Mostrar mensagens com a etiqueta crianças. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta crianças. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira

Quando o sonho nasce acorda para a realidade de ser pessoa e se for mulher digam-lhe que vale menos que o esboço.

leiam isto

quinta-feira

Afeganistao: o feminino infantil


A Ghulam Haider, de 11 anos, vai casar com Faiz Mohammed, de 40. Ela queria ser professora, mas quando ficou noiva foi forcada a desistir da escola.


A Majabin Mohammed, de 13 anos, senta-se 'a esquerda do seu marido, Mohammed Fazal, 45, juntamente com a sua primeira mulher e filho. A Majabin foi dada em casamento em pagamento de uma divida de jogo.

As raparigas sao trabalhadoras valiosas numa terra em que a sobrevivencia e' arrepanhada de meio acre de solo [1 acre = 0.4 ha]. Em casa do marido o seu valor e' ainda maior. Podem ter sexo e filhos.

Fotografias e texto obtidas em pop-up no sitio do "The New York Times". Traducao minha.

Nota: ha' umas duas semanas escrevi um texto sobre a minha posicao sobre a poligamia. Este e' um exemplo a corroborar o meu negativismo.

Tatuagens

Percebi o limbo no dia em que a minha mãe pela primeira vez disse: "A vida é para quem a sabe viver." Foi daqueles momentos em que sabemos que estamos a viver um daqueles momentos. Os decisivos, a linha entre o antes e o depois, os que nos hão-de bater vezes sem conta dentro do crânio até nos fazer acreditar na possível loucura, os que nos farão ranger os dentes, desejar chorar. Naquele dia eu tive medo, muito medo, como nunca tinha tido na vida e o medo mantevesse-me colado à pele. O caricato é que a minha mãe disse-o e provavelmente esqueceu-o, nunca sabendo que a criança que o ouviu iria ficar tatuada para a vida por algo aparentemente tão comezinho. Mas houve outros momentos menos comezinhos e tudo ficou escrito. Está tudo escrito na epiderme. Tenho medo do que digo às crianças. Explico tudo e rego as minhas palavras com esperança, sou ausente, tento ter o mínimo das influências e nunca desejei ter filhos. Porquê? Eu digo que suspeito que não serei uma boa mãe. Mas o pavor, o pavor são as tatuagens que eu possa deixar nos meus filhos.

As crianças 2

A lei. A lei de Portugal está pelos criminosos. A não ser que se seja pária. O pária é sempre culpado, mesmo que seja a vítima. Lembrem-se que a lei vem da sociedade e lembrem-se dum sr. padre d'A Oficina de S. José que basicamente disse isto da Gisberta.

Mas falemos da lei. Querem um lado para começar? A lei que rege a protecção de menores. Os pais são sempre desculpados. São pais, os pais biológicos amam sempre muito os seus filhos, coitados, só parece que não os amam porque têm uma vida difícil. Coi-ta-di-nhos... É preciso que enfiem as crianças em banheiras com água a ferver e assim coisas similares para que a lei se lembre da criança. Senão há sempre rotundas na lei para que a criança fique com pessoas que só lhe deram a vida, mas não vida. Até ao momento em que a lei tenha a criança como fulcro e não os pais, crianças como as que mataram a Gisberta continuarão a ser criadas. Imagino a pedagogia que seria lermos o trajecto de vida de cada um daqueles miúdos. Vermos como a lei as esqueceu.

O caso Pia. O caso continua nas circunvoluções que têm mais em conta os supostos criminosos que as supostas vítimas. Imaginem bem estas pessoas. A crescer numa instituição, sem amor, sem alguém que goste delas. São abusadas. Têm a coragem de falar e... E é um inferno sem fim. Agora são abusadas pelo sistema judiciário. Eu pergunto: não há que haver um equilíbrio entre o "inocente até prova em contrário" e "a possivelmente vítima não deve ser traumatizada pelo próprio sistema judiciário"? As vítimas deviam ser como algo que temos na mão e não sabemos se é porcelana. Não sabemos a sua fragilidade, até termos a certeza, são frágeis e devem ser tratadas como porcelana.

