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sábado
Vao-se catar
Há característisticas muito humanas e que nos foram e ainda podem ser muito úteis, que se usadas em demasia podem ser maléficas. Como tudo, o sal, a companhia da mae, os beijos cheios de bactérias. Estou a falar da tendencia que temos para encontrar o modelo de tudo e comparar e viver tudo relativo a esse modelo. Gaja, duas tetas e uma vagina. Vida de gaja, um casamento e putos ranhosos. Gajo, um pénis. Vida de gajo, brincar com o pénis. Isto é um problema, porque nem a gaja, nem o gajo sao só isto. Eu sei que simplifiquei neste poste e sei que ninguém percebeu a profunda profundeza do que quero dizer e no entanto, apesar disso me chatear, chatear-me-ia mais, chatear-me com a vossa educaçao.
quinta-feira
Nao somos todos verdes
Estive a ler o discurso do Cavaco Silva do dia 10 de Junho, mas nao foi lá que ele disse raça. Portanto, ainda nao sei realmente o que aconteceu. Se realmente é o homem ou um surto viral do politicamente correto. A palavra raça agora nao se diz, seja em que situaçao for, a nao ser seres nao humanos, imagino. Será que a minha piadinha de que em Portugal somos rafeiros é possível? Posso? Ou também é crime lingual?
Seja como for e nao tomando partidos, que eu nao tenho a minima ideia do contexto da palavra na frase e na situaçao, eu aponto este texto que li há muito poucos dias, talvez no mesmíssimo momento em que o Cavaco Silva expelia pela boca a palavra raça, talvez querendo dizer coragem, talvez querendo dizer aquele je ne sais quoi de rafeiro que os portugueses tem, talvez querendo dizer pelo nas ventas, talvez querendo dizer aquela espécie humana de altura abaixo da média europeia, talvez aquele pessoal todo que ouve fado e começa a fungar, talvez tentando animar os tugas choroes a serem mais vertebrais, talvez tentando incutir um certo sentimento de solidariedade (que nao existe), talvez num processo de telepatia, benza deus, espero que esta última nao.
É que se nao somos todos brancos, também nao somos todos verdes.
P.S.: Estive a olhar para a minha última frase e é passível de eu ser também apedrejada. Bem, nao sou famosa, é o que me vale.
Seja como for e nao tomando partidos, que eu nao tenho a minima ideia do contexto da palavra na frase e na situaçao, eu aponto este texto que li há muito poucos dias, talvez no mesmíssimo momento em que o Cavaco Silva expelia pela boca a palavra raça, talvez querendo dizer coragem, talvez querendo dizer aquele je ne sais quoi de rafeiro que os portugueses tem, talvez querendo dizer pelo nas ventas, talvez querendo dizer aquela espécie humana de altura abaixo da média europeia, talvez aquele pessoal todo que ouve fado e começa a fungar, talvez tentando animar os tugas choroes a serem mais vertebrais, talvez tentando incutir um certo sentimento de solidariedade (que nao existe), talvez num processo de telepatia, benza deus, espero que esta última nao.
É que se nao somos todos brancos, também nao somos todos verdes.
P.S.: Estive a olhar para a minha última frase e é passível de eu ser também apedrejada. Bem, nao sou famosa, é o que me vale.
segunda-feira
under the guise of religion, science or reason
Um senhor chamado Chris Hedges adicionou um ponto importantíssimo ao que eu aflorava (muito levemente) aqui:
The greatest danger that besets us does not come from believers or atheists. It comes from those who, under the guise of religion, science or reason, imagine that we can free ourselves from the limitations of human nature and perfect the human species.
O maior perigo que enfrentamos nao vem dos crentes ou dos ateístas. Vem dos que, sob o disfarce da religiao, da ciencia ou da razao, imaginam que nos podemos libertar das limitaçoes da natureza humana e aperfeiçoar a espécie humana.
The greatest danger that besets us does not come from believers or atheists. It comes from those who, under the guise of religion, science or reason, imagine that we can free ourselves from the limitations of human nature and perfect the human species.
