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terça-feira
Crescer
Devo andar coisa menos coisa pelo meio da minha vida. Olho para trás e miro enternecida, envergonhada, espantada, os disparates em que acreditei, os medos que fomentei, os enigmas que desvelei muito tarde. Olho-me neste ponto e pergunto-me o tanto que esquecerei, os erros que remarcarei, o que finalmente aprenderei, esperando com imensa esperanca que seja capaz de alguma forma de ser melhor. Mas olho ao lado os outros adultos e as nódoas que ornamentam, mais fáceis de ver que em mim, e desespero. Tanta gente que nao aprende e é infantil ao ponto de anedota aos trinta, quarenta anos. Poderei eu ser diferente?
quinta-feira
Já repararam...
... que quando digo que me vou embora é quando volto?
Bem dizia a minha mae: sou mesmo do contra.
Bem dizia a minha mae: sou mesmo do contra.
segunda-feira
Vou-te mandar uma música
Perdoa-me
ah, se eu pudesse, se eu tivesse podido
juro-te, teria dado significado aos teus sonhos
ao sol que me levaste a ver
a palavras e tristezas
se eu tivesse podido ser menos os outros
se eu tivesse podido ser eu melhor
se pudessemos renascer noutro mundo
se pudessemos escolher o que somos
se pudessemos juntar sem cicatrizes
se o amor fosse tao feroz quanto a vida
eu poderia ter-te amado.
sexta-feira
O encanto do encantamento

fonte -> http://www.flickr.com/photo_zoom.gne?id=391625847&size=l
Houve um ano da minha vida em que era fácil encantar-me. Acho que é um truque da memória, eu a olhar para trás e a ver as cores sobre a laguna, os cheiros da primavera a espalharem-se venenosamente a toda a volta. As voltas e contra-curvas que eu dava pelas salinas, os mosquitos e eu de joelhos a encantar-me com cada pequena coisa. Foi o ano em que eu nasci. Sinto saudades de mim.
Lembro-me tão bem das cores da luz, do jogo de sombras e dos cheiros. Aquela primavera corre-me pelas veias, se fechar os olhos sinto a chuva e o som dos pássaros entre a folhagem, tantos, eram tantos, mais que as folhas. Se fechar os olhos ouço o sino da igreja nas manhãs de domingo e eu a espreguiçar-me feliz enquanto o sol me brincava com as pestanas. Se fechar os olhos vejo o horizonte ao longe, longínquo a abrir o mundo. Sinto saudades de mim.
A madeira a queixar-se sob o meu andar e eu a jogar futebol com uma bola de papel e a mandar abaixo os vasos. Eramos tão velhos e tão novos e tão ridiculamente tontos. Eramos responsáveis e irresponsáveis e brincávamos com as perspectivas da independência. A vida estava ali, acabada de abrir. Aquela primavera sedimentou em mim, deixou marcas de água. Está algures.
lately i find myself
amazed at all around me
everything i see
like all of life's ablaze with light
that suddenly i see, only now i see
the wonder, the wonder of it all
wonder everywhere, more than we know
heaven's not up there, but on earth below
don't know if god exists
but there's some magic out there
so much we're not aware
and then sometimes suddenly i hear
a harmony sing, of each and everything
the wonder, the wonder of it all wonder everywhere, more than we know heaven's not up there, but on earth below
WONDER {LAMB}
(don't know if god exists, but there seems to be angels below)
quinta-feira
O que muda
Estamos sentados num restaurante ranhoso na China Town. Vêm os biscoitos com os papelinhos com que se brinca ao destino. O meu chateia-me, algo sobre o meu futuro ser ilimitado e eu que sempre me senti perdida, que me procuro desde há muito, não gosto. Ele diz-me que é positivo. O dele é sobre a beleza de uma vida a dois. Eu sorrio com o despropósito. Enquanto ele vai falando eu saboreio o não o amar mais. Brinco com um vistoso gancho do cabelo. É tão diferente de quem eu sou que ele sabe que foi um presente. Ele pergunta. Da minha resposta ele tira a pergunta: porque não me envolvi? A minha pergunta é contrária. Porque me envolveria? O sentido das perguntas foi o que nos uniu e separou. Pouco mudou, mas o que mudou foi essencial: já não me interessa. Já nem é preciso que ele assuma que me fez sofrer. Acabou. I'm weightless.