Os meninos da casa pia. Os meninos da casa pia merecem uma família e talvez na maioria dos casos os meninos da casa pia não têm alguém que os ame, porque há uma mentalidade que também produz a lei, que não pensa que essa seja a prioridade. Quem fala dos meninos da casa pia fala dos outros todos. Quando estes meninos forem a prioridade da lei, então algo está a ser feito pelas crianças. Então, catilina, veremos a face humana da lei. Fazê-lo depois, quando elas descarregaram sei lá que dores, sei lá, sei lá, o que lhes fizeram, sobre alguém mais frágil que elas. Então... O sr. procurador é um penso num membro amputado.

As crianças... Quem as fez, as pessoas que elas pontapeavam quando o faziam à Gisberta, essas pessoas... Pois, essas pessoas. Provavelmente a lei esteve por essas pessoas, em vez dos miúdos que torturaram a Gisberta. Agora é tarde, é tarde demais.

Concluindo: a história tem duas faces e em ambas a lei e/ou quem a aplica estão mal.

As crianças (revisto)

O catilina escreveu na minha caixa de comentários:

Por favor, estamos a falar de miúdos. Ficaria muito mais feliz se cada uma deles passasse vinte ou trinta anos na prisão, pelo que fez aos 15 anos de idade?
Sabe, porventura, o horror de uma prisão portuguesa?
Já entrou alguma vez no Estabelecimento Prisional de Lisboa, na "ala dos miúdos", onde centenas de adolescentes (todos do sexo masculino) estão encarcerados, onde um homem adulto tem dificuldade em entrar, quanto mais uma mulher?
Chamam-lhes os índios. Estão amontoados, varridos para debaixo do tapete de uma sociedade que não se quer lembrar que eles existem.

Há já muito tempo, por força da minha profissão (sou advogado), que cheguei à conclusão que a prisão não resolve, não reeduca. Pelo contrário, complica e "deseduca". As prisões são de facto, a expressão é batida, escolas do crime, em que quem sai, sai pior do que quando entrou. E quando assim não é, quando o ex-recluso percebe que a sociedade já não o quer, devido ao estigma que carrega, revolta-se. Uma revolta interior, profunda e incontrolável, que o leva a mais do mesmo.

Parece-me, por isso, que não se deve criticar o MP, que conhece bem esta realidade. Que quando decide acusar, ou alterar a qualificação jurídica dos factos, o faz certamente de forma técnica, mas também ciente da responsabilidade que carrega. É que as funções do MP se prendem com a defesa do interesse público, da vida em sociedade e estes jovens também são sociedade.
O seu futuro deve interessar a todos.

Repare que não pretendo criticá-la ou chamar-lhe a atenção do que quer que seja. Tem direito à sua opinião e respeito-a. Pretendo apenas lembrá-la que, esta história tem duas faces.
É que, ao contrário de si, não sei qual é a melhor solução para este caso. Qual a que melhor salvaguardará a sociedade que queremos preservar.
Apenas desejo, profundamente, que isto não tivesse acontecido, é que são miúdos que, infortunadamente, não vão poder viver a sua adolescência, como nós vivemos a nossa.

Cordiais saudações

------------***-------------------

As crianças não estão ausentes do meu pensamento. Eu também pensei que os srs procuradores estariam a pensar nelas. Contudo, os srs procuradores deviam estar ali pela Gisberta. Senão não percebo para que é que são os advogados de defesa. Explique-me.

As prisões são horríveis, ineficazes, escolas de crime? Pois faça-se algo. Mas não à custa das vítimas.

As instituições que albergam crianças em risco são incompetentes, ineficientes, irresponsáveis? Pois faça-se algo. Mas não à custa das vítimas.

O que mais me desilude nisto tudo é mesmo isto. Ninguém fala d'A Oficina de S. José. Assim, bem podem falar das pobres crianças. Pobres crianças a quem poucos ligam a não ser quando foram mortas ou mataram.

P.S.: Além disso, veio confirmar o meu receio de que nada vai ser feito pelos adolescentes e que nada vai ser feito para a não reincidência. Veja: estavam metidos numa instituição com padres idiotas (estou a pensar nas declarações que eles deram depois do crime), ao deus-dará provavelmente, a seguir vão ser metidos em instituições de "indíos", como diz. O futuro quem sabe. Resolvem pensar neles, agora, na sala do Tribunal.

Geração sem guia

O tempo anda depressa. Com trinta anos, a minha idade de crescer pouco teve a ver com a da minha sobrinha seis anos mais nova e é de um país extra-terrestre comparada com a minha sobrinha dezassete anos mais nova. Sento-me no sofá ao lado da geração mais nova e peço-lhes que me expliquem o que estão a ver na televisão. É aborrecido. Não resisto. Pego numa revista. Que chata tia, estás sempre a ler!