O maior perigo que enfrentamos nao vem dos crentes ou dos ateístas. Vem dos que, sob o disfarce da religiao, da ciencia ou da razao, imaginam que nos podemos libertar das limitaçoes da natureza humana e aperfeiçoar a espécie humana.
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domingo
A inutilidade de discutir religiao
Continuo sem ler o livro do Dawkins "The god delusion", mas continuo a le-lo indirectamente pelas criticas que despontam aqui e além a ele e aos outros livros anti-religiao que tem aparecido. Interessa-me muito mais ler o que os outros criticam nestes livros, do que se pode dizer contra as crenças religiosas. A religiao responde a impulsos primários do ser-humano que nao sendo respondidos pela religiao serao respondidos de outra forma. Acho piada quando os criticos do livro de Dawkins trazem a lume Hitler e o seu ateísmo como contra-ataque. Na verdade, o que a Alemanha Nazi demonstra é que esses impulsos primários de que falo podem ter vazao tanto em religiao como em cultos de personalidade e fervores nacionalistas. Tenho a certeza que os filósofos estao muito mais perto da verdadeira alma da discussao quando analisam a natureza humana, do que esta gente toda a discutir religiao.
sexta-feira
quarta-feira
Do mal o menos
Eu compro bastante livros na Amazon. No outro dia, mandaram-me uma mensagem electrónica em que baseados nas minhas compras sugeriam-me três livros. Dois eu já tinha lido e o terceiro pensei nisso. O não lido era o "God delusion" de Richard Dawkins. Portanto, segundo o algoritmo da Amazon, eu sou uma das pessoas supostas de ler este livro, e tendo em atenção que o algoritmo é bom, eu sou MESMO suposta de ler aquele livro. Nas minhas prioridades de leitura, um livro sobre religião da forma como Dawkins parece ter empreendido a sua critíca (digo isto com base nas várias recensões que li sobre o livro), em que demonstra grande ignorância sobre temas teológicos, não me parece muito gratificante. Contudo, admiro o ímpeto de Dawkins.
A religião implica para um ateu uma grande capacidade de engolir sapos. Para um cientista é ainda pior, pois as pessoas religiosas pedem que em favor delas em certos momentos, uma pessoa que está habituada a pensar o mundo dos factos, desligue o cérebro superior e passe a usar somente o sistema límbico. Há muitos cientistas que o fazem, há cientistas que até conseguem escrever defendendo esse ligar e desligar cerebral, o que só demonstra a grande capacidade humana para viver duplos, triplos e que mais papéis, o que explica que os nazis faziam festinhas às criancinhas antes de as mandarem para as câmaras de gás, que os inquisidores matassem pela salvação das almas em nome de Cristo, que pais abusem dos filhos sem que ao mesmo tempo os deixem de amar. Contudo, mesmo sem os extremos que listei, seriamos considerados misantropos sem esta capacidade para esquecer momentâneamente conforme as exigências do momento. Sabendo o que se sabe de como nasceu a Bíblia, não é deslumbrante de como ainda existam pessoas que leiam o livro e procurem significados? Uma espécie de procura de formas em nuvens e premonições em folhas de chá no fundo da caneca. Tudo isto casado com a vida secular. Quantas vezes os não religiosos ouvem a frase: "Não é para levar literalmente." Então porque não procurar significados nos Lusíadas? He he he he. Mas que digo? Não andavam à procura de significados nos filmes do Matrix? Pois. O que eu penso pessoalmente é que escrever um livro só contra a religião é inconsequente. É ir contra a natureza do ser humano. É impossível que o ser humano não acredite em algo misterioso, invisível, indizível, enfim, algo ali do bairro emocional do sistema límbico, que vive ali e que mesmo o Dawkins sentirá muitas vezes. Assim, o máximo que se pode pedir é essa capacidade inata para ter duas caras. Muito melhor isso, que as trupes que levam a Palavra à letra.
