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quarta-feira
Gisberta Salce Júnior
Quem leu os meus postes há uma semana sabe o que eu penso. Eu só adiciono algo mais: dizem, diz-se, que no Ocidente os nossos valores morais é que são bons. São tão bons que devemos ir em corcéis de guerra impô-los aos bárbaros, ou numa versão mais leve, tocar-lhes no coração. Observem este caso muito cuidadosamente, porque mesmo querendo salvar as crianças, fazê-lo com base na negação do crime é imoral. Os rapazes começam os seus meses de suposta reabilitação a aprender que a justiça mente, que se torce a ela própria, que se nega. Mas duvida-se da preocupação com as crianças. Num país como o nosso pergunta-se como teria procedido o caso se a vítima não fosse tão especial como a Gisberta. Pende-se a razão para a evidência do país. Mirem bem. Comparem, rodem nas mãos, vejam-lhe o brilho e com honestidade respondam da pureza dos valores morais portugueses. Venham-me dizer que são inspiradores. Pois devem ser. Eu, por mim, imagino o inspirado com umas pedras na mão. Um bárbaro. Em Portugal, usa-se a lábia da justiça.
quinta-feira
As crianças 2
A lei. A lei de Portugal está pelos criminosos. A não ser que se seja pária. O pária é sempre culpado, mesmo que seja a vítima. Lembrem-se que a lei vem da sociedade e lembrem-se dum sr. padre d'A Oficina de S. José que basicamente disse isto da Gisberta.
Mas falemos da lei. Querem um lado para começar? A lei que rege a protecção de menores. Os pais são sempre desculpados. São pais, os pais biológicos amam sempre muito os seus filhos, coitados, só parece que não os amam porque têm uma vida difícil. Coi-ta-di-nhos... É preciso que enfiem as crianças em banheiras com água a ferver e assim coisas similares para que a lei se lembre da criança. Senão há sempre rotundas na lei para que a criança fique com pessoas que só lhe deram a vida, mas não vida. Até ao momento em que a lei tenha a criança como fulcro e não os pais, crianças como as que mataram a Gisberta continuarão a ser criadas. Imagino a pedagogia que seria lermos o trajecto de vida de cada um daqueles miúdos. Vermos como a lei as esqueceu.
O caso Pia. O caso continua nas circunvoluções que têm mais em conta os supostos criminosos que as supostas vítimas. Imaginem bem estas pessoas. A crescer numa instituição, sem amor, sem alguém que goste delas. São abusadas. Têm a coragem de falar e... E é um inferno sem fim. Agora são abusadas pelo sistema judiciário. Eu pergunto: não há que haver um equilíbrio entre o "inocente até prova em contrário" e "a possivelmente vítima não deve ser traumatizada pelo próprio sistema judiciário"? As vítimas deviam ser como algo que temos na mão e não sabemos se é porcelana. Não sabemos a sua fragilidade, até termos a certeza, são frágeis e devem ser tratadas como porcelana.
Os meninos da casa pia. Os meninos da casa pia merecem uma família e talvez na maioria dos casos os meninos da casa pia não têm alguém que os ame, porque há uma mentalidade que também produz a lei, que não pensa que essa seja a prioridade. Quem fala dos meninos da casa pia fala dos outros todos. Quando estes meninos forem a prioridade da lei, então algo está a ser feito pelas crianças. Então, catilina, veremos a face humana da lei. Fazê-lo depois, quando elas descarregaram sei lá que dores, sei lá, sei lá, o que lhes fizeram, sobre alguém mais frágil que elas. Então... O sr. procurador é um penso num membro amputado.
As crianças... Quem as fez, as pessoas que elas pontapeavam quando o faziam à Gisberta, essas pessoas... Pois, essas pessoas. Provavelmente a lei esteve por essas pessoas, em vez dos miúdos que torturaram a Gisberta. Agora é tarde, é tarde demais.
Concluindo: a história tem duas faces e em ambas a lei e/ou quem a aplica estão mal.
Mas falemos da lei. Querem um lado para começar? A lei que rege a protecção de menores. Os pais são sempre desculpados. São pais, os pais biológicos amam sempre muito os seus filhos, coitados, só parece que não os amam porque têm uma vida difícil. Coi-ta-di-nhos... É preciso que enfiem as crianças em banheiras com água a ferver e assim coisas similares para que a lei se lembre da criança. Senão há sempre rotundas na lei para que a criança fique com pessoas que só lhe deram a vida, mas não vida. Até ao momento em que a lei tenha a criança como fulcro e não os pais, crianças como as que mataram a Gisberta continuarão a ser criadas. Imagino a pedagogia que seria lermos o trajecto de vida de cada um daqueles miúdos. Vermos como a lei as esqueceu.