As minhas sobrinhas, do que me é possível ver, são saudáveis, têm pais que lhes deram/dão apoio. Não será como as meninas deste artigo* que me deixou numa tristeza funda. A situação descrita é nos EUA, mas será só lá? Resumido: meninas no inicio da adolescência fazem sexo oral a colegas, vários numa mesma sessão. Parece que é uma moda. A cronista compara a sua idade de crescer com esta idade de agora e ainda que ela tenha uns 20 anos mais que eu, ela está mais perto do meu crescer. É habitual as pessoas ficarem surpreendidas com o saber das crianças. Sabem tudo. Nós não eramos assim, pois não? Só que o que aquele artigo me diz é o perigo de saberem demais de algo e de menos de outro. Sabem tudo sobre sexo, mas não sabem como o incorporar nas suas vidas. Sabem tudo sobre a mecânica e nada sobre o emocional. O segundo é normal, são crianças, adolescentes, estão a crescer. Contudo, com tanta informação, eles precisam dos pais presentes que lhes traduzam o que ainda não dá para compreenderem completamente. Antes, a sociedade era proibitiva, fechada, claustrofóbica. Contudo, tinha o positivo de serem os adolescentes a procurar e isto, de alguma forma, protegia-os de saber demasiadamente cedo. Agora com a informação a ser despejada literalmente sobre as pessoas, de tal forma que só fechando os olhos é que não se vê, se os pais não estão presentes para dar uma moldura à pintura, parece que pode acontecer o que é descrito no artigo. Crianças perdem a noção da realidade em programas aberrantes, como a MTV descrita aqui, que eu de vez em quando espreito como se estivesse a ver figuras circenses do século XIX, a mulher barbuda dos dias de hoje; crianças descompreendem as canções que têm letras destas:

Ain't my job
To fuck you on your birthday
Ain't my job
To fuck you on your birthday anymore


Mas isto é suave...

“You make a nigga wanna fuck your ass on the couch / While we’re still in the club, show your pussy love / Work that clit / Cum girl.”

Estas músicas são ouvidas por adolescentes. Eu sou adulta. Eu sei rir-me com as idiotices da MTV, a mim desgosta-me estas letras, eu não preciso de ser cool, as mulheres magrelas das revistas de moda não me afectam, não sou pressionada pelos meus pares, eu, afinal, tenho mais caminho percorrido. Eu sou eu, daquela forma que se alcança quando se é adulto.

Mas os adolescentes andam à procura deles mesmos e andam-se a perder e a aleijar-se. Talvez me engane. Talvez não seja assim. Talvez seja só na América. Se calhar estou fora. Mas se calhar até não e a única solução são os pais. Que chata tia, não percebes nada disto! Talvez não, mas faz-me triste.

* via Voz do Deserto

terça-feira

Adopção

(...) Idália Moniz, secretária de Estado Adjunta e da Reabilitação, afirma que "os portugueses querem crianças pequeninas, sem irmãos e caucasianas (brancas). Quem vem buscar os outros, por incrível que seja, são os estrangeiros".

(...)

"em Portugal, quase temos mais pessoas que querem adoptar do que crianças para serem adoptadas", diz a secretária de Estado. O paradoxo reside no facto de haver mais candidatos a pais, desde que seja de crianças pequenas, caucasianas, sem irmãos ou deficiências. Só que bebés, há poucos.

(...)

Se, por um lado, temos o facto do processo de adopção poder levar até quatro anos; por outro, lamenta Idália Moniz, "não ajudam as preferências dos candidatos portugueses".

Recorde-se que, em Portugal, há mais de 15 mil jovens institucionalizados. Destes, determinou um estudo do Instituto da Segurança Social, levado a cabo em 2004, há apenas 10.800 entre os zero e os 21 anos (o JN encontrou internados com mais de 25 anos); e dos 10.800, apenas 800 reunem condições para a adopção, refere o levantamento. (...)


No Jornal de Notícias de hoje.


Sobre a adopção escreve o Carlos Furtado do Nortadas, num poste intitulado "A agenda de alguns, bem minoritários":

(...) Acredito que a familia tradicional é o mais forte pilar de uma sociedade. Apesar de todas as vicissitudes que os casamentos passam, uns aguentam e outros fraquejam, continua a ser esta a melhor forma organizacional e aquela onde melhor se consegue educar uma criança.

