quarta-feira

Desabafo

Esta campanha eleitoral é uma palhaçada! O que parece mais inteligente é o só porque não diz nada! Mas eles têm noção que se vão candidatar a presidentes de um país? Já lhes disseram que não se estão a candidatar a intervenientes no "Má Língua"?

Desisto, desisto, desisto!

Não há filósofos nesta campanha eleitoral!

Vai em branco.

terça-feira

Bushismos

Aqui

Tá-se memo a ver

Parece-me que deus anda lá pra cima a brincar com as almofadas...

Coisas que recebo dos meus amigos

The world is a tragedy to those who feel, but a comedy to those who think.
Horace Walpole
English author (1717 - 1797)


Gracias! :-)

sábado

O vértice do oportunismo

Matilde Sousa Franco acusa Manuel Alegre de oportunismo porque ele pretende ir à lota de Matosinhos. Mários Soares diz que Sousa Franco votaria nele se fosse vivo. Matilde Sousa Franco concorreu a deputada nas listas do PS porque é viúva de Sousa Franco.

Para alegrar


Flores

O espelho da presunção

Há muita presunção na blogosfera. Tenho muitas vezes a impressão que os blogues de referência são um mundo fechado de grandes egos que eu estou a perscrutar. Sinto-me então desconfortável. Há ideias muito interessantes nos blogues, aprende-se muito e há bloguistas que escrevem bem e com espírito de camaradagem. Mas há outros que têm súbitos de tanta empáfia que se fica parvo a ver as palavras que se juntam para formar ideias, que vêm, imagino, daquela coisa chamada elitismo intelectual. Hoje decidi deixar de visitar um deles. Há muitos bons blogues para perder tempo a ler vaidades.

Lembram-me o conto da Branca de Neve, com a sua rainha má e o seu espelho e penso se não usarão a blogosfera como esse espelho.

sexta-feira

Como está muito frio fui ao cinema

Vi dois filmes.

Um deles não gostei. Li em qualquer lado um escrito de um tipo que tinha gostado, principalmente porque era uma história, sem tomar partidos sobre a guerra ou sobre as políticas bélicas dos EUA. Eu preferia um pouco mais. Este filme só tem um mérito: é um excelente contranatalidade. É só as minhas hormonas começarem a gritar que querem que eu seja mãe, que eu vejo o filme e só de pensar que me pode sair um menino como aqueles na rifa, perco logo a vontade. É só por isto que estou a pensar adquiri-lo. Ah, o filme é "Máquina Zero" (Jarhead) do Sam Mendes.

O outro amei, adorei, apaixonada. É Woody Allen, sem comédias, sem ele a zanzar no filme com existencialismos, mas que obra-prima. Podem algumas almas aborrecerem-se com um filme que não salta nenhuma cena explicativa de uma tese, mas que também não tem excrecências. No final fica o gostinho de algo sublime. Este ano começou bem. "Match Point".

P.S.: Para além disso, tem a Scarlett Johansson que me dá vontade de me tornar lésbica... :-) Os rapazinhos são bonitos de poster, com olhos azuis, e eu gosto deles latinos. Não tenho paciência visual para bibelôs anglo-saxónicos.

Mariano Gago

Este senhor é um excelente ministro, inteligente, dinamizador das universidades e da investigação portuguesa, com bom senso, de pés assentes na terra e com objectivos cumpridos. Tem a minha admiração e não esperaria dele mais do que isto.

Os padres irritam-me tanto, pior que melga. Os senhores façam o favor de se cingirem à homília! Chaguem os católicos, deixem o resto do pessoal ser feliz à sua maneira. Que chaga!

Os velhos

A Constança Cunha e escreveu um bom texto no seu espectro. Concordo com cada letrinha e ponto final. Um dos bloguistas d'O Acidental respondeu-lhe e lá pelo meio diz que como a idade mínima para alguém se candidatar a presidente da república é de 35 anos então já está implícito que a idade importa. Só que para mim importa mesmo é no limite inferior. Eu nunca votaria em alguém abaixo dos 50 anos, porque eu estou à espera de alguém com experiência para o cargo, uma ideia da vida e da política que só o viver dá.

Citação

"Para quem se perguntou como irão o aquecimento global e a redução na superfície de gelo afectar os ursos polar a resposta é simples - eles morrem."

Richard Steiner da Universidade do Alasca, Fairbanks, sobre a descoberta de que os ursos polar estão-se a afogar ao nadarem cada vez maiores distâncias entre os blocos de gelo. The Wall Street Journal, 14 de Dezembro


Citado na New Scientist, 24/31 de Dezembro

quarta-feira

Diplomacia

Tenho um provisório colega no meu gabinete (que também é amigo), que é de Veneza, que anda a encher-me o gabinete de música. Consegui identificar Nina Simone e agora colocou música brasileira. Eu disse-lhe que estava a gostar muito. Em português, devagar, como agora costumo fazer para lhe engrandecer os horizontes linguísticos. "Cantano in brasiliano". "Bem, sim, é português do Brasil". "Io pensavo che fosse portoghese fino a quando ti ho ascoltato". Eu sorri e respondi "Va cagare!"

Prevenção

Falta-nos uma cultura preventiva a todos os níveis. Estamos habituados - e isto inclui a Medicina... - a esperar as nossas pequenas tragédias e depois precipitarmo-nos com o Credo na boca, o Terço na mão, a praga na cabeça, o medo e a saudade antecipada no coração para as valências curativas.
Que rebentam pelas costuras...

Os livros que gostei mais em 2005 - II

Dois livros do momento: um é um livro de história sobre o Iraque e o outro um livro sobre furacões.



8 - O Sr. William Polk tentou colmatar a ignorância dos seus conterrâneos sobre um país que eles através do seu voto colocaram na mirada de um governo que pretende instalar a liberdade à paulada. Dizem eles, mas em frente. É um livro muito abrangente e superficial que se lê como um romance. Muito bom para conhecer o mínimo. Depois se se quiser pode-se aprofundar.




7 - Não é tão recente que fale do Katrina, mas fala de muitos outros furacões, que foram devastando, e alguns até salvando (não estou a brincar. Não me atreveria.). Mas não só! Para além da história, os furacões aparecem explicados (de uma forma acessível) - onde se formam, o que lhes dá origem, como é que uma tempestade tropical chega a furacão, etc. - nos limites do conhecimento actual, claro; aparecem desenhados e pintados; cantados em poemas e prosa. Torna-se assim um livro bonito pelo conteúdo e pela forma.

segunda-feira

Discussões da treta

Preparem-se para a risota.

A referência

Na minha opinião um presidente da república tem de ser uma pessoa com experiência de vida e experiência em pensar. Tem que ser o filósofo de serviço. Filosofia costuma pressupôr pessoas sábias, mas tal é uma raridade e mesmo aqueles que por vezes o parecem, como alguns escritores, ouvimo-los em entrevistas e descobrimos uns filhos da puta cheios de prosápia e acabamos por pensar que quando escrevem não são eles, mas que estão possuídos.

Experiência, maturidade, capacidade de matutar, pensar e perguntar. De uma forma abrangente. É isto que estou a tentar apanhar nos candidatos. À medida que vou pensando nisto afunila-se a escolha e parece que só há um minimamente perto desta minha referência. Quando isto começou não pensei que acabasse por me soarizar desta forma.

P.S.: Quem nunca cometeu uma gafe ou que tenha completamente se perdido num raciocínio que lance a primeira pedra e um cérebro não precisa de pernas para andar (parece que ele anda a ser amparado). O Soares até podia deslizar em cadeira de rodas e eu continuava na minha. Talvez fosse da maneira que se começava a pensar nas necessidades dos portugueses que efectivamente têm de andar de cadeiras de rodas e veêm o mundo construído ao revés deles. Ou então se deixa este disparate da juventude e que este mundo é rápido, veloz, que só os jovens o conseguem agarrar. Eu penso que o mundo precisa de mais pachorra e pensamento. Há muita corrida no vazio. Eu sou jovem e acho que há lugar para todos. Velhos incluídos, ainda que sem mac.

domingo

Friiiiiiioooooooooooo



Em Portugal não há frio, há menos calor. Frio dói! :-(

Desta que que que ainda há-de morrer azul.

Rasteira

Ando a ler "As intermitências da morte" do José Saramago e já com intermitências de pensamento, desde pensar "este gajo está-se a plagiar a ele próprio!"; "este gajo escrevia como uma boa noite de sexo e agora é uma noite de desculpas de dor de cabeça!"; "que seca!"; já eu ia pousar o livro para nunca mais quando leio isto:

É possível que só uma educação esmerada, daquelas que já se vêm tornando raras, a par, talvez, do respeito mais ou menos supersticioso que nas almas timoratas a palavra escrita costuma infundir, tenha levado os leitores, embora motivos não lhes faltassem para manifestar explícitos sinais de mal contida impaciência, a não interromperem o que tão profusamente viemos relatando e a quererem que se lhes diga o que é que, entretanto, a morte andou a fazer desde a noite fatal em que anunciou o seu regresso.


Continuo a ler o livro.

sexta-feira

Os meus livros de 2005 - I

Agora vamos ao mais importante: livros. Retive a minha lista à espera de talvez um último livro que me apaixonasse durante as férias de Natal. Livros de autores portugueses, a tentar redimir-me de um ano desértico em leitura em português. Espinhos de viver longe. Contudo, não escolhi à altura e a minha lista permaneceu estrangeira. Existe ciência, mas não se preocupem os leigos, são livros fáceis e maravilhosamente apaixonantes para quem gosta de saber do mundo natural que o rodeia.