Reach me come closer running back home
Tell me your sorrow now that I've gone
How much you need me now I've let go
Tell me like always how you are lost
Watch me I'm weightless though I'm in the ground
See me I'm flying no longer around
My boomerang my boomerang
I discovered how the land lies
How you can't walk over mine
Won't you uncover all you hide
Till then your strength is mine
Watch me I'm weightless
Boomerang dos Cirrus
Reach me come closer running back home
Tell me your sorrow now that I've gone
How much you need me now I've let go
Tell me like always how you are lost
Watch me I'm weightless though I'm in the ground
See me I'm flying no longer around
My boomerang my boomerang
I discovered how the land lies
How you can't walk over mine
Won't you uncover all you hide
Till then your strength is mine
Watch me I'm weightless
Boomerang dos Cirrus
segunda-feira
Já se notam os novos ares
Despedida ao telefone de parentela:
- E se engravidares, nós estamos cá, nao precisas de abortar.
- E se engravidares, nós estamos cá, nao precisas de abortar.
sexta-feira
quarta-feira
O grito no monte
Enquanto leio o último livro do Lobo Antunes, e como já me aconteceu antes a ler livros destes, eu penso que este livro foi escrito por uma necessidade funda de arrumaçao de sentires. Posso estar errada, possivelmente estou, mas imagino o acto de escrita para alguns escritores como o que o sonho é para o nosso cérebro: uma necessidade para manter a sanidade.
Confesso que procuro respostas. De novo estarei profundamente enganada. Poderei estar enganada de muitas formas; nem respostas, só perguntas, nem perguntas.
Depois do acto de escrever importar-se-á o escritor com o que acontece com o livro? Pensará como é que estará a ser interpretado? Se alguém lhe captará o significado, se alguém lerá o seu espectro?
Importo-me eu como vós interpretais as minhas frases? Nao. Mas há algo na escrita, como um grito num monte que faz eco no vale, que nos liberta de algum do peso. Nada resolvido, nada respondido, mas a sanidade mantém-se por mais um tempo.
Confesso que procuro respostas. De novo estarei profundamente enganada. Poderei estar enganada de muitas formas; nem respostas, só perguntas, nem perguntas.
Depois do acto de escrever importar-se-á o escritor com o que acontece com o livro? Pensará como é que estará a ser interpretado? Se alguém lhe captará o significado, se alguém lerá o seu espectro?
Importo-me eu como vós interpretais as minhas frases? Nao. Mas há algo na escrita, como um grito num monte que faz eco no vale, que nos liberta de algum do peso. Nada resolvido, nada respondido, mas a sanidade mantém-se por mais um tempo.
segunda-feira
aqui vai, caríssima
Dizes que sou incrível e parece que sou incrível
e toda a gente acha que sou incrível e parece que
neste meu papel de incredibilidade nao consigo
enquadrar-me no mundo.
Poderia concluir que nao há lugar no mundo para os incríveis.
Mas isso parece-me mal.
Eu pareço incrível, mas só sou estuque a cair sobre a cabeça das pessoas
que acham incrível que haja estuque a cair do céu.
Beijos.
e toda a gente acha que sou incrível e parece que
neste meu papel de incredibilidade nao consigo
enquadrar-me no mundo.
Poderia concluir que nao há lugar no mundo para os incríveis.
Mas isso parece-me mal.
Eu pareço incrível, mas só sou estuque a cair sobre a cabeça das pessoas
que acham incrível que haja estuque a cair do céu.
Beijos.
quinta-feira
sonhei com deus
ele estava sentado num terraço noruegues
o fiorde a espraiar-se
tinha na mao um charuto
e conversava com anjos
eu estava de fora da cerca
tentei chamar-lhe a atençao
eu esbracejei
gritei baixinho
a medo
eu saltei
fiz caretas
cantarolei
os anjos olhavam-me pelo canto do olho
aborrecidos
esperando que eu desistisse
deus foi muito melhor a ignorar-me
ele estava sentado num terraço noruegues
o fiorde a espraiar-se
tinha na mao um charuto
e conversava com anjos
eu estava de fora da cerca
tentei chamar-lhe a atençao
eu esbracejei
gritei baixinho
a medo
eu saltei
fiz caretas
cantarolei
os anjos olhavam-me pelo canto do olho
aborrecidos
esperando que eu desistisse
deus foi muito melhor a ignorar-me
sexta-feira
naufragou
perdeu-se no mar alto
e aportou na areia
ignoram-lhe os mastros
quebrados, rasgados
a dor que se cheira
a léguas
de vez em quando um suspiro
uma angústia estrebucha
debaixo das vagas mágoas
o choro sangra devagar
ignoram-lhe o desespero
o mar adoça o amargar
ignoram
e aportou na areia
ignoram-lhe os mastros
quebrados, rasgados
a dor que se cheira
a léguas
de vez em quando um suspiro
uma angústia estrebucha
debaixo das vagas mágoas
o choro sangra devagar
ignoram-lhe o desespero
o mar adoça o amargar
ignoram
terça-feira
Por razao nenhuma
Ela acordou e sentiu-se feliz. O alarme regurgitava música dos Coldplay e ela sorriu. Os olhos brincavam-lhe com os raios de sol que se surripiavam por entre as cortinas grossas. Ouviu os passos sobre si, de quem já andava a labutar os dias sempre iguais. Era mais um dia de uma série de dias, mas hoje ela sentiu-se feliz por razao nenhuma. Os olhos brincavam com o sol e ela sentia-se feliz. Por razao nenhuma. Por razao nenhuma, ela pensava, por razao nenhuma, o que significa algo, significa pela nossa razao, porque nao há razao nenhuma para nada.
