sábado

A T-shirt: "Nao me estou a cagar e tenho a(s) pila (mamas) grande(s)!"

Imaginemos uma casa muito grande, onde vivem dez pessoas. As dez pessoas decidiram que as tarefas relativas 'a casa nao sao decididas por decreto, por assim dizer, cada um faz de acordo com a necessidade de manter a ordem e a limpeza e no suposto que as dez pessoas sao adultas, conscienciosas, responsaveis. A coisa vai andando, ha' uns mais atinados, uns que so' limpam o seu quarto, outros que fazem, mas so' de vez em quando. Mas os atinados comecam a chatear-se a a queixar-se e a chamar os outros 'a sua obrigacao. E os outros viram-se para os atinados e dizem que nao ha' razao para fazerem nada, afinal a casa ate' esta' limpinha e em ordem! Os atinados acham que nao, que podia estar melhor e que nao tem de ser so' eles a limpar e a organizar e chateiam-se e chamam os outros de lamboes, irresponsaveis e de volta sao chamados de arrogantes e armados! Mas voces atinados pensam, o que? Que tem pilas grandes? Calem, mas e' essas bocas, porque se nao limpamos e' porque nao encontramos a vassoura perfeita, o aspirador mais potente, o pano de po' mais revelador da verdade do mundo e porque esta casa e' so' porcaria e nos temos alergias!

A Rita faz a defesa do "pra que e' que eu hei-de limpar se a casa ate' ta' limpa", em que a casa e' a democracia e prontos estao a seguir a analogia. Eu devo agradecer a Rita que subiu o atinado um degrau na linha intelectual tuga, em que o atinado foi promovido de toto a arrogante. Obrigada, Rita.

21 comentários:

Rita Maria disse...

Não fiz nada disso. Na verdade, limitei-me a sugerir que, quando tentamos mudar uma realidade social, tentar perceber porque existe pode ser uma boa ideia. E que o insulto, a arrogância ou a convicção da insuperável razão da nossa forma de ver as coisas costumam ser clássicos obstáculos a qualquer tentativa de compreender o outro.

Mas, se calhar, não queremos sequer tentar compreender o outro. Chamar-lhe nomes é tão mais fácil e tem certamente alguma utilidade. Vou alli pennsar qual é e já venho.

snowgaze disse...

não é bem a mesma coisa. na linha dessa analogia diria que as pessoas que vivem na casa apenas têm o poder de escolher o/a empregado/a da limpeza (através do voto). e que mesmo que haja quem não queira escolher, melhor ou pior, haverá sempre empregado/a que limpe a casa.

Rita Maria disse...

Exacto. Com o pequeno extra de que aliás continuam a pagar o empregado.

abrunho disse...

Se eu vivesse numa ilha so' com o meu pequeno portatil, eu ate' engoliria as tuas palavras, mas como esse nao e' o caso e falo com pessoas e pergunto-lhes porque e' que votam ou nao, nao sinto a minha consciencia minimamente entorpecida ou envergonhada pelo facto de chamar os abstencionistas de lamboes.

Alem disso, acho arrogante da tua parte pensares que eu nao tento perceber as pessoas, principalmente porque tenho um blogue e comento imenso no blogue da Helena. Portanto, sou assim tao arrogante? Deveras?

Mas se o caso e' esse de empregar quem limpe a casa, por essa ordem de ideias, quem vota sao os secretarios da casa e portanto, pela logica do mundo, passamos a exigir comissao monetaria pelo trabalho feito.

Helena disse...

ora nem mais, abrunho, dá-lhes!
há lá esforço maior que o de tentar entender-me?!
heinhe?
;-)

depois volto cá, que esta conversa está muito interessante. Para já é domingo à noite, tenho de gozar o fim do fim de semana.

Adianto só uma coisinha: parece-me que a Rita está a chamar a atenção para algo muito importante, que é este afastamento das pessoas. Isto é sinal de preguiça, de confiança no sistema, ou de um profundo desconforto?
Às tantas umas confiam, outras nem querem saber, outras querem é que uma bomba venha e rebente tudo. Às tantas temos todos um bocadinho de razão na análise que fazemos, mas a realidade é um bocado mais complicada.

Rita Maria disse...

Abrunho, não tenho uma opinião sobre se no geral tentas compreender as pessoas ou não. Nem sequer tenho uma opinião sobre se no caso concrecto dos abstencionistas tentaste ou não compreendê-los. Partindo do teu post e dos dos últimos dias, também não tenho forma de perceber se achas que devemos fazer alguma coisa para diminuir a abstenção. Logo, não poderia ser arrogante a esse respeito nem que quisesse.

Só tentei dizer duas coisas no post em que me acusas de ter promovido os abstencionistas de totós a arrogantes (sendo que nunca lhes chamei nenhuma das duas coisas). A primeira, que é demasiado facilitista partir do princípio que abster-se não pode ter sido uma decisão política e racional, especialmente tendo em conta a elevada parte da população a tomá-la. E segundo, que o insulto pode não ser a armma mais inteligente para combatê-la.