Começo com um livro de ciência e um livro de contos:



10 - A biography of water de Philip Ball
A biografia da água. É isso mesmo. E não há senhora tão complexa, misteriosa e bela como a água. Philip Ball é um dos editores da revista Nature e conseguiu um excelente livro que aborda os vários prismas da água: a física, a química, matéria prima da vida, a sua procura nos confins do universo, a sua beleza neste nosso planeta, o seu nascimento, o homem e a água, a civilização e a água. Com este livro compreende-se quem na verdade é omnisciente, omnipresente e omnipotente. Bendita seja entre todas as coisas. :-)



9 - Dream stuff de David Malouf
A qualidade mínima é bom. Alguns contos ainda me assombram hoje. Passam-se lá longe onde o mundo está de pernas para o ar. Espessura. As personagens... Tocamo-las, amamo-las, odiamo-las...

Bébé Letícia

Terminou a investigação sobre a actuação da CPCJ.
Aqui notícia no DN.

Tenho esperanças que não caia em saco roto. Estou farta deste país com as melhores leis e os melhores relatórios, muita coisa no papel, muitas vírgulas no sítio certo, muitas prateleiras abastecidas, mas depois ninguém lê, ninguém liga e continua-se no terreno, na vida da gente, a improvisar, a fazer conforme a cabeça, a confiar no voluntarismo, muito lindo no mundo das fadas, mas em certas áreas (como a protecção de menores) pode lixar a vida das pessoas para sempre. Estou zangada... É tudo.

Mulher inteligente

Também senti calafrios na frase. Mas serviu para a Susana da "Lida Insana" escrever este texto soberbo. Daqueles que me fazem inveja. Torço o nariz à cena das meiguices, mas o resto...

Adenda: O monte de gente que me anda a entrar por este poste é incrível. Mas é que não encontram nada relativo a homens bonitos. A única vez que escrevi sobre isso foi aqui. Espero que com esta medida a desilusão seja menor... Christ!

quinta-feira

O meu filme DVD visto em 2005 ou vice-versa



Eu vi este filme no ano passado, mas é de 2001. Por isso está fora da minha listinha anterior. Se o tivesse incluído ficaria em segundo lugar.

Há duas coisas que me param o cérebro: as guerras civis e a economia. Eu nem sei se a guerra nos balcãs se denomina como guerra civil. Na altura deixou-me inquieta de incompreensão. Eu nada sabia da Jugoslávia. Bicando informação sobre a história daqueles povos ficou-me na ideia um canto sofrido de forças dominadoras. Os turcos a malhar nuns e a converter outros, os venezianos a malhar em todos e os do império austro-húngaro a usar a célebre estratégia do dividir para governar, talvez sendo os que deixaram pior herança para o descalabro final.

Tenho um amigo croata que só de ouvir falar em sérvios eriça-se todo. Nunca me soube explicar o porquê.

Para além da tragédia, os ex-jugoslavos carregam um senso apurado do cómico e do absurdo. Do riso com lágrimas. Este filme faz mal e bem. A UN perde-se, queira bem ou mal. Aproveita-se para a caricatura. No fim a noite cai na terra de ninguém, o filme acaba, mas a história continua. Nós somos o coro mudo da tragédia balcã.

Um revolucionário das estrelas


Não sei bem se esta ligação a um texto sobre Subrahmanyan Chandrasekhar (Chandra para os amigos) está disponível para quem não tem a assinatura da Nature. Um dos mais brilhantes astrónomos, calculou a massa crítica de uma estrela que separa uma morte calma de uma morte aparatosa. Massa crítica essa ligeiramente superior à da estrela que nos ilumina. Isto no início da sua carreira, que lhe rendeu o nobel quando ele já ia nos seus oitentas. Entre a descoberta e a recompensa
"He worked in each of six fields in turn: in his third decade, he worked on the structure of dying stars; in his fourth on the transport of radiation through stellar atmospheres; in his fifth on instabilities of fluid motions; in his sixth on Einstein's general theory of relativity; in his seventh on the theory of black holes; and in his eighth on a detailed historical study of Newton's Principia Mathematica."


P.S.: Ele rejuntou-se ao pó das estrelas faz uma década. A bem da poesia, presumo que tenha ido feliz.

quarta-feira

Uma batalha ganha pela ciência

A decisão foi tomada. Os alunos de Dover não terão que ouvir chachadas religiosas antes de entrar na aprendizagem da ciência da evolução. A luta continua.

sexta-feira

Poluição auditiva

Comprei uns tampões para os ouvidos para fazer face às músicas de Natal. Consegui suportar a tortura sem o uso de protecção. Contudo, num autocarro beirão de rádio a regurgitar música pimba, eles foram postos ao serviço da preservação da minha sanidade mental. Há limites para a dor.

quarta-feira

Os meus filmes de 2005

1 - Million Dollar Baby do Clint Eastwood
Uma obra prima e não se me enrola o cérebro em dúvidas quando o escrevo.

2 - Don´t come knocking do Wim Wenders
Outro filme sobre pessoas, mas desta vez uma está irremediavelmente perdida. Imperdível.

3 - Manderlay do Lars van Trier
Capítulo 2 da trilogia que começou com Dogville. Grace envolve-se noutra parábola, esta sobre liberdade. Tudo excelente e comovente e envolvente, excepto o fim. A sequência de fotografias, por si meritórias, estraga para mim a sensação de alegoria universal. Um anjo a quem lhe cortaram as asas. Mas ainda um anjo.

4 - Wallace & Gromit: A maldição do coelhomem do Nick Park
Eu adoro animação e eu adoro bonequinhos de plasticina e o resultado da técnica "stop-motion" e eu amo as histórias de Wallace, o inventor tótó e o seu inteligente e paciente cão Gromit. Este é a primeira longa-metragem e é fantástica. Tudo. Façam "Cheeeeeeese".

5 - Flores partidas do Jim Jarmush
Mais um filme sobre alguém perdido e ele lá vai bater às portas. As senhoras abrem-lhe as portas e perdem-no ainda mais.

Já não há pachorra

A sensação que tenho é que a comunicação social portuguesa está numa campanha para deprimir os portugueses. Se não têm nada de bom a opinar, limitem-se aos factos. Do que eu tenho visto seria uma revolução. Factos, factos, fatos, fatos, pois aquele fato do Sócrates é comparativamente com o do Zapatero de pior corte. Não é corte inglês. Não há pachorra.

sexta-feira

Pobres santos

Há ironias sublimes e deliciosas. Ver a estátua de um santo (Sto António ou S. José, o menino nos braços) no jardim de um colégio de freiras envolvido em luzes como uma mera árvore de Natal foi uma imagem interessante. O paganismo subjuga a religião cristã no seu próprio domínio.

Lojas, compras, prendas,

sinto-me a ficar esquizofrénica...



Art © 1998 Christopher Jones.

quarta-feira

Para que é que se embrulham as prendas?

Diremos: pelo elemento surpresa. O divertimento de quem dá no desembrulho questionativo de quem recebe.

Vou ter que reembrulhar todas as prendas que comprei hoje. As lojas pespegam as marcas onde podem no que eu senti uma ofensa a mim. Mas o mais anormal foi na perfumaria. O papel vermelho brilhante. Só. Eu extasiada em algo tão simples e bonito e aí aplicam um laçarote farfalhudo a dizer "perfume". Para que raio eu embrulho um perfume e escrevo no embrulho perfume? Não percebo.

segunda-feira

O número um

Após meio ano de surfe pela blogosgera, decidi o meu preferido, medalha de ouro, cinco estrelas.

George, o cáustico.

My lord, your crown.

Amanhã

Amanhã por esta hora o céu terá sol, as ruas serão luminosas, caminharei pela estrada com os carros alucinantes a centímetros de mim, senhores e senhoras venderão castanhas e guarda-chuvas na rua, esta será de pedras pequeninas pretas e brancas, haverá obras a cada segunda esquina e os liliputianos abrirão a boca e misteriosamente falarão português.

domingo

Message in the bottle

Esperar a carta na caixa do correio, esperar o toque do telefone, esperar o boneco a mudar de cor no msn, esperar o nome listado no correio electrónico, esperar o toque do sms, esperar o sinal da imanência distante.

Não se pesquisa nos sites dos jornais portugueses

Deve ser mais fácil ter resposta a uma carta para o Pai Natal. Porquê? Porque é assim tão difícil? Porque é que posso comprar jornais turcos, chineses, árabes, franceses, espanhóis, gregos, italianos (etc...) e não posso comprar jornais portugueses em Hamburgo? Porque é que não respondem às minhas cartas electrónicas? Porque é que o quarto poder é tão português como os outros? Que seria de mim sem a blogosfera para saber notícias? Porque estou sem paciência?
Porra pra isto!
Snif... Snif...

sábado

Letícia, quero-te bem

Quando falo do drama da bébé Letícia, abusada pelos pais, agora num hospital em Coimbra, à minha família ou lendo o que se escreve pela Net fica a sensação de ingenuidade. Como se pode pensar que os pais podem ser assim? Talvez seja porque eu tenho uma irmã a trabalhar com crianças em risco, mas eu nunca confiei no amor dos pais. Lembra-me de ser jovem, muito jovem e uma das coisas do mundo que me deixavam confusa é que não se tivesse que prestar provas para se ser pai ou mãe. Eu estudava e fazia provas e passava de ano e diziam-me que eu tinha de prestar provas para guiar um carro e prestar provas para ter uma profissão, mas não para fazer e criar uma criança. Porquê, perguntava eu? Criar uma pessoa! É muito mais importante! Como se pode confiar? Porque há o amor e não há amor maior que o de uma mãe, dizia-me a minha, que sei que me ama, não o dúvido, mas será assim com todas as crianças? Uma dúvida que começou em mim em tenra idade deixa perplexos pessoa graúda, como se de repente algo novo surgisse. Sinto-me novamente confusa com tanta ingenuidade.

quinta-feira

Stanley Williams

Vale a pena ler o editorial de Nuno Pacheco no Público reproduzido pelo "Renas e Veados".