É entre um pai e uma mãe, entre um homem e uma mulher, que uma criança aprende o que é viver em sociedade. Aprende o que é uma sociedade.

Só que o processo de adopção ainda é quase um processo infinito. Os tempos de espera são verdadeiramente desesperantes, quer para quem pretende adoptar quer para quem deseja ser adoptado.
(...)
Infelizmente os prazos ultrapassam e muito os três anos. Não conheço muitos casos, mas os que conheço já vão nos 4 anos, já passaram uma série de exames, todos eles têm já um filho, mas ainda assim continuam à espera.

Imagine-se agora que a este processo lento e demorado, conseguimos meter umas areias mais: os casais homossexuais.


Vamos a imaginar que os homossexuais, essas areias entre os pilares da sociedade, em vez de verem a adopção como o adquirir o bébé de medida, côr e marca ideal, talvez sejam mais humildes. Em vez de se olharem no espelho com jactância achando que são os suportes da nossa civilização, talvez tenham uma visão da sociedade mais generosa. Talvez sabendo eles próprios o que é ser-se considerado os minoritários anormais, os refugos, talvez eles não se importem em dar guarida e amor aos outros que não estão dentro das imaginações de perfeição dos casais heterossexuais. Desta forma talvez estas crianças tenham uma ideia mais rica do que é a sociedade, do que é a variedade humana, talvez estas crianças melhorem a nossa sociedade. É a minha imaginação. Que numa sociedade ninguém é areia no mecanismo. Que todos fazemos parte e ninguém merece ser excluído porque não é da maioria padrão.

sexta-feira

Bébé Letícia

Terminou a investigação sobre a actuação da CPCJ.
Aqui notícia no DN.

Tenho esperanças que não caia em saco roto. Estou farta deste país com as melhores leis e os melhores relatórios, muita coisa no papel, muitas vírgulas no sítio certo, muitas prateleiras abastecidas, mas depois ninguém lê, ninguém liga e continua-se no terreno, na vida da gente, a improvisar, a fazer conforme a cabeça, a confiar no voluntarismo, muito lindo no mundo das fadas, mas em certas áreas (como a protecção de menores) pode lixar a vida das pessoas para sempre. Estou zangada... É tudo.

sábado

Letícia, quero-te bem

Quando falo do drama da bébé Letícia, abusada pelos pais, agora num hospital em Coimbra, à minha família ou lendo o que se escreve pela Net fica a sensação de ingenuidade. Como se pode pensar que os pais podem ser assim? Talvez seja porque eu tenho uma irmã a trabalhar com crianças em risco, mas eu nunca confiei no amor dos pais. Lembra-me de ser jovem, muito jovem e uma das coisas do mundo que me deixavam confusa é que não se tivesse que prestar provas para se ser pai ou mãe. Eu estudava e fazia provas e passava de ano e diziam-me que eu tinha de prestar provas para guiar um carro e prestar provas para ter uma profissão, mas não para fazer e criar uma criança. Porquê, perguntava eu? Criar uma pessoa! É muito mais importante! Como se pode confiar? Porque há o amor e não há amor maior que o de uma mãe, dizia-me a minha, que sei que me ama, não o dúvido, mas será assim com todas as crianças? Uma dúvida que começou em mim em tenra idade deixa perplexos pessoa graúda, como se de repente algo novo surgisse. Sinto-me novamente confusa com tanta ingenuidade.

quarta-feira

sexta-feira

Bom senso [# Actualizado]

Vivemos numa sociedade e para manter um sistema desta complexidade têm de existir regras. Verdade seja, acho que há regras a mais. Mas isso é outra história que agora não quero contar. O beco a que eu quero chegar é o de que quando se faz uma regra esta deverá abarcar o maior número de situações possíveis, mas restam as excepções. Verdade seja, que por vezes se fazem as regras a pensar nas excepções. Mas isso é outra história... Pelo que quando a regra não se adequa à situação dependemos do bom senso de quem a aplica. Aqui chegamos ao poço de idiotias a que eu queria chegar. É que o bom senso parece ser um bem escasso*. Claro que há muitos casos que não é um caso de bom senso, mas crime premeditado e isso é de novo outra história.

Ontem, no Público, vinha uma entrevista a Luís Villas-Boas, director do Refúgio Aboim Ascensão, instituição de acolhimento de crianças em Faro. Ele presidiu à extinta comissão que acompanhava o delinear do novo regime de adopção.