P.S.: tenho a sensaçao que plagio o título do poste, mas nao sei de onde.
P.S.: tenho a sensaçao que plagio o título do poste, mas nao sei de onde.
domingo
A tristeza
Lembro-me daquela tarde encostada à janela da varanda a ver a chuva nas folhas e a ouvir dido. As poças de água acumulavam-se nos vasos gigantescos e eu enrolada em lençois caminhava pelos corredores sentindo-me sem essência. A tristeza ela própria parecia sem essência, como se estivesse entretecida em mim. Nada de desespero, só a tristeza e nem passado nem futuro, mas só a luz cinzenta de um dia de Outono em que eu não percebia como era possível sobreviver assim, sem qualquer vontade de viver. Contudo, o prosaico de eu ir mudando os CDs na aparelhagem, enchendo a casa de passos de música e silêncio, que eu executava sem sossego, demonstravam que eu não estava morta, eu era morta. A minha sobrevivência é a colecção da vida por entre a morte.
terça-feira
quinta-feira
Tatuagens
Percebi o limbo no dia em que a minha mãe pela primeira vez disse: "A vida é para quem a sabe viver." Foi daqueles momentos em que sabemos que estamos a viver um daqueles momentos. Os decisivos, a linha entre o antes e o depois, os que nos hão-de bater vezes sem conta dentro do crânio até nos fazer acreditar na possível loucura, os que nos farão ranger os dentes, desejar chorar. Naquele dia eu tive medo, muito medo, como nunca tinha tido na vida e o medo mantevesse-me colado à pele. O caricato é que a minha mãe disse-o e provavelmente esqueceu-o, nunca sabendo que a criança que o ouviu iria ficar tatuada para a vida por algo aparentemente tão comezinho. Mas houve outros momentos menos comezinhos e tudo ficou escrito. Está tudo escrito na epiderme. Tenho medo do que digo às crianças. Explico tudo e rego as minhas palavras com esperança, sou ausente, tento ter o mínimo das influências e nunca desejei ter filhos. Porquê? Eu digo que suspeito que não serei uma boa mãe. Mas o pavor, o pavor são as tatuagens que eu possa deixar nos meus filhos.
Lifes return
I close myself within me, and then inside my room, and then inside my brain, and then inside my past, and then inside my mother uterus, and then inside my courage, and then i come out, and then i return, and then i cycle, and then one beautiful day i will surely die.
terça-feira
Preciso urgentemente de um gestor de imagem
A EII vai fazer anos. O que é que pretendem dar à EII? Um dicionário de 4 línguas! Eia! Eia! Perguntaram-me o que eu achava e eu obviamente disse que era perfeito. A questão que me preocupa é que esta gente que agora demonstra bom senso deu-me, quando foi a minha vez, um isqueiro que parece uma pistola. Cópia exterior perfeita. Até no peso. Se eu fosse com aquilo para um aeroporto provavelmente era morta. Se a minha primeira teoria está errada (gente alienada), então que tipo de mensagem ando eu inadvertidamente a dar às pessoas sobre mim própria?
domingo
Quem somos
Nós somos os insatisfeitos
As promessas incapazes de cumprimento
Os que fazem as malas quando a vida é perfeita
Os que amam eternamente num momento
Os que partem corações, principalmente o seu
Os que só querem ser felizes
A vida está a apanhar-nos
Mas nós temos as almas ciganas
Nós somos a geração Z.
As promessas incapazes de cumprimento
Os que fazem as malas quando a vida é perfeita
Os que amam eternamente num momento
Os que partem corações, principalmente o seu
Os que só querem ser felizes
A vida está a apanhar-nos
Mas nós temos as almas ciganas
Nós somos a geração Z.
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