Teste: Compasso moral

Eu adoro testes. Faço-os todos. Desde o "Que tipo de vegetal seria se entrasse em estado vegetativo", até o indicado no blogue Glória Fácil, para ver o teu grau de pureza (tem piada :-)). Eu encontrei este na New Scientist (Vol.108, nr.2527 de 26.11.05). É um pouco sério, mas ainda assim divertido.

O objectivo é aferir o teu compasso moral. Como te guias para tomares decisões de cariz moral?

A pontuação é de 1 a 9, com todos os nrs naturais pelo meio, sendo que a gradação tem nos vértices:
1 - discorda totalmente
5 - nem sim nem sopas
9 - concorda totalmente

* Nunca é necessário sacrificar o bem estar dos outros. -> 1 a 9
* Nunca se deve maltratar física ou psicologicamente outra pessoa. -> 1 a 9
* As preocupações prioritárias numa sociedade devem ser a dignidade e o bem estar dos seus cidadãos. -> 1 a 9
* As pessoas devem ter a certeza que as suas acções nunca prejudicam outros, independentemente dos benefícios. -> 1 a 9
* É imoral decidir uma acção fazendo um balanço dos efeitos positivos e dos efeitos negativos. -> 1 a 9

FAZER O SOMATóRIO = .... IDEALISMO

* A ética varia com a situação e a sociedade. -> 1 a 9
* Uma mentira é moral ou imoral consoante as circunstâncias. -> 1 a 9
* Decidir o que é ético para todos é impossível, já que a questão do que é moral ou imoral está dependente de cada indivíduo. -> 1 a 9
* Os padrões morais são linhas mestras de cada pessoa que lhe indicam como se deve comportar, não devendo ser usadas no julgamento de outras pessoas. -> 1 a 9
* A codificação rigída de uma posição ética prevenindo certo tipo de acções pode constituir um obstáculo na melhoria das relações humanas e do seu ajustamento. -> 1 a 9

FAZER O SOMATóRIO = .... RELATIVISMO

Este questionário mede duas dimensões do pensamento moral: o idealismo e o relativismo. O idealismo mede o quanto uma pessoa acredita que o efeito de uma acção moral normalmente resulta em algum malefício (baixo idealismo) ou de que um resultado perfeito pode sempre ser alcançado (alto idealismo). O relativismo reflecte o quanto uma pessoa avalia a moralidade como baseada em regras absolutas (relativismo baixo) ou como dependente do problema em causa (relativismo alto).

Para saber onde se situa adiciona separadamente os itens relativos ao idealismo e ao relativismo. Para ambas as escalas, > 31 é considerado alto e <> baixo. A combinação das duas dimensões define quatro ideologias éticas, como se pode ler a seguir (clicar sobre a imagem para aumentar).



P.S.1: Eu sou excepcionista a pender para o subjectivo.
P.S.2: A New Scientist diz que este teste é baseado no "Ethics Position Questionaire" concebido por Donelson R. Forsyth da Universidade de Richmond, Virginia, EUA. Para mais informação: www.richmond.edu/~dforsyth/

quarta-feira

terça-feira

Homes ou as cousas que me atormentam

Um amigo mandou-me esta "breaking news". A animação com que ele fala da notícia e a sua insistência em metê-la nas conversas deixa-me a pensar no seu grau de inteligência. Mas ele parece inteligente... Normalmente. Será que há períodos de insuflamento? Será que eu perdi o meu sentido de humor?

segunda-feira

Tema para meditar

Estás no sítio certo?



Aparece no Diário de Notícias

sábado

A verdade segundo o niilismo

Um exército móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos - ou seja, uma súmula de relações humanas que foram relevadas, transpostas e embelezadas poética e retoricamente e que, após longo uso, parecem firmes, canónicas e obrigatórias para um povo: as verdades são ilusões que esquecemos serem ilusões.

Friedrich Nietzsche, Sobre a verdade e a mentira no sentido extramoral

A arte e a política (há um século)

Este é o caminho que os Homens Brancos percorrem
Quando vão limpar um território -
Ferro sob os pés e a vinha sobre a cabeça
E o abismo em cada mão.
Já trilhámos este caminho - húmido e ventoso -
Tendo por guia a nossa estrela escolhida.
Oh, que bom para o mundo quando os Homens Brancos trilham
O grande caminho lado a lado!


Rudyard Kipling, Verse

Rudyard Kipling foi considerado o poeta do Império Britânico. Ganhou o prémio nobel da literatura em 1907.

Discurso de Harold Pinter... (Actualização)

... para a cerimónia da entrega do Nobel da Literatura: Arte, Verdade e Política Actualização -> Versão em português!

Excertos:

In 1958 I wrote the following:

'There are no hard distinctions between what is real and what is unreal, nor between what is true and what is false. A thing is not necessarily either true or false; it can be both true and false.'

I believe that these assertions still make sense and do still apply to the exploration of reality through art. So as a writer I stand by them but as a citizen I cannot. As a citizen I must ask: What is true? What is false?

Truth in drama is forever elusive. You never quite find it but the search for it is compulsive. The search is clearly what drives the endeavour. The search is your task.


(...)

So language in art remains a highly ambiguous transaction, a quicksand, a trampoline, a frozen pool which might give way under you, the author, at any time.

But as I have said, the search for the truth can never stop. It cannot be adjourned, it cannot be postponed. It has to be faced, right there, on the spot.


(...)

Political language, as used by politicians, does not venture into any of this territory since the majority of politicians, on the evidence available to us, are interested not in truth but in power and in the maintenance of that power.

(...)

Look at Guantanamo Bay. Hundreds of people detained without charge for over three years, with no legal representation or due process, technically detained forever. This totally illegitimate structure is maintained in defiance of the Geneva Convention. It is not only tolerated but hardly thought about by what's called the 'international community'. This criminal outrage is being committed by a country, which declares itself to be 'the leader of the free world'. Do we think about the inhabitants of Guantanamo Bay? What does the media say about them? They pop up occasionally – a small item on page six. They have been consigned to a no man's land from which indeed they may never return.

(...)

Early in the invasion [of Iraq] there was a photograph published on the front page of British newspapers of Tony Blair kissing the cheek of a little Iraqi boy. 'A grateful child,' said the caption. A few days later there was a story and photograph, on an inside page, of another four-year-old boy with no arms. His family had been blown up by a missile. He was the only survivor. 'When do I get my arms back?' he asked. The story was dropped. Well, Tony Blair wasn't holding him in his arms, nor the body of any other mutilated child, nor the body of any bloody corpse. Blood is dirty. It dirties your shirt and tie when you're making a sincere speech on television.

(...)

I know that President Bush has many extremely competent speech writers but I would like to volunteer for the job myself. I propose the following short address which he can make on television to the nation. I see him grave, hair carefully combed, serious, winning, sincere, often beguiling, sometimes employing a wry smile, curiously attractive, a man's man.

'God is good. God is great. God is good. My God is good. Bin Laden's God is bad. His is a bad God. Saddam's God was bad, except he didn't have one. He was a barbarian. We are not barbarians. We don't chop people's heads off. We believe in freedom. So does God. I am not a barbarian. I am the democratically elected leader of a freedom-loving democracy. We are a compassionate society. We give compassionate electrocution and compassionate lethal injection. We are a great nation. I am not a dictator. He is. I am not a barbarian. He is. And he is. They all are. I possess moral authority. You see this fist? This is my moral authority. And don't you forget it.'


(...)

When we look into a mirror we think the image that confronts us is accurate. But move a millimetre and the image changes. We are actually looking at a never-ending range of reflections. But sometimes a writer has to smash the mirror – for it is on the other side of that mirror that the truth stares at us.

I believe that despite the enormous odds which exist, unflinching, unswerving, fierce intellectual determination, as citizens, to define the real truth of our lives and our societies is a crucial obligation which devolves upon us all. It is in fact mandatory.

If such a determination is not embodied in our political vision we have no hope of restoring what is so nearly lost to us – the dignity of man.

sexta-feira

Este dia

A tristeza é a ausência de alegria. Acorda-se e o dia tem a cor cinzenta do desespero. Só que é manso, amordaçado em muita tristeza. Hoje, decididamente, não me apeteceu viver. Mas o dia existiu e tendo que o encher só o pude fazer de tristeza. O sorriso que tentei fazer foi húmido de tristeza. As pessoas foram sombras no nevoeiro que tentei evitar. Este dia devia ter tido a gentileza de não existir.

Boa noite. Eu vou dormir até um dia com cor.

quinta-feira

Espírito empreendedor...

...dos meus hospedeiros.

Eles têm sentido de humor!!! Veêm? :-)

quarta-feira

Sinto torpedos a vir...

© Luís Afonso / Público

Com licença...

P.S.: Há dias assim. Só disparates... (hey! deles, não meus!)

Prioridades

Os nossos governantes acham que um aeroporto novo nos põe na rota do desenvolvimento. Não a investigação. Não o conhecimento. Não. Novas pistas no meio de não sei onde, com mais umas estradas pra lá chegar (com a poluição inerente) e até um TGV para o pessoal do Porto demorar menos 15 min a chegar lá baixo. Os tripeiros devem estar mesmo felizes.

Estamos todos. Para comemorar deviamos fazer um arraial num daqueles Estádios de Futebol às moscas.

terça-feira

Quando não interessa, nem dou conta

Andam blogonautas chateados porque o Manuel Alegre não desmente que não é doutor.

Acreditando que neste país se usa mal o título doutor porque não usá-lo melhor? Assim, em vez de se ser doutor porque se saiu da Universidade com um canudo, é-se doutor porque se fez algo na vida? Sendo que assim o Manuel Alegre é mais doutor que outros doutores.

Contudo, se a tese é que isso não interessa para nada, para que é que o Manuel Alegre há-de-se estar a chatear com isso? Porque está a mentir ao Zé Povinho que não é inteligente como os restantes e ainda dá importância a essas coisas. É isso?

