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quinta-feira

Levantado processo disciplinar a enfermeiro por reclamar em carta ao Presidente da República!

(...)
Na exposição ao PR, o enfermeiro queixa-se de ter sido transferido compulsivamente do serviço de otorrino para a pneumologia enquanto estava de férias, sem que lhe fosse dada oportunidade para se defender. "Não seria lógico, num quadro de alguma falta disciplinar, a instauração de um processo?", questionou.
(...)
Além do seu caso particular, o enfermeiro refere a existência de "um acumular de situações naquele serviço de extrema gravidade", acusando-o "de ser uma fábrica de números" e de estar instalada "uma concepção autoritária do poder". Pede a Cavaco Silva que "tenha um olhar atento e preocupado". E disponibiliza-se para prestar esclarecimentos.
(...)


Segundo o BE:
Alguns dias depois, esta carta, dirigida ao Sr. Presidente da República, serviu de pretexto para o Conselho de Administração (CA) decidir a abertura de um processo disciplinar contra o referido enfermeiro, tendo em vista o seu despedimento com justa causa, invocando para isso a natureza difamatória da missiva e o carácter ilícito do acto de escrever ao mais alto representante da nação.

Voltando ao i:
(...)
Contactado pelo i, o hospital confirma que a carta a Cavaco Silva é o motivo para ambos os processos, e explica que não está em causa a opinião pessoal do enfermeiro quanto às chefias, mas sim as acusações que faz "pondo em causa o bom nome da unidade no tratamento dos doentes". Sobre as denúncias do enfermeiro na carta, a unidade recusa fazer quaisquer outros comentários.
(...)
O Bloco de Esquerda já levou o caso à Assembleia da República, questionando a ministra da Saúde, Ana Jorge, sobre o assunto na última reunião da comissão parlamentar de saúde. Tendo ficado sem resposta, o deputado João Semedo apresentou um requerimento pedindo à ministra uma posição.
(...)
Questionada pelo i, a Presidência da República responde apenas que "tem por princípio não comentar publicamente a correspondência que recebe". Também o Ministério da Saúde recusou prestar declarações.
(...)

os ênfases nas fontes são meus. sou eu a passar-me

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Atualização no i:

Processo a enfermeiro é "inaceitável", diz Cavaco Silva



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Nova atualização no i:
A pressão do Palácio de Belém acabou por dar frutos, e a administração do S. João, invocando atender "ao superior interesse público e à consideração que merecem todas as instituições democráticas", decidiu-se pelo arquivamento do processo.

Já comeca a fazer escola escrever "interesse publico" quando se quer justificar merda. Talvez fosse melhor ir fazer formacao em democracia, meus senhores, nao é vergar o pescoco as instituicoes democraticas, é perceber a democracia! Idiotas.

sábado

É tanto o fumo que não vejo nada

A ler os blogues percebe-se como a inteligência fica estranhamente adormecida quando tem a ver connosco. A lei do tabaco, que também começou agora aqui na Alemanha, é para proteger os não fumadores, não é para chatear os fumadores. Não é nada pessoal. Está provado que o fumar passivo é mau para a saúde e não entendo porque é que as pessoas que não fumam têm de arcar dia após dia com locais públicos cheios de fumo. Eu, que sou fumadora, detesto o fumo passivo. Incongruência? Talvez. Simplesmente só gosto do meu fumo. Eu sei que isto custa, que apetece tirar do cigarro, mas imaginem alguém que gosta de escarrar na rua, que gosta de mijar nas portas, que gosta de cagar nos elevadores, de ejacular nos sofás da discoteca, que lhe custa não fazer nada dessas coisas. Portantos, porque lhe custa muito pessoalmente restrinjir-se, vamos todos também compreender estas pessoas e deixá-las fazer o que querem no espaço público, que supostamente como o nome indica é um espaço de todos nós. Quando todos nós não restrinjirmos os nossos instintos, vamos a ver que mundo maravilhoso será esse em que ninguém respeita ninguém. E sim, fumar é sujar o espaço dos outros e equipara-se a outros sujares da via pública, até é pior, porque os exemplos que dei não afectam a saúde dos outros, só dá nojo e nunca ninguém adoeceu de nojo. A única estranheza até agora foi essa primazia da aceitação social de atirar fumo no nariz dos outros, que tinham de comer e calar, ou falar e comer, basicamente uns chatos. Repito, sou fumadora e não penso parar, mas sinto que é meu dever não importunar os outros (sim, já prevariquei muitas vezes, mas também já me segurei muitas vezes e eu não sou nenhum modelo de vontade de ferro, nem nunca me passou pela cabeça que posso fazer o que bem me apetece). Sabem aquela frase de que a nossa liberdade começa onde termina a liberdade dos outros? Pois. É isso.

