quinta-feira
Experiente
É uma pequena cidade, vizinha a Roma, empoleirada no pinoco de um monte. As vistas são deslumbrantes, as ruas estreitas e patuscas. Há festa, saltimbancos esforçam-se com ar entediado para alegrar os turistas, ainda mais entediados. O desejo de não desiludir a mãe católica do meu bom amigo, leva-nos, a ambos, a visitar um convento. Durante a visita fazemos caretas um ao outro para nos distrairmos, enquanto a pequena freira conta a história aborrecida da fundação do convento. No pequeno pátio: uma estátua bruta do falecido papa, em que se tenta dar movimento à pedra e esta rebela-se, acentuando toda a sua monolítica passividade. A freira fala da sua devoção pelo João Paulo II e eu lembro-me de uma pintura que vi algures (museu do Vaticano?) de uma freira que olha para Jesus Cristo de uma forma altamente inapropriada. A santidade do falecido foi diagnosticada por ela ainda antes dele ter morrido e assim ter passado a merecer o título. O deleite é tanto que presumo que ela seja a fã número um.
Os vestígios da origem palaciana do convento foram aniquilados pela restauração. Na biblioteca bocejante ela tenta vender-nos um chá para maleitas. Numa prateleira, numerosos livros sobre a interpretação de sonhos. Presente: Freud. Num salão enorme (finalmente algo realmente interessante), onde se imaginam cavaleiros medievais a lambuzarem-se com bocados desmesurados de javali enquanto planeiam o assassinato do Papa, ela tenta vender-nos os bordados das diligentes freirinhas. Ponho-me à janela escancarada, a admirar as vistas soberbas sobre os vales pintalgados. O meu amigo aproxima-se e diz-me ao ouvido que não poderei ser freira. Finjo-me destroçada e pergunto porquê. "Só até aos trinta." "Porquê?" "Depois considera-se que as mulheres têm experiência a mais." Dou uma risada sonora que cavala pela sala enorme. A freira olha-me. Eu sorrio feliz. Sou uma mulher experiente. Infantil, mas experiente.
Os vestígios da origem palaciana do convento foram aniquilados pela restauração. Na biblioteca bocejante ela tenta vender-nos um chá para maleitas. Numa prateleira, numerosos livros sobre a interpretação de sonhos. Presente: Freud. Num salão enorme (finalmente algo realmente interessante), onde se imaginam cavaleiros medievais a lambuzarem-se com bocados desmesurados de javali enquanto planeiam o assassinato do Papa, ela tenta vender-nos os bordados das diligentes freirinhas. Ponho-me à janela escancarada, a admirar as vistas soberbas sobre os vales pintalgados. O meu amigo aproxima-se e diz-me ao ouvido que não poderei ser freira. Finjo-me destroçada e pergunto porquê. "Só até aos trinta." "Porquê?" "Depois considera-se que as mulheres têm experiência a mais." Dou uma risada sonora que cavala pela sala enorme. A freira olha-me. Eu sorrio feliz. Sou uma mulher experiente. Infantil, mas experiente.
quarta-feira
Literatura: abrir algo entre a palavra e o silêncio
No se trata de hablar,
ni tampoco de callar:
se trata de abrir algo
entre la palabra y el silencio.
Quizá cuando transcurra todo,
también la palabra y el silencio,
quede esa zona abierta
como una esperanza hacia atrás.
Y tal vez ese signo invertido
constituya un toque de atención
para este mutismo ilimitado
donde palpablemente nos hundimos.
Roberto Juarroz
ni tampoco de callar:
se trata de abrir algo
entre la palabra y el silencio.
Quizá cuando transcurra todo,
también la palabra y el silencio,
quede esa zona abierta
como una esperanza hacia atrás.
Y tal vez ese signo invertido
constituya un toque de atención
para este mutismo ilimitado
donde palpablemente nos hundimos.
Roberto Juarroz
terça-feira
A tragédia na literatura
Quando andava a ler o último livro do António Lobo Antunes, o 'Ontem não te vi em Babilónia', escrevi isto. Sinto realmente que a literatura é uma forma nobre de expressar sentires dificilmente explicáveis. Uma forma de expressarmo-nos, como outras formas de arte, usando letras, palavras, pontos, gramáticas, em vez de tintas, pianos, pernas e braços. Há a necessidade humana de comunicar, seja de que forma fôr, incluindo escrever em blogues. Quando essa comunicação é de tanta honestidade que leva um pouco da alma da pessoa, é especial.
Alguns escritores escrevem magistralmente, de forma original, tocam-nos, são exímios no ponto e na vírgula. Outros têm sucesso, mas só contam boas histórias. Outros escrevem-se e muitos nem publicam, mas o que escrevem não tem valor?
Eu, numa caixa de comentários neste poste, escrevi a minha ideia de literatura de acesso à alma. Disse-me uma amiga que prefere falar, talvez pensando nos meus pseudopoemas. Cada um é como é, mas quando alguém escolhe escrever e os outros escolhem não ler, não usar essa porta, parece-me uma perda. Estava nestes raciocínios quando me lembrei de um texto interessantíssimo ao quadrado que um elemento do 5 dias teve a amabilidade de traduzir do francês.
Parece-me que nem todas as pessoas falam e muitas que falam falham a verdade e há muitas maneiras de ver a sério os outros e acho que muitas vezes pode-se chegar mais facilmente até aos outros por outros meios comunicacionais. É uma perda a estreiteza e por vezes até, uma tragédia.
Alguns escritores escrevem magistralmente, de forma original, tocam-nos, são exímios no ponto e na vírgula. Outros têm sucesso, mas só contam boas histórias. Outros escrevem-se e muitos nem publicam, mas o que escrevem não tem valor?
Eu, numa caixa de comentários neste poste, escrevi a minha ideia de literatura de acesso à alma. Disse-me uma amiga que prefere falar, talvez pensando nos meus pseudopoemas. Cada um é como é, mas quando alguém escolhe escrever e os outros escolhem não ler, não usar essa porta, parece-me uma perda. Estava nestes raciocínios quando me lembrei de um texto interessantíssimo ao quadrado que um elemento do 5 dias teve a amabilidade de traduzir do francês.
Parece-me que nem todas as pessoas falam e muitas que falam falham a verdade e há muitas maneiras de ver a sério os outros e acho que muitas vezes pode-se chegar mais facilmente até aos outros por outros meios comunicacionais. É uma perda a estreiteza e por vezes até, uma tragédia.
sexta-feira
quinta-feira
O mundo paralelo da felicidade
em que colocamos o pé
quando caminhamos neste
a gente pensa nuvens
chilreios de pássaros
entre as fuligens dos carros
de vez em quando chove no mundo de cá
e sentimo-nos secos lá
mas de vez em quando a água transborda de cá para lá
e sufocamos em todas as mágoas
de líquido metálico fluído escorrente fervente
congelamos em mutismo doloroso
que não doa mais
não, por favor, que não doa mais
que eu não aguento a laceração interna invisível cruel
{grande pausa}
gosto de ficar deitada, após, a sentir-me morta
em que colocamos o pé
quando caminhamos neste
a gente pensa nuvens
chilreios de pássaros
entre as fuligens dos carros
de vez em quando chove no mundo de cá
e sentimo-nos secos lá
mas de vez em quando a água transborda de cá para lá
e sufocamos em todas as mágoas
de líquido metálico fluído escorrente fervente
congelamos em mutismo doloroso
que não doa mais
não, por favor, que não doa mais
que eu não aguento a laceração interna invisível cruel
{grande pausa}
gosto de ficar deitada, após, a sentir-me morta
Liberdade
Ontem estive uma porrada de tempo a falar de liberdade com um italiano. Ele a pensar que eu estava a falar do 25 de Abril de 1945 em Itália, que levou à rendição dos nazis e à queda do fascismo por aqueles lados e eu a pensar que ele estava a falar do fim da ditadura em Portugal a 25 de Abril de 1974. Ambos a achar que o outro estava a apanhar mal o contexto da coisa.
quarta-feira
terça-feira
Liberdade de expressao
O Pedro Arroja tem ideias peregrinas. Várias vezes fiquei de cabelos no ar com as suas generalizaçoes dantescas e na semana passada aquando dos seus postes sobre a emancipaçao feminina, apanhei-me a chamá-lo alienado. Mas no mundo há um valor superior: a liberdade de expressao. Falando concretamente da blogosfera, para mim o maior pecado blogosférico nao é o anonimato, o franco-atirador das caixas de comentários, os comportamentos burgessos, mas o corte de liberdade de expressao, o que for, mesmo a expressao que nos poe o cabelo de pé. O Pedro Arroja abandonou o Blasfémias, no que se desconfia ser censura. O liberalismo do Blasfémias vai de vento em popa {toda a ironia possivel nesta frase}. Notem bem: o Blasfémias provavelmente censurou as ideias de um dos seus elementos. Isto para mim é gravíssimo.
domingo
"The Sanguine Sex"
Jerry Seinfeld used to have a routine about the television commercials for laundry detergents that promise the product will remove bloodstains from clothing. “I think if you’ve got a T-shirt with bloodstains all over it,” Seinfeld would say, “maybe laundry isn’t your biggest problem.” It’s a funny line, and it’s one that only a man could think of, because the real reason blood is such a vexing and eternal laundry problem doesn’t have to do with gunshot wounds or serial shaving mishaps (in the commercials, a witless husband is forever nicking himself shaving, usually wearing his best white shirt, the male equivalent of showering in your bra and panties). Bloodstains occur and recur in households because women spend a lot of their lives bleeding. If a man or a child woke up in a small pool of blood, the alarm would be genuine and well-founded. But if a woman does so, it’s business as usual. The bloodiness of menstrual blood is something that has been steadily de-emphasized in the past century, but blood it surely is. Once I walked into the students’ restroom at an all-girls school late in the afternoon on a warm day, and the smell that assailed me was reminiscent of the smell of Buckley’s, the butcher shop in Dublin where my mother bought Kerry beef running with blood.