O que eu desconfio é que isto não tem a ver com a probidade do Manuel Alegre, mas que afinal aquela história de que os títulos nao interessam para nada, afinal é só conversa. Isso é só moda de gajo bem pensante. Tornou-se o politicamente correcto português. Só que no fundo, fundinho, continua-se pavão. Porque senão, ser ou não ser passaria a não ser a questão.

Eu acho que continua tudo no mundo das aparências e cheira-me mal, mesmo mal esta indignação, mas que depois passa a pente fino o título de outros candidatos.

Dou a palavra a quem soube escrevê-la

Ateu tranquiliza católico

Cruzamentos emendados

Vim reler o meu texto "Cruzetas" (abaixo da alface). Ok, exagerei no oprimir os opressores. Aceito. Também aceito que quando um sitio público é público não devem existir cruzes e ademais adereços religiosos. Mas assim no cubiculo onde só entra o empregado público para ler a Bola e tricotar, pode ser. De resto fica tudo.

P.S.: Gostaria mais que se ensinassem as religiões todas e haver até debates entre os apoiantes, mas caso isto não seja possivel, acho que sim. Tirem as cruzes das escolas.

Jesus vs Thor. Nã, este era muito grunho. Provavelmente Jesus saia com o martelo entalado nos miolos.

Viram o filme "Super Size Me"? Quando mostraram um desenho de Jesus e nenhum dos putos o reconheceu? Mas todos conheciam o palhaço do MacDonalds? Andem lá. Ensinem sobre as religiões, convidem o padre e o rabi e o imã e quem mais for e que se tiverem levem umas fotografias. Eu sei que os muçulmanos têm um certo pó a imagens. É como os protestantes. Nada de dourados e anjinhos e nossas senhoras múltiplas. Estilos. Tudo bem. Que traga um tapete. São muito giros. Em Hamburgo há uns armazéns a abarrotar de tapetes orientais. Há cafés muito fixes onde se fuma cachimbo de água e vê-se a dança do ventre e só não conto a origem desta dança porque podem andar por aqui crianças. Agora armam-se em púdicos. Termino que isto está a descambar.

segunda-feira

Alfacinha


A internet é maravilhosa. Encontra-se de tudo.

domingo

Cruzetas

Andei a pensar na rebaldaria dos crucifixos. A contemplar, que afinal foi o meu objectivo ao criar este blogue.

Quando me perguntam sobre a minha posição religiosa eu defino-me como agnóstica. Não é só, mas é o mais perto dos meus sentimentos. De uma forma científica eu não sei se existe ou não Deus e portanto só contemplo. No meu mundo sem certezas eu consigo colocar-me numa posição de imparcialidade perante todas as fés, se bem que criada e educada num meio católico o meu sistema cognitivo esteja inquinado. Um querubim há-de sempre suscitar pouca curiosidade, enquanto que um deus azul hindu há-de fazer-me parar para perguntas. Eu sentir-me-ei propensa a emitir opiniões sobre as celeumas cristãs e nem por isso sobre a dos monges do Tibete. Uma questão de proximidade.

É necessário separar o Estado da Igreja. Mas para mim há uma diferença entre a exclusão mútua do Estado Político e do Estado Religioso e a exclusão do Estado Político e os sentires dos seus cidadãos. Esta celeuma à roda das cruzes cai no segundo ponto. Não percebo porque a lei não define somente a liberdade de religião de todos, mas em cada ponto do país serem os cidadãos que aí vivem que decidem se sobem ao escadote e tiram a cruz ou até se o sobem e a põem, ou até põem outra coisa qualquer. A democracia, a tolerância e o respeito devia começar pelas bases e não ser empurrado pela garganta como se fosse xarope para a tosse.

Nas escolas então eu ficaria muito mais optimista se em vez de tirarem a cruz, lhe juntassem todos os símbolos religiosos de que se tivesse conhecimento e se desse a conhecer à criança os diferentes caminhos tomados pelo ser humano na busca de um significado menos terreno. O facto de todas as culturas terem feito essa busca demonstra o poder da religião e parece-me obtuso fazer-se de conta que não existe. Principalmente quando a França, a campeã do laicicismo, na sua estratégia de varrer para debaixo do tapete as diferenças, não parecer ter uma comunidade mais respeitadora e tolerante.

O respeito e a tolerância nasce da vivência e do conhecimento da diferença, não na ignorância. O Estado deve emanar leis gerais, promover esse conhecimento e proteger os elementos mais desprotegidos. Não oprimir os possíveis opressores.

P.S.: devo confessar que a alegria oportunista mostrada pelos "Renas e Veados" demonstrou-me como a intolerância é uma questão de oportunidade. Nem a lei é o garante da justiça, nem a natureza é a lei do comportamento humano. O que realmente interessa a uns e a outros é as pedrinhas... Para apedrejar melhor.

sexta-feira

Ser filho de imigrantes

:-)

Lixo

Eu nem comento. É que eu nem comento!

Religião e Ciência - revisto

Se bem se lembram foi apresentada uma acção em tribunal (EUA - Dover, Pensilvânia) contra o ensino da Concepção Inteligente em aulas de ciência, como contraponto à Teoria da Evolução Natural. Os últimos argumentos foram enunciados há quase um mês (4 de Novembro) e agora o caso está a ser ruminado pelo juiz. Não se espera decisão antes do fim do ano.

No entretanto o conselho escolar dessa mesma escola foi votado fora. O sistema americano escolar é muito diferente dos europeus. Os conselhos escolares são eleitos pela comunidade e são estes que decidem como se faz o ensino das matérias. O julgamento parece ter trazido à atenção das pessoas o que o conselho escolar andava a decidir e resolveram que não concordavam.

Vi em dois blogues portugueses a defesa da ideia de que a concepção inteligente é uma vitória contra o dogma científico.

É errado. A a evolução em biologia é tão aceite porque desde que Darwin primeiro esboçou a teoria esta tem vindo a colectar um número impressionante de factos a suportá-la. Não há outra teoria que explique melhor esses factos. Além disso, não há outro ramo da ciência que possa apresentar tal conjunto de material corroborativo. E mais ainda: o estudo da evolução do sistema geológico corre harmoniosamente lado a lado com a evolução do sistema biológico. É consistente com os princípios da química e da física, etc.,etc...

Este debate não é um ataque a um dogma, mas o ataque a uma teoria científica extremamente bem sucedida na sua capacidade de explicação e previsão. Além disso, uma teoria que mexe na concepção muito cara da origem da vida para as religiões. Porque não se deixem enganar. A concepção inteligente é a nova arma de arremesso da religião cristã. Após tanto tempo, os literalistas da fé ainda não conseguiram engolir que o início da Biblia, com o seu paraíso, o seu Deus a criar da lama, o pecado original, é uma história. A luta destes literalistas deixa no ar que é impossível ser-se religioso e acreditar na ciência. O que é errado.

Os pais em Dover não são ateus. São pessoas religiosas, mas como dizia uma das mães queixosas:
"I reserve the right to teach my child about religion. I have faith in myself and in my husband and in my pastor to do that, not the school system."
[New Scientist, Vol.188, n.2523, 29.10.05]

É possível ser um cientista religioso. Contudo, a religião e a ciência devem ter caminhos paralelos e não cruzados. Uma das melhores explicações destes dois pontos de vista li-a no The Economist [06.10.05]:
To illustrate the difference between scientific and religious “levels of understanding”, Mr Haught [professor de teologia que testemunhou no processo] asked a simple question. What causes a kettle to boil? One could answer, he said, that it is the rapid vibration of water molecules. Or that it is because one has asked one's spouse to switch on the stove. Or that it is “because I want a cup of tea.” None of these explanations conflicts with the others. In the same way, belief in evolution is compatible with religious faith: an omnipotent God could have created a universe in which life subsequently evolved.

It makes no sense, argued the professor, to confuse the study of molecular movements by bringing in the “I want tea” explanation. That, he argued, is what the proponents of intelligent design are trying to do when they seek to air their theory—which he called “appalling theology”—in science classes.


Se se diz que não há explicação para um fenómeno, que basta dizer que emana de Deus, então não há ciência. A religião mata a ciência quando mata a pergunta. E ainda que se perseguisse a pergunta aconteceria como o que dizia uma das testemunhas da acusação (Kenneth Miller):
"If you invoke a non-natural cause, a spirit force or something like that in your research and I decide to test it, I have no way to test it. I can't order that from a biological supply house, I can't grow it in my laboratory. And that means that your explanations in that respect, even if they were correct, were not something I could test or replicate, and therefore they really wouldn't be part of science."

Cell biologist at Brown University in Providence, Rhode Island [Nature 438, 11 (3 November 2005)]

Pessoalmente eu penso que a coexistência pacífica de religião e ciência é possível se se visionar a primeira num plano filosófico que pretende responder a questões de ordem moral e ética e a ciência como um método para compreender o mundo material.

Acentuo o facto de que este debate nos EUA se desenrola nas escolas preparatórias e secundárias, onde os currículos são decididos por pessoas que muitas vezes não têm preparação científica e decidem não com base na ciência, mas com base em ideologia. Nas Universidades os currículos são decididos pelos estudiosos especialistas na área. Estes sabem qual é o consenso do momento no que se refere às questões básicas e sabem o que está em controvérsia (dentro da ciência, sem misturas de alhos com bogalhos).

Numa boa Universidade as polémicas também devem ser ensinadas, pois estão-se a preparar profissionais das áreas (sejam eles praticantes ou continuadores da busca de conhecimento), que deverão saber as últimas. Nas escolas preparatórias e secundárias dever-se-ia ensinar o consensual, o que já deu provas e tem uma grande certeza. Ensina-se a base. Para que todos tenham uma cultura geral da ciência e para preparar os que irão prosseguir na Universidade. Esta concepção do ensino pré-universitário não é restrita à ciência. Para que se entenda o que se discute, tem primeiro que se entender o ponto de partida.