O caso Pia. O caso continua nas circunvoluções que têm mais em conta os supostos criminosos que as supostas vítimas. Imaginem bem estas pessoas. A crescer numa instituição, sem amor, sem alguém que goste delas. São abusadas. Têm a coragem de falar e... E é um inferno sem fim. Agora são abusadas pelo sistema judiciário. Eu pergunto: não há que haver um equilíbrio entre o "inocente até prova em contrário" e "a possivelmente vítima não deve ser traumatizada pelo próprio sistema judiciário"? As vítimas deviam ser como algo que temos na mão e não sabemos se é porcelana. Não sabemos a sua fragilidade, até termos a certeza, são frágeis e devem ser tratadas como porcelana.
Os meninos da casa pia. Os meninos da casa pia merecem uma família e talvez na maioria dos casos os meninos da casa pia não têm alguém que os ame, porque há uma mentalidade que também produz a lei, que não pensa que essa seja a prioridade. Quem fala dos meninos da casa pia fala dos outros todos. Quando estes meninos forem a prioridade da lei, então algo está a ser feito pelas crianças. Então, catilina, veremos a face humana da lei. Fazê-lo depois, quando elas descarregaram sei lá que dores, sei lá, sei lá, o que lhes fizeram, sobre alguém mais frágil que elas. Então... O sr. procurador é um penso num membro amputado.
As crianças... Quem as fez, as pessoas que elas pontapeavam quando o faziam à Gisberta, essas pessoas... Pois, essas pessoas. Provavelmente a lei esteve por essas pessoas, em vez dos miúdos que torturaram a Gisberta. Agora é tarde, é tarde demais.
Concluindo: a história tem duas faces e em ambas a lei e/ou quem a aplica estão mal.
As crianças (revisto)
O catilina escreveu na minha caixa de comentários:
Por favor, estamos a falar de miúdos. Ficaria muito mais feliz se cada uma deles passasse vinte ou trinta anos na prisão, pelo que fez aos 15 anos de idade?
Sabe, porventura, o horror de uma prisão portuguesa?
Já entrou alguma vez no Estabelecimento Prisional de Lisboa, na "ala dos miúdos", onde centenas de adolescentes (todos do sexo masculino) estão encarcerados, onde um homem adulto tem dificuldade em entrar, quanto mais uma mulher?
Chamam-lhes os índios. Estão amontoados, varridos para debaixo do tapete de uma sociedade que não se quer lembrar que eles existem.
Há já muito tempo, por força da minha profissão (sou advogado), que cheguei à conclusão que a prisão não resolve, não reeduca. Pelo contrário, complica e "deseduca". As prisões são de facto, a expressão é batida, escolas do crime, em que quem sai, sai pior do que quando entrou. E quando assim não é, quando o ex-recluso percebe que a sociedade já não o quer, devido ao estigma que carrega, revolta-se. Uma revolta interior, profunda e incontrolável, que o leva a mais do mesmo.
Parece-me, por isso, que não se deve criticar o MP, que conhece bem esta realidade. Que quando decide acusar, ou alterar a qualificação jurídica dos factos, o faz certamente de forma técnica, mas também ciente da responsabilidade que carrega. É que as funções do MP se prendem com a defesa do interesse público, da vida em sociedade e estes jovens também são sociedade.
O seu futuro deve interessar a todos.
Repare que não pretendo criticá-la ou chamar-lhe a atenção do que quer que seja. Tem direito à sua opinião e respeito-a. Pretendo apenas lembrá-la que, esta história tem duas faces.
É que, ao contrário de si, não sei qual é a melhor solução para este caso. Qual a que melhor salvaguardará a sociedade que queremos preservar.
Apenas desejo, profundamente, que isto não tivesse acontecido, é que são miúdos que, infortunadamente, não vão poder viver a sua adolescência, como nós vivemos a nossa.
Cordiais saudações
------------***-------------------
As crianças não estão ausentes do meu pensamento. Eu também pensei que os srs procuradores estariam a pensar nelas. Contudo, os srs procuradores deviam estar ali pela Gisberta. Senão não percebo para que é que são os advogados de defesa. Explique-me.