The Sanguine Sex: Abortion and the bloodiness of being female, Caitlin Flanagan, The Atlantic Online
The Sanguine Sex: Abortion and the bloodiness of being female, Caitlin Flanagan, The Atlantic Online
sábado
quinta-feira
deus tb me cansa
Antes de retornar a dormir queria partilhar isto: acho piada que as pessoas achem conforto na ideia de deus. Olhando o mundo, a minha vida, se eu acreditasse em deus, acho que ficaria ainda mais triste.
Cansaço
Ontem estava a ver uma notícia sobre um transsexual que tinha decidido começar o processo para mudança de sexo. Foi despedida e interpôs uma acção em tribunal. O pessoal da terrinha tinha-se posto a manifestar à porta. Um homem dizia ao jornalista que há coisas que não podes mudar em ti: "Quer dizer, eu cortar o pénis, hmmm, que horror."
Mas alguém estava a falar dele? A incapacidade das pessoas de conseguirem irem para lá delas surpreende-me e cansa-me. Na verdade neste momento sinto um enorme cansaço da espécie humana, incluindo eu. Uma hibernação estava mesmo a calhar.
Mas alguém estava a falar dele? A incapacidade das pessoas de conseguirem irem para lá delas surpreende-me e cansa-me. Na verdade neste momento sinto um enorme cansaço da espécie humana, incluindo eu. Uma hibernação estava mesmo a calhar.
quarta-feira
Perplexidade
No Vaticano perguntei perplexa a um guarda suiço que pecado tinha cometido para estar ali naqueles preparos. Ele respondeu-me perplexo que tinha vindo voluntário. Há mesmo gente para tudo.
terça-feira
Contaminação germânica
A Fonte de Trevi rodeada de gente. O barbudo no meio do conjunto escultório parece que tropeçou numa casca de alga. Olho à volta e penso que despropósito colocar uma fonte ali. As pessoas atiram moedas para dentro da água desejando retornar a Roma. Que despropósito de desejo, penso eu. Estamos ao sol e por entre as gentes, vendedores de cor e pequena estatura tentam vender bugigangas. Olho sonolenta um italiano alto, que se aproxima de um destes vendedores e lhe cobre a omoplata com a manápula, enquanto pergunta o preço. O vendedor retorce-se de debaixo da mão enorme e desperto da preguiça pela sensação de perigo. A manápula agarra agora o vendedor e eu chamo a atenção do meu amigo. O vendedor consegue fugir, mas o italiano alto fica-lhe com as bugigangas. Eu e o meu amigo olhamo-nos a tentar definir o que fazer. O italiano continua a sua saga de apreensão e resolvemos denunciá-lo aos Vigilii, que nos informam que o italiano das manápulas é um deles a apreender mercadoria ilegal. Eu fico indignada: "Mas não há crimes verdadeiros em Roma?". Resolvo avisar os vendedores da presença do italiano das manápulas, mas o meu amigo diz-me que isso seria ilegal. Eu acuso-o de alemão, mas na altura da verdade falta-me a coragem de ir contra a lei. Triste contaminação germânica...
domingo
quinta-feira
quarta-feira
O som do falar
Um dia, no convés de um barco, encontrava-se uma portuguesa a ler um livro, uma mexicana também a ler e um russo simplesmente a bronzear-se. O russo pareceu muito belo quando se virou e recostado no braço direito, olhou para a portuguesa e pediu-lhe para ela ler alto. A portuguesa achou o pedido estranho, pois ele não ia entender. Mas ele respondeu que queria só ouvir o som da fala portuguesa. Ela assentiu e começou a ler alto. A mexicana parou de ler e começou a escutar. A portuguesa gostou de se ouvir e de sentir que os outros a ouviam. Sentia-se a cantar, pois era à música da sua fala que os outros atendiam. Após várias páginas a portuguesa parou. Por nada. Podia ter continuado, estava a gostar, não estava cansada, mas ali parou e olhou para os ouvintes. O russo pediu à mexicana que lesse o livro dela. De novo a música começou, agora em espanhol. A portuguesa não tentou perceber e o russo, de novo, não entendia nada da língua. A mexicana parou por seu acordo. Houve um silêncio preenchido de sol e de mar a bater no casco do barco. Quando a portuguesa estava para adormecer ouviu o russo dizer: "o português é como o vento a passar entre as folhas de uma árvore e o espanhol como a água a passar entre as rochas num ribeiro." Esta cronista disse: "O russo é como pedras a rebolar por uma montanha abaixo."
segunda-feira
sexta-feira
quarta-feira
Perigo para a pedagogia
Uma dúzia de criancinhas, com coletes reflectores, fazem uma fila entre as árvores e a pista de bicicletas, que corre paralela à estrada. Estão com três adultos também equipados com reflectores. Uma senhora coloca-se junto à pista para bicicletas e olha para a direita e para a esquerda. Dá três passos e faz o mesmo junto à estrada. Estende o braço direito sobre a estrada e deixa-o à espera por uns segundos. As crianças e os dois adultos observam compenetrados. A senhora passa a estrada, na passadeira, maquinalmente, acentuadamente, teatralizando os passos como um mimo. Ao chegar ao outro lado, as criancinhas e os dois adultos aplaudem exultantes. Uma portuguesa de ar descontraído e mãos nos bolsos faz diagonal ao cruzamento, quebrando várias regras geométricas de estrada, enquanto observa embevecida a lição.
terça-feira
segunda-feira
Brilhantismo
Dei o artigo do Jim Hansen a um amigo. Quando estávamos num bar ele
disse-me que tinha gostado muito, um texto claro e descomprometido. Na
conversa eu disse-lhe que o mundo iria mudar irremediavelmente e era
tudo. "Mas o artigo tem esperança. Se nos próximos dez anos fizermos
algo pode não ser irremediável" - dizia ele. Eu disse-lhe para olhar
pela janela e dizer-me o que via. Ele cantarolou: "Carro, nada, carro,
carro, nada, carro, nada, nada, carro, carro, carro..." Eu, na altura,
achei a resposta brilhante, contudo na mesma altura eu estava concentrada na
sua boca, numa de lhe dar um beijo...
disse-me que tinha gostado muito, um texto claro e descomprometido. Na
conversa eu disse-lhe que o mundo iria mudar irremediavelmente e era
tudo. "Mas o artigo tem esperança. Se nos próximos dez anos fizermos
algo pode não ser irremediável" - dizia ele. Eu disse-lhe para olhar
pela janela e dizer-me o que via. Ele cantarolou: "Carro, nada, carro,
carro, nada, carro, nada, nada, carro, carro, carro..." Eu, na altura,
achei a resposta brilhante, contudo na mesma altura eu estava concentrada na
sua boca, numa de lhe dar um beijo...
sábado
Culpas
(...)
Quem pagará pelos efeitos trágicos de um clima a aquecer? Não serão os líderes políticos e os empresários que mencionei. Se ultrapassarmos o ponto crucial e as tragédias causadas pelas alterações climáticas começarem a desenrolar-se, a história julgará severamente os cientistas, os jornalistas, os interesses especiais e os políticos que falharam em proteger o planeta. Mas, no final, serão as nossas crianças a pagar o preço.
Os EUA têm uma pesada responsabilidade legal e moral no que está a acontecer. De todo o CO2 emitido a partir de combustiveis fósseis, desde sempre, somos responsáveis por quase 30%, uma quantidade muito maior da emitida pelos países seguintes na lista de poluidores, a China e a Rússia, cada um a contribuir com menos de 8%. Contudo, a nossa responsabilidade moral e legal pode ser ainda maior do que os números sugerem. Os EUA não podem com validade clamar ignorância das consequências. Quando nações tiverem que abandonar partes significativas dos seus territórios, qual será a nossa responsabilidade legal? E será que as nossas crianças, como pessoas adultas no mundo, terão de arcar com o peso da culpa, tal como os alemães depois da II Guerra Mundial, por muito injusta que seja uma culpa herdada?
(..)