Contudo, ensinar ciência não deve ser ensinar um manancial de factos desconexos, que desmotiva o aluno e o leva a exercícios de memorização, no cômputo final inúteis. Ensinar a ciência no seu percurso de becos, de hipóteses que se revelaram erradas, de acrescentos, de descoberta, de momentos de génio e anos de trabalho intenso, chegando ao fim e dizendo: "Hoje sabe-se isto.", penso que é suficiente para mostrar ao aluno que a ciência é na sua essência um processo anti-dogma. Além disso, os programas escolares (pelo menos em Portugal) ao ensinarem a Teoria da Evolução fazem-no no seu contexto histórico, começando pelo que se acreditava ainda antes de existir ciência, passando pelo criacionismo. Eu fui ensinada assim.

quarta-feira

Coisas que se esquecem

Porque não faz bem lembrar. Mas talvez fosse bom fazê-lo quando se pensa no retorno.

Estou a referir-me aqui, à história nr. 2

domingo

O Natal começou

Está a dar o "Música no Coração".

The Naked Woman

Andei a ler o livro "A mulher nua" de Desmond Morris. Achei o livro divertido, só um pouco seca quando o autor descreve a anatomia feminina como um biólogo e não como um homem maravilhado. Faz uma leitura leve e agradável com as suas histórias e explicações: do porquê de termos uma grande trunfa no cocuruto da cabeça, do maior sex-appeal das louras, o que é a ponta de Darwin, o sexo frequente como elemento de uma fisiologia equilibrada, a origem do beijo na boca, o pescoço como sumamente erótico na cultura japonesa, etc, etc.

"Assim, resumindo - no seu caminho evolutivo em direcção a uma cada vez maior neotenia, os machos assumiram comportamentos mais infantis, mas menos alterações físicas; enquanto que as fêmeas desenvolviam mais características físicas infantis mostrando menos qualidades mentais infantis."*
:-) Hehehe...

Como mulher a ler um livro escrito por um homem sobre o corpo feminino, no que ela tem de particular, eu não pude deixar de resvalar sempre para esse corpo tão pouco aclamado. Por muito tempo foi mal visto que uma mulher se expressasse relativamente ao corpo de um homem. Assim, devido a uma injustiça imposta à mulher surgiu uma injustiça imposta ao físico masculino. De tal forma que este só aparece como elemento de desejo nos meios homossexuais.

Pois enquanto eu lia sobre a mulher nua, eu pensava no homem nu e de como acho o corpo de um homem maravilhoso. Vós sois lindos.


© 2005 Paulo César Guerra - 1000imagens.com

* tradução minha.

sábado

Explicação

Um dia olhei-te...

Já não me eras amigo...

É por te amar que te não suporto.

sexta-feira

Nevado

O primeiro dia branco do inverno.

Hamburgo é uma cidade demasiadamente junto ao mar para que a neve pegue, pelo que cada dia branco é uma dádiva. Ontem de madrugada, quando o escuro se ia impregnando de claro, não resisti a fazer uma incursão pelas ruas desertas. A neve, o branco e o silêncio são uma perfeita combinação para um passeio nocturno. É mais fácil fazer as pazes com o mundo.

Hoje acordei e fiz na mesma o olhar infantil de deslumbramento, as tarefazinhas da manhã, que matam o bom humor, foram feitas de passo leve e quando já ia a sair encontrei a... portuguesa. :-) Logo ali encetamos uma conversa de inglês. Dissecamos o tempo nesta componente especial da neve (todos os dias passados de neve desde que cada uma de nós chegou a Hamburgo), trocamos a informação de quando da ida natalícia à pátria, fizemos um ar compungido de saudade e libertamo-nos uma da outra após mais um contacto demasiadamente cortês para significar algo.

E prontos. Só para dizer que hoje mais branco nao há.

MST sobre OTA

Foi você que pediu um aeroporto?
Miguel Sousa Tavares


Aquilo parecia uma reunião de vendas da Tupperware, em ponto gigantesco. Setecentos convidados escolhidos a dedo passaram um dia a ouvir o Governo e os consultores por ele contratados (e todos eles parte interessada no negócio) a defenderem os méritos do futuro aeroporto da Ota. Dos setecentos convidados, alguns eram institucionais, ligados ao assunto pela própria natureza das suas actividades, mas a grande maioria era composta por candidatos à compra do negócio: consultores, bancos, construtores, advogados de negócios públicos, enfim, a nata do regime, as "forças vivas" da nação.
Lá dentro, os setecentos magníficos estavam positivamente desvanecidos à vista de tantos e tantos milhões que o Governo socialista tinha para lhes dar. Havia dinheiro no ar, dinheiro nos gráficos apresentados, dinheiros nos "documentos de trabalho", dinheiro a rodos. O nosso dinheiro, os milhões dos nossos impostos. Mas ninguém nos convidou para entrar: é assim a democracia.
A primeira mentira que o Governo promove acerca da Ota é a de tentar convencer os tolos que o futuro Aeroporto Internacional Mais Perto de Lisboa não vai custar praticamente nada aos cofres públicos. Acredite quem quiser, o Governo jura que a "iniciativa privada" resolveu oferecer um novo aeroporto ao país. Assim mesmo, dado, sem que saia um tostão do Orçamento do Estado, fora os milhões já gastos nos estudos amigos. É falso e é bom que ninguém se deixe enganar logo à partida: parte do dinheiro virá da UE e podia ser gasto em qualquer coisa mais útil; parte virá do Estado directamente; parte poderá vir dos utilizadores da Portela, chamados a custear a Ota, a partir de 2007, através de uma taxa adicional cobrada em cada embarque; e a parte substancial virá ou da venda de património público (a ANA), ou da cedência de receitas do Estado a favor dos privados - as taxas aeroportuárias dos próximos 30 a 50 anos. É preciso imaginar que somos completamente estúpidos para não percebermos que abdicar de receitas ou vender património rentável é, a prazo, uma forma indirecta de realizar despesa, agravar o desequilíbrio das contas públicas e forçar o aumento de impostos para o compensar. E também uma forma de pagar bastante mais caro as obras públicas, para garantir o negócio à banca e aos investidores privados - como sucede com as Scut e com a Ponte Vasco da Gama. Se voltarem a ouvir dizer que a Ota vai sair de borla aos contribuintes, saibam que vos estão a tomar por estúpidos.
Resolvida esta questão prévia, o Governo e os seus cúmplices tinham mais três outras questões essenciais a explicar: que Lisboa vai precisar de muito maior capacidade aeroportuária num futuro médio; que, existindo o problema, a solução passa pela construção de um novo aeroporto de raiz e não pelo acrescento do actual ou pelo seu aproveitamento complementar com os adjacentes - Alverca ou Montijo; que esse novo aeroporto é viável, cómodo para os utentes e economicamente sustentável, situado a 50 quilómetros da cidade. Nada disso foi conseguido: o estudo apresentado pela Naer, mesmo para ignorantes na matéria como eu, é uma pífia peça de publicidade para tolinhos ou distraídos, capaz apenas de convencer os directamente interessados no negócio. É lastimável que se queira comprometer mais de 3000 milhões de euros de dinheiros públicos, que se planeie retirar a Lisboa um instrumento económico tão importante quanto o é o Aeroporto da Portela e tornar pior a vida de milhões de pessoas que o utilizam, com os argumentos constantes de um folheto que mais parece destinado a vender time-sharing no Algarve.
Por falta de espaço não posso agora analisar ponto por ponto esta lamentável peça propagandística, decerto paga a peso de ouro. Mas, para se ter uma ideia da leviandade com que ela foi apresentada, dou o exemplo dos 56.000 postos de trabalho que supostamente a Ota irá criar - 28.000 dos quais directos e mais 28.000 indirectos "na envolvente", sem que se explique minimamente de onde é que eles nascem e o que é isso da "envolvente". Ou o exemplo do tal shuttle, que, saído da Gare do Oriente todos os quinze minutos em cada sentido, ligará Lisboa à Ota em 20 a 25 minutos - sem que se explique onde é que existe a capacidade da Linha do Norte para absorver esse shuttle. Ou o exemplo do silêncio feito sobre o destino do Aeroporto Sá Carneiro, em cuja modernização se gastaram recentemente 300 milhões de euros, e que tem a morte anunciada com o aeroporto da Ota. Ou o facto de não se incluírem nos custos estimados nada que tenha a ver com as acessiblidades necessárias, quer ferroviárias (o shuttle mais o TGV), quer rodoviárias, incluindo a construção de uma nova auto-estrada e o prolongamento da A13. Ou ainda o facto de não haver qualquer estudo económico que se proponha quantificar os custos de utilização da Ota, no que respeita a horas de trabalho perdidas nas deslocações de e para o futuro aeroporto, o acréscimo brutal de consumo de combustível, o aumento da sinistralidade rodoviária, o aumento dos custos de exploração da TAP, das demais companhias aéreas, das empresas sediadas no aeroporto, das agências de viagem e turismo, das actividades hoteleiras, etc., etc.
Tudo foi feito, não para convencer os portugueses e os contribuintes da necessidade imperiosa da Ota, mas sim para convencer o grande dinheiro das vantagens desta oportunidade única de negócio. Foi feito ao contrário: os que ficaram à porta deveriam ter sido os primeiros a ser convidados, e só depois se chamavam os setecentos. Eu não tenho, e julgo que ninguém poderá ter, a pretensão de ter certezas absolutas sobre isto: não sei se a Ota se virá a revelar uma decisão visionária ou antes um imenso e trágico desperdício. Mas o que sinto em todo este processo é que a decisão já estava tomada desde o início e, tal como sucedeu com a regionalização - outra das soluções mágicas dos socialistas - o Governo se acha competente para tomar decisões que comprometem drasticamente o nosso dinheiro e o nosso futuro, sem se preocupar em explicar e convencer os que têm dúvidas. Por isso é que toda esta questão da Ota cheira mal à distância: cheira a voluntarismo político ao "estilo João Cravinho", que tanto dinheiro custou e continua a custar ao país, e a troca de favores com a clientela empresarial partidária, a que costumam chamar "iniciativa privada".
Para esse peditório já demos. Já demos demais, já demos tudo o que tínhamos para dar. O país está cheio de fortunas acumuladas com negócios feitos com o Estado e pagos com o dinheiro dos impostos de quem trabalha, em investimentos cuja utilidade pública foi nula ou pior ainda - desde os estádios do Euro até aos hospitais de exploração privada. Seria bom que quem manda compreendesse que já basta.

