terça-feira

Nao entendo

Nesta notícia: Ericeira multada pelo Estado por utilizar óleos reciclados em carros do lixo, nao entendo porque é que os responsáveis da junta de frequesia da Ericeira nao fazem um manguito ás finanças e continuam a sua vida. As finanças que os metam em tribunal e que expliquem desde quando é legal obrigar a compra de um produto porque está nas listagens de pagamento de impostos, em detrimento doutro que se nao está nessas listagens é culpa de outra instituiçao que nao a junta de freguesia da Ericeira. Ou eu, nem em teoria, sei ou compreendo as leis do Estado? Nao entendo.

domingo

Alguém sonha, alguém ordena e alguém vai ter um pesadelo

Parece que o governo acha que o Ministro do Ambiente, Nunes Correia, Dom Abetarda, precisa de ajuda na espoliação do património natural. Assim, para que o interesse nacional não se veja constrangido e já que desde que se proibiu o fumar em espaços públicos não há falta de ar puro, especialmente num país com ventos do Atlântico, além que o cinzento é seguramente uma cor mais afeita ao bom-humor que o verde, para além que áreas cobertas de cimento são melhores para a prática do exercício, como seja andar em patins em linha, actividade que muitos portugueses adoram, sendo que a erva é suficiente em rectângulos de dimensão suficiente para o jogo de futebol ou os cagares de cãezinhos de trela, para além que a natureza é comprovadamente dormitório de mosquitos e melgas, não os grandes, mas os pequenos, que além de aborrecerem como os grandes, provocam doenças mil, assim prepara-se este governo que tem o bem nacional, depreendendo-se aqui o bem de todos os portugueses e portuguesas que vivem no futuro país dos camelos, os verdadeiros com duas bossas, não os actuais de facto e fato, que, como dizia, imigrarão dos reinos do norte de áfrica para morar nos futuros desertos que rodearão os campos de golfe como mares de maravilhosa ondulação, que como dizia eu ainda, que este governo que tem o bem nacional em mente, pretende aprovar um diploma em que o futuro Portugal melhorado pode correr com maior vantajosa velocidade para esse futuro arenoso e inteiramente construido, cheirando a progresso até mundos longínquos e assim anunciar este país silencioso e resplandecente, capaz em toda a sua área de reflectir o sol na sua inteira luminosidade, sem sombra que lhe encubra o esplendor ou os turistas do norte do reino europeu que usam as praias lusitanas para se churrascar e viajam em budget (muito humildemente me atrevo a recomendar que se cobre o sol a esses mesquinhos visitantes, demonstrando a sabedoria dos novos tempos, em que o que é de todos, será, em nome de todos, de alguns). O novo mundo, como dizia eu, prepara-se em passos resolutos, como no diploma que deixa as competências da delimitação da Reserva Ecológica Nacional do Ministério do Ambiente para os Municípios, compartilhando com muitos mais dons abetardas essa tarefa incontornável para o país que se sonha. Aqui se saúda tal governo e se aponta o dedo a esses ingratos que pretendem opôr-se a este feito, como neste abaixo-assinado, que com envergonhada tristeza esta escritora já assinou, com esperança de travar um pouquinho o comboio do progresso que arrasa um mundo, que na sua fraqueza, lhe entristece perder. Deixa esta cronista desejos sinceros e puros de infelicidades e pragas a todos os abetardas, excepto os que têm corpos esbeltos forrados a penas, cujo destino vai sendo selado sem intervenção minha.

sábado

A Wikipédia e o Acordo Ortográfico de 1990

O facto de presentemente existirem duas ortografias oficiais diferentes dentro do espaço da língua portuguesa (uma no Brasil e outra nos restantes países lusófonos) prejudica grandemente um projecto transnacional como é a Wikipédia. Basta ver que muitas das intermináveis discussões e dos pontos de conflito entre wikipedistas centram-se nestas diferenças de escrita.