Excerto do artigo "The threat to the planet" de Jim Hansen na New York Review of Books, 13 Julho de 2006.
Quem pagará pelos efeitos trágicos de um clima a aquecer? Não serão os líderes políticos e os empresários que mencionei. Se ultrapassarmos o ponto crucial e as tragédias causadas pelas alterações climáticas começarem a desenrolar-se, a história julgará severamente os cientistas, os jornalistas, os interesses especiais e os políticos que falharam em proteger o planeta. Mas, no final, serão as nossas crianças a pagar o preço.
Os EUA têm uma pesada responsabilidade legal e moral no que está a acontecer. De todo o CO2 emitido a partir de combustiveis fósseis, desde sempre, somos responsáveis por quase 30%, uma quantidade muito maior da emitida pelos países seguintes na lista de poluidores, a China e a Rússia, cada um a contribuir com menos de 8%. Contudo, a nossa responsabilidade moral e legal pode ser ainda maior do que os números sugerem. Os EUA não podem com validade clamar ignorância das consequências. Quando nações tiverem que abandonar partes significativas dos seus territórios, qual será a nossa responsabilidade legal? E será que as nossas crianças, como pessoas adultas no mundo, terão de arcar com o peso da culpa, tal como os alemães depois da II Guerra Mundial, por muito injusta que seja uma culpa herdada?
(..)
Excerto do artigo "The threat to the planet" de Jim Hansen na New York Review of Books, 13 Julho de 2006.
Etiquetas:
alterações climáticas,
CO2,
responsabilidades
sexta-feira
O encanto do encantamento

fonte -> http://www.flickr.com/photo_zoom.gne?id=391625847&size=l
Houve um ano da minha vida em que era fácil encantar-me. Acho que é um truque da memória, eu a olhar para trás e a ver as cores sobre a laguna, os cheiros da primavera a espalharem-se venenosamente a toda a volta. As voltas e contra-curvas que eu dava pelas salinas, os mosquitos e eu de joelhos a encantar-me com cada pequena coisa. Foi o ano em que eu nasci. Sinto saudades de mim.
Lembro-me tão bem das cores da luz, do jogo de sombras e dos cheiros. Aquela primavera corre-me pelas veias, se fechar os olhos sinto a chuva e o som dos pássaros entre a folhagem, tantos, eram tantos, mais que as folhas. Se fechar os olhos ouço o sino da igreja nas manhãs de domingo e eu a espreguiçar-me feliz enquanto o sol me brincava com as pestanas. Se fechar os olhos vejo o horizonte ao longe, longínquo a abrir o mundo. Sinto saudades de mim.
A madeira a queixar-se sob o meu andar e eu a jogar futebol com uma bola de papel e a mandar abaixo os vasos. Eramos tão velhos e tão novos e tão ridiculamente tontos. Eramos responsáveis e irresponsáveis e brincávamos com as perspectivas da independência. A vida estava ali, acabada de abrir. Aquela primavera sedimentou em mim, deixou marcas de água. Está algures.
lately i find myself
amazed at all around me
everything i see
like all of life's ablaze with light
that suddenly i see, only now i see
the wonder, the wonder of it all
wonder everywhere, more than we know
heaven's not up there, but on earth below
don't know if god exists
but there's some magic out there
so much we're not aware
and then sometimes suddenly i hear
a harmony sing, of each and everything
the wonder, the wonder of it all wonder everywhere, more than we know heaven's not up there, but on earth below
WONDER {LAMB}
(don't know if god exists, but there seems to be angels below)
quinta-feira
Vida (4)
A vida desenha uma árvore
e a morte desenha outra.
A vida desenha um ninho
e a morte põe-se a copiá-lo.
A vida desenha um pássaro
para que ele habite o ninho
e imediatamente a morte
desenha outra ave.
A mão que não desenha nada
passeia por entre todos os desenhos
e por vezes desloca um ou outro.
Por exemplo:
o pásssaro da vida
ocupa o ninho da morte
sobre a árvore desenhada pela vida
Outras vezes
a mão que não desenha nada
converte-se por si só
em imagem supérfula,
em figura de pássaro,
em figura de árvore,
em figura de ninho.
E então, e só então,
nada falta nem está a mais.
Por exemplo:
dois pássaros
ocupam o ninho da vida
sobre a árvore da morte.
Ou a árvore da vida
suporta dois ninhos
onde habita um único pássaro.
Ou um único pássaro
habita um único ninho
sobre a árvore da vida
e a árvore da morte.
Roberto Juarroz (1925-1995) -> X
e a morte desenha outra.
A vida desenha um ninho
e a morte põe-se a copiá-lo.
A vida desenha um pássaro
para que ele habite o ninho
e imediatamente a morte
desenha outra ave.
A mão que não desenha nada
passeia por entre todos os desenhos
e por vezes desloca um ou outro.
Por exemplo:
o pásssaro da vida
ocupa o ninho da morte
sobre a árvore desenhada pela vida
Outras vezes
a mão que não desenha nada
converte-se por si só
em imagem supérfula,
em figura de pássaro,
em figura de árvore,
em figura de ninho.
E então, e só então,
nada falta nem está a mais.
Por exemplo:
dois pássaros
ocupam o ninho da vida
sobre a árvore da morte.
Ou a árvore da vida
suporta dois ninhos
onde habita um único pássaro.
Ou um único pássaro
habita um único ninho
sobre a árvore da vida
e a árvore da morte.
Roberto Juarroz (1925-1995) -> X
quarta-feira
Tédio das Ideias Feitas
Ele discursa para a plateia ao lado sobre a impossibilidade da amizade entre homens e mulheres. Desvio o fumo do meu cigarro e pergunto temerosa o que é que nós dois somos. Ele diz que nós somos diferentes, nós não queremos sexo. Antes que ele me destrua a imagem, eu acentuo que nós queremos sexo, só que não um com o outro. Ele concorda enfático e reperde-se na sua incongruência.
terça-feira
segunda-feira
domingo
Diminuir as emissões de CO2
(...) Existem dois grandes obstáculos para atingir o objectivo de diminuir as emissões de CO2: a enorme quantidade de veículos que processam ineficientemente o combustível e a continuação da emissão de CO2 pelas centrais térmicas. Os produtores de automóveis opõem-se a normas de eficiência e publicitam com proeminência os carros mais potentes e pesados, que originam os maiores lucros a curto-prazo. As companhias de carvão pretendem que novas centrais térmicas a queimar carvão sejam construídas brevemente, assegurando assim os lucros a longo-termo.
A legislatura da Califórnia passou uma regulamentação requerendo a diminuição em 30% das emissões de gases com efeito de estufa por veículos até 2016. Se esta regulamentação fosse adoptada a nível nacional, iria levar à poupança de 150 mil milhões de dólares na importação de petróleo. Em 35 anos, ter-se-ia poupado 7 vezes o que os Serviços Geológicos dos EUA [US Geological Services] estimam que exista no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Árctico [Arctic National Wildlife Refuge]. A lei da Califórnia encontra-se bloqueada devido à acção em tribunal interposta pelos produtores de automóveis e pela administração Bush. Muitos outros estados esperam o resultado, preparados para a adoptar. Mais reduções nas emissões seriam possíveis através da adopção de tecnologias agora em desenvolvimento. Por exemplo: brevemente estarão disponíveis carros híbridos com baterias maiores e a possibilidade de se ligarem a tomadas de parede; carros com a carroçaria feita de compósitos leves de carbono levariam a um menor consumo por quilómetro.
Para que as centrais térmicas cumpram os objectivos do cenário alternativo*, a sua construção deverá ser adiada até que novas tecnologias de captura e sequestração de CO2 possam ser operacionalizadas. Até lá, os novos requisitos em electricidade deverão ser cumpridos através de energias renováveis, como a eólica ou, também, a energia nuclear e outras fontes que não produzam CO2. Através da melhoria das normas de eficiência energética em edifícios, na sua iluminação e na eficiência dos aparelhos eléctricos, muito poderia ser feito na limitação de emissões. Estas melhorias estão totalmente ao nosso alcance, mas só uma forte liderança as poderiam pôr em prática. A tomada de acção mais eficiente, como eu já referi, seria o aumento gradual de uma taxa sobre o carbono, que poderia representar uma receita neutra ou cobrir parte dos custos da mitigação dos efeitos das alterações climáticas. (...)
Excerto do artigo "The threat to the planet" de Jim Hansen na New York Review of Books
* Um cenário é um conjunto de suposições, com base nas quais se intentam previsões. O cenário alternativo neste texto é aquele que considera que as emissões de CO2 estabilizam na actual década, diminuem lentamente nas décadas subsequentes e pela metade do século diminuem rapidamente com a ajuda de novas tecnologias. O outro cenário é o de "negócios-como-sempre" e está explicado num outro excerto do mesmo texto, que eu postei anteriormente.