Jornalista


Peço desculpa ao Público por ter feito cópia integral da crónica do MST, mas sinto que posso estar a fazer um serviço público. Avisem-me se me quiserem processar, que eu elimino logo isto. Gostaria de ir a casa no Natal sem perigo de prisão preventiva.

quinta-feira

Aos renegados

Eu comecei a ir e vou ao Renas e Veados pela chacota que fazem ao Ratzinger e vaticano. Acho piada. Mas ultimamente comecei a dar-me conta (desculpem sou lenta de raciocínio) que o que para mim é uma grande farra, poderá para eles ser uma reacção de católicos excluídos. Caso leiam isto, corrijam-me se eu estiver enganada. Eu preferiria estar.

Amig@s, tentar chegar a Deus através da igreja é como tentar chegar ao Tibete de triciclo.

Preocupem-se com o vosso lugar na sociedade e deixem a igreja. Esta é puxada pela primeira e em Portugal mesmo os católicos só escolhem da religião o que lhes dá jeito, o que se poderia chamar de hipocrisia, mas pessoalmente eu neste caso aplico o adágio: "Ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão".

Boas e de resto continuem a bater no B16... mas na desportiva.

quarta-feira

Sondagens...

... na Alemanha

1. Thomas Mann ... 22%
2. Bertolt Brecht ... 15%
3. Günter Grass ... 10%
4. Hermann Hesse ... 7%
4. Heinrich Boell ... 7%
6. Franz Kafka ... 3%

terça-feira

Amizade é:




Clicar para aumentar (por partes)

Aqui

segunda-feira

Isto soa tão inteligente

que parece mentira.

Mas a realidade não interessa nada!

O MST recebe elogios de alguns quadrantes blogueiros porque foi contra o politicamente correcto que é ser pró-gay e pró-lésbica. Este politicamente correcto é uma abstração teórica. Portugal é um país onde se ostraciza o homossexual, em que estes têm de viver escondidos e os que se mostram fazem-no no contra-ataque.

Este politicamente correcto é em discussões sem sentido prático, de pessoas que não vivem em Portugal, mas vivem nos livros sociológicos de outros países. Vivendo em Portugal, experimentam vivências fora de Portugal. Ou então extrapolam eventos como as gay parades para o dia-a-dia. Onde? Onde existem essas gay parades diárias? Ou será que se referem a programas televisivos em que a figura do homossexual é encaixilhado na imagem do preconceito? Dizia um bloguista d'O Acidental que se chateia que alguém se lhe apresente como homossexual. Mas já pensou porque o fazem? Eu também já tive a experiência, na Alemanha, de alguém se me apresentar de sopetão como judeu e eu fiquei na posição de lhe desejar muitas felicidades na sua religião (que afinal até nem era a religião da pessoa, mas uma descendência tortuosa). Mas porque é que essa pessoa se sentiu na necessidade de o fazer? Essa é que é a questão. Entender essa necessidade e que esta provém de uma não aceitação (que no caso do pseudo-judeu que eu conheci na Alemanha é do foro histórico) tem muito mais valia do que este parlapuê hipócrita ao mesmo nível do preconceito puro.

Vivendo num país altamente homofóbico, onde nunca em toda a minha vida vi qualquer manifestação de amor homossexual, esta gente impreca contra os exibicionistas gays e lésbicas.

Às vezes ler muito faz mal. Deve-se regrar a leitura com um pouco de realidade.

P.S.: o mais triste é se agora sobre a cobertura de ser-se politicamente incorrecto se possa ser correctamente homofóbico.

domingo

Posto de observação

Ontem saí prá noite e ainda com a cena dos exibicionismos na cabeça andei a prestar atenção. Pois vi vários beijos e dar de mãos e expressões faciais demonstrativas de lascívia imperdoável. Vi até um apalpanço e confesso que corei quando me dei conta que a mão era a minha. Um lapsus cervejus? (Não, mãezinha. Um gesto entre pessoas que se gostam. :-) ) Todos os "exibicionismos" foram entre homens e mulheres. Talvez tenha existido um congresso de homossexuais em Campo de Ourique e eles andaram a exibir-se nas barbas fumadas do MST. Pobre homem. Acho que está paranóico.

sábado

Portugal 1976




Fotos de Josef Koudelka

Simplicidade



Hoje estou assim descomplicada. Simplesmente a existir, só sei que sou e de resto tudo bem.

sexta-feira

MST

Eu gosto de ler o que o Miguel Sousa Tavares escreve. Desde que eu comecei a ler jornais e a pensar o que é a sociedade e o meu papel nela. Desde aqueles tempos em que eu era muito idealista (ainda sou um pouco e fica-me uma sensação de vergonha, como se agora já devesse ser adulta e ser adulto E idealista fosse um pecado de estupidez).

Quando penso o que me atrai nos textos do MST penso na sua frontalidade e paixão. Sinto que ele não escreve para se ler ou para exibir os seus textos como um pavão a exibir a cauda. Ele escreve de dentro. Ele opina porque se importa, porque lhe faz confusão, porque quer gritar e acordar gente. Ele não escreve por escrever, porque em terra de iliteratos tem-se um geito com as palavras. Ele não escreve porque gosta de provocar, como numa pequena guerra de galos. Pelo que ele se revela e pelo que ele se importa, eu sinto que vale a pena ler o que ele escreve.

Quando se usa um pouco de diplomacia começa-se pelo elogio e termina-se na crítica.

Há três opiniões do MST que eu discordo. Uma é a sua posição sobre o fumar em espaços públicos. Para não se pensar que eu sou uma não fumadora fundamentalista, declaro a minha condição de ex-fumadora, que de vez em quando pega num cigarro e sabe bem a relação de prazer que se pode ter com o fumo. Contudo, como já me acusaram, a minha faceta racional fala mais alto e, pesando prós e contras, deixei-me disso. Passou de relação matrimonial para flirt ocasional. Contudo, mesmo quando um cigarro era elemento usual na ponta dos meus dedos eu detestava ser fumadora passiva. Odiava aquele fumo que não era meu. Para mim é falta de educação impôr aos outros os seus esgotos. O que a mim me diverte é que o MST acha um direito ele pufar fumo pra cima de outra pessoa, mas segundo a crónica desta semana no Público, acha do piorio que as pessoas exibam beijos, apalpões e afins em público. Eu também tenho uma certa resistência a fazerem-me de voyeur. É desconfortável e apetece-me sempre perguntar "Mas vocês não têm um quarto?". Ainda no outro dia, no metro, vi uns preliminares no banco em frente e fiquei a chuchar no dedo, que depois ninguém me convidou pra festa propriamente dita. Isto é imoral.

Lá está. Uma certa educação de não envolver os outros em acções que devem ser privadas. Mas um beijo, uma carícia, um dar de mãos, algo que seja só uma bela e pequena mensagem, qual é o mal? Eu não sei em que mundo o MST vive, mas ele acha que os gays e as lésbicas são uns exibicionistas. Eu, no dia a dia, o que vejo, quando vejo, são os heterossexuais em apalpanços. O primeiro beijo homossexual vi-o eu na Alemanha e acho que se o visse em Portugal iria procurar refúgio com medo de ser atingida por fogo colateral de um qualquer grunho a impôr a ordem e bons costumes. Talvez seja exagero, talvez só riscassem o carro aos provocadores. Parece que o mundo em que o MST vive não é o mesmo em que eu vivo.

A terceira posição do MST, de que eu discordo, é o uso que ele faz para avaliação de comportamentos humanos do que o resto da animalada faz. O ser humano pode ser homossexual se a girafa também for. O ser humano pode caçar porque o leão também o faz. Eu proponho todos nós andarmos por aí a rebolar merda porque há uns escaravelhos que também o fazem. Vamos lá todos. Bora, nessa!

P.S.1: se eu continuo neste mau humor crítico vou ter que mudar o nome do blogue.

P.S.2: dei-me conta que pela posição 3 o MST não devia fumar. Não há nenhum bicho que fume, portanto não é natural, portanto...

P.S.3: mas já exibicionismos sexuais estão completamente dentro da naturalidade. Quem não viu o animal doméstico em poucas vergonhices comente. Tenho a certeza que isto vai ficar em zero.

Não há falta de médicos

Segundo um levantamento sobre recursos e produção no Serviço Nacional de Saúde realizado em 2003 pela Direcção-Geral da Saúde.

Excerto da notícia do Público...
"O administrador hospitalar salienta que "em Portugal o número de médicos por habitante é superior ao da média europeia": "O problema é que esses médicos acumulam o trabalho no público com a clínica privada de forma descontrolada e há uma má distribuição de clínicos, quer geográfica quer de especialidade." Ou seja, é uma questão estrutural de funcionamento do sistema e de ausência de planeamento, diz."

Saúde, justiça, educação, há uma tendência de recursos suficientes, má gestão, pessoal a fazer pela sua vidinha... Claro que há excepções. Há mesmo locais com más condições. Mas quando se vêem as excepções positivas não é que as pessoas tenham mais e melhores recursos, é porque as pessoas têm brio no que fazem e/ou sentido de responsabilidade. As PESSOAS é que fazem a diferença.