As prisões são horríveis, ineficazes, escolas de crime? Pois faça-se algo. Mas não à custa das vítimas.
As instituições que albergam crianças em risco são incompetentes, ineficientes, irresponsáveis? Pois faça-se algo. Mas não à custa das vítimas.
O que mais me desilude nisto tudo é mesmo isto. Ninguém fala d'A Oficina de S. José. Assim, bem podem falar das pobres crianças. Pobres crianças a quem poucos ligam a não ser quando foram mortas ou mataram.
P.S.: Além disso, veio confirmar o meu receio de que nada vai ser feito pelos adolescentes e que nada vai ser feito para a não reincidência. Veja: estavam metidos numa instituição com padres idiotas (estou a pensar nas declarações que eles deram depois do crime), ao deus-dará provavelmente, a seguir vão ser metidos em instituições de "indíos", como diz. O futuro quem sabe. Resolvem pensar neles, agora, na sala do Tribunal.
Por favor, estamos a falar de miúdos. Ficaria muito mais feliz se cada uma deles passasse vinte ou trinta anos na prisão, pelo que fez aos 15 anos de idade?
Sabe, porventura, o horror de uma prisão portuguesa?
Já entrou alguma vez no Estabelecimento Prisional de Lisboa, na "ala dos miúdos", onde centenas de adolescentes (todos do sexo masculino) estão encarcerados, onde um homem adulto tem dificuldade em entrar, quanto mais uma mulher?
Chamam-lhes os índios. Estão amontoados, varridos para debaixo do tapete de uma sociedade que não se quer lembrar que eles existem.
Há já muito tempo, por força da minha profissão (sou advogado), que cheguei à conclusão que a prisão não resolve, não reeduca. Pelo contrário, complica e "deseduca". As prisões são de facto, a expressão é batida, escolas do crime, em que quem sai, sai pior do que quando entrou. E quando assim não é, quando o ex-recluso percebe que a sociedade já não o quer, devido ao estigma que carrega, revolta-se. Uma revolta interior, profunda e incontrolável, que o leva a mais do mesmo.
Parece-me, por isso, que não se deve criticar o MP, que conhece bem esta realidade. Que quando decide acusar, ou alterar a qualificação jurídica dos factos, o faz certamente de forma técnica, mas também ciente da responsabilidade que carrega. É que as funções do MP se prendem com a defesa do interesse público, da vida em sociedade e estes jovens também são sociedade.
O seu futuro deve interessar a todos.
Repare que não pretendo criticá-la ou chamar-lhe a atenção do que quer que seja. Tem direito à sua opinião e respeito-a. Pretendo apenas lembrá-la que, esta história tem duas faces.
É que, ao contrário de si, não sei qual é a melhor solução para este caso. Qual a que melhor salvaguardará a sociedade que queremos preservar.
Apenas desejo, profundamente, que isto não tivesse acontecido, é que são miúdos que, infortunadamente, não vão poder viver a sua adolescência, como nós vivemos a nossa.
Cordiais saudações
------------***-------------------
As crianças não estão ausentes do meu pensamento. Eu também pensei que os srs procuradores estariam a pensar nelas. Contudo, os srs procuradores deviam estar ali pela Gisberta. Senão não percebo para que é que são os advogados de defesa. Explique-me.
As prisões são horríveis, ineficazes, escolas de crime? Pois faça-se algo. Mas não à custa das vítimas.
As instituições que albergam crianças em risco são incompetentes, ineficientes, irresponsáveis? Pois faça-se algo. Mas não à custa das vítimas.
O que mais me desilude nisto tudo é mesmo isto. Ninguém fala d'A Oficina de S. José. Assim, bem podem falar das pobres crianças. Pobres crianças a quem poucos ligam a não ser quando foram mortas ou mataram.
P.S.: Além disso, veio confirmar o meu receio de que nada vai ser feito pelos adolescentes e que nada vai ser feito para a não reincidência. Veja: estavam metidos numa instituição com padres idiotas (estou a pensar nas declarações que eles deram depois do crime), ao deus-dará provavelmente, a seguir vão ser metidos em instituições de "indíos", como diz. O futuro quem sabe. Resolvem pensar neles, agora, na sala do Tribunal.