Tradução minha
A legislatura da Califórnia passou uma regulamentação requerendo a diminuição em 30% das emissões de gases com efeito de estufa por veículos até 2016. Se esta regulamentação fosse adoptada a nível nacional, iria levar à poupança de 150 mil milhões de dólares na importação de petróleo. Em 35 anos, ter-se-ia poupado 7 vezes o que os Serviços Geológicos dos EUA [US Geological Services] estimam que exista no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Árctico [Arctic National Wildlife Refuge]. A lei da Califórnia encontra-se bloqueada devido à acção em tribunal interposta pelos produtores de automóveis e pela administração Bush. Muitos outros estados esperam o resultado, preparados para a adoptar. Mais reduções nas emissões seriam possíveis através da adopção de tecnologias agora em desenvolvimento. Por exemplo: brevemente estarão disponíveis carros híbridos com baterias maiores e a possibilidade de se ligarem a tomadas de parede; carros com a carroçaria feita de compósitos leves de carbono levariam a um menor consumo por quilómetro.
Para que as centrais térmicas cumpram os objectivos do cenário alternativo*, a sua construção deverá ser adiada até que novas tecnologias de captura e sequestração de CO2 possam ser operacionalizadas. Até lá, os novos requisitos em electricidade deverão ser cumpridos através de energias renováveis, como a eólica ou, também, a energia nuclear e outras fontes que não produzam CO2. Através da melhoria das normas de eficiência energética em edifícios, na sua iluminação e na eficiência dos aparelhos eléctricos, muito poderia ser feito na limitação de emissões. Estas melhorias estão totalmente ao nosso alcance, mas só uma forte liderança as poderiam pôr em prática. A tomada de acção mais eficiente, como eu já referi, seria o aumento gradual de uma taxa sobre o carbono, que poderia representar uma receita neutra ou cobrir parte dos custos da mitigação dos efeitos das alterações climáticas. (...)
Excerto do artigo "The threat to the planet" de Jim Hansen na New York Review of Books
* Um cenário é um conjunto de suposições, com base nas quais se intentam previsões. O cenário alternativo neste texto é aquele que considera que as emissões de CO2 estabilizam na actual década, diminuem lentamente nas décadas subsequentes e pela metade do século diminuem rapidamente com a ajuda de novas tecnologias. O outro cenário é o de "negócios-como-sempre" e está explicado num outro excerto do mesmo texto, que eu postei anteriormente.
Tradução minha
sexta-feira
quinta-feira
Tolerancia (revisto)
Sempre me irritou a mania dos alemaes relativizarem os direitos humanos 'as culturas de proveniencia das pessoas. Portantos, se uma mulher vem de uma cultura em que se usa burqa, a violencia é nao usar burqa. Tudo bem. Mas e se a mulher nao quer usar burqa? Aqui o raciocínio deles curto-circuita.
Agora já sei como resolvem o curto-circuito ao mais alto nível. A lei alema é só para os alemaes de origem alema. Os outros sao outras culturas e temos de ser tolerantes com as outras culturas. Temos disto: violencia doméstica permitida para alguns, os outros, que a gente até nem gosta, mas tolera.
Mas nao se riam. Em Portugal, tolera-se que todas as mulheres levem nas trombas. Porque a violencia doméstica só o é de forma continuada e grave. E depois cada juiz faz o que quer com as palavras "continuada" e "grave". E a cultura em Portugal é de igualdade na tolerancia 'a violencia contra as mulheres.
Agora já sei como resolvem o curto-circuito ao mais alto nível. A lei alema é só para os alemaes de origem alema. Os outros sao outras culturas e temos de ser tolerantes com as outras culturas. Temos disto: violencia doméstica permitida para alguns, os outros, que a gente até nem gosta, mas tolera.
Mas nao se riam. Em Portugal, tolera-se que todas as mulheres levem nas trombas. Porque a violencia doméstica só o é de forma continuada e grave. E depois cada juiz faz o que quer com as palavras "continuada" e "grave". E a cultura em Portugal é de igualdade na tolerancia 'a violencia contra as mulheres.
Evidentemente
Na minha modesta opinião (que, não obstante, é muito evidentemente a correcta), as pessoas
do De Rerum Natura, em vez de andarem a brincar com os criacionistas e as revistas espíritas, deviam dizer-me o que acham que sabem, e como sabem o que acham que sabem, o melhor que conseguirem.
Eu sabia que havia algo que me chateava, mas ainda não tinha desacelerado para pensar. Sou um Cristiano, não um Rooney:
Há uma virgindade em cada toque de bola do Wayne Rooney que não vejo no Ronaldo, um jogador que só desacelera uma corrida para acelerar depois ainda mais. Wayne Rooney não!, que é um "homem com ó grande": se abranda é para pensar. Acresce que quando festeja os grandes golos que marca comemora-os com os colegas de equipa, em vez de fazer uma festa privada entre o seu peito e os adeptos, como faz o incivilizado Cristiano.
Só que quando se baseia o lustre do Rooney e do Cristiano em pantomineirices futebolísticas então o que vai desampatar serão pormenores tão singelos quanto os do Rooney ser feio, trombudo e parecer um tijolo.
do De Rerum Natura, em vez de andarem a brincar com os criacionistas e as revistas espíritas, deviam dizer-me o que acham que sabem, e como sabem o que acham que sabem, o melhor que conseguirem.
Eu sabia que havia algo que me chateava, mas ainda não tinha desacelerado para pensar. Sou um Cristiano, não um Rooney:
Há uma virgindade em cada toque de bola do Wayne Rooney que não vejo no Ronaldo, um jogador que só desacelera uma corrida para acelerar depois ainda mais. Wayne Rooney não!, que é um "homem com ó grande": se abranda é para pensar. Acresce que quando festeja os grandes golos que marca comemora-os com os colegas de equipa, em vez de fazer uma festa privada entre o seu peito e os adeptos, como faz o incivilizado Cristiano.
Só que quando se baseia o lustre do Rooney e do Cristiano em pantomineirices futebolísticas então o que vai desampatar serão pormenores tão singelos quanto os do Rooney ser feio, trombudo e parecer um tijolo.
quarta-feira
terça-feira
Vida (3)
Tragedia a Tortorici, comune montano del Messinese
Muore soffocato da una mozzarella
Un giovane di 20 anni ha ingoiato un boccone troppo grosso ed è rimasto soffocato. Inutili i tentativi dei medici di rianimarlo
MESSINA - Ha ingoiata una mozzarella intera ed è morto soffocato. E’ accaduto ad un giovane di Tortorici, comune montano del Messinese. Calogero C.M., 20 anni, non ha avuto scampo, la mozzarella, ingoiata intera, gli ha provocato il blocco delle vie respiratorie, portandolo alla morte.
Inutili i tentativi dei medici del Presidio territoriale di emergenza di Tortorici, dove il giovane era stato portato dai familiari che lo avevano soccorso per primi. Il ventenne è spirato poco dopo.
Enviado por méile por amigo, provavelmente a pensar no meu humor negro. Digamos que nao é assim tao negro.
Muore soffocato da una mozzarella
Un giovane di 20 anni ha ingoiato un boccone troppo grosso ed è rimasto soffocato. Inutili i tentativi dei medici di rianimarlo
MESSINA - Ha ingoiata una mozzarella intera ed è morto soffocato. E’ accaduto ad un giovane di Tortorici, comune montano del Messinese. Calogero C.M., 20 anni, non ha avuto scampo, la mozzarella, ingoiata intera, gli ha provocato il blocco delle vie respiratorie, portandolo alla morte.
Inutili i tentativi dei medici del Presidio territoriale di emergenza di Tortorici, dove il giovane era stato portato dai familiari che lo avevano soccorso per primi. Il ventenne è spirato poco dopo.
Enviado por méile por amigo, provavelmente a pensar no meu humor negro. Digamos que nao é assim tao negro.
segunda-feira
domingo
obsesso sobre palavras
que leio incessantemente
a passa atordoa a mente
e adormece-me a responsabilidade
na eventualidade
de me dar conta
da barbaridade que é
a eternidade de cada dia.
o tempo não passa
talvez fora da mente
que se ilumina obsessivamente
na procura da massa
que compõe o entendimento.
a vida, a vida passa
por ali, por além
sem jeito ou interesse
obsesso na paralisia
que é a vida enquadrada
no seu normal aborrecimento.
a vida é isto
dia-a-dia a recolha
de um significado
que se entende no fim.
talvez.
a vida é isto:
episódios
a vida é tão pouco
que se faz muito do nada.
mas se sabes o nada que é a vida
és louco
pois a vida tem de ser amada
apesar do nada
(ordem dos prestativos doutores dos conselhos inúteis)
estás oco
estás seco
sem poder dar a golpada
que a engula
a vida
i.e.
o nada.
que leio incessantemente
a passa atordoa a mente
e adormece-me a responsabilidade
na eventualidade
de me dar conta
da barbaridade que é
a eternidade de cada dia.
o tempo não passa
talvez fora da mente
que se ilumina obsessivamente
na procura da massa
que compõe o entendimento.
a vida, a vida passa
por ali, por além
sem jeito ou interesse
obsesso na paralisia
que é a vida enquadrada
no seu normal aborrecimento.
a vida é isto
dia-a-dia a recolha
de um significado
que se entende no fim.
talvez.
a vida é isto:
episódios
a vida é tão pouco
que se faz muito do nada.
mas se sabes o nada que é a vida
és louco
pois a vida tem de ser amada
apesar do nada
(ordem dos prestativos doutores dos conselhos inúteis)
estás oco
estás seco
sem poder dar a golpada
que a engula
a vida
i.e.
o nada.
sábado
sexta-feira
Hjärnsläpp*
Os tugas quando se deparam com a Suécia lembram-me alguém que quer viver num hospital. Ficam tão maravilhados com a imagem limpa do local, que se esquecem da doença que acompanha o viver em estado asséptico.