Assim sendo, a Wikipédia é adepta natural de uma norma gráfica o mais unificada possível. Espera-se que o Acordo Ortográfico de 1990, que tem exactamente esse propósito, venha a ser adoptado por todos os países lusófonos dentro de um prazo razoável. No entanto, estas novas normas ortográficas só serão admissíveis na Wikipédia quando entrarem legalmente em vigor em, pelo menos, um dos países signatários.

Na eventualidade de não haver uma adesão simultânea por parte de todos os oito países de língua portuguesa e de, ainda que provisoriamente, serem oficiais duas ou três normas ortográficas diferentes, todas serão válidas na Wikipédia, enquanto esta hipotética situação se mantiver. É claro que todos desejamos que este eventual período transitório seja tão breve quanto possível.

Seja como for, talvez seja importante lembrar que as normas do Acordo Ortográfico de 1990 admitem um conjunto relativamente alargado de ortografias duplas (António/Antônio, facto/fato, secção/seção, etc.), pelo que haverá que continuar a respeitar a opção dos autores por uma ou outra forma.


Um exemplo, para o pessoal perceber que o acordo ortográfico é importante para o trabalho em conjunto. Para que não se tenha que estar a discutir pormenores e entrar logo no que interessa. Até agora há trocas entre os países lusófonos, mandam-se novelas, livros, músicas. E se quisermos trabalhar no mesmo? Como é? Salgalhada? Batatada? Sim, perda de tempo.

sexta-feira

Desperdício

Falar é desperdiçar sons. Cantar é desperdiçar palavras.

quarta-feira

Filme cacetada na cabeça




O nome que dei ao poste diz tudo. Aqui vai o meu exemplo nas mais recentes visualizaçoes: 4 meses, 3 semanas, 2 dias. Assim, sendo vós pessoas de normal sensibilidade, esperai acabar o filme em choque, principalmente, e este é um aspecto importante dos filmes cacetada na cabeça, porque pode ser verdade. A história anda á volta de duas amigas na Roménia comunista e as suas andanças para fazer um aborto. O que o filme me proporcionou foi uma espreitadela para o outro lado da cortina de ferro. As pessoas tem de ser desenrascadas ou ter bons amigos que sejam desenrascados. É o chico-espertismo como condiçao de sobrevivencia. Há uma cena muito interessante de um jantar de, parece, famílias-bem lá do sítio e é interessante que tipo de desigualdades e preconceitos sao mostrados naquela conversa. Uma pessoa sente-se a ver um mundo igual e diferente. O chocante, para lá das violaçoes a que as raparigas se sujeitam para obter o aborto, é o que torna possível as suas sujeiçoes: o enorme poder que um sujeito obtem quando a sociedade torna uma necessidade num crime. Faz pensar, por exemplo, na imigraçao ilegal. As sujeiçoes que sao impostas a imigrantes por gente horrível que se aproveita de uma clandestinidade que á luz de valores cristaos é em si criticável. Isto a modo de um exemplo menos discutível que o poder fazer um aborto. Assim, para mim a moral da história deste filme foi que quando a sociedade coloca alguém na clandestinidade é fundamental asseverar que essa pessoa prejudica alguém e nao só carrega as hipocrisias duma massa de gente que se gosta de pensar livre da necessidade. Porque senao dá-se uma coutada a, dependendo do ponto de vista, crimes realmente crimes ou crimes muito mais perversos.

Arnulfo, o perfeccionista

O Arnulfo lê de caneta vermelha na mão.

terça-feira

Faxina

Eu, a partir deste momento, irei começar a usar as novas regras do acordo ortográfico. Esta aplicação será realizada pacatamente à medida que vou aprendendo as regras. Começo o fácil deleite de chutar as consoantes mudas. Assim, aqui me lanço na feliz limpeza ortográfica.

segunda-feira

Ainda pensando no Blair



de Boligan

Por exemplo, Anthony Blair

Quanto a este meu poste vou dar um exemplo de uma pessoa perigosa a este nível: o Tony Blair.