A lei não é matemática {adição revista}
O Homem do Leme, que percebe de leis, dá-nos a base das asserções dos srs procuradores.
Mas, lá está, João, estavam os rapazes preocupados em não matar a Gisberta? Ao torturar alguém doente, a morte não se torna uma possibilidade e à medida que o tempo discorre uma certeza? Uma atenuante poderia ser eles terem procurado ajuda. Algum deles o fez? Tudo o que eles fizeram naqueles dias apontou para um desfecho e devia ser esse somatório a ter-se em conta. Os pormenores da tortura deviam ser agravantes e ainda não li nada sobre isso. Além disso, os procuradores poderiam ter posto em causa que os adolescentes não soubessem que a Gisberta estava morta. Seriam os advogados de defesa a ter de demonstrar o contrário. Afinal, quem é que está ali pela Gisberta?
Eu sei que a lei tem áreas cinzentas. Nem me parece que possa ser de outro modo. É impossível construir regras objectivas para tudo o que acontece na sociedade. É por aí que os actores do processo judicial podem ser responsabilizados e criticados. Todos os advogados deveriam fazer uma interpretação com base na honestidade intelectual. Aqui eu posso criticar os advogados de defesa. Os srs procuradores estão lá a representar todos nós na defesa da Gisberta. É porque eles acham que todos nós estamos com eles no desprezo pela vítima, que eles escolheram esse cinzento da lei. A lei dá-lhes manobra para procurar a justiça. O absurdo são eles. {O catilina diz-me que os procuradores estão é preocupados com os adolescentes. Agora é tarde. Por ironia é até contra-producente. Pensem bem que exercício de pedagogia o Tribunal oferece.}
Mas, lá está, João, estavam os rapazes preocupados em não matar a Gisberta? Ao torturar alguém doente, a morte não se torna uma possibilidade e à medida que o tempo discorre uma certeza? Uma atenuante poderia ser eles terem procurado ajuda. Algum deles o fez? Tudo o que eles fizeram naqueles dias apontou para um desfecho e devia ser esse somatório a ter-se em conta. Os pormenores da tortura deviam ser agravantes e ainda não li nada sobre isso. Além disso, os procuradores poderiam ter posto em causa que os adolescentes não soubessem que a Gisberta estava morta. Seriam os advogados de defesa a ter de demonstrar o contrário. Afinal, quem é que está ali pela Gisberta?
Eu sei que a lei tem áreas cinzentas. Nem me parece que possa ser de outro modo. É impossível construir regras objectivas para tudo o que acontece na sociedade. É por aí que os actores do processo judicial podem ser responsabilizados e criticados. Todos os advogados deveriam fazer uma interpretação com base na honestidade intelectual. Aqui eu posso criticar os advogados de defesa. Os srs procuradores estão lá a representar todos nós na defesa da Gisberta. É porque eles acham que todos nós estamos com eles no desprezo pela vítima, que eles escolheram esse cinzento da lei. A lei dá-lhes manobra para procurar a justiça. O absurdo são eles. {O catilina diz-me que os procuradores estão é preocupados com os adolescentes. Agora é tarde. Por ironia é até contra-producente. Pensem bem que exercício de pedagogia o Tribunal oferece.}
terça-feira
O absurdo letal em português
Hoje li isto no DN e li este texto da Fernanda Câncio. Fui submergida por uma tristeza e um desapontamento enorme, pela sociedade portuguesa, pela justiça, pela vítima, por um país que eu quero sentir como meu, mas que se recusa a ser.
Desde o crime que fui lendo notícias que me surgiam absurdas, demasiadamente falhas de lógica para eu não escolher esperar e ter esperança que os preconceitos não levassem a melhor no sistema judicial. É que mesmo havendo preconceito, os senhores procuradores são pessoas de raciocínio, não?, vão compreender que as outras pessoas também são pessoas de raciocínio e vão perceber quando eles estão a ser imbecis, não?, eles não vão querer parecer imbecis, pois não?, nem personagens de uma novela de Kafka ou Dostoevsky? Não, pois não?
Eu já nem falo de justiça, eu já nem falo da senhora de olhos tapados, já só falo de lógica, de não distorcer factos até ao absurdo.
A falta de provas que sustentasse a acusação de homicídio levou os procuradores a alterarem a qualificação dos crimes. O relatório da autópsia indicou que a morte foi provocada por afogamento (o corpo foi lançado pelos menores para um fosso com água), não tendo sido as agressões a originar o óbito de Gisberta Júnior.