* sueco para curto-circuito mental
* sueco para curto-circuito mental
quinta-feira
Há maus-humores que nem o sol cura
- Hallo. Daqui é A.G.
- Hmmm
- A L.N. está?
- Nein
- Não sabe quando vai estar?
- Nein. [Pausa] Isto é uma prisão.
- A L. está PRESA????
- Nein, keine L., telefonou para a prisão!!
- Ah, então foi engano.
- JAA!!!!!
bip bip bip bip bip bip
- Hmmm
- A L.N. está?
- Nein
- Não sabe quando vai estar?
- Nein. [Pausa] Isto é uma prisão.
- A L. está PRESA????
- Nein, keine L., telefonou para a prisão!!
- Ah, então foi engano.
- JAA!!!!!
bip bip bip bip bip bip
quarta-feira
Hoje é o dia do PI
Finalmente uma nova etiquetagem interessante. Sim, que essas cenas do dia dos namorados, da mãe e do pai, da mulher e do pai natal, já deram o que tinham a dar. Tradição, respeito, mas piroseira...
A minha história preferida:

Paris je t'aime.
Esta preferência diz muito de mim e dos efeitos duradouros de uma adolescência a ler os autores românticos do século XIX. Só podia dar nisto. Concomitantemente, passo-me pela estética, pelo simbolismo, pelo supremo "etos" do vermelho. Encarnado, se não existisse, teria que ser, com urgência, sangrado.
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traumas literários
terça-feira
grandes problemas masculinos
Ele diz-me que o grande problema das mulheres é quererem mais que sexo
Eu aconselho-o a ir às prostitutas
Ele diz-me que o grande problema das prostitutas é serem frias no sexo
Eu aconselho-o a ir às prostitutas
Ele diz-me que o grande problema das prostitutas é serem frias no sexo
segunda-feira
sexta-feira
quinta-feira
I
once I stood alone so proud
held myself above the crowd
now I am low on the ground.
from here I look around to see
what avenues belong to me
I can't tell what I've found.
now what would You have me do
I ask you please?
I wait to hear.
the mother and the matador,
the mystic; each were here before,
like me, to stare You down.
you appear without a face,
disappear, but leave your trace,
I feel your unseen frown.
now what would you have me do
I ask you please?
I wait to hear
your voice,
the word,
you say.
I wait to see your sign
would I
obey?
I look for you in heathered moor,
the desert, and the ocean floor
how low does one heart go.
looking for your fingerprints
I find them in coincidence,
and make my faith to grow.
forgive me all my blindnesses
my weakness and unkindnesses
as yet unbending still.
struggling so hard to see
my fist against eternity
and will you break my will?
now what would you have me do
I ask you please?
i wait to hear
your voice,
the word
you say
I wait
to see your sign
could I
obey?
Penitent by Suzanne Vega
held myself above the crowd
now I am low on the ground.
from here I look around to see
what avenues belong to me
I can't tell what I've found.
now what would You have me do
I ask you please?
I wait to hear.
the mother and the matador,
the mystic; each were here before,
like me, to stare You down.
you appear without a face,
disappear, but leave your trace,
I feel your unseen frown.
now what would you have me do
I ask you please?
I wait to hear
your voice,
the word,
you say.
I wait to see your sign
would I
obey?
I look for you in heathered moor,
the desert, and the ocean floor
how low does one heart go.
looking for your fingerprints
I find them in coincidence,
and make my faith to grow.
forgive me all my blindnesses
my weakness and unkindnesses
as yet unbending still.
struggling so hard to see
my fist against eternity
and will you break my will?
now what would you have me do
I ask you please?
i wait to hear
your voice,
the word
you say
I wait
to see your sign
could I
obey?
Penitent by Suzanne Vega
quarta-feira
Um rabo quieto hoje, outros rabos molhados amanhã
(...) Eu acredito que a maior ameaça para os seres humanos criada pelas alterações climáticas é a potencial desestabilização das enormes placas de gelo da Gronelândia e da Antártida. Por razões práticas*, tal como a extinção das espécies, a desintegração das placas de gelo é irreversível. Os nossos filhos, netos e muitas mais gerações terão de arcar com as consequências das escolhas que nós faremos nos próximos anos.
O nível do mar é primariamente o resultado de alterações no volume das placas de gelo e logo de modificações na temperatura global. Quando o planeta arrefece, as placas de gelo aumentam sobre os continentes e o nível do mar desce. Reversamente, quando a Terra aquece, o gelo derrete e o nível do mar sobe. A autora Elizabeth Kolbert conta no livro "Field Notes from a Catastrophe" [Notas de Campo de uma Catástrofe], do trabalho dos cientistas a tentarem perceber a aceleração do derretimento dos gelos e o Al Gore, no seu novo livro e filme "Uma verdade inconveniente", ilustra com gráficos o que poderá significar a subida do nível do mar na Flórida e noutros locais.
As placas de gelo aumentaram e diminuiram à medida que a Terra arrefecia e aquecia durante os últimos 500 mil anos**. Durante as épocas mais frias das idades glaciais, a temperatura média da terra era cerca de 5,5 graus centígrados mais fria que hoje. A maior placa de gelo, com uma espessura de 1,6 km, cobrindo a maior parte do Canadá e Norte dos EUA, emprisionava tanta água que o nível do mar era 120 metros mais baixo que hoje. Os períodos inter-glaciais eram cerca de 1 grau centígrado mais quentes e o nível do mar chegava a atingir mais 5 metros que hoje.
A efectiva subida do nível do mar futura dependerá dramaticamente do aumento dos gases com efeito de estufa, que irão ser determinantes em quanto será o aquecimento global. (...)
De forma a definirmos uma estratégia efectiva para enfrentarmos as alterações climáticas, dois cenários podem ser projectados. No cenário "business-as-usual" [negócios-como-sempre], as emissões anuais de CO2 continuam a aumentar à taxa actual durante, pelo menos, mais cinquenta anos, tal como outros agentes de aquecimento da atmosfera, como o metano, o ozono ou a fuligem. No cenário alternativo, as emissões de CO2 estabilizam na actual década, diminuem lentamente nas décadas subsequentes e pela metade do século diminuem rapidamente com a ajuda de novas tecnologias.
O cenário "negócios-como-sempre" origina um aquecimento global de 3 graus centígrados neste século, enquanto que o cenário alternativo origina um aquecimento de menos de 1 grau centígrado, durante o mesmo período. (...)
Excertos do artigo "The threat to the planet" de Jim Hansen na New York Review of Books
Notas da tradutora (eu):
* Em termos de placas de gelo o resultado é irreversível na dimensão temporal dos seres humanos. O mesmo acontece em termos funcionais na extinção de espécies. Contudo, quando se fala em termos composicionais, a extinção de espécies é irreversível para sempre. A unicidade de cada espécie torna-a irrecuperável.
** Não é que antes o mesmo não tenha acontecido. 500 mil anos é o registo conhecido.
O nível do mar é primariamente o resultado de alterações no volume das placas de gelo e logo de modificações na temperatura global. Quando o planeta arrefece, as placas de gelo aumentam sobre os continentes e o nível do mar desce. Reversamente, quando a Terra aquece, o gelo derrete e o nível do mar sobe. A autora Elizabeth Kolbert conta no livro "Field Notes from a Catastrophe" [Notas de Campo de uma Catástrofe], do trabalho dos cientistas a tentarem perceber a aceleração do derretimento dos gelos e o Al Gore, no seu novo livro e filme "Uma verdade inconveniente", ilustra com gráficos o que poderá significar a subida do nível do mar na Flórida e noutros locais.
As placas de gelo aumentaram e diminuiram à medida que a Terra arrefecia e aquecia durante os últimos 500 mil anos**. Durante as épocas mais frias das idades glaciais, a temperatura média da terra era cerca de 5,5 graus centígrados mais fria que hoje. A maior placa de gelo, com uma espessura de 1,6 km, cobrindo a maior parte do Canadá e Norte dos EUA, emprisionava tanta água que o nível do mar era 120 metros mais baixo que hoje. Os períodos inter-glaciais eram cerca de 1 grau centígrado
A efectiva subida do nível do mar futura dependerá dramaticamente do aumento dos gases com efeito de estufa, que irão ser determinantes em quanto será o aquecimento global. (...)