Lembro-me de ler num artigo (penso que no New York Time Review of Books) sobre a preparaçao para a guerra no Iraque, que pessoas dos serviços secretos que na altura tinham ido fazer o ponto da situaçao ao Tony Blair, contavam que quando eles falavam das incertezas da informaçao que tinham em posse até ao momento, a reacçao do Tony Blair era perguntar-lhes se nao se estaria a livrar o Iraque de um homem mau. Isto era uma pergunta que aqueles homens nao tinham ido responder. O que isto demonstra é um homem que perante factos, responde com ideologia. Esta é a pior característica que um político pode ter.

Neste discurso, que ele fez há pouco, podemos observar como este homem ainda nao percebeu que o problema nele nao é ele ter fé, mas o facto dele, comprovadamente, deixar a fé cegá-lo aos factos. Por exemplo ele diz:

One of the oddest questions I get asked in interviews (and I get asked a lot of odd questions) is: is faith important to your politics? It’s like asking someone whether their health is important to them or their family. If you are someone ‘of faith’ it is the focal point of belief in your life. There is no conceivable way that it wouldn’t affect your politics.


A comparaçao até nao é má. Nao só ter saúde é importante pessoalmente, é também importante para quem vota saber que o candidato está apto a exercer o seu cargo durante o tempo previsto. Ter fé é importante para Tony Blair e será assim importante na forma como ele gere a sua vida. Para quem vota será importante saber como a sua fé afecta as suas decisoes como político. No seu caso, a sua fé fá-lo um mau político e esse é que é o problema. Nao é ele ter fé, é ele ter uma fé que o cega quando tem que tomar decisoes políticas, como está no seu CV. Que a fé de um político lhe de propósito, lhe de alma (como diz o Tony Blair, o que um ateísta pode achar um pouco ofensivo, mas deixá-lo ir), que afecte as prioritarizaçoes na sua governamentaçao, nao há problema. O problema é alguém apresentar-lhe factos e ele ignorá-los em favor do que ele acredita na alma. Isto o Tony Blair nao compreende, vitimizando-se.

O que chateia neste discurso é que além de ele ter má-fé, ele é hipócrita. A Gra-Bretanha tem um historial péssimo em termos de deportaçao para países que sao conhecidos por nao acreditarem nos direitos humanos. Documentos sairam em que se verificou que Tony Blair foi informado da situaçao, mas a sua resposta foi "Deportem-nos". Agora, neste discurso, ele vem falar de lançar pontes entre fés. Isto de alguém que lançou pessoas aos leoes.

Li há uns tempos que ele estava a ser pensado para ser o primeiro "ministo dos negócios estrangeiros" da UE, á luz do tratado (contituiçao) que foi assinado em Lisboa há pouco tempo. Eu pensei primeiro que era anedota. Haverá alguém que já demonstrou mais que demonstrado que ele prefere o mundo das suas crenças que o mundo das pessoas? Haverá alguém que demonstrou mais que demonstrado ser um incompetente e um hipócrita nas relaçoes com outros países? Este homem para gerir relaçoes com o outro? Há um baixo-assinado baseado no sítio internético da Comunidade Europeia contra que ele seja nomeado para este cargo. Até agora ele foi uma vergonha para os bretoes, agora passaria a ser vergonha para todos os europeus da Uniao. E provavelmente continuaria a ser um perigo para os outros. Com a desculpa da fé.