Quererei eu retornar a um país em que adolescentes podem-me mandar para dentro de um poço e morrendo afogada, argumentarem que quem me matou foi a água?! Claro que há aqui dois pormenores subtis: é preciso que eles pensem que já me mataram e que o que me tenham feito antes não resultasse directamente na minha morte. A culpa é da água que finalizou o serviço. Se não houvesse água a culpa poderia ser da força da gravidade. Se mesmo assim não morresse e ninguém me encontrasse a culpa poderia ser de falta de comida, de falta de água, de falta de tratamento médico, mas quiçá nunca do que me levou em primeiro lugar para dentro do poço! É inusitado, mas há sempre alguma coisa que nos provoca a morte se não tiverem cuidado com o nosso corpo ainda vivo! Coisas que menores não conseguem abarcar pela sua complexidade extrema.
Ao que apurou o DN, da parte da defesa dos menores implicados, houve advogados que promoveram alegações em que sustentaram que não houve tentativa de homicídio. Não contestaram, contudo, que fossem aplicadas medidas tutelares, realçando apenas que o tribunal devia ter em conta atenuantes derivadas do contexto social e psicológico em que os menores viviam.
Os putos torturaram durante dias uma pessoa, deitaram-na a um poço e não houve tentativa de homicídio. O que será tentativa de homicídio? Foi devagar demais, é isso? Há dois dias estive num antigo campo de concentração nazi. Os prisioneiros eram forçados a fazer trabalhos absurdos, inúteis e fisicamente violentos até à morte. Dependia da fortaleza das pessoas quando chegavam ao campo, mas geralmente o máximo de tempo que as pessoas sobreviviam era 3 meses. Presumo que segundo estes advogados estes homens não foram assassinados. Ninguém os queria matar. Foram as condições de trabalho. Insano!
Atenuantes? Eu não queria ter estas dúvidas a vergastar-me, mas:
*) se a vítima não fosse transsexual haveria atenuantes?
*) se a vítima não fosse prostituta haveria atenuantes?
*) etc.
*) resumindo: é o ser da vítima a atenuante?
Outro aspecto que me deixa doente é a ausência (eu ainda com esperanças de ser só ausência) de informação sobre o apuramento de responsabilidades ou a compreensão do tal contexto social e psicológico que levou os adolescentes a cometer aquele crime extremo. Pelo contrário. Os responsáveis d'A Oficina de S. José foram desculpabilizados e li declarações incríveis dos srs padres, que, no mínimo dos mínimos, os colocariam como incapazes de ter a seu cargo menores. No entanto, a Oficina de S. José continua a ter jovens à sua responsabilidade! Quando os adolescentes forem internados em instituições, o que será feito? Vão-lhes ensinar a fragilidade do corpo humano? Biologia? O respeito pelos outros? A cobardia e o horror de torturar pessoas indefesas? E quando sairem? O que está a ser pensado para prevenir outros jovens de ter uma mentalidade tão doente? As posições relativas aos srs padres da Oficina e o silêncio levam-me a ter medo, muito medo, demasiado medo. O julgamento é à porta fechada. Será mesmo para proteger os menores? Serei eu malévola quando duvido? Quando acredito que é uma forma de varrer rapidamente o caso para fora do conhecimento dos jornais e no cômputo final de quem quer ter a certeza que vai haver consequências? Nem digo de punição, pelo menos de identificação do problema e estratégias para que isto não torne a acontecer. É para mim louco que se tente ignorar o problema desta maneira. Por favor, venha alguém dizer-me que estou errada!
O que se denota na justiça portuguesa é a importância do rácio estatuto da vítima versus estatuto do suspeito. A vítima é uma criança, o corpo não foi encontrado, os suspeitos são pobres e desarticulados, mas tudo fica rapidamente provado, a pena é célere, demasiadamente célere, de tal maneira que se fica desconfiado. Temos vários jovens, quando crianças enfiados numa instituição de solidariedade social, a apontar o dedo a suspeitos importantes, o caso arrasta-se durante anos, sem fim à vista. Suspeita-se principalmente que as supostas vítimas estão todas combinadas. Paninhos quentes e macro-compreensões para as supostas vítimas é que não se ouvem, ainda que venham de um contexto social e psicológico difícil. Deve ser porque são supostas. A vítima é uma pária (transexual, prostituta, doente com HIV e tuberculose) e os adolescentes abandonados, fruto de famílias disfuncionais, nem suspeitos são, há corpo, há marcas de sevícias, mas subentende-se que não têm pingo de maldade dentro deles. São tão inocentes que não têm capacidade de compreender o raciocínio de poço+água+pessoa=morte. Se pensavam que a Gisberta estava morta antes de a terem atirado ao poço são incapazes de compreender que "tortura corporal continuada"+pessoa+ "delta tempo"=morte. A morte não existe para estas crianças, ainda que elas tenham mais de doze anos. Porque provêm de meios sociais desfavorecidos e todos sabemos que em meios sociais desfavorecidos a compreensão do que é e provoca a morte é tardia.