De forma a definirmos uma estratégia efectiva para enfrentarmos as alterações climáticas, dois cenários podem ser projectados. No cenário "business-as-usual" [negócios-como-sempre], as emissões anuais de CO2 continuam a aumentar à taxa actual durante, pelo menos, mais cinquenta anos, tal como outros agentes de aquecimento da atmosfera, como o metano, o ozono ou a fuligem. No cenário alternativo, as emissões de CO2 estabilizam na actual década, diminuem lentamente nas décadas subsequentes e pela metade do século diminuem rapidamente com a ajuda de novas tecnologias.
O cenário "negócios-como-sempre" origina um aquecimento global de 3 graus centígrados neste século, enquanto que o cenário alternativo origina um aquecimento de menos de 1 grau centígrado, durante o mesmo período. (...)
Excertos do artigo "The threat to the planet" de Jim Hansen na New York Review of Books
Notas da tradutora (eu):
* Em termos de placas de gelo o resultado é irreversível na dimensão temporal dos seres humanos. O mesmo acontece em termos funcionais na extinção de espécies. Contudo, quando se fala em termos composicionais, a extinção de espécies é irreversível para sempre. A unicidade de cada espécie torna-a irrecuperável.
** Não é que antes o mesmo não tenha acontecido. 500 mil anos é o registo conhecido.
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nível do mar
segunda-feira
sexta-feira
Se és hetero diz não ao casamento
Teresa e Helena voltam a ver negada a pretensão de se casar.
Tem piada que ontem estava a conversar com uma amiga americana que anda em complicações para arranjar o visto para o namorado dinamarquês para se mudarem para os EUA. Da mesma forma, um amigo francês viu-se à nora para se acompanhar pela namorada de origem indiana, mas nacionalidade sueca, para a Austrália (os australianos devem ser os racistas mais desavergonhados na superfície do planeta). Em ambos os casos eu perguntei-lhes porque é que não se casavam e limitavam as chatices. Eles responderam-me que não queriam usar um sistema discriminatório. Chego à conclusão que é mesmo isso: os heterossexuais não devem usar um sistema que discrimina. Apetece mesmo dizer a esta gente que metam o seu casamento pelo ** acima.
Tem piada que ontem estava a conversar com uma amiga americana que anda em complicações para arranjar o visto para o namorado dinamarquês para se mudarem para os EUA. Da mesma forma, um amigo francês viu-se à nora para se acompanhar pela namorada de origem indiana, mas nacionalidade sueca, para a Austrália (os australianos devem ser os racistas mais desavergonhados na superfície do planeta). Em ambos os casos eu perguntei-lhes porque é que não se casavam e limitavam as chatices. Eles responderam-me que não queriam usar um sistema discriminatório. Chego à conclusão que é mesmo isso: os heterossexuais não devem usar um sistema que discrimina. Apetece mesmo dizer a esta gente que metam o seu casamento pelo ** acima.
quinta-feira
O que muda
Estamos sentados num restaurante ranhoso na China Town. Vêm os biscoitos com os papelinhos com que se brinca ao destino. O meu chateia-me, algo sobre o meu futuro ser ilimitado e eu que sempre me senti perdida, que me procuro desde há muito, não gosto. Ele diz-me que é positivo. O dele é sobre a beleza de uma vida a dois. Eu sorrio com o despropósito. Enquanto ele vai falando eu saboreio o não o amar mais. Brinco com um vistoso gancho do cabelo. É tão diferente de quem eu sou que ele sabe que foi um presente. Ele pergunta. Da minha resposta ele tira a pergunta: porque não me envolvi? A minha pergunta é contrária. Porque me envolveria? O sentido das perguntas foi o que nos uniu e separou. Pouco mudou, mas o que mudou foi essencial: já não me interessa. Já nem é preciso que ele assuma que me fez sofrer. Acabou. I'm weightless.
Reach me come closer running back home
Tell me your sorrow now that I've gone
How much you need me now I've let go
Tell me like always how you are lost
Watch me I'm weightless though I'm in the ground
See me I'm flying no longer around
My boomerang my boomerang
I discovered how the land lies
How you can't walk over mine
Won't you uncover all you hide
Till then your strength is mine
Watch me I'm weightless
Boomerang dos Cirrus
Reach me come closer running back home
Tell me your sorrow now that I've gone
How much you need me now I've let go
Tell me like always how you are lost
Watch me I'm weightless though I'm in the ground
See me I'm flying no longer around
My boomerang my boomerang
I discovered how the land lies
How you can't walk over mine
Won't you uncover all you hide
Till then your strength is mine
Watch me I'm weightless
Boomerang dos Cirrus
quarta-feira
Vida (2)
Talvez isto seja um pouco estranho, já que a vida teve imenso tempo para desenvolver as suas ambições. Se imaginarmos os 4500 milhões de anos da vida na Terra comprimidos num dia, então a vida começa cedo, pelas 4 da manhã, com o surgimento do primeiro ser unicelular, mas então não existe mais nenhum avanço nas próximas 16 horas. Só pelas 20h30, quando 5/6 do dia já passaram, é que a Terra tem algo para mostrar ao Universo: uma película vibrante de micróbios. Então, finalmente, aparecem as primeiras plantas marinhas, vinte minutos depois aparece a primeira medusa e a enigmática fauna Ediacarana vista, pela primeira vez na Austrália, por Reginald Sprigg. Às 21h04 os trilóbitas nadam em cena, seguidos mais ou menos imeditamente pelas criaturas elegantes da camada de Burgess. Quase, quase às 22h, as plantas começam a surgir sobre a terra. Pouco depois, com menos de 2h para que o dia acabe, as primeiras criaturas terrestres aparecem. Graças a 10 minutos de tempo ameno, pelas 22h24 a terra está coberta de grandes florestas carboníferas, cujos resíduos fornecem-nos hoje todo o nosso carvão e os primeiros insectos com asas são evidentes. Os dinossauros arrastam-se pesadamente em cena poucos antes das 23h, dominando-a durante 3/4 de hora. Aos 21 minutos para a meia-noite os dinossauros desaparecem e a temporada dos mamíferos começa. Os humanos emergem 1 minuto e 17 segundos antes da meia-noite. Nesta escala, a nossa história registada não é mais que uns segundos, uma única vida humana um instante.
A short history of nearly everything de Bill Bryson
Tradução minha.
A short history of nearly everything de Bill Bryson
Tradução minha.
terça-feira
segunda-feira
wow
estive a falar (melhor, ouvir) a Meryl Streep da ciencia. Podia ter ficado até sempre, mas como sempre com esta gente, estao de partida. Esteve a contar do glaciar da sua juventude que já nao existe. snif snif
sábado
Deriva
Everything is open
Nothing is set in stone
Rivers turn to ocean
Oceans tide you home
Home is where the heart is
But your heart had to roam
Drifting over bridges
Never to return
Watching bridges burn
You're driftwood floating underwater
Breaking into pieces pieces pieces
Just driftwood hollow and of no use
Waterfalls will find you bind you grind you
Nobody is an island
Everyone has to go
Pillars turn to butter
Butterflying low
Low is where your heart is
But your heart has to grow
Drifting under bridges
Never with the flow
And you really didn't think it would happen
But it really is the end of the line
So I'm sorry that you turned to driftwood
But you've been drifting for a long long time
Everywhere theres trouble
Nowheres safe to go
Pushes turn to shovels
Shoveling the snow
Frozen you have chosen
The path you wish to go
Drifting now forever
And forever more
Until you reach your shore
You're driftwood floating underwater
Breaking into pieces pieces pieces
Just driftwood hollow and of no use
Waterfalls will find you bind you grind you
And you really didn't think it would happen
But it really is the end of the line
So I'm sorry that you turned to driftwood
But you've been drifting for a long long time
You've been drifting for a long long time
You've been drifting for a long long
Drifting for a long long time
Driftwood dos Travis, álbum The Man Who
Vida (1)
Como a maior parte das coisas que vivem em ambientes hostis, os líquenes crescem devagar. Um líquen pode demorar meio século a ter o tamanho de um botão de camisa. Assim, os líquenes com o tamanho de um prato terão, como escreve David Attenborough, "provavelmente centenas, senão mesmo, milhares de anos." É difícil imaginar uma vida mais insatisfatória. "Eles simplesmente existem", continua Attenborough, "demonstrando o facto emocionante de que a vida, até nos seus níveis mais simples, aparentemente existe só por si mesma."
É fácil esquecer que a vida simplesmente é. Como humanos temos a tendência de sentir que a vida tem um sentido. Nós temos planos, aspirações e desejos. Nós queremos aproveitar todas as oportunidades que a existência intoxicante nos oferece. Mas o que é a vida para um líquen? Contudo, o seu impulso para existir, para ser, é tão forte quanto o nosso - discutivelmente maior. Se alguém me dissesse que eu teria de passar décadas como uma camada felpudinha sobre uma rocha numa mata, eu acho que perderia a vontade de viver. Os líquenes não. Como virtualmente tudo o que é vivente, eles sofrerão qualquer trabalho, aguentarão qualquer insulto, para existir um pouco mais. Em súmula, a vida quer ser. Mas - e este é um ponto interessante - na maior parte dos casos, a vida não quer ser muito.