O estudo é de 2003. O que fizeram até hoje? eH? Se o governo tentar fazer algo o que vai acontecer? eH? Ah, pois...

Hoje é a greve dos professores: desejo-lhes um bom fim-de-semana prolongado.

quinta-feira

A lógica dos professores

Mais: o ministério compromete-se a "fornecer meios tecnológicos actualizados, designadamente computadores portáteis e kits multimédia, para apoio do trabalho dos professores". Para as medidas anunciadas o Governo tem, para gastar em 2006, 40 milhões de euros. Quanto ao facto de não ter sido possível chegar a acordo com os restantes sindicatos, a governante explicou que tal não aconteceu "devido ao centramento" dessas estruturas no regime de faltas dos professores e na questão das aulas de substituição - "não podemos aceitar propostas que passam pela suspensão dos despachos que permitam a ocupação plena dos tempos escolares", referiu. "O princípio das actividades de substituição não estava em cima da mesa para negociação, mas reconhecemos a necessidade de clarificar conceitos", continuou. "É preciso ter a noção de que hoje o quotidiano das escolas está muito alterado e daí surge alguma insatisfação que necessariamente o tempo se encarregará de mitigar. Não tenho dúvida de que o que estamos a fazer é em favor de uma escola de qualidade."

No Público de hoje


De tudo o que leio relativamente à educação, aos professores e às minhas recordações de aluna não tenho um infimo de dúvida em apontar o dedo aos professores. Se não gostam de ser professores façam um favor à gente e mudem de área. É triste que não haja muitos empregos em que possam passar as horas a ler a Máxima e a Bola e depois irem pra casa tirarem a folha amarfada com o plano das aulas do próximo dia, que é o mesmo de há anos. Aqueles primeiros anos em que se tem que realmente preparar algo. Eu sei como pode ser cansativo aturar crianças. Por isso é que não sou professora. Entendem a lógica? A gente escolhe aquilo que gosta, não aquilo que dá possibilidades de menos trabalho.

Os estudos da OTA!!!!!

Através da
barriguinha do arquitecto a ligação aos Estudos para o novo aeroporto internacional.

Só andei a desfolhar pelo "Novo aeroporto internacional - ponderação do seu diferimento através da expansão da Portela" da IATA e o "Lisbon airport traffic forecast 1998-2015", estudo coordenado pela FCT/UNL.

O que me passou pelo cerebelo foi...
Ambos foram realizados nos finais dos anos 90, antes do aparecimento das companhias de baixo custo. Pelos gráficos, o tráfego é maioritariamente com a UE e não me parece que nos últimos 6-7 anos essa realidade tenha mudado. Portanto, sem ter em conta as baixo custo qualquer estudo de previsões de tráfego e serviços está fora de mão. OU?

Um primeiro pensamento, mas há muito material para novos pensamentos...

Tenho um olho que me adivinha... {## Actualização}

os próximos a entrarem de luto.

OU

Ensaio sobre a cegueira em Lisboa, pelos 59 oftalmologistas dos Capuchos.

OU

Sugestão para reportagem televisiva, que eu tou a morrer de curiosidade: 24 horas na vida de um oftalmologista no Hospital dos Capuchos. Um representativo, não os estagiários.

## Parece que o ministro se enganou... No "Bicho Carpinteiro" fala-se sobre o assunto.

quarta-feira

Manifestem-se!

Disse-me uma amiga que os senhores professores estão de luto e que a apoteose será na próxima sexta-feira (sexta, absolut teacher), porque coitadinhos estão muito desmotivados (Sócrates faz-lhes umas festinhas), as crianças deixam-nos esgotados (já tenho ali o bastão para quando vir os terroristas dos meus sobrinhos), tanta coisa para preparar e tudo em 35 horas de trabalho por semana (isto é a escravatura!), sem condições de trabalho (isto não sei porquê vem sempre no fim das queixas).

Eu pergunto-me porque é que os outros, os que trabalham mais e que não têm direito a desmotivações, os que são avaliados ao fim do mês de acordo com o que produzem (e não corridos a "bom" mesmo que nem saibam a diferença entre o teclado e a bengala do encosto), porque é que não se manifestam. Ah, pois. Porque não têm tempo. Porque andam a dar o litro a trabalhar por eles e pelos outros. Os desmotivados que choram as mágoas à frente da bica. A vida é dura.

De colegas que entraram para a função pública ouvi sempre a mesma queixa: se queres trabalhar és ostracizado. Nas avaliações o trabalhador recebe o mesmo que o preguiçoso. Os pobres andavam desmotivados, andavam.

Se me perguntarem, acho a crise muito boa. Para acabar com os acomodados. Aí, a dançar o vira minha gente.

Uma das coisas que me chateia em Portugal

CP acaba com comboio Intercidades para a Régua
Carlos Cipriano no Público de hoje

""Mais transbordos e comboios mais lentos no Minho e no Douro a partir de 11 de Dezembro. Autarcas contestam perda de qualidade do serviço

O serviço Intercidades vai desaparecer da Linha do Douro depois de, há quatro meses, a CP ter previsto reforçá-lo com mais duas circulações diárias. O comboio com mais qualidade que liga o Porto à Régua deverá realizar-se pela última vez no dia 10 de Dezembro porque no dia seguinte entra em vigor o horário de Inverno que reforça o serviço regional em detrimento de marchas mais rápidas.

Os tempos de percurso vão aumentar, ficando a Régua a mais de duas horas do Porto, quando hoje é possível percorrer aquela distância em 1 hora e 46 minutos. Segundo o PÚBLICO apurou, a Régua poderia ficar apenas a uma hora e meia do Porto se a CP utilizasse locomotivas mais potentes na Linha do Douro. O novo horário prevê também que alguns comboios desta linha terminem a sua marcha em Caíde de Rei (concelho de Lousada), devendo os passageiros fazer transbordo para os suburbanos. Tratando-se de unidades de negócios diferentes, esta é uma forma da empresa reforçar o seu tráfego da CP-Porto à custa da CP-Regional.

Do Marco de Canaveses para a Invicta, a lógica é a mesma - a CP-Regional assegura o transporte dos passageiros até Caíde e a CP-Porto leva-os até Campanhã. A razão deste transbordo não é comercial, mas sim técnica, pois é em Caíde de Rei que termina a linha electrificada. A Refer chegou a ter previsto no seu plano de investimentos para 2005 a continuação da modernização da Linha do Douro até ao Marco, mas a mudança de governo fez congelar o projecto.

Transbordos também na Linha do Minho

A CP vai também cortar ao meio a Linha do Minho, fazendo uma ruptura de carga em Nine. Cerca de 20 comboios diários de e para Viana do Castelo e Valença terão origem e destino naquela estação e não em Campanhã, quebrando-se uma prática com mais de cem anos em que os comboios para o Minho eram directos.

A ligação a Vigo mantém-se, mas a CP deu uma ajuda para a sua extinção a curto prazo depois de o não ter conseguido fazer em Junho passado devido aos protestos dos autarcas da região e da Junta da Galiza. Agora, em vez de duas circulações diárias em cada sentido, passa a haver apenas uma e o comboio passou a ser um simples Inter-regional, que multiplica o número de paragens. Resultado: entre Porto e Valença, em vez das duas horas actuais, passa a demorar entre duas horas e meia e duas horas e 48 minutos.

Na zona suburbana da Invicta haverá, contudo, uma melhoria qualitativa e quantitativa nas ligações entre Aveiro/Ovar e o Porto.

A Região Norte fica agora mais perto do Algarve com dois comboios pendulares directos em cada sentido entre Campanhã e Faro, que farão o percurso em 2 horas e 55 minutos. E Lisboa fica agora dez minutos mais próxima, pois entre o Douro e o Tejo a viagem no Alfa Pendular demorará duas horas e 49 minutos, em vez das três horas actuais.

O PÚBLICO tentou saber junto da CP as razões das alterações dos horários nas Linhas do Minho e do Douro, mas a empresa disse apenas que está a analisar a nova oferta.""


Quando é que os abéculas da CP compreendem que não funciona só procura -> oferta, mas que se houver oferta de geito também poderá aumentar a procura? Mas será que eles alguma vez se lembraram de perguntar? E a gente que está condenada ao carro! Não sei se ainda tenho paciência para um país motorizado.

terça-feira

Blogues presidencialistas

Ao ler esta avaliação dos blogues apoiantes de três candidaturas presidenciais pensei que talvez fosse interessante e informativo eu lê-los.

Estive lá e resolvi procrastinar. Prefiro trabalhar. Chiça.

Os torturadores

Estava para aqui a ler sobre o debate sobre tortura nos EUA, em mais um capítulo na luta contra o terrorismo.

Desde o 11 de Setembro que se assiste a uma degeneração de valores na sociedade aterrorizada. Pergunto-me se será necessário tornarmo-nos mais como terroristas para combater terroristas?

Relativamente à tortura, para lá da dúbia utilidade de um depoimento feito sob tortura, o que se estará a semear em termos da brutalização da sociedade que o permite e dos indivíduos que aplicam a tortura? Procuram-se os sádicos já existentes ou corrompem-se mentes? Criando-se os lobos, quem será o cão polícia?

É isto que se quer? É por isto que se luta?

Insurgente subsidiado


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sexta-feira

A cor da esperança



A semana passada foi de eleições na Libéria. Este país africano teve uma guerra civil de 14 anos, que acabou a 2003.

A senhora no meio da imagem chama-se Ellen Johnson-Sirleaf e após a contagem de 97% das estações de voto é a vencedora com 59%
das escolhas.

O principal oponente chama-se George Weah (uma antiga estrela do futebol) e houveram alguns problemas provocados pelos seus apoiantes que alegam fraude. As autoridades da UN dizem que o processo decorreu com transparência, ordeira e pacificamente. Observadores da Unidade Económica dos Estados do Oeste Africano também declararam as eleições justas.

