosso estilo de vida para o mudarmos. Basta olhar à volta. Basta saber como funcionamos. Nós choramos sobre o leite derramado. É assim que funcionamos. Se as alterações climáticas não fossem responsabilidade nossa, haveria menos consciências pesadas, mas estariamos no mesmo ponto a estudar como manter tudo como está agora. Esta é a Terra a que nos habituamos. Esta é a Terra após milhões de anos de evolução biológica. Esta é a Terra num momento de abundância. É isto que vamos perder. Além de que atendendo à forma como vivemos, onde vivemos e quantos somos não augurar nada de bom na nossa capacidade de sairmos incólumes num clima mais variável. A questão não é se aconteceu. A questão é que estamos aqui para o viver e morrer. Nós somos seis mil milhões de pessoas! O que o caso Katrina veio demonstrar a mim, no ano passado, é que se os EUA que é o mega, o mais rico, o que tem meios de protecção civil, deixou um desastre daqueles acontecer, então que será dos outros? Onde vivem mais pessoas e mais desprotegidas?
Quanto a consensos, os cientistas não discutem se vai haver alterações climáticas. A não ser que apareça por aí um artigo científico revolucionário que coloque em questão centenas de outros. Ficamos à espera, mas até lá o caso está arrumado. O que anda a perturbar o sono destas almas é: que alterações? Por isso andem por aí a discutir o sexo dos anjos. Se houvesse dúvidas quanto à reversibilidade do aquecimento global bastava isto para nos tirar as ilusões: anda-se no meio científico a discutir como e o resto a discutir se. Benza Deus. Telefonem quando descobrirem se é menina.
P.S.: Aproveito para mandar as minhas condolências mais sentidas aos botânicos e aos zoólogos, cujo futuro é serem coveiros, guardas de zoo e guardas de gavetas cheias de cadáveres de plantas. Opá, não fiquem tristes, ser bibliotecário também é giro. Os livros da vida sem direito a novas edições.
Para o planeta Terra isto não é novo, se o planeta Terra tiver consciência de si próprio estar-se-á basicamente a cagar para nós, que no seu livro histórico nem a uma página temos direito. Somos um rodapé. E um dia seremos uma linha de pó entre camadas de terra. Como outras linhas de pó que já lá estão. Já houve várias extinções acima dos 90%, o planeta Terra já esteve 100% coberto de gelo [estava para aqui a ler um livro que diz que 100, 100 é capaz de não ter sido possível, já que a vida necessita de água no estado líquido. Ok, quase 100% - :-)], já houve zero de oxigénio, já houve mais CO2 na atmosfera que hoje, altura em que era hot, hot, hot, vegetação nos pólos, houve uma altura em que não havia carnívoros, até que um belo dia uma espécie de medusa deu uma dentada noutra espécie de medusa e agora andamo-nos a comer uns aos outros, e etc. Quem não se habituou morreu (olha a espécie de medusa que levou a dentada). O planeta Terra não dá subsídios. O planeta Terra está aqui na maior e outra grande extinção, outro período hot, hot, hot, não o vai chatear por aí além.
As alterações climáticas não interessam ao planeta Terra, interessam-nos a nós, que estamos neste preciso momento a viver sobre ele. Também interessariam a todos os outros bichos e plantas e outras coisas viventes que evoluiram connosco, mas esses pobres não têm voto na matéria. Se forem queridinhos, fofinhos, se nos divertirem e pudermos beneficiar deles ainda terão hipóteses de sobreviver, mas senão, azar. Fucking luck. Tivesses evoluído com um freaking big brain! Sai oh verme!
Para vossa educação, nós estamos a viver um período em termos climáticos calmo (ou estávamos, que as últimas duas décadas, com os seus diversos recordes, prognostica a passagem a outra fase). Foi devido a esta calmaria que pudemos desenvolver a agricultura e tudo o resto que por aí veio a seguir. Se um tipo andasse a plantar centeio e não pudesse estar mais ou menos atido que à primavera seguiria o verão não haveria agricultura. Na altura se houvesse azar morria-se à fome. Assim, quando esta previsibilidade começou há 10 000 anos atrás começaram uns tipos a plantar coisas, em vez de andarem sempre para cima e para baixo atrás de mamutes e veados e neandertais...