Pelo menos, srs procuradores, mantenham uma aparência de respeito pela inteligência dos outros. Digam que os adolescentes são todos débeis mentais. É mais fácil de engolir. É mais fácil para nos iludirmos e não vermos a merda de justiça que promovem ou que a justiça é simplesmente o espelho do país preconceituoso e hipócrita que é Portugal. O país que representam eu não o quero para nada. Obrigado por mo mostrarem tão declaradamente.
Desde o crime que fui lendo notícias que me surgiam absurdas, demasiadamente falhas de lógica para eu não escolher esperar e ter esperança que os preconceitos não levassem a melhor no sistema judicial. É que mesmo havendo preconceito, os senhores procuradores são pessoas de raciocínio, não?, vão compreender que as outras pessoas também são pessoas de raciocínio e vão perceber quando eles estão a ser imbecis, não?, eles não vão querer parecer imbecis, pois não?, nem personagens de uma novela de Kafka ou Dostoevsky? Não, pois não?
Eu já nem falo de justiça, eu já nem falo da senhora de olhos tapados, já só falo de lógica, de não distorcer factos até ao absurdo.
A falta de provas que sustentasse a acusação de homicídio levou os procuradores a alterarem a qualificação dos crimes. O relatório da autópsia indicou que a morte foi provocada por afogamento (o corpo foi lançado pelos menores para um fosso com água), não tendo sido as agressões a originar o óbito de Gisberta Júnior.
Quererei eu retornar a um país em que adolescentes podem-me mandar para dentro de um poço e morrendo afogada, argumentarem que quem me matou foi a água?! Claro que há aqui dois pormenores subtis: é preciso que eles pensem que já me mataram e que o que me tenham feito antes não resultasse directamente na minha morte. A culpa é da água que finalizou o serviço. Se não houvesse água a culpa poderia ser da força da gravidade. Se mesmo assim não morresse e ninguém me encontrasse a culpa poderia ser de falta de comida, de falta de água, de falta de tratamento médico, mas quiçá nunca do que me levou em primeiro lugar para dentro do poço! É inusitado, mas há sempre alguma coisa que nos provoca a morte se não tiverem cuidado com o nosso corpo ainda vivo! Coisas que menores não conseguem abarcar pela sua complexidade extrema.
Ao que apurou o DN, da parte da defesa dos menores implicados, houve advogados que promoveram alegações em que sustentaram que não houve tentativa de homicídio. Não contestaram, contudo, que fossem aplicadas medidas tutelares, realçando apenas que o tribunal devia ter em conta atenuantes derivadas do contexto social e psicológico em que os menores viviam.
Os putos torturaram durante dias uma pessoa, deitaram-na a um poço e não houve tentativa de homicídio. O que será tentativa de homicídio? Foi devagar demais, é isso? Há dois dias estive num antigo campo de concentração nazi. Os prisioneiros eram forçados a fazer trabalhos absurdos, inúteis e fisicamente violentos até à morte. Dependia da fortaleza das pessoas quando chegavam ao campo, mas geralmente o máximo de tempo que as pessoas sobreviviam era 3 meses. Presumo que segundo estes advogados estes homens não foram assassinados. Ninguém os queria matar. Foram as condições de trabalho. Insano!
Atenuantes? Eu não queria ter estas dúvidas a vergastar-me, mas:
*) se a vítima não fosse transsexual haveria atenuantes?
*) se a vítima não fosse prostituta haveria atenuantes?
*) etc.
*) resumindo: é o ser da vítima a atenuante?