Que estas duas afirmações que à partida me parecem evidentes choquem tanta gente é para mim estranhíssimo. É como se de repente insultar 60% da população e partir do princípio de que a maioria do povvo europeu é preguiçoso e/ou totó e/ou um parasita fosse normalíssimo.

E eu não acho normalíssimo. No mínimo, era estatisticamente improvável.

abrunho disse...

Eu nao disse que promovias os abstencionistas, mas sim os votantes.

Acho que toda esta historia e' o velho se o barrete te serve...

Eu nao quero combater nada. Eu considero que quem vota e' um adulto e sendo um adulto deve ser responsavel e assumir que se nao vota e nao tem uma razao valida assume o que e' e nao manda bocas pretenso-desculpabilizantes e eles sim a atacar os votantes, que taditos votam nos partidos pequenos porque sao uns tristes idiotas. Que isto tenha feito o pino e agora que quem vota e' que e' o mau da fita porque alem de votar mal tem o descaramento de achar que os abstencionistas nao tem na sua maioria razoes validas, e' que e' estranhissimo para mim.

Rita Maria disse...

Tens razao, fui eu que te li ao contrário, desculpa. No resto, continuo na minha: aquele post do Jugular era perfeitamente cretino.

abrunho disse...

Ok, nao diabolizemos os abstencionistas.

Alem disso, eu ate virei muito depressa na minha irritacao quando comecei a ver o chamamento ao voto obrigatorio por politicos. Eu nao vi nos jornais, chamamentos ao voto obrigatorio, mas nesse caso acho que a minha cabeca teria pegado fogo. Depois desta campanha, os jornalistas, cronistas e politicos deviam meter-se num buraco e cobrir-se de lama.

Espero nao estar a ofender ninguem... :)

Helena disse...

Ainda aqui está alguém?
(adoro falar sozinha...)

Rita,
achas que esta passagem é assim tão cretina?
"Ora o descaramento dos abstencionistas atingiu nos últimos tempos tais proporções que alguns ousam apresentar-se publicamente como heróis da resistência contra a degradação da democracia. Justificam a sua atitude com o nojo pela política e pelos políticos, denunciam a falta de alternativas, exigem seriedade, recusam-se a pactuar com o sistema.

Balelas. Desculpas esfarrapadas. O cidadão responsável que não se revê nas propostas políticas existentes exprime-se votando em branco, não indo para a praia ou para o centro comercial."

Eu acho que ele põe o dedo - não direi "na ferida", mas - numa ferida.

É claro que temos de tentar entender o porquê deste desinteresse.

Tentar perceber como foi possível (e quem contribuiu para isso!) esta derrapagem brutal de, ao estar em causa se a Europa opta por uma via de esquerda ou de direita, o pessoal achar que não tem nada a ver com isso, e que é indiferente votar ou não votar.

Por outro lado, é importante analisar este fenómeno de "descaramento", como o JPC diz. Será que a nossa sociedade (a europeia) está a entrar numa fase de "enfant gaté"?
Uma espécie de crianças mimadas que acham que tudo lhes é devido e nada é suficientemente bom para elas?

Também há que chamar a atenção para as consequências: o resultado desta abstenção é que 1 em cada 6 deputados do PE é eurocéptico ou até xenófobo. E lá estarão nos próximos anos, pagos pelo orçamento euroepu, a propor e debater as próximas leis europeias. É preciso dizer que se instalaram no PE com a ajuda bruta dos que não foram votar! (os que os elegeram, esses, foram todos votar)

Que estratégias para alterar esta situação? Mais debate, mais democracia, claro. Construir a Europa nas costas do povo europeu, como tem sido feito até agora, tem como resultado este desinteresse. Colocar as escolhas na mão de um povo desinteressado também pode ser o fim da Europa.
Parece-me que é fundamental fazer um debate sobre o que queremos para a Europa - de preferência, a nível supra-nacional (por exemplo: organizado pelos partidos europeus e não pelos nacionais; com participantes de toda a Europa, e não os rostos que já conhecemos do PSD, do PS, etc.). O que dará muito, muito trabalho, mas trará mais frutos que esta discussão sobre o carácter dos abstencionistas.

Helena disse...

Ah, Abrunho, também estás aqui!
Pois é, isso mesmo: "Depois desta campanha, os jornalistas, cronistas e politicos deviam meter-se num buraco e cobrir-se de lama."

