quarta-feira

Conflito essencialmente geracional ou mental?

Encontrei o colega irlandes na cozinha e coitado lá levou o enxerto do referendo em Portugal (estou doida que isto passe, que sinto-me em obsessao). Acabei por perguntar-lhe como é que vao as coisas no país dele.

- Ah, faziamos um referendo a cada tres anos, mas agora fizemos uma pausa. Estamos 'a espera que morram os velhos.

- É? Em Portugal nao sei se será conflito geracional. Talvez... Mas dentro da gama dos letrados o conflito parece-me sem idade. É mais de mentalidade.

Bem visto

A pergunta não faz qualquer referência ao progenitor, conferindo no seu texto um poder absoluto à mulher grávida. A partir daqui, e para além do texto, é com a imaginação de cada um.

Valupi

Mas, já agora gentes do NÂO, pq raio não incluem,na lei,a penalização para o pai que não quer que a mulher tenha o filho??? porque não penalizam com pena de prisão os pais q abandonam a mulher grávida?..."

comentário da amok aqui

vi aqui.

merda desta na minha caixa de correio é q nao

Agora os do Nao mandam-me textos para a minha caixa de correio. Num texto presunçoso de Luciano Amaral (começado a dizer que é um texto escrito sem presunçoes), somos informados que a despenalizaçao do aborto que os do Nao enbandeiram agora é um gesto de compromisso generoso aos do Sim (e eu, malévola, a pensar que este compromisso aos seus valores era porque querem ganhar um referendo). Segundo o dito: Cada um dos lados é obrigado a ceder em alguns pontos da sua
opinião em nome da convivência na mesma comunidade política. Ganhando o
Sim, a verdade é que esse equilíbrio compromissório se rompe.

Equilíbrio compromissório... Mas que equilíbrio existe hoje? Está-nos Luciano Amaral a dizer que os do Nao nao concordam com as actuais excepçoes 'a lei? Que já sao um compromisso?

Assim, a morte de fetos até 'as 24 semanas que a actual lei permite foi uma exigencia do Sim? Será este um compromisso aceitável, ou é aceitável porque sao fetos malformados? Se for eugenia o Nao aceita? Os do Nao fazem propostas de despenalizaçao para durante toda a gravidez. É este um compromisso aceitável perante a inviolabilidade da vida, que está na nossa constituiçao? LA num parentesis de inteligencia duvidosa diz-nos que nos EUA está que todos os cidadãos da república têm certos “direitos
inalienáveis”, nomeadamente a “vida, a liberdade e a busca da felicidade”
, quando basta alguma informaçao para saber que para a lei americana um feto nao é um cidadao.

Vejamos, os do Nao podem comprometer-se nao só na inviolabilidade da vida humana, mas incluso vida humana sentiente, em casos particulares, de ética extremamente duvidável, num admirável mundo novo. Podem-se até comprometer num grau mais grave que o requerido na pergunta do actual referendo. Mas isto nao é um contra-senso aos seus fundamentos, é um compromisso fantástico.

Finalmente, não estou de acordo que o aborto seja despenalizado se feito
“até às dez semanas”, muito simplesmente porque é um limite (ou um limiar)
que não entendo.


Nao entende o Luciano Amaral. O LA quando nao entende, automaticamente nao concorda. Olha que estratégia mais inteligente... Inacreditavelmente burra num texto sobre compromissos!

Este texto só se admitiria no início da discussao. Agora, depois de tudo o que já foi argumentado, isto é de alguém que nao quis ver, nem ouvir. Isto é um texto de um autista intelectual, que acha que argumentar com os outros, ou simplesmente ler os outros com olhos de ler está abaixo de si. Nesta altura do campeonato isto é uma merda de texto. E merdas destas na minha caixa de correio é que nao. Spam abortavel (perdao pelo oximoro), fodas, poe-me mesmo chateada.

terça-feira

O Opel Manta

Ele, olhar divertido - Está um opel manta estacionado na Universidade!
Eu, olhar "aaah?" - E?
Ele, olhar "tás a mangar?" - Um opel manta....
Eu, olhar "isto deve ser uma piada alema" - E?
Ele, olhar "nao tou a acreditar q ela n sabe" - os opel manta sao guiados por aqueles parolos estúpidos que deixam o vidro aberto e poem o cotovelo para fora e a música aos altos berros.
Eu, olhar "já tou a ficar entediada com isto" - E depois?
Ele, olhar pedante - Na Universidade! Achas que combina?
Eu, olhar divertidamente apontador - O que? Estás-me a dizer que nao há estúpidos na Universidade?

Ele virou costas e foi-se embora.

segunda-feira

Os defensores do feto (*adenda)

Dizia a Maria José Nogueira Pinto, citada numa notícia, que os do Sim sao só pela mulher, enquanto que os do Nao sao pela mulher e pelo feto (de notar que antes das dez semanas nem se usa a palavra feto, mas embriao, já que estamos numa fase muito inicial do seu desenvolvimento).

Depois do Marcelo Rebelo de Sousa, já outros, que fazem campanha pelo "Nao", vem a terreiro pela despenalizaçao do aborto, mas como nao dizem limites, parece que será por toda a gravidez.