terça-feira

Livre expressao



de Michael Kountouris

Liberdade de expressao

O Pedro Arroja tem ideias peregrinas. Várias vezes fiquei de cabelos no ar com as suas generalizaçoes dantescas e na semana passada aquando dos seus postes sobre a emancipaçao feminina, apanhei-me a chamá-lo alienado. Mas no mundo há um valor superior: a liberdade de expressao. Falando concretamente da blogosfera, para mim o maior pecado blogosférico nao é o anonimato, o franco-atirador das caixas de comentários, os comportamentos burgessos, mas o corte de liberdade de expressao, o que for, mesmo a expressao que nos poe o cabelo de pé. O Pedro Arroja abandonou o Blasfémias, no que se desconfia ser censura. O liberalismo do Blasfémias vai de vento em popa {toda a ironia possivel nesta frase}. Notem bem: o Blasfémias provavelmente censurou as ideias de um dos seus elementos. Isto para mim é gravíssimo.

segunda-feira

Guerra

Parece que sim. Acabei de vir de consolar um amigo. Eu li na net à tarde sobre um cartoon em que Hitler está na cama com a Anne Frank. Acabei por chegar à página da Liga Árabe Europeia (LAE). Contei-lhe. Tinha esquecido que familiares dele morreram no holocausto. Ele leu e viu. Companheiro de indignação desta semana, caminhava de trás para a frente, na cozinha, tentando demonstrar-me a diferença. Eu respondi-lhe que um muçulmano responderá que para ele Moamé é tão importante para ele quanto a sua história de perda e horror. Que a ofensa está, para eles, ao mesmo nível. Como podemos dizer que não? Para nós o respeito pela vida humana é mais importante que religião, mas... Mas eles estão a mentir! Não havia mentira naqueles cartoons? Mas isto é uma provocação reles! Ele escreveu uma carta electrónica à LAE. Ajudei-o. Abracei-o. Não há guerra sem ferimentos.

sábado

Cuidado com a Petição

Anda pela internet uma petição de apoio ao jornal Jyllands Posten.

Chamo a atenção que este jornal tem como linha editorial a publicação de artigos racistas e xenófobos. Ao assinarem a petição estarão a dar implicitamente o apoio a esta faceta do jornal.

Eu apoiei o posicionamento que pretendia defender o princípio da liberdade de imprensa. Eu congratulei-me com a decisão de outros jornais de também publicarem os cartoons. Seria injusto abrir excepções para uma religião e seria perigoso tornar todas as religiões não censuráveis e não criticáveis. Mas esta luta era por um valor: a liberdade.

Eu adoraria que o caso dos cartoons tivesse dado azo à discussão da responsabilidade que vem com a liberdade (como a Helena tentou desde o início), da complacência para com as comunidades muçulmanas na Europa (parece ser a tendência dos alemães), por um lado, e por outro, a reacção perniciosa de apoio a governos que tomam medidas xenófobas e chauvinistas (o caso da Dinamarca). Contudo, os protestos extremos de países tecnocráticos do médio oriente enrijeceu-nos na posição defensiva.

