quarta-feira

O lar

Nós dependemos obliquamente do que nos rodeia para, por um lado, dar consistencia aos nossos estados de alma e 'as ideias que respeitamos e, por outro lado, para nos lembrar dessas mesmas ideias e estados de alma. Nós procuramos que os edifícios que habitamos nos retribuam como um molde psicológico, uma visao pessoal que nos apoie. Nós dispomos 'a nossa volta formas materiais que nos comunicam o que necessitamos interiormente (mas estamos sempre em risco de esquecer). Nós viramo-nos para o papel de parede, os bancos, as pinturas, as ruas, para evitar o desaparecimento do nosso verdadeiro eu.

Aqueles lugares que reflectem e legitimizam a nossa visao interior servem-nos de lar. Esse lar nao é necessariamente o local que nos serve de casa ou onde depositamos as nossas roupas. Falar de lar em relaçao a um edifício é simplesmente reconhecer a sua harmonia com a nossa própria cançao interior. O lar pode ser um aeroporto ou uma biblioteca, um jardim ou um restaurante 'a beira da auto-estrada. O nosso amor por um lar é um reconhecimento de até que ponto a nossa identidade nao é auto-determinada. Precisamos de um lar no sentido psicológico tanto quanto precisamos de uma casa no sentido físico: para compensar uma vulnerabilidade. Precisamos de um refúgio onde colocar os nossos estados de alma, porque tanto do mundo é oposto 'as nossas causas. Precisamos do "nosso cantinho" para que nos alinhemos com as versoes desejáveis de nós e para manter viva a nossa parte importante e evanescente.

Provavelmente foram as grandes religioes mundiais que mais pensaram o papel do que nos rodeia na determinaçao da identidade e assim - ainda que raramente construindo locais onde facilmente pudessemos adormecer - mostrando a maior das simpatias pela nossa necessidade de um lar. O princípio fundamental da arquitectura religiosa tem as suas origens na noçao que onde estamos determina de forma crítica o que somos capazes de acreditar. Para os defensores da arquitectura religiosa nós, ainda que muito convencidos intelectualmente do nosso compromisso com os ditames do credo, só permaneceremos fieis a essa devoçao se esta for continuamente afirmada pelos nossos edifícios.

The Architecture of Happiness, Alain de Botton, Pantheon Books, NY, 2006, págs 107-108.

Traduçao minha.

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