A religião implica para um ateu uma grande capacidade de engolir sapos. Para um cientista é ainda pior, pois as pessoas religiosas pedem que em favor delas em certos momentos, uma pessoa que está habituada a pensar o mundo dos factos, desligue o cérebro superior e passe a usar somente o sistema límbico. Há muitos cientistas que o fazem, há cientistas que até conseguem escrever defendendo esse ligar e desligar cerebral, o que só demonstra a grande capacidade humana para viver duplos, triplos e que mais papéis, o que explica que os nazis faziam festinhas às criancinhas antes de as mandarem para as câmaras de gás, que os inquisidores matassem pela salvação das almas em nome de Cristo, que pais abusem dos filhos sem que ao mesmo tempo os deixem de amar. Contudo, mesmo sem os extremos que listei, seriamos considerados misantropos sem esta capacidade para esquecer momentâneamente conforme as exigências do momento. Sabendo o que se sabe de como nasceu a Bíblia, não é deslumbrante de como ainda existam pessoas que leiam o livro e procurem significados? Uma espécie de procura de formas em nuvens e premonições em folhas de chá no fundo da caneca. Tudo isto casado com a vida secular. Quantas vezes os não religiosos ouvem a frase: "Não é para levar literalmente." Então porque não procurar significados nos Lusíadas? He he he he. Mas que digo? Não andavam à procura de significados nos filmes do Matrix? Pois. O que eu penso pessoalmente é que escrever um livro só contra a religião é inconsequente. É ir contra a natureza do ser humano. É impossível que o ser humano não acredite em algo misterioso, invisível, indizível, enfim, algo ali do bairro emocional do sistema límbico, que vive ali e que mesmo o Dawkins sentirá muitas vezes. Assim, o máximo que se pode pedir é essa capacidade inata para ter duas caras. Muito melhor isso, que as trupes que levam a Palavra à letra.
quinta-feira
O que leva os seres-humanos a perpretar actos desumanos?
Existem duas correntes explicativas na sociopsicologia: as disposições individuais e as situações em que o indivíduo se encontra. Philip G. Zimbardo no seu livro “The Lucifer effect: understanding how good people turn evil” defende a segunda como a fundamental. Ele descreve a sua experiência de 1971, em que colocou 24 voluntários, todos eles considerados saudáveis e normais, todos eles estudantes universitários, numa situação de prisão, 12 actuando como guardas e 12 como prisioneiros. Nas entrevistas que foram realizadas previamente, todos eles tinham afirmado que prefeririam actuar como prisioneiros, pois não se imaginavam na situação de serem guardas, mas na cultura universitária do tempo, com as demonstrações anti-guerra, eles pensavam que poderiam ser presos e a experiência poderia ser-lhes útil. Supostamente a experiência deveria durar duas semanas. Durou 6 dias. Por esta altura os guardas tinham-se tornado agressivos e desumanos, obrigando os prisioneiros a punições degradantes e humilhantes, de tal forma, que vários tiveram de ser libertados e os que ficaram comportavam-se como zombies. Com base nesta experiência e outros casos exemplificativos ele defende que todos nós podemos na situação adequada tornarmo-nos “guardas”. Ele defende um processo de despersonalização e anonimatização, em que em ordem para a actuação como “guarda”, adquirimos para nós o papel de “guarda” entre “guardas”. Na despersonalização livramo-nos dos nossos próprios pruridos morais, na anonimatização adquirimos o senso de impunidade.
É assim?
O livro de Jean Hatzfeld, “Machete Season: The killers in Ruanda speak.” parece corroborar o situacianismo. No poste anterior, nomeadamente no testemunho de Pio, existia essa sensacão de arrastamento pela situação. Primeiro dia da matança:
Testemunho de Fulgence: No dia 11 de Abril, o juiz do Município em Kibungo enviou os seus mensageiros para juntar lá os Hutus. Montes de interahamwe* tinham chegado em autocarros e camiões, que seguiam pelas estradas buzinando e forçando caminho. Parecia um engarrafamento na cidade.
Lá o juiz disse a toda a gente que a partir daí não iriamos fazer outra coisa senão matar Tutsi. Bem, nós entendemos: aquilo era um plano final. A atmosfera tinha mudado.