Portantos, porque tivemos a sorte de viver nesta calmaria somos o que somos hoje. Não sei bem se diga civilizados. Parece-me mais novo-ricos, arrogantes, com a mania. E com estas riquezas todas andamos a mudar o clima. Além disso, o Homem, aquele que não é preguiçoso como o Rui Oliveira, pode debruçar-se sobre o desconhecido e estudá-lo. Estudar mesmo, não sentados no sofá a mexer com a lógica. Eu acho muita piada quando se diz que com a lógica consegue-se definir se o Aquecimento Global é patacoada ou não. Mas dou de barato que os gregos antigos só com a lógica enunciaram a existência de átomos (benza neurónios) uns, quê?, 3,4 mil anos (bem, antes de Cristo) antes dos ditos serem realmente apanhados em flagrante, mas também levou as mesmas mentes brilhantes a achar que quando se junta sal a água, o sal se transforma em água. Prontos, a lógica não dá para tudo.
Os cientistas, para além de estarem no sofá a usar a lógica, usaram outros métodos para estudar os ciclos climáticos terrestres. Muito trabalhinho de mouro a estudar a correlação dos ciclos climáticos com ciclos solares, ciclos bioquímicos, eventos geológicos, impacto de meteoritos, através de métodos de análise laboratorial, medição instrumental, trabalho de campo (e mar e ar), estudos com modelos matemáticos para analisar os processos de causa-efeito e juntaram-se as peças de um puzzle que continua a ser construído na compreensão do clima terrestre. Pesando os meninos que usam a lógica e pelos seus postes parecem ainda não ter percebido o básico dos básicos nestas lides que é a diferença entre Efeito de Estufa e Aquecimento Global, com os cientistas e toda a sua labuta usando, matemática, física, química, biologia, geologia, todo esse amontoado de conhecimento a que se chamam ciências naturais, diversas estradas para chegar a uma conclusão: há aquecimento global e neste ponto actual do ciclo deve-se às actividades humanas. Deixa cá ver, ui, que difícil, deixa-me cá lançar uma moeda...
De tudo o que se sabe e compreendeu, neste ponto do ciclo natural, havendo uma alteração do clima natural deveria ser para frio, não para quente. Para além do sentido, o mais relevante é a rapidez com que está a acontecer. É a rapidez da mudança que não permitirá a adaptação dos outros seres vivos (mas, tendo em atenção que os metemos numas ilhas biológicas que vão encolhendo progressivamente também a sua extinção seria uma questão de tempo). Excepto os oportunistas. Ficaremos muito bem acompanhados, com as baratas, os ratos, as pombas, enquanto que os outros estarão em bibliotecas biológicas. Há gente que duvida que mesmo nós nos consigamos adaptar. Eu cá sou optimista. O mundo vai ser diferente, pobre, homogéneo, mono, a viver de memórias, por gerações inúmeras (realço inúmeras), mas eu acredito que havendo centros comerciais, a novela das cinco e um jogo de futebol de vez em quando, toda a gente será relativamente feliz. Além, que a gente tira bués de fotografias para os que não vão ver nada disto. Para quem gosta de ver álbuns vai ser mega-giro. O pior é que os putos terão aulas de história que nunca mais acaba. Não sei se vai haver tempo no programa para ensinar os descobrimentos. Mas o que interessa é: alguém se vai sentir mal? Uns parolos nostálgicos, mas quem é que quer saber desses tipos?
Assim, cá andamos, os seres humanos que andam de carro e têm centrais termoeléctricas e aviões e essas cenas giras e que nos fazem a vida tão mais confortável, mas que infelizmente seguem a merda da lei de Lavoisier. Andamos a retirar substâncias que estavam sepultadas nas entranhas da Terra e andamos a metê-las na atmosfera. Chamam-se gases com efeito de estufa. O efeito de estufa existe desde os primórdios da Terra. É um processo em que estes gases retêm parte da energia que nos vem do Sol, permitindo que a Terra estabilize a temperaturas superiores do que se estes gases não fizessem parte da atmosfera. Sem o efeito de estufa a Terra seria um berlinde de gelo. O efeito de estufa não existe só no planeta Terra. Falando dos planetas que nos estão mais próximos: existe em Vénus, só que o equilíbrio energético que se estabeleceu neste planeta transformou-o num forno. Quanto a Marte, devido ao seu tamanho é incapaz de prender a si uma atmosfera, pelo que exceptuando esparsos períodos em que houve emissão de gases formando uma atmosfera, estes acabam por escapar para o espaço e de novo Marte restabelece o seu eu mais gélido. Ao introduzirmos gases com efeito de estufa na atmosfera estamos a mover o equilíbrio energético da Terra. Esta está a reter mais energia vinda do sol e consequentemente a mover-se para temperaturas médias globais superiores. Como o planeta Terra é um sistema de ciclos e contra-ciclos, se mexemos neste equilíbrio energético, mexemos noutras variáveis e daí estas alterações climáticas.