Quando a situação amainar (sabendo que infelizmente qualquer pedagogia perdeu-se nesses países) é altura de discutir os outros pontos. Não saltar em rebanho para a parvalheira de apoiar outros extremos também perigosos. A febre foi alta, mas é altura de reavermos a claridade de pensamento.

Os jornais poderiam agora usar essa liberdade de imprensa e mostrar o que é hoje a Dinamarca.


Boa parte da terceira página do meu jornal diário (Süddeutsche Zeitung) é dedicada hoje ao problema da xenofobia nesse país [Dinamarca].
Um exemplo: para poderem casar, os estrangeiros são obrigados a ter ambos pelo menos 24 anos de idade, um apartamento conveniente, rendimentos suficientes, 7000 euros num Banco e "em conjunto, uma relação mais forte com a Dinamarca" que com qualquer outro país. Bolette Kornum, uma dinamarquesa que foi viver para o Egipto em 1999 e casou com um egípcio, viu-se impedida de voltar para o seu país, em 2003, porque "o casal tinha uma relação mais forte com o Egipto que com a Dinamarca". É a lei.

quarta-feira

Liberdade II

Já agora coloquem-se aqui dois elementos importantíssimos da discussão:

Os cartoons. Por intermédio dos Renas e Veados.

O pedido de desculpa. Por intermédio de uma amiga minha, que adoraria ter um passaporte de um país europeu. Não é porque a Europa é comparativamente rica relativamente a outros continentes. Ela vem de um país rico e com as manias. Será porque somos porreiros e gostamos dela, mesmo que ela seja polireligiosa (ela tem uma curiosidade imensa por religiões), boxista, vegan e anarquista, que além disso tem o passatempo de ir a demonstrações contra a monarquia? :-)

P.S.: E um cartoon que diz muito. Actualização: o editor foi despedido.

Na BBC segue-se o caso. A última é que homens armados rodearam escritórios da UE em Gaza exigindo desculpas. Já sei, já sei, coitadinhos, tão injustiçados que eles foram e são... É só mesmo porque nós somos uns mauzões, que eles lá no fundo são adoráveis. É só mesmo por causa de nós que eles não percebem nada de respeito dos direitos humanos, liberdade e tolerância. Vou ali a uma loja sado-maso comprar um chicote para me penitenciar. Estou mesmo a merecê-las, sua infiel!

Something is rotten in the state of Denmark.*

Cara Helena,

a minha noite ontem foi passada no contraditório.

Encontrei-me com um conhecido dinamarquês, indignada, ruborizada, na defesa da liberdade. Imagina se queres, gadelhas e cuspo pelo ar.

Abrunho, senta-te. A Dinamarca é hoje um país racista. Os dinamarqueses maioritários continuam a ser boas pessoas, cordiais com aqueles que conhecem, sejam eles estrangeiros ou dinamarqueses culturalmente diferentes. Contudo, estão abertos a políticas xenófobas que os protejam da ameaça sentida de uma massa humana, que eles visualizam desconhecida e abstracta.

O apoio a políticos xenófobos e os consequentes acção e discurso está a criar tensões sociais graves. Pelo menos 5% dos dinamarqueses são muçulmanos. Além disso, adiciona os imigrantes. Além disso, adiciona outras comunidades também visadas.

O jornal em questão - Jyllands-Posten - tem como linha editorial a publicação de artigos racistas e xenófobos. Depois da Kristallnacht (este jornal é velhinho) publicou que os alemães tinham exagerado um pouco, mas era compreensível a sua animosidade contra os judeus.


Mas eu li que tudo começou porque um escritor queria contratar ilustradores para um livro seu sobre Maomé e ninguém aceitou porque temiam represálias. Assim, este jornal tomou a iniciativa de congregar um conjunto de cartoonistas e publicar os seus trabalhos figurando Maomé.

Mas então eles não tinham medo de represálias?

?