Nesse dia, tipos mal informados tinham vindo sem trazerem uma machete ou outro instrumento para cortar. Os interahamwe repreenderam-nos: disseram-lhes que daquela vez passava, mas era melhor que não tornasse a acontecer. Disseram-lhes para se armarem com pedras e paus, para formar barreiras na retaguarda para cortar o caminho a fugitivos. A seguir, todos se juntaram em excitação a um líder ou aglomeraram seguidores, mas nunca mais ninguém esqueceu a sua machete.
Assim, com um historial antigo de demonização de Tutsi, com as autoridades a indicar o caminho (matar e somente matar), a despersonalização de assassino e do a assassinar parece que foi fácil. O ajuntamento excitado facilitou a anonimatização e a matança de 50 mil Tutsi num período de um mês tornou-se realidade.
E quanto às disposições individuais? Existindo pessoas que evitaram o assassinato, foram tão raras, que são extraordinárias. Os heróis são raridades.
Era perto do meio-dia do dia 11 de Abril, no primeiro dia da matança nos montes de Ntarama. Isidore Mahandago descansava de uma manhã de monda, sentado numa cadeira no terreiro da sua cabana. Ele era um camponês Hutu, de sessenta e cinco anos, que tinha chegado a Rugunga, no monte de Ntarama, vinte anos antes.
Uns tipos robustos, armados com machetes, passaram cantando pelo caminho junto à sua casa. Isidore chamou-os na sua voz velha e profunda e sermoneou-os na frente dos vizinhos: “Vós, jovens, sois malfeitores. Recuai e ide-vos. As lâminas das vossas machetes apontam na direcção da nossa tragédia. Não inflameis disputas demasiadamente perigosas para nós camponeses. Parai de atormentar os nossos vizinhos e retornai aos vossos campos.” Dois assassinos aproximaram-se dele, rindo-se, e sem palavras cortaram-no com as machetes. Entre o bando encontrava-se o filho de Isidore, que de acordo com testemunhas, não protestou nem parou para ver do pai. Os jovens continuaram o seu caminho cantando.
Isidore Mahandango é o Homem Justo de Ntarama.
Hatzfeld conta mais duas histórias, de cinco justos que foram assassinados. Mas escreve:
E os Justos ainda vivos, quem são e onde se encontram? Na verdade, depois de muitas visitas, de muito procurar, ainda não encontrei nenhum nos três montes de Kibungo, Ntarama e Kanzenze. Contudo, em vez, posso apontar outras pessoas merecedoras. Ibrahim Nsengiyumua, um comerciante próspero de Kibungo, pagou multa após multa ao ponto da ruína, para evitar participar na matança e nos saques. Ele fê-lo, explica Innocent [o guia Tutsi de Hatzfeld], “porque juntou suficiente riqueza para não arruinar a vida com sangue”.
Os merecedores também são poucos. E isto é o ser-humano.
* interahamwe – “Os que atacam juntos”: a milícia extremista Hutu criada pelo clã Habyarimana no início dos anos 90, treinada pelo exército ruandês e, por vezes, localmente, pelos soldados franceses.
Tradução minha do livro "Machete Season: The killers in Rwanda speak" a cor.
É assim?
O livro de Jean Hatzfeld, “Machete Season: The killers in Ruanda speak.” parece corroborar o situacianismo. No poste anterior, nomeadamente no testemunho de Pio, existia essa sensacão de arrastamento pela situação. Primeiro dia da matança:
Testemunho de Fulgence: No dia 11 de Abril, o juiz do Município em Kibungo enviou os seus mensageiros para juntar lá os Hutus. Montes de interahamwe* tinham chegado em autocarros e camiões, que seguiam pelas estradas buzinando e forçando caminho. Parecia um engarrafamento na cidade.
Lá o juiz disse a toda a gente que a partir daí não iriamos fazer outra coisa senão matar Tutsi. Bem, nós entendemos: aquilo era um plano final. A atmosfera tinha mudado.
Nesse dia, tipos mal informados tinham vindo sem trazerem uma machete ou outro instrumento para cortar. Os interahamwe repreenderam-nos: disseram-lhes que daquela vez passava, mas era melhor que não tornasse a acontecer. Disseram-lhes para se armarem com pedras e paus, para formar barreiras na retaguarda para cortar o caminho a fugitivos. A seguir, todos se juntaram em excitação a um líder ou aglomeraram seguidores, mas nunca mais ninguém esqueceu a sua machete.