Ser denominável

Quando li este texto da Fernanda Câncio, lembrei-me de uma pequena história verdadeira. Fui a um piquenique. Nesse piquenique estavam dois cachopos que eram amigos do peito e que não se viam há algum tempo. Tinham sido companheiros numa instituição de acolhimento, até que um deles foi adoptado. O piquenique tinha sido combinado para eles se encontrarem e estarem juntos novamente. Eu fui de reboque. O cachopo que não tinha sido adoptado era um pequeno terrorista, cujas armas eram o politicamente incorrecto. Era confrontacional e a primeira coisa que fazia quando conhecia alguém era lançar bocas, mas tão absolutamente certeiras que causava admiração. Algumas não eram óbvias, mas via-se nas expressões surpreendidas e feridas que ele tinha acertado e havia ali sangramento. Mesmo que as pessoas fingissem que não. Na altura não lhe sabia o passado (perguntei mais tarde e não conto, mas é triste, muito triste e é triste ter maus pais), mas dava para perceber que naquele corpo pequeno havia muita revolta. Eu também fui logo eficientemente acertada (eu sorri o sorriso amarelo que é a única opção, porque pior que ser acertado é assumir que se foi acertado), mas simpatizei com ele. Penso que no fim do piquenique, só eu e um outro senhor é que o adorávamos, numa anti-reacção a toda a gente que o detestou. O reencontro dos dois amigos foi de uma alegria exuberante, mas ao longo do dia foi-se desenrolando uma pequena tragédia, porque eles agora já não eram iguais. Um tinha sido adoptado e o outro não e isto afinal era um cisma que nem ser pequeno ultrapassa. Tudo subtil e que só entendi completamente depois. Havia amargura nas corridas, alguma tristeza nos risos, inveja q.b. Mas eles eram ainda amigos, até que o cachopo não adoptado chamou "preto" ao cachopo adoptado. Este ripostou que não era preto, que era castanho e demonstrou com as cores à sua volta. Os adultos riram com a resposta e não se pensou que o cachopo adoptado, ao fim do dia, fosse dizer aos pais que não queria nunca mais ver o amigo. Quando me contaram este desenlace, percebi que aquele pequenique tinha sido uma grande tragédia para ambos os companheiros. O que parecia ir ser um piquenique banalérrimo, que hoje eu teria esquecido, ficou-me gravado. Fui sempre pensando na sorte de ambos os amigos. Só os vi naquele dia e continuo a perguntar por eles quando encontro pessoas que ainda poderão ter notícias deles. Eles realmente nunca mais se encontraram. Talvez agora, adultos? Sei que o pequeno politicamente incorrecto, felizmente, encontrou alguém que finalmente o amou (apesar das bocas que lhe terá presenteado no início) e gosto de imaginar que lhe tirou a necessidade de ser mau com palavras. Admiro uma senhora que nunca vi, mas que resolveu ver por baixo da revolta. Que ele nunca mais perderá amigos porque, num momento menos bom, os chama "pretos". Porque outro alguém viu através da sua superfície de revoltado, o puto fantástico que ali estava. Porque o amigo dele era castanho na pele e ele era branco na pele, mas, para além disso, tinha a cor da raiva e seria fundamental para ambos que as pessoas pudessem ver para lá das cores á superfície. Pelo menos, os adultos.