Se tivesse sido uns cartoons num jornal que não o Jyllands-Posten a questão não teria atingido estas proporções. Além de que esta é a gota de água numa cadeia de provocações.

Mas não é um exagero fazer ameaças de morte?

Houve exagero. Mas atenção, que os que ameaçam de morte são uns poucos. Não podes considerá-los como representativos. Utilizando o palavrar do próprio Jyllands-Posten: houve exagero, mas não será compreensível a animosidade da comunidade islâmica para com os dinamarqueses? Dentro de portas o tom é de provocação, fora é o apoio da beligerância. Não é a liberdade que está em perigo na Dinamarca.



Quando falo de liberdade falo de uma óptica europeia porque essa é a minha origem e vivência. Eu gostaria que ela fosse universal. Tento tido a sorte de viver na liberdade, considero-a um dos maiores bens. Não conoto a liberdade com respeito, conoto-a com fundamental. Merece que se lute por ela, não pelo facto de ser nossa, pois a liberdade não se possui, mas pelo direito do seu usufruto.

Fica bem. Gosto de te ler.

abrunho



* Hamlet, Shakespeare, Primeiro Acto, Cena 4

terça-feira

Liberdade

Estou a ler um livro* em que se fala de Bento de Espinoza, filósofo holandês que viveu no século XVII. De origem judia, os seus antepassados fugiram primeiro da Castela dos reis mui católicos e um século depois do Portugal inquisitorial, também mui católico. Dirigiram-se uns para Nantes, outros Amesterdão. Alguns ficaram e não prosseguirei na descrição dos métodos de perdão e purificação que lhes foram santamente dispensados. A 24 de Novembro de 1632 Espinoza nasce no paraíso de liberdade que era na altura a república dos Países Baixos.

Espinoza foi um aluno brilhante, um espírito curioso e um pensador livre. Começou a ter ideias blasfemas como o pensar que os livros de Moisés eram obras de simples humanos, que não existe a imortalidade da alma e que Deus é uma emanação do Mundo. Chamado à sinagoga ele recusou-se a negociar um perdão e sofreu a excomunhão e expulsão da comunidade judaica.

Espinoza tornou-se então totalmente um cidadão livre de uma república livre, rodeada por estados bem menos livres e bem mais influenciados por ideias teocráticas. Quando as suas ideias se desenvolveram e ele as escreveu, os seus livros foram apelidados de heréticos e ele apontado como um desprezível judeu ateísta (quando na verdade ele não colocou em questão a existência de Deus, mas a sua natureza). Compreendam que se ele fosse expulso dos Países Baixos não haveria onde ele se refugiasse. Neste oásis foi-lhe permitido desenvolver uma filosofia baseada numa ordem política secular e em ideais liberais.

A liberdade em Espinoza reverberou em mim quando li sobre as pressões sofridas pela Dinamarca, por parte de países do Médio Oriente, devido a quadradinhos que retratam o profeta Maomé. Pressão que chega a ameaças de morte. No Blasfémias fazem um bom resumo dos acontecimentos.

A Europa percorreu um longo percurso, no qual pessoas, como Espinoza, arriscaram a vida pela liberdade. Muitos morreram. Obras não foram realizadas por medo. Obras foram destruídas.

Entristece-me que a Dinamarca pareça estar sozinha. Que não haja representantes dos países europeus que expressem apoio, pessoas que vão para as ruas e digam que a liberdade é o nosso maior bem, que a blogosfera clame (só li sobre o assunto no Blasfémias!). Nao há nada de que pedir desculpa. Espinoza pediu desculpas? Isto não são só cartoons! São jornalistas que não escrevem por medo de represálias, é Theo van Gogh morto na Holanda e Ayaan Hirsi Ali protegida 24 horas de ser assassinada. Isto é sobre liberdade. Imaginem-se sem ela.

* The Courtier and the Heretic. Leibniz, Spinoza, and the fate of God in the modern world. Matthew Stewart