Um dos instrumentos principais que ele defende para que os potenciais pais encontrem os potenciais filhos e vice-versa é a criação de uma base de dados nacional. Contudo, um dos entraves vem da Comissão Nacional de Protecção de Dados, que não permite que se incluam informações de etnia. Todos nós ficamos contentes que exista uma Comissão que dê pareceres que nos protejam de um Big Brother, mas falta nesta situação bom senso. A comissão não vive neste mundo. É compreensível que pais adoptivos possam ter uma preferência por crianças da sua própria etnia (que não será só para o lado dos pálidos, mas também de pretos, castanhos, amarelos, ciganos, africanos, asiáticos,...) e alguns até preferirão o contrário. Mas esta informação é essencial para os intervenientes deste processo, incluindo as crianças# [Actualização]. A preferência étnica não é um reflexo seguro de racismo. Tenho um amigo branco sardento que fica excitadíssimo com mulheres asiáticas. Não o considero racista. Muitos outros exemplos de pendores que todos nós temos poderia eu dar. Se não percebem o mundo em que vivem e pior esse alheamento põe entraves à possibilidade de mais pessoas serem felizes, entre elas crianças abandonadas, em que esta medida é essencial para o seu futuro, bem, esta gente está doente. Sofrem do politicamente correcto, que irrita.

O politicamente correcto na área do racismo é ridículo. Porque o politicamente correcto passa do racismo para o racismo. Eu dou um exemplo: numa ocasião eu e vários colegas do meu instituto encontramo-nos para ver um espectáculo japonês de fogo-de-artifício. Juntamo-nos no local combinado, mas faltava alguém. Era uma moça francesa de origem africana. A maior parte do pessoal não reconheceu o nome e portanto um rapaz começou a descrevê-la. Ora, a moça era a única pessoa de traços africanos no nosso instituto e seria absolutamente lógico que ele começasse por aí. Afinal quando se tenta individualizar alguém, escolhem-se os traços mais diferenciadores, que na Alemanha eram os seus traços africanos. Mas ele não: cabelo curto, um brinco mais comprido que outro, olhos castanhos e eu a olhar para ele cada vez mais incrédula. Quando chegou ao momento em que ele teria de começar por características só úteis se todos pertencessemos a um clube de nudismo, eu disse o óbvio. Toda a gente chegou lá num segundo. Eu fiquei perplexa, pois isto para mim foi racismo decantado. Evitar dizer que a moça tinha pele preta e carapinha é como dizer que estas características são más. Afinal, o que é necessário é aceitarmo-nos, ou não? Fazer de conta que somos todos brancos? Que porra de novo racismo é este?

* estou a pensar no caso Fátima Felgueiras. O melhor que se pode pensar da juíza Ana Gabriela Freitas é a de que tem muita falta de senso. As alternativas fedem. Actualização: as alternativas podem ser outras e não federem. Ver aqui.

# Actualização: depois de ler sobre este mesmo assunto no blogue Renas e Veados dei-me conta que não expliquei porque é essencial este pormenor para as crianças. É essencial porque quando os potenciais pais e filhos se encontram os técnicos querem ter a maior certeza possível de sucesso. Que esta família será a certa, que quererão esta criança e a amarão. As expectativas são demasiadas e o fracasso paga-se caro e geralmente mais para o lado da criança. Na adopção vive-se na realidade dos sentimentos, não num mundo imaginário, nem os técnicos quererão mudar o mundo. Somente dar um lar funcional e feliz a uma criança, que a acolha com o mínimo de atritos.

Por outro lado, não estarei a ser demasiadamente generalista na minha compreensão? Não estarei a misturar? Todos nós temos preferências físicas e culturais relativamente a atracções sexuais e amorosas... [Para depois poderem ser esquecidas porque há muito mais na prenda que o pacote e relativamente a diferenças culturais até se pode descobrir que traz mais sal à relação... :-)] Na adopção os adoptantes e os adoptados também têm expectativas físicas e culturais (e de sexo e de idade...) que serão geralmente para o lado de serem todos o mais parecidos possível. É de compreender? Penso que sim. Somos humanos. Contudo, com mentes abertas há sempre flexibilidade. Mas é necessário que os técnicos saibam o mais possível para trabalhar as expectativas e as sensibilidades. "Blind dates" em adopção, devem ser o menos cegos possível.