Ofende-me, que eu gosto.
E já agora a ti. Ofende-nos às duas.
Todos nós deixámos correr.
Temos blogues (e eu até participo num sobre este tema!), mas não fizemos campanha de esclarecimento. Agora, porta arrombada, aijesusdequeméaculpa? e trancas à porta.
Não se pode dizer que tenhamos sido brilhantes.
Será que temos maneira de mudar alguma coisa até às próximas eleições? Escrever aos partidos europeus a exigir que façam debates em todos os países com representantes de outros países, para falarem da ideia da Europa e não dos aproveitamentos políticos para as causas dos clubes nacionais?

snowgaze disse...

deixa cá só acrescentar uma coisinha...
isto se calhar o mal vem do início - de quando a malta começa a poder votar. Ora um tipo faz 18 anos, fica todo contente porque "já é gente" e pode votar, e entretanto se calhar até tem a oportunidade de votar pela primeira vez. E depois vai para a universidade, para longe de casa, e quando vêm as eleições seguintes não pode votar (porque é longe, ou tem que estudar para os exames e não pode perder dois dias em viagens, ou porque se calhar é da Madeira ou dos Açores e não pode estar a pagar mais viagens ou por outra razão qualquer). E passadas algumas eleições assim, apercebe-se que não precisam do seu voto para nada, que o sistema funciona na mesma, e depois já se está nas tintas para se vota ou se não. E depois já é mais difícil convencê-lo da utilidade do voto.
Não digo que este seja "o problema" mas é "um problema" que podia ser facilmente evitável. E acredito que aproveitar o entusiasmo enquanto ele existe traria frutos.

abrunho disse...

Exato Snowgaze! Quando andava na Universidade faltei a todas as eleicoes que cairam nos exames.

Esta cai sobre a questao importantissima da pratica portuguesa de dificultar o voto. Penso que todas nos lembramos da vergonha de querer acabar com o voto por carta para os emigrantes para as eleicoes autarquicas e legislativas ha' poucos meses atras pelos nossos "amiguitos" socialistas, porque podia haver falcatrua... Pergunto-me: estarao a estudar o voto eletronico? Nao entendo porque isto nao e' posto em pratica.

Helena disse...

E eu diria mesmo mais!, como o monsieur Dupond. Ou o Dupont.
Se comparo o esforço do Estado alemão para que todas as pessoas possam votar (inclusivamente os estrangeiros, no caso recente do PE) com o modo como Portugal trata os seus eleitores, só me dá vontade de me abster...
(Não contem a ninguém.)

abrunho disse...

sim. eu recebi uma carta dos alemaes a perguntarem-me se queria votar com eles em varias linguas. dos portugueses nao recebi nada. mas as perguntas que fiz, responderam devidamente... (Nao contem a ninguem...)

Rita Maria disse...

Eu telefonei aos portugueses, que me disseram que tinha de estar recenseada na embaixada há dois meses e que isso nao era equivalente ao meu registo. Logo, quem vem de Erasmus para Berlim continua sem poder votar a nao ser que fique muito tempo e tenha muita presença de espírito(ao contrário de quem vai para a Itália ou a Eslováquia).

Agora a grande questao é: o Cavaco vai marcar as eleiçoes a tempo de eu descobrir se calham nas minhas férias em Portugal ou vai obrigar-me a abster-me?

Tinha a sua piada depois disto tudo...

abrunho disse...

Isso que contas Rita é do mais estúpido, pois o tempo minimo de recenseamento é superior que o tempo antes das eleicoes que o Cavaco Silva e o governo tem de obedecer:

as autarquicas tem de cair entre 22 set - 14 out (decisao ate 28 jul)

as legislativas entre 14 set -14 out (decisao ate 12 ag)

Eu espero que juntem as duas e decidam ate 28 julho.

Eu vou-me mudar de poiso este verao, pelo que depois disto tudo, eu tambem posso acabar por me abster nas proximas...

Isto esta a correr bem...

Helena disse...

isto é absurdo!!!
(já me andei a informar para mudar de nacionalidade, não contem a ninguém)
(é um pouco mentira: posso passar a ser alemã, e continuar portuguesa)
(amanhã vou tratar disso, pronto!)

Rita Maria disse...

Para mim têm de decidir até 14 de Julho, porque estou em Portugal de 14 a 21 de Setembro. Acho que se nao se decidirem faço um mini-escândalo.

PS: Oh Helena, podes mesmo? Eu também quero. Aposto que quando chegar a minha vez a lei já mudou de novo.

Helena disse...

Posso, mas é porque já moro aqui há vinte anos e estou casada com um alemão há 17.
(casei aos 15, claro)

Um dos dois argumentos, ou talvez a combinação dos dois. Tenho de ir tratar disso, e depois digo-te.
O que eu queria era uma Europa mais forte, onde não fosse tão importante ser português ou alemão. Não em termos de raízes culturais, mas de coisas práticas. Poder votar por correspondência, por exemplo. Sentir que o Estado respeita o eleitor. Discutir as coisas pelos nomes, em vez de "o que tu queres sei eu" (ah, mas já estou a entrar em questões culturais)

snowgaze disse...

Já agora, que estamos aqui na conversa, mais um aparte. Eu gosto muito dos autocolantes que põem nos cartazes, depois das eleições, a dizer "Danke". É simpático para quem votou naqueles partidos. (de qualquer forma, por mim, já tinham desaparecido os cartazes todos, já tiveram uma semana para isso)