Assim, os do Nao, que sao pelo feto, pretendem abrir as portas para a sua morte quando já sentirá que o matam. A mulher sai livre e descomprometida* mesmo que o que tenha feito já possa ser descrito por infanticídio. Depois do mal feito vamos ser muito compreensivos e tolerantes, prometemos. Pelo prisma da mulher, ela pode continuar a fazer abortos, desde que nao haja a possibilidade dela ter acompanhamento na decisao, desde que sejam clandestinos e ela arrisque a vida e a saúde. O que interessa é que seja longe da nossa vista. Notem bem: estes sao os que defendem o FETO e a mulher.

Eu neste momento sinto um grande nojo por esta gente. É só.


* Esperem. Nao é descomprometida. O dr. Villas Boas aplicava-lhe sançoes psicológicas (ele tem formaçao de psicologia), o dr. Daniel Serrao: "Para mim, seria suficiente chamar a mulher, fazer-lhe um discurso que a obrigasse a ponderar. Bastava que pedisse desculpa à sociedade para arrumar o assunto." ; os do Movimento "Nao obrigado" querem obrigar 'a ressocializaçao. Nota-se logo quando uma mulher vai abortar. Anda sempre tao dessocializada...

homens pela vida

Uma amiga disse-me que ouviu na televisao um advogado, que defendeu mulheres que foram a julgamento por terem abortado, dizer que todas elas tinham sido acusadas pelos ex-namorados ou ex-maridos.

domingo

Maria

Maria Ester, mulher, 32 anos. Profissionalmente activa, esposa e mãe de duas crianças. Morreu no Hospital S. Teotónio (HST) de Viseu, em 2000, devido a uma "disfunção multiorgânica", aparentemente provocada por uma "manobra abortiva". No registo médico não constam sequer os nomes dos pais. Os clínicos que a assistiram presumem que tenha "ingerido algum produto tóxico" para pôr fim a uma gravidez não desejada. Para os movimentos Médicos Pela Escolha e Viseu Pelo Sim, este é um exemplo paradigmático e "terrível" das situações que serão evitadas com a despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) e que justificam o voto "sim" no referendo do próximo dia 11 de Fevereiro. A médica Ana Paula Viana trabalhava, na altura, na Unidade de Cuidados Intensivos, onde Maria Ester esteve internada durante três semanas. Explicou que os clínicios foram "incapazes de controlar as complicações", tendo assistido impotentes ao "esvair-se de uma vida", num "custo incalculável" para uma "família que ficou destroçada". Sabe, porém, que este é apenas um nome entre milhares de mulheres de um "universo perfeitamente desconhecido", já que, "sendo criminalizadas, as mulheres não confessam e os médicos têm algum cuidado com os registos das situações que recebem nos serviços dos hospitais".

Vejam bem:

1. O Não ganhou em 1998. O que mudou? Nada. Mas não prometia o Não de então, que as coisas mudariam, como prometem hoje? Prometiam. O que mudou? Nada. As mulheres continuaram a abortar clandestinamente, a morrer e a esvaírem-se em sangue nas urgências dos hospitais quando o citotec e outros falhavam no vão de escada da parteira que sabia fazer o desmancho ou na casa de banho de casa. Afinal, o Não ganhou, mas nada mudou. Afinal, o aborto continua liberalizado (já é!), livre das 0 semanas aos 9 meses, feito quando e como se quer, em estabelecimentos não autorizados.

2. "... se realizada, por opção da mulher". No mundo real, o que quer dizer esta parte da pergunta? Quer dizer que a concordância com a despenalização da IVG deve ser dada (apenas e só) no pressuposto de que ela seria realizada por opção da mulher. Basicamente, significa que se uma mulher for forçada a abortar por uma terceira pessoa, esse aborto é crime e essa tal terceira pessoa será punida. Quer dizer que, se fulano apanhar uma mulher grávida, a anestesiar e lhe interromper a gravidez, não poderá eximir-se respondendo que "o aborto foi despenalizado", precisamente porque graças à segunda parte da pergunta o aborto só é despenalizado se for por opção da mulher.

3. A verdade é que se aceitarmos que nenhuma mulher aborta apenas porque lhe apetece, somos obrigados a concluir que estas mulheres precisam de uma oportunidade. Oportunidade que lhes é negada ao manter o aborto ilegal. Enquanto o aborto for ilegal, nenhuma mulher poderá ir a um hospital, a um centro público ou à segurança social aconselhar-se, porque se o fizer estará a confessar uma intenção criminosa. Apenas sendo legal será possível dizer a cada mulher que há alternativas, que há imensas famílias que querem adoptar bebés, que há grupos de apoio, inclusivamente dizer-lhe que se vai sentir culpada para o resto da vida.*

Uma tão medida simples foi já avançada por Maria de Belém Roseira e Vital Moreira e é, ao que julgo saber, aplicada em alguns Estados dos EUA: obrigar a mulher a alguns dias de reflexão. Nesses dias, podem-se incluir sessões de esclarecimento, pôr a mulher em contacto com potenciais famílias adoptantes. Mas claro, até uma medida tão simples obriga a que o aborto seja legal.

Legalizar o aborto é o primeiro passo para adoptar medidas que o combatam. Só depois de devidamente estudado será possível desenhar as políticas correctas. Mas há que tirá-lo da clandestinidade para que possa ser devidamente estudado.