Outro aspecto que me deixa doente é a ausência (eu ainda com esperanças de ser só ausência) de informação sobre o apuramento de responsabilidades ou a compreensão do tal contexto social e psicológico que levou os adolescentes a cometer aquele crime extremo. Pelo contrário. Os responsáveis d'A Oficina de S. José foram desculpabilizados e li declarações incríveis dos srs padres, que, no mínimo dos mínimos, os colocariam como incapazes de ter a seu cargo menores. No entanto, a Oficina de S. José continua a ter jovens à sua responsabilidade! Quando os adolescentes forem internados em instituições, o que será feito? Vão-lhes ensinar a fragilidade do corpo humano? Biologia? O respeito pelos outros? A cobardia e o horror de torturar pessoas indefesas? E quando sairem? O que está a ser pensado para prevenir outros jovens de ter uma mentalidade tão doente? As posições relativas aos srs padres da Oficina e o silêncio levam-me a ter medo, muito medo, demasiado medo. O julgamento é à porta fechada. Será mesmo para proteger os menores? Serei eu malévola quando duvido? Quando acredito que é uma forma de varrer rapidamente o caso para fora do conhecimento dos jornais e no cômputo final de quem quer ter a certeza que vai haver consequências? Nem digo de punição, pelo menos de identificação do problema e estratégias para que isto não torne a acontecer. É para mim louco que se tente ignorar o problema desta maneira. Por favor, venha alguém dizer-me que estou errada!
O que se denota na justiça portuguesa é a importância do rácio estatuto da vítima versus estatuto do suspeito. A vítima é uma criança, o corpo não foi encontrado, os suspeitos são pobres e desarticulados, mas tudo fica rapidamente provado, a pena é célere, demasiadamente célere, de tal maneira que se fica desconfiado. Temos vários jovens, quando crianças enfiados numa instituição de solidariedade social, a apontar o dedo a suspeitos importantes, o caso arrasta-se durante anos, sem fim à vista. Suspeita-se principalmente que as supostas vítimas estão todas combinadas. Paninhos quentes e macro-compreensões para as supostas vítimas é que não se ouvem, ainda que venham de um contexto social e psicológico difícil. Deve ser porque são supostas. A vítima é uma pária (transexual, prostituta, doente com HIV e tuberculose) e os adolescentes abandonados, fruto de famílias disfuncionais, nem suspeitos são, há corpo, há marcas de sevícias, mas subentende-se que não têm pingo de maldade dentro deles. São tão inocentes que não têm capacidade de compreender o raciocínio de poço+água+pessoa=morte. Se pensavam que a Gisberta estava morta antes de a terem atirado ao poço são incapazes de compreender que "tortura corporal continuada"+pessoa+ "delta tempo"=morte. A morte não existe para estas crianças, ainda que elas tenham mais de doze anos. Porque provêm de meios sociais desfavorecidos e todos sabemos que em meios sociais desfavorecidos a compreensão do que é e provoca a morte é tardia.
Pelo menos, srs procuradores, mantenham uma aparência de respeito pela inteligência dos outros. Digam que os adolescentes são todos débeis mentais. É mais fácil de engolir. É mais fácil para nos iludirmos e não vermos a merda de justiça que promovem ou que a justiça é simplesmente o espelho do país preconceituoso e hipócrita que é Portugal. O país que representam eu não o quero para nada. Obrigado por mo mostrarem tão declaradamente.
quarta-feira
Os Srs. padres das Oficinas de S. José
Relativamente à tragédia da tortura e assassinato da Gisberta, os srs padres ligados ao caso dizem que:
A Oficina de S. José, Porto, assume apenas «responsabilidade moral» no homicídio de um sem-abrigo em que alegadamente estiveram envolvidos 11 dos seus 68 internos
«não era de todo previsível que uma situação destas pudesse ocorrer».
Lino Maia disse que foi «a falta de projectos de vida».
«Se nas famílias há problemas, numa instituição com 68 jovens essa probabilidade aumenta», acrescentou.
instituições como a Oficina de S. José «não estão vocacionadas para jovens com antecedentes criminais»
O que os qualifica como parvos e incompetentes.
Os Srs. padres estão tão preocupados em desculpar-se que são incapazes de fazer o mea culpa. As consciências dos padres não me preocupam, mas preocupa-me que não analisem cuidadosamente o que está mal e como evitar que nova tragédia ocorra. Para os Srs. padres a culpa é da vítima, por ser quem é, e dos agressores que são uns criminosos e os padres coitados, não estão aptos a lidar com pecadores. Benza Deus.