A Libéria é um país brutalizado pela guerra em que linhas éticas e morais foram ultrapassadas. O passado recente é de morte, tortura e injustiça.

As pessoas precisam de alguém que ponha em prática a esperança. A que se espelha no sorriso das mulheres.

Soares e a blogosfera

Os blogues de direita dão-me vontade de votar Mário Soares.

Os blogues de esquerda dão-me vontade de não votar Mário Soares.

Questão que me passa pela cabeça e eu nem sei porquê: um veneno é o antídoto de outro veneno?

Racismo debaixo da pele

Este último fim-de-semana estive numa festinha onde encontrei uma parisiense. Falamos dos túmultos e ela deu ênfase ao racismo subterrâneo. Os franceses "antigos" ainda vêem a França de bochechas rosa e não consegue lidar com a nova França mais "latte". Ter um CV com um nome começado por Jacques traz muito mais valia do que o outro com um nome como Mohamed.

De tudo o que li e ouvi este foi o aspecto que ressoou um pouco da minha experiência de portuguesa. Somos racistas, mas daquele que não se põe o dedo. Mas também existe o racismo televisivo que eu acho "divertido". É o caso da minha mãe. A minha adorável progenitora vê as notícias e fica chocada com todas as guerras civis em África e arenga sobre os pretos e a sua intrínseca maldade. Eu chamei-lhe a atenção que os vizinhos são mulatos. Ela nunca se tinha dado conta. Os maus são os da televisão, não os que ela diz bom dia na rua. Não o padre angolano que cuida das ovelhas da sua paróquia. São os que vivem em África, que são maus e matam-se uns aos outros.

Contudo, há um racismo debaixo da pele. Aquele que acha que um preto com um bom carro só pode ser criminoso. Que um preto só pode ser preguiçoso. Que um preto tem de certeza uma fraqueza só porque é preto. Um racismo sem substância, mas que há, há.

Devo dizer que não conheço a realidade de Lisboa, em que existe uma grande comunidade imigrada de África. Onde eu vivi existem mulatos, portugueses retornados. Ainda assim... Há hábitos difíceis de vencer. Talvez com cirurgia?

quinta-feira

Sinais na barricada

Os abutres sobrevoam

Os hipócritas na marcha da liberdade

A vingança serve-se fria

Há uns tempos dei o livro "The pleasure of my company", do Steve Martin, a um amigo e de sorriso irónico disse-lhe que ele me fazia lembrar o personagem do livro.

Ele agora deu-me "A pomba" de Patrick Süskind. :-(

p.s.: Se não entenderam, vejam isto como uma possível motivação para a leitura.

domingo

Venha o diabo e escolha

Como se distingue um blogue liberal de um blogue socialista?

Os primeiros babam-se de deleite com as desgraças na Europa, os segundos deliram com as desgraças nos EUA.

sábado

Pela minha janela vejo o Outono a acabar



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Confrontos em Paris

Falei com um amigo francês e ele deu-me uma imagem dos causadores dos confrontos bastante similar à que encontrei neste artigo, encontrado no "A origem das espécies". Uns rufiões que gostam de rap e da cena de gangs dos filmes americanos e cada um tendo mais dinheiro no bolso que eu e ele juntos.

Andei a ler o que os liberais escrevem sobre o assunto e revejo-me na crítica à leniência dos governos europeus. Será cobardia ou consciência pesada do que fizeram nos países de origem destes jovens?

Claro que aproveitaram para criticar o sistema social europeu, mas lembro-lhes que a Alemanha tem também um sistema social pesado e nada disto se verifica. Parece-me que o problema está mais na solução urbanística encontrada para alojar a população imigrante e a demissão no policiamento e na punição. Além da cantata do "pobrezinho".

Quanto ao Islão. Duvido que estes jovens sejam islâmicos. Estes jovens não têm é valores. Nenhuns.

P.S.: O islamismo é uma religião com os seus valores éticos e morais. A nível de tolerância por outras religiões teve na prática comportamentos do maior respeito e que põem a religião cristã de joelhos a rezar por perdão sem fim. Comunidades cristãs, judias e zoroastristas foram protegidas até ao século XX. Os movimentos imperialistas na zona e a criação de Israel retiraram estas comunidades da sua existência pacata. Ainda outros aspectos que não compreendo totalmente criaram o islamismo radical. Os hábitos tribais dos povos do Médio Oriente fundiram-se com a própria religião. O desrespeito pelos direitos das mulheres tem uma origem tribal e não religiosa.

Estes descendentes de islâmicos estão entre dois mundos. Perderam os valores dos pais e não tomaram os valores da terra que devia ser deles. São uns proscritos. A culpa é provavelmente de todos.

sexta-feira

O preto, o branco e o cinzento

Os vandalismos e os confrontos da última semana em Paris são daqueles acontecimentos que me calam. Ouço os opinamentos e surpreendo-me com a capacidade de colocar tudo bem arranjadinho numa estrutura a preto e branco. A primeira vez que me dei conta do caso foi 4 dias após o início quando o vi escarrapachado no monitor da minha amiga americana. "Riots in Paris?". Aprochego-me para ler a notícia. "Yes, poor boys." Eu não disse nada porque não sabia nada e porque estou habituada a que ela tenha uma visão muito maniqueísta do mundo. A colega de gabinete dela que tem um filho adolescente mulato acercou-se e disse "At least they speak about it. Here in Germany everyone avoids to recognise the problem of police racism.", "Yes?!?" Eu completamente surpreendida. "The police can arrest someone for 1 day without charge and they do it to non white teenagers. Just because they hang around."

Cinzento, cinzento, cinzento.

A Alemanha tem um aspecto que permite que nunca se atinja o nível virulento de confrontação parisiense. Controla-se a construção de bairros que se possam tornar guetos. Não se consegue discernir à primeira bairros de maioria alemã de bairros de maioria imigrada. Mistura-se. Em Hamburgo, quando se fala de bairros turcos e portugueses é porque são os mais vivos, de pessoas, de bares e restaurantes, de cores (no Lonely Planet, um dos pontos altos de Hamburgo é ir jantar ao bairro português junto ao porto). Não há nos subúrbios desta cidade de 2 milhões e multicultural nada como os banlieues.

Um dia, andava a passear com uma amiga portuguesa (de visita) uma terrinha nos arrabaldes de Hamburgo. Iamos distraídas e quando nos demos conta estávamos num pequeno bairro de imigrantes. Fiquei surpreendida, pois era um aglomerado de casas modestas de um piso e aquelas pessoas viviam ali declaradamente separadas do resto. No campo, as crianças a brincar livres, adolescentes a compôr as bicicletas e as motos à porta. A minha amiga sentiu-se desconfortável, provavelmente a pensar nos acampamentos ciganos. Quando me apercebi também me quis vir embora. O castiço é que eu não tenho medo dos adultos, mas ponham-me uma criança de dez anos à frente e eu começo a transpirar. Isto deriva de várias experiências em que eu fui chingada por crianças ciganas e me atiraram pedras e latas. Desde aí tenho sempre o cuidado de evitar os seus acampamentos.

Cinzento, cinzento, cinzento.

Parece-me absurdo o discurso "coitadinhos destes pobres jovens, só exteriorizam a frustração perante uma sociedade que os marginaliza". Que dizer daqueles que têm vidas difíceis, mas são responsáveis e trabalhadores e até são vizinhos destes pobrezinhos e veêm o carro, que lhes custou muito a pagar, a transformar-se em sucata numa noite de "justa" revolta?

Nem preto nem branco.

Mas também é absurdo considerá-los meros criminosos. Deixar construir bairros horríveis, depósitos de pessoas, sem verde, sem espaço, sem horizontes, anónimos, sem locais para conversar, para poder construir uma comunidade, uma identidade, prisões de cimento. Ignorar, alienar e ficar muito surpreendido quando algo assim acontece e numa de politicamente correcto gritar "Pobrezinhos", ou egoisticamente gritar "Ralé".

Que tal exigir dos nossos governantes medidas preventivas de civilização? É que há pessoas que sabem e estudam estas coisas há décadas. Não são só teorias sociológicas, arquitectónicas ou urbanisticas. Qual a prioridade? Construir estádios de futebol ou providenciar condições para as pessoas viverem como as pessoas devem viver e não em gaiolas de cimento?

Além disso, apavora-me a leniência total. Uma senhora, aqui na Alemanha, contou-me que nos tribunais alemães era prática corrente dar a pena mais leve por crimes de honra. Os magistrados consideravam que era algo cultural. Eu fico fora de mim e grito: cultura não é assassínio! Cultura não é mutilação!

Os direitos humanos são independentes da cultura. Cultura é o falar, o escrever, o pintar, o cantar, a comida, os gestos, é a expressão da humanidade. Não a sua diminuição!

Pela rua dourada

Caminhamos pela rua que de ontem para hoje ficou dourada. Um despertador arborícola soou em silêncio e ruborizou de amarelo-outono todas as folhas. Agora nevam por entre o ar ameno. O sol tem uma cor mais quente, ainda que não na pele e é possível ser feliz só pelo olhar.

O meu amigo tem rugas na testa.
- Não sei... Não sei... Parece que ela não compreendeu.
- Explicaste-lhe?
- Tudo claro.
- Então como é que ela não compreendeu?
- Disse desde o início que não posso viver aqui. Não posso! Eu vou-me embora e aí tudo acaba.
- Porquê? Não gostas dela? E se ela te quiser acompanhar?
- Não é possível.
- Porquê?
- NÃO É POSSíVEL!
- Porque é que não consegues viver sozinho, mas também não te comprometes?
- Não é assim tão fácil.
- Não? Se não fosses meu amigo deixava-te.
- Sempre a exagerares!
- Pois...

Abandono-me ao sol e às sensações da rua dourada. As pessoas são demasiadamente difíceis.