* Nao concordo. Penso que seria cruel e inútil. {ou talvez nao. Talvez seja mesmo melhor avisar que há mulheres que nao esquecem. Talvez este seja um daqueles arrependimentos que podem destroçar}

sábado

sexta-feira

Imprescindível

Aborto, uma polémica de sempre de Ana Cristina Leonardo, jornalista do semanário Expresso.

Exercício

Resolvi seriamente imaginar que ficava grávida. Pensar o que é que sentiria, o que é que faria, o que é que me passaria pela cabeça. Tem sido revelador.

Cuidado com os dogmas a que poem o selo ciencia

Revela a apropriação intelectualmente desonesta que o seu autor quer fazer da ciência e dos cientistas. É contra a ciência, mas invoca a ciência. Chegou ao ponto de vestir a pele do fundador da ciência experimental para fazer passar posições que não podem ser apoiadas pelo actual saber experimental. É o que acontece, por exemplo, com o dogma de que a vida começa no momento da concepção. A ciência diz que antes dessa forma de vida já há outras formas de vida, que de resto vão prosseguir. E é também o que acontece com o dogma que a pessoa está no DNA do óvulo fecundado. A ciência diz que há uma grande distância entre uma molécula que contém o código da vida e uma vida humana plenamente desenvolvida. Defender a «vida» e a «pessoa» sem mais nada é não dizer nada! Mas quem é que não defende a «vida» e a «pessoa»?

Carlos Fiolhais, físico

Sim, que este pessoal a usar a palavra ciencia nas suas hipocrisias poe-me fora de mim.

quinta-feira

Depois de Marcelo Rebelo de Sousa preleccionar:



de Ares.

Tenho um pó a gajas

Maria José Nogueira Pinto, da Plataforma «Não Obrigada», que se opõe à despenalização do aborto, afirmou em Braga que
«os defensores do «sim» são unilaterais, porque apenas defendem a mulher, enquanto que os do «não» são bilaterais, batendo-se pela mulher e pelo bebé», noticia a Lusa.
(...)
Nogueira Pinto indicou que «qualquer lei tem de ponderar o valor da vida humana», frisando que «quando se fala de violência sobre as mulheres tem de se ponderar outra violência, a de destruir um feto que é vida humana, como o demonstra a ciência».

Lei «alçapão»

Maria José Nogueira Pinto referiu que o maior problema da sociedade actual não é o da pobreza é o do abandono, para sustentar que «uma lei que deixa a mulher completamente sozinha na decisão de abortar é um alçapão para ela». «Com esta lei a mulher será exposta a mais pressões para abortar, por exemplo, pelo empregador que lhe promete uma promoção ou por qualquer outra razão», acentuou.


Deviam dizer a esta gaja que as mulheres nao precisam que ela se bata por nós. Muitas de nós, a maior parte de nós, até lhe pagavam para estar quietinha. Para além disso, esta gaja devia explicar como é que a lei actual acompanha e nao deixa completamente só a mulher. Além disso, gaja, um dos problemas da sociedade actual é gajos e gajas que querem enfiar pela garganta abaixo aos outros os seus valores morais. E gaja: até 'as 10 semanas nao há bébé, como o demonstra a ciencia!!!!!!!! Agarrem-me que eu bato-lhe.

Fui censurada (revisao**)

Pus tres comentários n'O Blogue do Nao e dois nao foram publicados.

A este comentário:

Gostava de saber se os intervenientes já tiveram o prazer de assistir a uma ecografia às 6 ou 8 ou 10 semanas. Caso tenham oportunidade de o fazer, ouçam com atenção o coração que, embora pequeno, bate com força, com aquela força que nos faz sorrir e pensar como é perfeita a vida, do início ao fim. Gostava de lembrar que nao se trata apenas da saúde das mulheres, mas das oportunidades e direitos que todos temos ao ser concebidos.

E já que falam dos direitos das mulheres, da escolha, da opção e da enfadonha liberdade, peço que se lembrem que têm todos, temos todos antes de mais, o dever de pensar, reflectir e ser Responsáveis em todos os momentos.


Eu disse que antes das dez semanas nao há coraçao. Há um conjunto de células já diferenciadas para serem do coraçao que começam a actuar como se espera de uma célula do coraçao: a contrair e a relaxar. Isto dá um batimento, mas nao há um bombear de sangue feito por este proto-coraçao. Todos sabemos que o feto está em desenvolvimento. Além que nao é só o coraçao que faz a pessoa. Aqui eu disse ao comentador para livrar-se dos seus orgaos, excepto o coraçao e verificar se era capaz de cumprir o dever de pensar, reflectir e ser Responsáveis. Informei-o que era capaz de nao sobreviver 'a experiencia. ** Fui ler melhor e o sistema circulatório completa um circulo completo 'as 5 semanas, sendo aqui que o coraçao começa a trabalhar. Portantos estava enganada e há realmente um coraçao a bombear sangue. O coraçao e o sistema circulatório sao os primeiros a começar a trabalhar. O som do coraçao só é discernível com o uso de um instrumento de Doppler. O som que se ouve numa ecografia, a sua intensidade depende unicamente do instrumento. Pode soar fraco ou forte consoante o que o médico definiu no instrumento e consoante os ouvidos dos progenitores, que acho bem que fiquem excitados e felizes e imaginem tudo e o mais que quiserem. O problema nesta discussao toda é as pessoas imporem as suas fantasias pessoais nos outros. Estou a ficar cansada disto.