Esta história nao segue o raciocíno da Fernanda Cancio. Na minha história o chamar "preto" veio de amargura e o amigo nao perdoou e nao o recrimino por isso. Parece-me até que o miúdo branco tem mais a ver com a história da Fernanda Cancio, porque, na altura, o que me causou uma certa piedade foi o facto de todos aqueles que o nao conheciam antes do piquenique, o terem tomado pelo que ele era á superfície. Isto adultos, que supostamente tem mais que dois dedos de testa. Mas também nao tem a ver com a história da Fernanda Cancio, porque usar óculos ou ter cor nao diz absolutamente nada sobre a pessoa. As pessoas continuam a ser todas elas desconhecimento, sao potenciais tudo, pelo que pessoas inteligentes deveriam deixar de ater-se a adjectivos tao vazios. Ser gordo ou revoltado já pode dizer algo mais sobre a pessoa e talvez diga que essa pessoa o menos que precisa é ser posto numa gaveta, principalmente quando é uma criança. Mas se os adultos sao estúpidos, como seria possível que os seus filhos nao o fossem? A Fernanda Cancio nao está a falar dos putos, está a falar dos pais dos putos que nao acham mal nenhum que se chame nomes aos outros. Faz parte do crescimento, parece. Para quem levou um selo faz parte do crescimento lidar com o que lhe chamaram. O que é verdade. Quem foi denominado tem de lidar com os sentimentos de inferioridade que lhe foram inculcados. Se tiverem sorte, é só na escola. Sei de uma história de heroísmo, de uma pessoa com deficiencia motora que teve de lidar com a própria mae, que a queria em casa, porque tinha vergonha que lhe vissem a filha. E dizia-lhe para ela perceber bem que ela era entrevada, uma coitadinha, e que era uma vergonha que ela andasse por fora, a estudar, a sair com amigos e, miséria das misérias, a ter namorado. Diz-se que o que nao mata, fortalece. Os putos que chamam nomes na escola nao sao revoltados, sao, na sua maior parte, somente mal-educados por pais que depois vao para as caixas de comentários dizer que deixar os putos serem mal educados é parte do crescimento dos que levam com a má-educaçao. Se isto nao é estupidez, nao sei que outra coisa seja.

quinta-feira

Vai espaço entre a vontade e a destreza
eu quando penso que queria poemar
vêm verbos sobre alguém que hesita
não eu, que só não posso
alguém
alguém que eu talvez ame (senão porque pensaria nele?)
mas não conheço

segunda-feira

under the guise of religion, science or reason

Um senhor chamado Chris Hedges adicionou um ponto importantíssimo ao que eu aflorava (muito levemente) aqui:

The greatest danger that besets us does not come from believers or atheists. It comes from those who, under the guise of religion, science or reason, imagine that we can free ourselves from the limitations of human nature and perfect the human species.

O maior perigo que enfrentamos nao vem dos crentes ou dos ateístas. Vem dos que, sob o disfarce da religiao, da ciencia ou da razao, imaginam que nos podemos libertar das limitaçoes da natureza humana e aperfeiçoar a espécie humana.

domingo

Ignorância histórica

Porque é que aprendemos história? A resposta padrão é de que é para prevenir os erros do passado. Pessoalmente, do que me lembro do meu percurso escolar, parece-me que era mais a intenção de nos inculcar nostalgia pelos tempos de ouro da nossa pátria. Levei com os descobrimentos e com os Lusíadas duas vezes.  Mas devo estar a ser injusta, devia ser por causa do ensino obrigatório, tinha que se dar estas necessárias lições muito cedo para os que iam ficar-se, e depois outra vez, supostamente mais profundamente quando já podiamos entender melhor. Os meus colegas de humanísticas levaram uma terceira vez, talvez de outro ângulo. Achei os descobrimentos uma seca, acho que me senti mais patriótica na leitura da crónica de Fernão Lopes sobre o povo a levantar-se em favor do seu rei. Gostei sempre muito quando o povo se resolveu a decidir, se bem que agora tenho um certo temor do poder irracional da turba. Mas enfim, em termos históricos aquilo correu bem. Mas se realmente há que aprender com a história, o patriotismo parece-me coisa a desaprender. A história também é para percebermos o presente e parece-me que este deve ser o enfoque. Em vez de maldizer o povo português na sua mesquinhez consumista, mais vale olhar as privações que passou e esperar que esta maleita lhe passe. O mais interessante para mim é a história em termos científicos e pensei nisto na área da vacinação. A vacinação é uma medida médica social. Os riscos para o indivíduo, que ao longo das décadas têm vindo a reduzir-se drasticamente, mas não era tanto assim no início, versus a protecção da saúde da comunidade. Morria-se muito de doenças que hoje só se lê na caderneta de vacinas e talvez muito de vez em quando talvez se leia nos media, ainda matar muitos em países com menos meios. As pessoas esquecem isto e em países com uma cultura individualista grande surgem focos anti-vacinação, o que visto em termos históricos é absurdo. Os médicos pôem as culpas à iliteracia científica, mas, nos países ricos é também ignorância histórica. Seria salutar ensinar em história de que se morria antes e explicar porque hoje se morre de outras coisas. Duas aulas e não se teria tanto disparate mortal. Mas isto é mais coisa de americanos e anglo-saxónicos com a mania de que sozinhos prevalecem. Uns já estão numa ilha, era fazer o mesmo aos outros.