Nós estamos num momento do saber em que negar a correlação entre os gases com efeito de estufa (que estão na atmosfera por arte nossa) e o aquecimento global seria como virar um copo de água sobre a cabeça de alguém e negar que essa acção teve alguma coisa a ver com o facto da pessoa estar a escorrer água da cabeça. Está-me a culpar a mim? Já viu se está a chover lá fora?
A questão agora é perceber em que consistirão as alterações climáticas. O que vai acontecer exactamente? Estudar o passado da Terra é uma grande ajuda. Analisar como era o planeta Terra quando os gases de estufa estavam em concentrações mais elevadas, entender o que levou às várias alterações climáticas, como é o ciclo climático e o que o "despista" é uma das formas de responder à questão do futuro que nos aguarda.
Assim, o que está em causa é um mundo em mudança e caso a gente não goste muito do que vem aí, azar. Fucking luck. É desconfortável para muitos pensar que somos nós os responsáveis por estas alterações climáticas e que sendo nós os responsáveis poderiamos fazer algo para retroceder o processo. Pessoalmente, acho que estamos demasiadamente confortáveis no nosso estilo de vida para o mudarmos. Basta olhar à volta. Basta saber como funcionamos. Nós choramos sobre o leite derramado. É assim que funcionamos. Se as alterações climáticas não fossem responsabilidade nossa, haveria menos consciências pesadas, mas estariamos no mesmo ponto a estudar como manter tudo como está agora. Esta é a Terra a que nos habituamos. Esta é a Terra após milhões de anos de evolução biológica. Esta é a Terra num momento de abundância. É isto que vamos perder. Além de que atendendo à forma como vivemos, onde vivemos e quantos somos não augurar nada de bom na nossa capacidade de sairmos incólumes num clima mais variável. A questão não é se aconteceu. A questão é que estamos aqui para o viver e morrer. Nós somos seis mil milhões de pessoas! O que o caso Katrina veio demonstrar a mim, no ano passado, é que se os EUA que é o mega, o mais rico, o que tem meios de protecção civil, deixou um desastre daqueles acontecer, então que será dos outros? Onde vivem mais pessoas e mais desprotegidas?
Quanto a consensos, os cientistas não discutem se vai haver alterações climáticas. A não ser que apareça por aí um artigo científico revolucionário que coloque em questão centenas de outros. Ficamos à espera, mas até lá o caso está arrumado. O que anda a perturbar o sono destas almas é: que alterações? Por isso andem por aí a discutir o sexo dos anjos. Se houvesse dúvidas quanto à reversibilidade do aquecimento global bastava isto para nos tirar as ilusões: anda-se no meio científico a discutir como e o resto a discutir se. Benza Deus. Telefonem quando descobrirem se é menina.
P.S.: Aproveito para mandar as minhas condolências mais sentidas aos botânicos e aos zoólogos, cujo futuro é serem coveiros, guardas de zoo e guardas de gavetas cheias de cadáveres de plantas. Opá, não fiquem tristes, ser bibliotecário também é giro. Os livros da vida sem direito a novas edições.
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Citação
"Para quem se perguntou como irão o aquecimento global e a redução na superfície de gelo afectar os ursos polar a resposta é simples - eles morrem."
Richard Steiner da Universidade do Alasca, Fairbanks, sobre a descoberta de que os ursos polar estão-se a afogar ao nadarem cada vez maiores distâncias entre os blocos de gelo. The Wall Street Journal, 14 de Dezembro
Citado na New Scientist, 24/31 de Dezembro
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