Isto é assim tao chocante? ProntoS, até posso ter tido mau gosto no fim, mas também nao exageremos.

A este poste e reagindo mais especificamente ao lamento d' "...a publicidade (apareceu nos dois diários...) ao caso dramático da paraplégica que ficou grávida porque a pílula falhou e foi abortar a Espanha por não querer que "uma comissão de ética decidisse sobre o seu corpo"?" eu disse que pela lei (aconselhei-os a ler a lei, pois digo-vos que eles ou nao sabem ou fazem que nao sabem) neste caso nao seria preciso que uma comissao ética se pronunciasse. As comissoes de ética sao supostas de intervir nos casos de malformaçoes. Só que os hospitais usam abusivamente das comissoes de ética, inclusive em casos de violaçao, deixando muitas vezes passar os prazos (provavelmente é esse o objectivo). Aí contei de dois casos de que eu tenho conhecimento, de duas mulheres que ficaram grávidas em condiçoes dramáticas: uma por incesto e outra por ser incapaz (é débil mental). Em ambos os casos, foi interposta uma comissao de ética que nunca se pronunciou. Os prazos foram ultrapassados e as duas crianças foram institucionalizadas por nenhuma das mulheres ter condiçoes de ficar com as crianças, nem haver ninguém da família que o quisesse ou pudesse fazer. E aqui chamei-os de ignorantes, de nao quererem saber a realidade e até insinuarem que histórias como a da sra paraplégica ou da menina de 14 anos contada pela Fernanda Cancio sao feitas a jeito.

A minha acusaçao fortaleceu-se. O que vai contra as fantasias daquela gente é censurado.

quarta-feira

Liberais, liberais, costumes 'a parte

Na caixa de comentários do Blasfémias, um dos blasfemos pronuncia-se contra uma das pedras mestras do liberalismo.

«Se o "Sim" ganhar, ninguém vai impor nada a ninguém...»
Vai sempre, num caso ou noutro, as pessoas individualmente terão de viver numa sociedade que não se rege pelas regras que defendem.
Gabriel Silva | Homepage | 30.01.07 - 7:54 pm | #

Desconstruçao

A Helena continua a mostrar os calcanhares de alguns aquiles do "nao" tuga (e do assim nao).

p.s.: aquela "Carta 'a minha mae"... Sem palavras. É que nao penso que existam palavras para descrever o que aquele texto é. Estou, como diria o Marcelo Rebelo de Sousa, com uma indisposiçao, uma depressao, um estado de alma que nem sei.

p.s2: melhor ainda: deram as cartas a crianças de infantário. Se alguém me disser que um palhaço vestido de embriao anda a fazer uma tourné em Portugal eu já nao duvido.

I never came

terça-feira

Assim nao

Segundo entendi, a pergunta que o sr. Marcelo proporia seria "Concorda com a despenalizaçao da mulher grávida quando aborta?" Sem limites temporais. Eu votaria nao. Nao penalizar a morte de um ser sensível? Nao penalizar aos 6, 7, 8 meses? Nao penalizar a morte de um ser que já tem consciencia, que reaje a sons, que sente as vibraçoes do liquído amniótico, que ouve e se relaciona com a voz da mae, que fica triste se ela está triste, que fica feliz se ela está feliz? Nao, assim nao.

Nao sei se ainda nao entenderam, mas até 'as 20 semanas o feto nao tem consciencia, nao sente dor, nao tem qualquer percepçao do mundo que o rodeia, do que é ou deixa de ser. Assim, para mim a liberalizaçao do aborto até 'as 10 semanas nao vai contra o princípio fundamental, para mim, de protecçao de seres sensíveis. Um feto de 10 semanas é vida, mas somente vida. Nao há sentir, quanto mais pessoa. Merece respeito por ser parte humana e por isso é importantíssima a educaçao para a responsabilizaçao na sexualidade. Como parte humana nao deve ser banalizado. Mas esta é uma questao moral individual, que a sociedade, todos nós actuamos ao nível educativo. Sejamos racionais e vejamos o que está em jogo. As vidas sentientes que realmente estao em jogo. Nunca percamos de vista os valores fundamentais de protecçao de quem nao deve nunca sofrer por moralismos, por hipocrisias, marcelices e suas relativas indisposiçoes cerebrais.

Verifico agora que a actual pergunta que vai a referendo é perfeita para mim. Protege o que deve ser protegido. Despenaliza quando ainda nao há pessoa, permitindo a escolha da mulher em condiçoes seguras. É isto que quero. De resto, quando há uma pessoa deve haver penalizaçao. Nao entendo os do "Nao", acho-os incoerentes, incompreensíveis, agora com o Sr. Marcelo, passei a achá-los imorais.