sábado

Ui, ui, os gringos estao chateados

Blogosfera em animaçao absoluta. {smile em alta risota}.

Filme what the fuck

Os filmes what the fuck são aqueles que são considerados obras-primas, mas a ti a prima passa-te ao lado. Um exemplo muito recente é o "No country for old men". Uma pessoa acaba por pensar que aquilo tem um significado mais profundo para os americanos e para os não americanos com panca por westerns modernos. Como eu não pertenço a nenhum dos grupos fico a dizer what the fuck just happened? Eu não acreditei em nenhuma das personagens, sem ser preciso falar do pobre Bardem e o seu penteado. Como é que um homem com tal coisa na cabeça pode ser descrito como fantasma, no sentido de que ninguém o vê? Contudo, a revelação do filme é ouvir um espanhol sem sotaque. Bem, deêm um óscar a este homem. O xerife carrega a sentimentalidade toda do filme, parece que antigamente os xerifes não andavam com armas, era só flores e amor, agora é uma desgraça, ajuda-se um estranho a mudar o pneu, actua-se como um posto de informações e pimbas lá se te voam os miolos. Ah, mas espera, ele vai visitar um velho com muitos gatos que lhe diz que afinal em 1909 já tinha acontecido ao tio dele ser morto por nada. Ah, prontos, o mundo retornou aos eixos. Simpatizei com o tipo que achou o dinheiro para depois andar a saltitar de motel em motel a fugir daquele que teve um mau dia no cabeleireiro. Pelo menos isso. Mas alguém neste mundo de pessoas mais ou menos com cabelos normais acredita que uma mulher se põe com aquela filosofia com um psicopata que lhe matou o marido mais o equivalente a uma pequena aldeia? Tens que ser tu a escolher matar-me. Sim, naquele ponto do filme nós sabemos que ele tem problemas a decidir-se. Também se lhe nota na unidimensionalidade que ele vai ter enormes problemas de consciência. Esta personagem é particularmente irritante, porque é um desperdício de um actor espectacular. Eu sei, não importa que as personagens pareçam sem substância, mas se o que importa é a matança e os ângulos artísticos, porque é que temos de assistir ao triste espectáculo deles a dizerem disparates? Aqui temos a receita, cenas que fazem bem ao filme, mas personagens de meter dó. O que é que o Harrelson lá foi fazer? Mais um castiço pró mau penteado fazer um furo? Desculpem, what the fuck just happened?

sexta-feira

Filme singelo

Tenho um fraco por, o que chamo, filmes singelos. Imaginem que eu todos os dias passo por uma rua. Imaginem que um dia alguém vem comigo e me mostra a rua de uma outra perspectiva e que faz essa demonstracao de forma artística, de tal forma que essa rua, aos meus olhos, acende-se. Nada novo na rua, excepto os olhos de quem a ve. Agora imaginem que a rua é a vida e a pessoa que guia o olhar sao os filmes singelos. Assim, apaixonarmo-nos e fazermos papel de ursos, ou apaixonarmo-nos e ficarmos com remorsos por nao termos feito papel nenhum, a primeira vez que beijamos, que apalpamos, que vemos, a mentira envergonhada, a excitaçao dar lugar ao cinismo e ao aborrecimento, o aparente paradoxo do amor e do ódio entrelaçados, descobrirmos coisas muito simples demasiado tarde, cair-nos a alma com a morte de um pássaro ou olharmos embevecidos um gato a torturar um rato, passa a ganhar a dimensao de uma epopeia, repetida milhoes de vezes certamente, mas propensa a novidade na nossa efémera vida, se soubermos o quanto especial o é para nós. No entanto, esquecemos até que algo singelo e especial nos lembra. Por isso, tenho um grande fraco por filmes singelos.