Assim, com um historial antigo de demonização de Tutsi, com as autoridades a indicar o caminho (matar e somente matar), a despersonalização de assassino e do a assassinar parece que foi fácil. O ajuntamento excitado facilitou a anonimatização e a matança de 50 mil Tutsi num período de um mês tornou-se realidade.
E quanto às disposições individuais? Existindo pessoas que evitaram o assassinato, foram tão raras, que são extraordinárias. Os heróis são raridades.
Era perto do meio-dia do dia 11 de Abril, no primeiro dia da matança nos montes de Ntarama. Isidore Mahandago descansava de uma manhã de monda, sentado numa cadeira no terreiro da sua cabana. Ele era um camponês Hutu, de sessenta e cinco anos, que tinha chegado a Rugunga, no monte de Ntarama, vinte anos antes.
Uns tipos robustos, armados com machetes, passaram cantando pelo caminho junto à sua casa. Isidore chamou-os na sua voz velha e profunda e sermoneou-os na frente dos vizinhos: “Vós, jovens, sois malfeitores. Recuai e ide-vos. As lâminas das vossas machetes apontam na direcção da nossa tragédia. Não inflameis disputas demasiadamente perigosas para nós camponeses. Parai de atormentar os nossos vizinhos e retornai aos vossos campos.” Dois assassinos aproximaram-se dele, rindo-se, e sem palavras cortaram-no com as machetes. Entre o bando encontrava-se o filho de Isidore, que de acordo com testemunhas, não protestou nem parou para ver do pai. Os jovens continuaram o seu caminho cantando.
Isidore Mahandango é o Homem Justo de Ntarama.
Hatzfeld conta mais duas histórias, de cinco justos que foram assassinados. Mas escreve:
E os Justos ainda vivos, quem são e onde se encontram? Na verdade, depois de muitas visitas, de muito procurar, ainda não encontrei nenhum nos três montes de Kibungo, Ntarama e Kanzenze. Contudo, em vez, posso apontar outras pessoas merecedoras. Ibrahim Nsengiyumua, um comerciante próspero de Kibungo, pagou multa após multa ao ponto da ruína, para evitar participar na matança e nos saques. Ele fê-lo, explica Innocent [o guia Tutsi de Hatzfeld], “porque juntou suficiente riqueza para não arruinar a vida com sangue”.
Os merecedores também são poucos. E isto é o ser-humano.
* interahamwe – “Os que atacam juntos”: a milícia extremista Hutu criada pelo clã Habyarimana no início dos anos 90, treinada pelo exército ruandês e, por vezes, localmente, pelos soldados franceses.
Tradução minha do livro "Machete Season: The killers in Rwanda speak" a cor.
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Quando se quer exterminar os outros

Andisheh Avini 2007
Installation View, I-20 Gallery, New York (February 20 - March 24, 2007) (Photo: Cary Whittier)
Estive a ler um livro sobre o genocídio no Ruanda: "Une saison de machettes" no original, mas eu li a edição americana. Consiste em entrevistas a um grupo de assassinos e apartes do autor. Este é um livro posterior a um outro, em que o autor, Jean Hatzfeld, entrevistou sobreviventes do massacre, livro este que pretendo ler também.
Obviamente que um primeiro passo ao ler este livro será entender o que é genocídio. Especialmente, quando esta é uma palavra usada sem discriminação, como hipérbole em hipérboles. O dicionário diz "destruição metódica de um grupo étnico, pela exterminação dos seus indivíduos." Jean dá uma definição que, para mim, contém o essencial elemento distintivo:
Será possível distinguir um genocídio entre o caos de uma guerra? A resposta (...) encontra-se noutra questão, simples e decisiva: quem são as vítimas de escolha?
Na guerra, os homens sāo mortos primeiro, porque eles sāo os mais prováveis na resposta armada; a seguir estão as mulheres que os poderão ajudar, os rapazes que irão tentar continuar o conflito e os velhos que podem dar conselhos de saber. Mas num genocídio, o assassino persegue todos, em particular bébés, raparigas e mulheres, porque elas representam o futuro.