P.S.: e como mulher continuo impressionada com a forma como as minhas capacidades intelectuais, morais e de livre-arbítrio sao vistas pelos homens portugueses. Faz-me lembrar o que se le de tempos passados: a mulher infantil, incapaz, a mulher anjo e demónio, a mulher temível, mas que necessita também de protecçao. Em que tempo medieval viveis? Que mulheres é que conheceis? Nao entendo.

segunda-feira

Há vida inteligente em MRS?

ProntoS, lá fui ao You Tube ver o que é que afinal disse Marcelo Rebelo de Sousa. Fiquei com dúvidas.

versao gatos fedorentos

Nao existir

Eu já tinha escrito este poste há uns tempos, mas estava indecisa em postá-lo. Resolvi faze-lo porque vi um poste em que se informa que os do "Nao" já andam com o absurdo slogan "E se tivesses sido abortado?". Por motivos pessoais esta é uma pergunta a que fui exposta. E se pensam que esta foi uma violencia desnecessária, informo que saí incólume, e se vos aflige quem me tentou usar os sentimentos, sintam a mesma repulsa pelos que usam esta táctica nesta campanha.

Entao cá vai:

Arremetida em lutas familiares que nao vou esmiuçar, desvelaram-me que quando eu estava em processo de construçao in uterus, o meu pai queria que a minha mae abortasse. Por esta altura, eu conhecia o meu pai intimamente. Nunca duvidei do seu amor por mim e pareceu-me descabido que algo que tinha acontecido antes de nos termos conhecido pudesse de alguma forma violentar a nossa relaçao. Comuniquei a irrelevancia do que me tinha sido dito e saí deixando os adultos nas suas infantis guerras.

Nunca a sensaçao de irrelevancia me abandonou, nao só no que o meu pai significa para mim, como se uma esposa fizesse uma cena porque o marido nao a amou antes de a conhecer, como a irrelevancia para a minha vida. Se eu nao tivesse nascido, nao tinha existido e nada. Há pessoas que diriam que eu teria sido assassinada. Para mim seria a nao existencia. Para mim nao existir e morrer nao é a mesma coisa. Relativamente ao que eu era nessa altura em que o meu pai duvidava, a discussao parece-me tao descabida como discutir o sexo dos anjos.

Eu votaria "sim" se pudesse, os meus pais disseram-me que votam "sim". Para mim, tem mais relevancia pensar nos que existem, nos que sentem, nos que tem consciencia, com tudo o que isso implica. Muitas vezes eu sinto, num amargor de coraçao, que se pensa mais no que nao existe, poderia existir ou no abstracto, do que nas pessoas de carne e osso. Eu sou pela pequena janela de oportunidade que este referendo dá, para a livre escolha da pessoa que está viva ao meu lado. Da mesma forma consciente e relevante que eu e o meu pai nos amamos porque ambos existimos. O resto é para o caso de eu querer escrever um livro de ficçao.

Convite para a vida

Há uma alínea da actual lei dos crimes contra a vida uterina, lá nas excepções, que a mim me causa arrepios. É quando dá a possibilidade de abortar até às 24 semanas em caso de mal-formação do feto. Há prematuros de 24 semanas que sobrevivem, ainda que com sequelas. Assim, fico transtornada com este pessoal do "Não" a afirmar a vida, a vida é desde a concepção, é para proteger! Parece que sim, desde que seja cem por cento como a maioria de nós. Mediana na normal e se não estiveres como deve ser, adeusinho, nem que o aborto já seja mais um parto. Se bem que pelo que escrevem, parece que o pessoal do "Não" ainda não se deu conta. Eles por vezes parecem desconhecer a actual lei. Isso ou hipocrisia. Mas quando finalmente derem conta, contem comigo para baixar este limite. Ok? Alegrar-me-ia vê-los a lutar realmente pela vida e dignidade da pessoa humana.


P.S.: já agora, isto é verdade?: O secretário-geral do PCP acusou sábado «as forças pró-não» no referendo do aborto de demagogia ao defenderem maior apoio à família, já que estiveram silenciosas quando a reforma do Código do Trabalho reduziu a licença de maternidade, escreve a Lusa.
«Onde estavam quando a reforma do Código do Trabalho promovida por Bagão Félix, ele próprio defensor do Não, veio reduzir a licença de maternidade e o carácter universal do abono?
Só me dais desgostos.

Sour Times

domingo

Porque sim, pá

Ontem encontrei um tuga numa festa. Dez minutos de conversação e passamos o resto da festa a evitarmo-nos. Para além de ignorante orgulhoso, há aquela postura do Portugal atrasado e quando "explica" (entre aspas, porque nao houve realmente explicaçao, houve uma enumeraçao de cliches) porque acha o país atrasado compreende-se que mais do que o país, o tipo é que é atrasado. Ah, ele é pelo sim no referendo, que ele nem sabia que ia acontecer, porque... Porque é moderno. Tão a ver? A razão é essa. Ele é pelo "Sim" porque os países não atrasados são pelo "Sim". Enfim...

sábado

My state of mind



The sound, not the lyrics.

sexta-feira

Quando o sonho nasce acorda para a realidade de ser pessoa e se for mulher digam-lhe que vale menos que o esboço.

leiam isto

Escolhas

Nao entendo o amor por um esboço sem sentir quando em detrimento do amor pelo próximo ao meu lado. Ou seja, o amor pela fantasia (porque pensais no esboço ou no que pensais será o esboço?) em detrimento do amor pela realidade. Ou seja, a escolha de nao ver a pessoa que sente, que sofre, que erra, que chora, para preferir o sonho. E no sonho toda a gente ri. Sao tao bons os sonhos.

fodinha

Coisas que nao entendo

Eu vejo por aí gente que tem uma opiniao generalizada das mulheres tao má, que nao entendo como é que podem querer que elas sejam maes.