Os Srs. padres são uns simples e só estão aptos a encarregar-se de anjinhos. Como anjinhos só no Além, penso que se deverão guardar para depois da morte, para andarem a brincar aos educadores.
Vamos lá a pensar: se tivéssemos que arranjar alguém para tomar conta de filhos adolescentes para serem equilibrados elementos da sociedade iriamos incubir a sua educação a senhores que se dedicam ao recalcamento? Que acham que formar uma família diminui a sua capacidade de entrega a Deus? Poderia dar muitos mais exemplos de que eles, por princípio, não têm os parafusos todos no lugar, mas fiquemos por aqui. Estou a pensar em jovens sem traumas. Agora imaginem com a carga que aqueles miúdos têm. Famílias disfuncionais, maus-tratos, negligências, falta de amor, etc.... Não é com fé e rezas.
Pessoalmente sou de opinião que só tendo em conta as reacções dos devotos membros da igreja após a tragédia, se pode concluir que não são confiáveis para tomar conta de crianças e adolescentes. Realço só.
A Oficina de S. José, Porto, assume apenas «responsabilidade moral» no homicídio de um sem-abrigo em que alegadamente estiveram envolvidos 11 dos seus 68 internos
«não era de todo previsível que uma situação destas pudesse ocorrer».
Lino Maia disse que foi «a falta de projectos de vida».
«Se nas famílias há problemas, numa instituição com 68 jovens essa probabilidade aumenta», acrescentou.
instituições como a Oficina de S. José «não estão vocacionadas para jovens com antecedentes criminais»
O que os qualifica como parvos e incompetentes.
Os Srs. padres estão tão preocupados em desculpar-se que são incapazes de fazer o mea culpa. As consciências dos padres não me preocupam, mas preocupa-me que não analisem cuidadosamente o que está mal e como evitar que nova tragédia ocorra. Para os Srs. padres a culpa é da vítima, por ser quem é, e dos agressores que são uns criminosos e os padres coitados, não estão aptos a lidar com pecadores. Benza Deus.
Os Srs. padres são uns simples e só estão aptos a encarregar-se de anjinhos. Como anjinhos só no Além, penso que se deverão guardar para depois da morte, para andarem a brincar aos educadores.
Vamos lá a pensar: se tivéssemos que arranjar alguém para tomar conta de filhos adolescentes para serem equilibrados elementos da sociedade iriamos incubir a sua educação a senhores que se dedicam ao recalcamento? Que acham que formar uma família diminui a sua capacidade de entrega a Deus? Poderia dar muitos mais exemplos de que eles, por princípio, não têm os parafusos todos no lugar, mas fiquemos por aqui. Estou a pensar em jovens sem traumas. Agora imaginem com a carga que aqueles miúdos têm. Famílias disfuncionais, maus-tratos, negligências, falta de amor, etc.... Não é com fé e rezas.
Pessoalmente sou de opinião que só tendo em conta as reacções dos devotos membros da igreja após a tragédia, se pode concluir que não são confiáveis para tomar conta de crianças e adolescentes. Realço só.
sábado
A dificuldade em contemplar
Estive ausente. Dias sem ler jornais portugueses ou blogues. Arredada.
Hoje liguei-me de novo ao mundo portugues que a mim chega-me por fio.
Segundo compreendi 11 miudos humilharam/torturaram/mataram um homem. Provavelmente porque estava fragil, doente e era transsexual. Miudos. Li pormenores de sadismo. Frisa-se que o assassinio nao foi premeditado. A tortura foi? Acabou por morrer, mas eles nem pensaram nisso. A estupidez e' como a insanidade mental, uma desagravante? Miudos.
Desculpem-me. Arredo-me de novo. Ha coisas muito dificeis de contemplar.
Hoje liguei-me de novo ao mundo portugues que a mim chega-me por fio.
Segundo compreendi 11 miudos humilharam/torturaram/mataram um homem. Provavelmente porque estava fragil, doente e era transsexual. Miudos. Li pormenores de sadismo. Frisa-se que o assassinio nao foi premeditado. A tortura foi? Acabou por morrer, mas eles nem pensaram nisso. A estupidez e' como a insanidade mental, uma desagravante? Miudos.
Desculpem-me. Arredo-me de novo. Ha coisas muito dificeis de contemplar.
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