A short history of nearly everything de Bill Bryson
Tradução minha.
É fácil esquecer que a vida simplesmente é. Como humanos temos a tendência de sentir que a vida tem um sentido. Nós temos planos, aspirações e desejos. Nós queremos aproveitar todas as oportunidades que a existência intoxicante nos oferece. Mas o que é a vida para um líquen? Contudo, o seu impulso para existir, para ser, é tão forte quanto o nosso - discutivelmente maior. Se alguém me dissesse que eu teria de passar décadas como uma camada felpudinha sobre uma rocha numa mata, eu acho que perderia a vontade de viver. Os líquenes não. Como virtualmente tudo o que é vivente, eles sofrerão qualquer trabalho, aguentarão qualquer insulto, para existir um pouco mais. Em súmula, a vida quer ser. Mas - e este é um ponto interessante - na maior parte dos casos, a vida não quer ser muito.
A short history of nearly everything de Bill Bryson
Tradução minha.
quinta-feira
quarta-feira
Partida
Estavam parados no cais de embarque, pouco mais de dez minutos para a partida. Depois de horas a falar, o silêncio tornara-se imbatível. Que dizer? Que dizer? Que dizer? Ainda faltam dez minutos, ele diz. Ainda têm dez minutos. Ele afiança-a que o pode ir visitar, que é perto, já ali, que tudo vai correr bem. Ela sorri e diz-lhe que o verá em Portugal. Que ele vai gostar de Portugal. Sela assim o futuro com as mútuas ausências. Dez minutos. Ele abraça-a. Ela desprende-se. Ela não olha, vai-se embora. Espreme lágrimas dentro de si. Ainda quase dez minutos.
terça-feira
segunda-feira
Por amor
Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse
em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia
na saia a mordedura quente, a ferida, a marca
de todos os enganos, faria quase tudo
por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,
e guardaria calados fantasmas do medo, que são
os donos das maiores verdades. Já de outra vez mentira
e por amor haveria de sentar-se à mesa dele
e negar que o amava, porque amá-lo era um engano
ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, punha-se
a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre
a cair da folha, a prolongar o desencontro.
E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;
arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.
Maria do Rosário Pedreira
em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia
na saia a mordedura quente, a ferida, a marca
de todos os enganos, faria quase tudo
por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,
e guardaria calados fantasmas do medo, que são
os donos das maiores verdades. Já de outra vez mentira
e por amor haveria de sentar-se à mesa dele
e negar que o amava, porque amá-lo era um engano
ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, punha-se
a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre
a cair da folha, a prolongar o desencontro.
E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;
arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.
Maria do Rosário Pedreira
domingo
Colbert & Global Warming
Colbert, obviamente, é o céptico e, imaginem, gagueja. O cientista tem traquejo.
Haven't you heard scientists say...?
Hey, I do the questions! Get your own show!
Haven't you heard scientists say...?
Hey, I do the questions! Get your own show!
sábado
Ah, estes dois...
Get down, get down, little Henry Lee
And stay all night with me
You won't find a girl in this damn world
That will compare with me
And the wind did howl and the wind did blow
La la la la la
La la la la lee
A little bird lit down on Henry Lee
I can't get down and I won't get down
And stay all night with thee
For the girl I have in that merry green land
I love far better than thee
And the wind did howl and the wind did blow
La la la la la
La la la la lee
A little bird lit down on Henry Lee
She leaned herself against a fence
Just for a kiss or two
And with a little pen-knife held in her hand
She plugged him through and through
And the wind did roar and the wind did moan
La la la la la
La la la la lee
A little bird lit down on Henry Lee
Come take him by his lilly-white hands
Come take him by his feet
And throw him in this deep deep well
Which is more than one hundred feet
And the wind did howl and the wind did blow
La la la la la
La la la la lee
A little bird lit down on Henry Lee
Lie there, lie there, little Henry Lee
Till the flesh drops from your bones
For the girl you have in that merry green land
Can wait forever for you to come home
And the wind did howl and the wind did moan
La la la la la
La la la la lee
A little bird lit down on Henry Lee
Nick Cave & The Bad Seeds AND PJ Harvey
sexta-feira
Se tiverem perguntas nao me importo de responder
Eu só nao faço isto mais amigo, porque me dá seca explicar tudo muito explicadinho. Prefiro dialogar e aí dá-me gozo. Assim, ou perguntam ou eu nao digo mais nada. Eu tenho aqui mais uns postes com gajos, por isso...
Adenda: na verdade, se tiverem perguntas adorarei responder. :-)
Adenda: na verdade, se tiverem perguntas adorarei responder. :-)
Comecemos pelas boas notícias
O mar é nosso amigo.
Pois, um grupo de cientistas de Kiel andou pelo Mar do Norte e dizem que detectaram CO2 emitido pelo Homem a profundidades de até 4000 metros. Se o que eles acharam puder ser extrapolado para todos os sete oceanos, entao estes situar-se-ao na gama optimista do que poderao sugar da atmosfera.
Pois, um grupo de cientistas de Kiel andou pelo Mar do Norte e dizem que detectaram CO2 emitido pelo Homem a profundidades de até 4000 metros. Se o que eles acharam puder ser extrapolado para todos os sete oceanos, entao estes situar-se-ao na gama optimista do que poderao sugar da atmosfera.
quinta-feira
quarta-feira
As calças de Pandora
Sobre o livro "Pandora's breeches. Women, science and power in the Enlightenment" de Patricia Fara.
Ranging from astronomy in Germany and Poland to botany in Britain, Pandora's Breeches tells the story of women's contribution to science in the seventeenth and eighteenth centuries. [...]
Paradoxically, perhaps, before professionalization moved science out of the home and into universities and industrial laboratories, there was more scope for active involvement from women who had no wish to see a radical reorganization of society. By and large, Enlightenment women did not wish to do the same things as men. They had houses to run and, usually, families to tend. Fara's book is, for the most part, the story of publicly unrecognized workers; a world not of masculine genius and heroism, but of quotidian rounds in which women worked alongside men, forming intellectual networks with international scholars, and with each other.
Ranging from astronomy in Germany and Poland to botany in Britain, Pandora's Breeches tells the story of women's contribution to science in the seventeenth and eighteenth centuries. [...]
Paradoxically, perhaps, before professionalization moved science out of the home and into universities and industrial laboratories, there was more scope for active involvement from women who had no wish to see a radical reorganization of society. By and large, Enlightenment women did not wish to do the same things as men. They had houses to run and, usually, families to tend. Fara's book is, for the most part, the story of publicly unrecognized workers; a world not of masculine genius and heroism, but of quotidian rounds in which women worked alongside men, forming intellectual networks with international scholars, and with each other.
Warning against refashioning neglected women as martyrs, Patricia Fara neither overstates nor undervalues their contributions, allowing them to remain embedded in the social and domestic structures and beliefs of their time. Her subjects are so diverse that no single narrative model suffices to tell their story; some are lone scholars, some reluctant wives, others aristocratic, erudite and sociable; and national differences presented different opportunities. But what she brings home is the domestic origins of experimental science: understanding how science started must involve looking at how families accommodated new investigations of the natural world. Pandora's Breeches is vital reading for anyone interested in the rapid growth of Enlightenment science, and the varied ways in which women indisputably affected the course of Western philosophy.
terça-feira
A mae que nao pode ser
A questao que nos envolveu nas últimas semanas era de bébés que nao poderao ser. Mas eu pensei na altura da menina Esmeralda e da luta que a envolve entre o pai biológico e o casal que a quer adoptar, da mae que nao pode ser. E ontem esta questao voltou a assombrar-me. A mae biológica da Esmeralda nao abortou, andou tres meses para trás e para a frente com a bébé, a pedir ajuda para poder ser mae. O ser ilegal ajudou ao seu desfortúnio, mas os Serviços da Segurança Social nao a poderiam ter ajudado através da filha? O pai da menina mandou-a passear, na incerteza do espermatozóide. Ela teve de desistir de ser mae. E há pouco o Tribunal Constitucional abriu a possibilidade do casal adoptante lutar pela custódia da Esmeralda versus um pai que a quis tarde demais, mas selou que a mae nao o poderá fazer.
Face a isto, face a uma mae que nao pode ser, qual o direito da sociedade que a nao ajudou, em obrigar alguém a ser mae, sem mais? Isto assombra-me e cimenta o meu sim, na luta com o meu natural nim. E perguntam: mas ainda pensas nisso? Ainda. Para que saibam como toda esta questao nao é fácil, que todo esse facilitismo, o pensar que isto foi somente um bater de espadas argumentativas nao é assim para todos. Nao o é para mim.