A vida é uma viagem que aceito sem condiçoes



Capitão Romance
Ornatos Violeta

Não vou procurar quem espero
Se o que eu quero é navegar
Pelo tamanho das ondas
Conto não voltar
Parto rumo à primavera
Que em meu fundo se escondeu
Esqueço tudo do que eu sou capaz
Hoje o mar sou eu
Esperam-me ondas que persistem
Nunca param de bater
Esperam-me homens que desistem
Antes de morrer
Por querer mais do que a vida
Sou a sombra do que eu sou
E ao fim não toquei em nada
Do que em mim tocou

Eu vi
Mas não agarrei

Parto rumo à maravilha
Rumo à dor que houver pra vir
Se eu encontrar uma ilha
Paro pra sentir
E dar sentido à viagem
Pra sentir que eu sou capaz
Se o meu peito diz coragem
Volto a partir em paz

Eu vi
Mas não agarrei

quinta-feira

jogar a feijoes

Agora a malta da blogosfera de referencia entrou naquela fase que se pode comparar aos duelos de comida na cantina da escola. Assim, deixemo-los.

A Helena matutou no que vai ser levado a referendo a 11 de Fevereiro. Vale sempre a pena ler os matutos da Helena.

P.S.: encontrei um excerto soberbo de outro texto do JPP [o anterior]. Digamos que existe uma melhoria de opiniao prós meus lados relativamente a este senhor. Demonstra uma sensibilidade aguda do que significa o aborto para as mulheres. Estou quase a admirá-lo. Poramordedeus, que venha o dia onze depressa!

P.S.2: Falei cedo demais. Parece que o JPP no que falta do tal texto faz a sua habitual moralizaçao. Aquela que chateia até dar mosca. E os do "Sim" estao danados. Nao me apetece fazer as ligaçoes, mas em caso de interesse por ler despeitados: "arrastao" e "cinco dias". Nao sao textos interessantes, mas deram-me pelo menos o descanso de que o JPP continua a mesma pessoa que eu posso nao gostar calmamente.

quarta-feira

O grito no monte

Enquanto leio o último livro do Lobo Antunes, e como já me aconteceu antes a ler livros destes, eu penso que este livro foi escrito por uma necessidade funda de arrumaçao de sentires. Posso estar errada, possivelmente estou, mas imagino o acto de escrita para alguns escritores como o que o sonho é para o nosso cérebro: uma necessidade para manter a sanidade.

Confesso que procuro respostas. De novo estarei profundamente enganada. Poderei estar enganada de muitas formas; nem respostas, só perguntas, nem perguntas.

Depois do acto de escrever importar-se-á o escritor com o que acontece com o livro? Pensará como é que estará a ser interpretado? Se alguém lhe captará o significado, se alguém lerá o seu espectro?

Importo-me eu como vós interpretais as minhas frases? Nao. Mas há algo na escrita, como um grito num monte que faz eco no vale, que nos liberta de algum do peso. Nada resolvido, nada respondido, mas a sanidade mantém-se por mais um tempo.

terça-feira

por mais que faça nao me sai este sabor da boca de vidro e sangue

Caso de estudo: as pessoas felizes sao intrometidas

Parlamento dinamarquês apela ao "sim" no referendo em Portugal



No artigo Why danes are smug: comparative study of life satisfaction in the European Union.

Se tem preguiça de ir ler eu digo-vos a razao dos dinamarqueses serem os mais satisfeitos: sao optimistas, satisfeitos com o que tem. Agora reparem bem a "pole position" dos portugueses. É que só reclamais!

segunda-feira

aqui vai, caríssima

Dizes que sou incrível e parece que sou incrível
e toda a gente acha que sou incrível e parece que
neste meu papel de incredibilidade nao consigo
enquadrar-me no mundo.
Poderia concluir que nao há lugar no mundo para os incríveis.
Mas isso parece-me mal.
Eu pareço incrível, mas só sou estuque a cair sobre a cabeça das pessoas
que acham incrível que haja estuque a cair do céu.


Beijos.

Assim se dizia, em Abril de 1982

"O acto sexual é para ter filhos." - disse na Assembleia da República, no dia 3 de Abril de 1982, o entao deputado do CDS Joao Morgado, num debate sobre a legalizaçao do aborto.

Assim publicou, o Diário de Lisboa, a 5 de Abril desse ano, a resposta de Natália Correia em forma de poema:

Já que o coito, diz Morgado,
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;

e cada vez que o varao
sexual petisco manduca,
temos na procriaçao
prova de que houve truca-truca.

Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusao
de que o viril instrumento
só usou, parca raçao!

uma vez. E se a funçao
faz o órgao, diz o ditado,
consumada essa excepçao,
ficou capado o Morgado.


Recebido por meile (sim, eu gosto desta palavra, ninguém tem nada a ver com isso e vao mas é salazarar pra outro lado).