Toda a envolvente de um genocídio sente-se irreal. Os que vemos à distância, queremos, imaginamos, esperamos, uma explicação que coloque o genocídio no domínio da loucura. Nós, os normais, não poderiamos ser assim. Doença colectiva que queremos compreender nos sintomas. No entanto aquelas pessoas são normais. A doença é humana e é o sentimento de pertença a uma tribo ou a uma nação (utilizando tribo para todas as associaçoes que nao sejam de estado: base religiosa, étnica, morfológica, tudo enfim em que a imaginaçao humana se baseia para criar linhas entre seres humanos).
Testemunho de Pio: No início de um genocídio existe uma causa, uma razão e pessoas que o acham vantajoso. A causa não chega por acaso; é afinada pelos intimidadores: o desejo de ganhar de vez o jogo. Contudo, as pessoas que são tentadas são as que por acaso vivem ali. Eu estava lá, em casa, quando a tentação veio chamar por mim. Eu não estou a dizer que fui forçado por Satanás ou algo assim. A ganância e a obediência levaram-me a achar a causa vantajosa e, assim, corri para os pântanos. Mas se eu tivesse nascido na Tanzânia ou na França, eu estaria longe da comoção e da sede por sangue.
Pessoas simples não podem resistir uma tentação como aquela, não sem a salvação da Biblia, pelo menos, não naqueles montes. Porquê? Por causa das maravilhosas palavras de sucesso total. Elas ganham-te. Depois a tentação não pode ir para a prisão, pelo que as pessoas são presas. E, mais à frente, a tentação pode reaparecer tão pavorosa quanto antes.
Quando alguém vê o seu melhor interesse vir na sua direcção e na dos seus colegas, essa pessoa não perde tempo à espera, a hesitar, essa pessoa já não considera sentimentos, já não ouve pedidos de piedade. Ele vê o Mal na forma do Bem e fica satisfeita. Ele pensa no que pode ganhar para si e para a sua família até ao fim dos seus dias. Ele segue o seu melhor interesse nos pântanos.
Depois, ele limpa-se da lama e do sangue e bebe uma cerveja. Isto foi o que eu fiz. Eu não nego a minha culpa. Mas eu sou, não só punido pelo meu erro, mas também pela minha má sorte.
O primeiro sintoma é a aceitação da linha de ruptura fictícia e a continuada malignização dos outros. Existe no domínio extremamente humano da incongruência. As pessoas conseguem e fazem-no automaticamente todos os dias: albergam duas ideias opostas dentro de si, sem racionalizarem a antítese.
Testemunho de Jean-Baptiste: Os Hutus sempre criticaram os Tutsi pela sua altura e por tentarem usar isto para mandar. O tempo nunca curou este rancor. Em Nyamata, como eu lhe disse, as pessoas diziam que as mulheres Tutsi pareciam demasiadamente magras para trabalharem nos nossos montes, que a pele delas era macia porque secretamente bebiam leite, que os seus dedos eram demasiadamente delicados para agarrar uma sachola e toda essa parvoíce.
Na verdade, os Hutus não viam nada disso nas mulheres Tutsi na sua vizinhança, que dobravam as costas lado-a-lado às mulheres Hutus e que iam buscar a água da mesma maneira. Contudo, os Hutus gostavam de repetir esta conversa. Também gostavam de dizer que um Hutu com uma mulher Tutsi era só para se armar, como no meu caso.
Eles tinham prazer em espalhar o mais inacreditável lixo para criar uma fina linha de discórdia entre os dois grupos étnicos. O importante era manter a distância entre os grupos e tentar agravar a situação. Por exemplo, no primeiro dia de escola, o professor tinha, ao chamar os alunos, de referir a origem étnica, de forma a que os Tutsi sentissem receio ao tomar os seus assentos numa classe de Hutus.