Face a isto, face a uma mae que nao pode ser, qual o direito da sociedade que a nao ajudou, em obrigar alguém a ser mae, sem mais? Isto assombra-me e cimenta o meu sim, na luta com o meu natural nim. E perguntam: mas ainda pensas nisso? Ainda. Para que saibam como toda esta questao nao é fácil, que todo esse facilitismo, o pensar que isto foi somente um bater de espadas argumentativas nao é assim para todos. Nao o é para mim.
Mentalidade no séc. XXI em Portugal
Mas ok, se virmos por outro prisma, se virmos a mentalidade para com a mulher, que pode estar por detrás de um nao, entao tem razao. E aí nao sei se entramos no século XXI ou se ainda o estamos só a espreitar.
A semana passada, Daniel Serrão contribuiu com um pequeno texto para o DN, onde explicava o seu “não” à pergunta do próximo dia 11. Escrevia ele que após o referendo estaria ao lado das jovens para as ajudar a ser mais responsáveis com a sua sexualidade. Não se sabe se Daniel Serrão se referia às jovens que exploram a sua sexualidade sozinhas ou às jovens que exploram a sua sexualidade com outras jovens, sendo que, em qualquer dos casos, não parece alguma delas corra sérios riscos de assim engravidar. Com efeito, se o médico se queria referir às jovens que devem ser mais responsáveis com a sua sexualidade porque podem engravidar, como estas não engravidam sozinhas, nem umas com as outras, é óbvio que se esqueceu de um elemento importante nesta equação e que são os jovens.
Por vezes, pequenos detalhes como este revelam toda uma forma de pensar o outro, que, neste caso, é a mulher. Esta boa vontade de estar ao lado das jovens e de encarar as mulheres que abortam como vítimas, que convive, aparentemente de forma harmoniosa, com a atribuição de um ónus de culpa, revela uma forma, tão cara à Igreja Católica, de ver a mulher como um agente do mal. Umas vezes perfidamente consciente desse papel; outras ingenuamente seduzida por algo que não consegue compreender bem. Mas, sem dúvida, um agente do mal.
Miguel Silva
A semana passada, Daniel Serrão contribuiu com um pequeno texto para o DN, onde explicava o seu “não” à pergunta do próximo dia 11. Escrevia ele que após o referendo estaria ao lado das jovens para as ajudar a ser mais responsáveis com a sua sexualidade. Não se sabe se Daniel Serrão se referia às jovens que exploram a sua sexualidade sozinhas ou às jovens que exploram a sua sexualidade com outras jovens, sendo que, em qualquer dos casos, não parece alguma delas corra sérios riscos de assim engravidar. Com efeito, se o médico se queria referir às jovens que devem ser mais responsáveis com a sua sexualidade porque podem engravidar, como estas não engravidam sozinhas, nem umas com as outras, é óbvio que se esqueceu de um elemento importante nesta equação e que são os jovens.
Por vezes, pequenos detalhes como este revelam toda uma forma de pensar o outro, que, neste caso, é a mulher. Esta boa vontade de estar ao lado das jovens e de encarar as mulheres que abortam como vítimas, que convive, aparentemente de forma harmoniosa, com a atribuição de um ónus de culpa, revela uma forma, tão cara à Igreja Católica, de ver a mulher como um agente do mal. Umas vezes perfidamente consciente desse papel; outras ingenuamente seduzida por algo que não consegue compreender bem. Mas, sem dúvida, um agente do mal.
Miguel Silva
segunda-feira
A chegada de Portugal ao século XXI
Meus senhores e senhoras,
equiparar o Sim com a chegada de Portugal ao século XXI é um disparate, uma idiotice, uma visao muito umbiguista dos valores humanistas. Imaginem-se, sff, na pele de uma pessoa que pensa, considera que há uma pessoa desde a concepçao. Sem preconceitos, sem machismos, somente esta percepçao de valor. É justo, respeitoso, verdadeiro dizer a esta pessoa que nao pertence a este século? Tenham tento na língua e respeito por pessoas que nao sao mais que boas pessoas. Um pouco metediças, mas no fundo boas pessoas.
P.S.: Prefiro a companhia de um nao do século XX do que de feministas radicais (seja de que século for).
equiparar o Sim com a chegada de Portugal ao século XXI é um disparate, uma idiotice, uma visao muito umbiguista dos valores humanistas. Imaginem-se, sff, na pele de uma pessoa que pensa, considera que há uma pessoa desde a concepçao. Sem preconceitos, sem machismos, somente esta percepçao de valor. É justo, respeitoso, verdadeiro dizer a esta pessoa que nao pertence a este século? Tenham tento na língua e respeito por pessoas que nao sao mais que boas pessoas. Um pouco metediças, mas no fundo boas pessoas.
P.S.: Prefiro a companhia de um nao do século XX do que de feministas radicais (seja de que século for).
Já se notam os novos ares
Despedida ao telefone de parentela:
- E se engravidares, nós estamos cá, nao precisas de abortar.
- E se engravidares, nós estamos cá, nao precisas de abortar.
domingo
Solidão
Um dia ele deixou de escrever, pois a única palavra que conseguia escrever era solidão. Poemas inteiros com a palavra que se repetia, por entre vírgulas e pontos, sempre colocadas em linha e bicha, nenhuma palavra capaz de se encontrar com as outras palavras e deixarem juntas de ser solidão.
Like An Angel Passing Through My Room
dos Abba
Long awaited darkness falls
casting shadows on the walls
in the twilight hour
I am alone
sitting near the fireplace
dying embers warm my face
in this peaceful solitude
all the outside world subdued
everything comes back
to me again
in the gloom
like an angel passing through my room
Half awake and half in dreams
seeing long forgotten scenes
so the present runs
into the past
now and then become entwined
playing games within my mind
like the embers as they die
love was one prolonged good-bye
and it all comes
back to me tonight
in the gloom
like an angel passing through my room
I close my eyes
and my twilight
images go by
all too soon
like an angel passing through my room
Nao encontrei a música para aqui por, mas hoje é assim.
dos Abba
Long awaited darkness falls
casting shadows on the walls
in the twilight hour
I am alone
sitting near the fireplace
dying embers warm my face
in this peaceful solitude
all the outside world subdued
everything comes back
to me again
in the gloom
like an angel passing through my room
Half awake and half in dreams
seeing long forgotten scenes
so the present runs
into the past
now and then become entwined
playing games within my mind
like the embers as they die
love was one prolonged good-bye
and it all comes
back to me tonight
in the gloom
like an angel passing through my room
I close my eyes
and my twilight
images go by
all too soon
like an angel passing through my room
Nao encontrei a música para aqui por, mas hoje é assim.
sexta-feira
Evolução do número de Interrupções Voluntárias da Gravidez (IVG) na Europa
Após a legalizaçao do aborto verifica-se o aumento do seu número, mas isto é porque se passa de uma situaçao de estimativa 'as escuras, do que nao se conhece, para a contabilizaçao real do que é feito 'as claras. Depois do salto, o que se verifica em países com a legalizaçao da IVG, é uma estabilizaçao ou descida dos abortos realizados. Ver aqui.
Humor preto
Na Alemanha, onde o aborto foi legalizado já não há crianças, só pretos. Querem que Portugal fique igual?
p.s.: Sim, Sabine, isto é o embate frontal com o país real.
p.s.2: provavelmente uma grunha do mesmo quilate, mas alema, diria que a grunha portuguesa tem razao e até apontaria na minha direcçao, nao fosse o caso de ter degenerado nos genes dos meus antepassados africanos.
p.s.: Sim, Sabine, isto é o embate frontal com o país real.
p.s.2: provavelmente uma grunha do mesmo quilate, mas alema, diria que a grunha portuguesa tem razao e até apontaria na minha direcçao, nao fosse o caso de ter degenerado nos genes dos meus antepassados africanos.
Não é só nascer
Porque será que eu sofro e sofrerei domingo com os resultados do referendo? Eu não preciso da vossa lei. Egoisticamente falando, eu vivo fora de Portugal, num país que permite o aborto até às 12 semanas. Vivendo em Portugal, eu posso ir ao estrangeiro. Eu não terei que me sentir clandestina, vou poder seguir a minha consciência, tomar a decisão em liberdade e consoante a relação em que estiver, com ou sem o pai. Não será por causa da lei que terei um filho, não será nenhum hipócritazinho que me vai dizer quem amar, nenhum cérebro machista me vai dizer quando amar, nenhum legista dos sentimentos alheios ir-me-á dizer quando ser mãe. A minha vida não está ao vosso alcance. Os meus afectos não estão ao vosso alcance. A minha consciência não está ao vosso alcance. A minha saúde não está ao vosso alcance. Ainda assim, sofro pelas pessoas que terão de morrer, ficar estropiadas, de cerviz vergada a imposições alheias. Homens também, pais, maridos, namorados, vítimas em segundo grau. Filhos que ficarão sem mãe. Mães que ficarão sem filhas. Mulheres estéreis. Filhos que não serão amados. Desfortunados, porque alguém, que é outra eu, mulher, eu, não tem acesso à minha liberdade. Nao é só nascer. É também nascer com sorte.
quinta-feira
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