A boa vontade dos apaixonados

Um amigo meu ve-me e agradece-me eu ter nascido. Eu saliento a minha completa nao participaçao no processo e ofereço-me para lhe dar o número de telefone dos meus pais. Ele faz um trejeito divertido e sai esvoaçando pela janela.

P.S.: Da maneira que isto anda, sinto-me numa festa em que está tudo bebado, excepto eu. Felizmente ando a ler o último livro do António Lobo Antunes.

domingo

say no



ceguetas, cliquem para aumentar


mais aqui

POsso também intitular este poste como "as várias facetas de um nao", tornando mais claro que estou de uma forma macarrónica de mistura de tudo o que me vai na cabeça, a pensar no referendo. Perdoem-me, ando a ler o último romance do António Lobo Antunes.

sexta-feira

Cabroes

É nestes momentos que eu percebo as minhas amigas que veem a IVG como uma luta da mulher. Que veem a penalizaçao nao como a protecçao da vida, mas como uma mordaça. Vida é só para disfarçar. Quando eu leio a mentalidade que aqueles juízes ali embaixo vomitam eu dou-lhes razao. A discussao 'a volta da IVG nao é sobre vida! Eu nao tenho dedos para contar o nr. de tarados que de várias formas e feitios se exibiram, se masturbaram 'a minha vista e me apalparam. Eu visto-me como uma hippie montanheira, nao sou especialmente bonita ou elegante, nao uso mini-saia ou decotes, nao me pinto e sou tao rato de biblioteca que raramente me dou conta do que existe 'a minha volta, portanto, expliquem-me aqueles idiotas porque é que eu nao escapei, segundo a sua mentalidade sebosa, porque é que eu nao tenho dedos para contar os sustos que apanhei durante a minha vida? E sinceramente nao digo mais nada, que estou em vias de aspergir uma data de asneiras.

Eu desisto

do país que tendes.

p.s.: permisso, que eu vou ali ter um ataque de raiva.

Oh sr cónego

desculpe lá, que eu nao o conheço de lado nenhum, podia mas era mostrar a circular de Deus? Obrigado.

p.s.: e uma excomunhao prós juízes ali de cima? Arranja-se?

quarta-feira

Caso Torres Novas

Cá estou a retratar-me. Afinal o pai biológico nao foi enganado.

Talvez a publicidade deste caso venha sensibilizar os adoptantes para o perigo da entrega directa de uma criança. Normalmente nao há problemas, mas precavenham-se e cumpram os tramites legais em que a mae efectivamente passa a criança. Porque se houver alguem que se lembre de opor-se é este nó. A família biológica tem muito poder na legislaçao para menores.

E a próxima vez que me irritar respiro dez vezes.

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p.s.: um daqueles casos em que deviamos ter estado calados. -> Texto Integral do Acórdão.

Obrigado.

terça-feira

A estúpida procura da felicidade

Vídeo imperdível de uma palestra do psicólogo Dan Gilbert, de Harvard.

Tanto mundo lá fora


No Chade, novembro de 2006, pessoas fugidas de ataques de milícias árabes. Foto de Kadir van Lohuizen

Selecçao da Human Rights Watch para o seu relatório de 2007.



Janeiro de 2006, Mikhail Baryshnikov, fotografado por Annie Leibovitz.


Selecçao Vanity Fair para o ano de 2006.

Grécia, 1963

O melhor de Elliott Erwitt, na Magnum.

sexta-feira

Vem, senta-te ao meu lado.

Gosto-te.

Isto dá pra resoluçao do ano 2007...



Devil May Care, Diana Krall

No cares for me
I'm happy as I can be
I learn to love and to live
Devil may care

No cares and woes
Whatever comes later goes
That's how I'll take and I'll give
Devil may care

When the day is through, I suffer no regrets
I know that he who frets, loses the night
For only a fool, thinks he can hold back the dawn
He was wise to never tries to revise what's past and gone

Live love today, love come tomorrow or May
Don't even stop for a sigh, it doesn't help if you cry
That's how I live and I'll die
Devil may care

quinta-feira

Anedotas do Leste

Num comboio viajavam Stalin, Khrushchov, Brejnev e Gorbatchov. A certa altura o comboio pára e assim fica. Após algum tempo Stalin impacienta-se e estrebucha: "Deviamos fuzilar o maquinista!". "Niet, basta reabilitá-lo." - diz Khrushchov. "Fechemos as cortinas e façamos de conta que ainda estamos a andar" - interpoe Brejnev. "Olhem. E se saíssemos e empurrássemos?" - propoe Gorbatchov.

Na Roménia dois homens estao numa bicha para comprar pao. Após horas um deles impacienta-se: "Estou farto disto, deste sistema! Vou matar Ceausescu!". E vai-se embora. Duas horas depois retorna. "Entao? ". "A bicha lá ainda é mais comprida que esta."