Testemunho de Pio: Talvez não odiássemos todos os Tutsi, especialmente não os nossos vizinhos e talvez não os víssemos a todos como inimigos. Mas entre nós diziamos que não queriamos viver mais com eles. Diziamos até que não os queriamos ver à nossa volta, que os queriamos fora da nossa terra. Dizer isto é grave - isto já é o aguçar da machete. Eu, eu não sei porque é que comecei a odiar os Tutsi. Eu era novo e o que eu mais gostava de fazer era jogar futebol: eu jogava na equipa de Kibungo com outros rapazes Tutsi da minha idade, passávamos a bola entre nós sem problemas. Nunca notei desconforto na companhia deles. O ódio apareceu na altura da matança; eu imitei os outros na sede do ódio, para pertencer ao grupo.
Testemunho de Léopord: É estranho falar de ódio entre os Hutus e os Tutsi, porque as palavras mudaram de significado depois da matança. Antes, nós podiamos estar na galhofa a dizer que os íamos matar a todos e no momento seguinte estar a compartilhar com eles uma bebida ou trabalhar lado-a-lado. Misturávamos as piadas e as ameaças. Já nem ouvíamos o que dizíamos. Podíamos pronunciar palavras horríveis sem pensamentos horríveis. Os Tutsi nem ficavam muito chateados. Quer dizer, eles não se iam embora quando começavam aquelas discussões. Mas agora pudemos ver: aquelas palavras trouxeram consequências terríveis.
A ideia está ali a gravitar: aqueles são outros, maus, perigosos, diferentes, manhosos, desmerecedores da vida, outros. Mas o mais fundamental e surpreendente é o poder da palavra. Num momento em que se discutem as palavras e o politicamente correcto como entediante censura social, seria importante aprender a lição de que as palavras têm poder. Chamar escarumba, paneleiro, puta, judeu a alguém, é mais do que dar nomes, é colocar aquela pessoa numa determinada esfera humana, que segundo o sentido dessas palavras pode ser uma esfera para lá dos laços de irmandade que nos protegem mutuamente do mal que somos. Não é o politicamente correcto que está a reinar, quando escolhemos ter cuidado com as palavras, mas aceitar o poder das palavras como decantadores de ideias, preconceitos, semente de violência contra o grupo adjectivado. Ter cuidado com as palavras que se usam com as pessoas é o humanamente correcto. É ter a inteligência de aprender com a história quem somos e do que somos capazes.
Testemunho de Adalbert: O genocídio não é uma ideia de guerras e batalhas. É uma ideia que as autoridades têm - de se livrarem de um perigo de uma vez por todas. Uma ideia conveniente que não necessita de ser nomeada ou encorajada, para lá de umas orquestrações maliciosas. É uma ideia bastante comum quando voa de palavra em palavra, por vezes, de piada em piada; torna-se extraordinária quando é apanhada na ponta das machetes.
Esta ideia não morre com as mortes, não morre depois da vitória ou depois da derrota. Autoridades no futuro podem recuperá-la para outro destino. Mas como pode alguém matar uma ideia, usada de forma tão extraordinária, se não se souber como matar a palavra, que a pode chamar à vida? Matar os inimigos, matar quem nos faz mal, matar os vizinhos - isto pode-se entender. Matar ideias e palavras - isto vai para além da inteligência, a inteligência de um camponês, pelo menos.
Tradução minha.
(continua)
segunda-feira
Leituras
The Gross-Out Factor, Pauline W. Chen
Welcome to 'Palestine', Robert Fisk
(...) Pavlov, of the drooling dog fame, believed that habituation could be simply reversed. Others have asserted that repeat sensitization could interrupt a learned reflex. But for our human quandaries, extricating ourselves from habituation and the inevitable sliding ideals requires another, more complex process altogether. (...)
Welcome to 'Palestine', Robert Fisk
(...) I recall years ago being summoned to the home of a PA official whose walls had just been punctured by an Israeli tank shell. All true. But what struck me were the gold-plated taps in his bathroom. Those taps—or variations of them—were what cost Fatah its election. Palestinians wanted an end to corruption—the cancer of the Arab world - and so they voted for Hamas and thus we, the all-wise, all-good West, decided to sanction them and starve them and bully them for exercising their free vote. Maybe we should offer “Palestine” EU membership if it would be gracious enough to vote for the right people? (...)
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