Esta introduçao vem a propósito de um filme que eu vi agora, mas já é de 2005. Nada, absolutamente nada do que passa na vida das pessoas no filme é algo que nao poderia passar na minha vida ou na vida de pessoas que eu poderia conhecer ou vir a conhecer. Na verdade, a nao ser que estivessemos enclausurados, aquilo acontece de uma forma similar a mim e ás pessoas que conheço e vou conhecer. O que muda sao os olhos de quem ve. Os filmes singelos sao sobre a vida, a vida de todos os dias, a vida sem marcos de extraordinariedade. E no entanto... Que extraordinário é o olhar e que extraordinária é a vida de cada pessoa á luz desse olhar.

Um homem e uma mulher encontram-se numa rua. O encontro nao é casual. Antes, a mulher apaixonou-se por aquele homem. Cada um vai para o seu respectivo carro e a certo ponto da rua vao-se separar. Enquanto caminham e enchendo o espaço com palavras que é necessário encher quando se caminha com outra pessoa, eles acabam por construir naquele caminho as suas vidas juntos.

Um senhor compra um peixe vermelho para a filha, mas esquece o saco de plástico com o peixe sobre o tejadilho do carro quando arranca para casa. O destino daquele peixe torna-se uma ponte de solidariedade e o presságio mais que certo, de que é necessário aprender a dizer adeus.

Em súmula, adorei o filme.

Me and you and everyone we know de Miranda July.

quarta-feira

the sting of poverty

IMAGINE GETTING A bee sting; then imagine getting six more. You are now in a position to think about what it means to be poor, according to Charles Karelis, a philosopher and former president of Colgate University.

In the community of people dedicated to analyzing poverty, one of the sharpest debates is over why some poor people act in ways that ensure their continued indigence. Compared with the middle class or the wealthy, the poor are disproportionately likely to drop out of school, to have children while in their teens, to abuse drugs, to commit crimes, to not save when extra money comes their way, to not work.

To an economist, this is irrational behavior. It might make sense for a wealthy person to quit his job, or to eschew education or develop a costly drug habit. But a poor person, having little money, would seem to have the strongest incentive to subscribe to the Puritan work ethic, since each dollar earned would be worth more to him than to someone higher on the income scale. Social conservatives have tended to argue that poor people lack the smarts or willpower to make the right choices. Social liberals have countered by blaming racial prejudice and the crippling conditions of the ghetto for denying the poor any choice in their fate. Neoconservatives have argued that antipoverty programs themselves are to blame for essentially bribing people to stay poor.

Karelis, a professor at George Washington University, has a simpler but far more radical argument to make: traditional economics just doesn't apply to the poor. When we're poor, Karelis argues, our economic worldview is shaped by deprivation, and we see the world around us not in terms of goods to be consumed but as problems to be alleviated. This is where the bee stings come in: A person with one bee sting is highly motivated to get it treated. But a person with multiple bee stings does not have much incentive to get one sting treated, because the others will still throb. The more of a painful or undesirable thing one has (i.e. the poorer one is) the less likely one is to do anything about any one problem. Poverty is less a matter of having few goods than having lots of problems.

Poverty and wealth, by this logic, don't just fall along a continuum the way hot and cold or short and tall do. They are instead fundamentally different experiences, each working on the human psyche in its own way. At some point between the two, people stop thinking in terms of goods and start thinking in terms of problems, and that shift has enormous consequences. Perhaps because economists, by and large, are well-off, he suggests, they've failed to see the shift at all.

terça-feira

Arnulfo, o perfeccionista

O Arnulfo leva as suas hóstias.