sexta-feira

Filme singelo

Tenho um fraco por, o que chamo, filmes singelos. Imaginem que eu todos os dias passo por uma rua. Imaginem que um dia alguém vem comigo e me mostra a rua de uma outra perspectiva e que faz essa demonstracao de forma artística, de tal forma que essa rua, aos meus olhos, acende-se. Nada novo na rua, excepto os olhos de quem a ve. Agora imaginem que a rua é a vida e a pessoa que guia o olhar sao os filmes singelos. Assim, apaixonarmo-nos e fazermos papel de ursos, ou apaixonarmo-nos e ficarmos com remorsos por nao termos feito papel nenhum, a primeira vez que beijamos, que apalpamos, que vemos, a mentira envergonhada, a excitaçao dar lugar ao cinismo e ao aborrecimento, o aparente paradoxo do amor e do ódio entrelaçados, descobrirmos coisas muito simples demasiado tarde, cair-nos a alma com a morte de um pássaro ou olharmos embevecidos um gato a torturar um rato, passa a ganhar a dimensao de uma epopeia, repetida milhoes de vezes certamente, mas propensa a novidade na nossa efémera vida, se soubermos o quanto especial o é para nós. No entanto, esquecemos até que algo singelo e especial nos lembra. Por isso, tenho um grande fraco por filmes singelos.



Esta introduçao vem a propósito de um filme que eu vi agora, mas já é de 2005. Nada, absolutamente nada do que passa na vida das pessoas no filme é algo que nao poderia passar na minha vida ou na vida de pessoas que eu poderia conhecer ou vir a conhecer. Na verdade, a nao ser que estivessemos enclausurados, aquilo acontece de uma forma similar a mim e ás pessoas que conheço e vou conhecer. O que muda sao os olhos de quem ve. Os filmes singelos sao sobre a vida, a vida de todos os dias, a vida sem marcos de extraordinariedade. E no entanto... Que extraordinário é o olhar e que extraordinária é a vida de cada pessoa á luz desse olhar.

Um homem e uma mulher encontram-se numa rua. O encontro nao é casual. Antes, a mulher apaixonou-se por aquele homem. Cada um vai para o seu respectivo carro e a certo ponto da rua vao-se separar. Enquanto caminham e enchendo o espaço com palavras que é necessário encher quando se caminha com outra pessoa, eles acabam por construir naquele caminho as suas vidas juntos.

Um senhor compra um peixe vermelho para a filha, mas esquece o saco de plástico com o peixe sobre o tejadilho do carro quando arranca para casa. O destino daquele peixe torna-se uma ponte de solidariedade e o presságio mais que certo, de que é necessário aprender a dizer adeus.

Em súmula, adorei o filme.

Me and you and everyone we know de Miranda July.

1 comentário:

N disse...

Ainda que diga pouco (ou nada) gostei de ler o que há por cá...