- Alembradas de um documentário sobre o humor no leste europeu.

quarta-feira

Assino por baixo

«o estado garante» (argumentário liberal contra o direito fundamental ao aborto 1)

p.s.1: Como o CAA do mesmo blogue afirma, esta é uma questao a jusante do actual referendo. Eu votaria "sim" (nao posso votar que sou emigra); contudo, sou contra a tomada de responsabilidades colectivas, com excepçao no caso de perigo para a saúde da mulher, quer física quer psíquica. Por alguma razao se há-de chamar Sistema Nacional de Saúde. Que o SNS hoje se responsabilize pelas consequencias do aborto clandestino é exactamente na defesa da saúde de quem a tem em perigo. O "sim" neste referendo serve exactamente para eliminar esta situaçao.

p.s.2: argumentário liberal contra o direito fundamental ao aborto - 2

"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"

Na pergunta nao se define a participaçao do SNS, pelo que posteriormente, em caso de "sim", este nao poderá ser visto como apoio ao aborto no SNS.

Que o governo, na pessoa do ministro da saúde, esteja a realizar a política da asneira concordo, mas a oposiçao a essa asneira nao pode ser feita 'as custas do "sim" a uma pergunta que nao inclui a asneira.

Discriminaçao

Nao posso votar.

terça-feira

Babel


Babel, o filme, é como entrar numa loja de bric-brac: muita coisa, muita pantomineirice, muita parra... mas lá pelo meio há descobertas, por entre movimentos pode ser que se aviste algo que valha mesmo a pena. E sim, há coisas no filme que valem a pena, nem que seja a sensaçao com que se fica quando se sai da loja, de uma procura que deu gosto, ainda que o dono da loja tenha andado atrás de nós a manipular-nos claramente. Estas coisas prefiro-as subtis.

O filme nao é exactamente descomunicaçoes linguísticas. É nao existir comunicaçao. Mesmo quando se fala a mesma língua. Cada partícula aninha-se em si mesmo e nao fala e nao ouve. Os turistas americanos olham pelas janelas do autocarro um mundo estranho. O casal discute e anseia. Os marroquinos seguem com os olhos e os pés os estranhos americanos. Os americanos temem os mexicanos e estes os americanos. A rapariga japonesa vive isolada na sua língua. O pai nao fala com o filhos. O polícia e o condutor provocam-se. O filme nao é Babel, nao é a cidade das muitas linguas num sítio. O filme sao tres histórias e cada um fala para dentro. Na Babel a compreensao nao vem pela boca.

No fundo, no fundo, Babel que dá a ideia de um vasto cenário, é um filme limitado a um universo muito mais pequeno: ao de cada indivíduo, 'a sua noite e 'as luzes que a iluminam. E isso, para cada um de nós, nao é 'a distancia de continentes. E' na distancia de um abraço, de um beijo, de maos a tocar-se, de lágrimas vertidas sobre quem se quer mais que 'a vida.

P.S.: vi a apresentaçao do filme de que falas. Pareceu engraçado. Ficamos a saber a razao do bigode do Hitler. O uso do humor nao é em princípio contrário a tema algum. Bem pelo contrário. É nos assuntos mais difíceis que o humor pode abrir portas de discurso que nao se consegue de outra forma. Contudo, ainda nao vi o filme e nao sei ainda o seu valor. Hitler nao deve ser tema tabu, muito menos na Alemanha. Eu penso que os alemaes precisam destes filmes e nao se ponham com teorias de que estao a tentar limpar a imagem do facínora. Vejam isto como catarse e tentem fazer o mesmo relativamente aos vossos fantasmas.
iraque

segunda-feira

Interrupçao da Gravidez: a lei actual

A LEI ACTUAL DIZ:

CAPÍTULO II
Dos crimes contra a vida intra-uterina
Artigo 140.º
Aborto
1 - Quem, por qualquer meio e sem consentimento da mulher grávida, a fizer abortar é punido com pena de prisão de 2 a 8 anos.
2 - Quem, por qualquer meio e com consentimento da mulher grávida, a fizer abortar é punido com pena de prisão até 3 anos.
3 - A mulher grávida que der consentimento ao aborto praticado por terceiro, ou que, por facto próprio ou alheio, se fizer abortar, é punida com pena de prisão até 3 anos.

Artigo 141.º
Aborto agravado
1 - Quando do aborto ou dos meios empregados resultar a morte ou uma ofensa à integridade física grave da mulher grávida, os limites da pena aplicável àquele que a fizer abortar são aumentados de um terço.
2 - A agravação é igualmente aplicável ao agente que se dedicar habitualmente à prática de aborto punível nos termos dos n.os 1 ou 2 do artigo anterior ou o realizar com intenção lucrativa.

Artigo 142.º
Interrupção da gravidez não punível
1 - Não é punível a interrupção da gravidez efectuada por médico, ou sob a sua direcção, em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido e com o consentimento da mulher grávida, quando, segundo o estado dos conhecimentos e da experiência da medicina:
a) Constituir o único meio de remover perigo de morte ou de grave e irreversível lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida;
b) Se mostrar indicada para evitar perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida e for realizada nas primeiras 12 semanas de gravidez;
c) Houver seguros motivos para prever que o nascituro virá a sofrer, de forma incurável, de doença grave ou malformação congénita, e for realizada nas primeiras 24 semanas de gravidez, comprovadas ecograficamente ou por outro meio adequado de acordo com as leges artis, excepcionando-se as situações de fetos inviáveis, caso em que a interrupção poderá ser praticada a todo o tempo;
d) A gravidez tenha resultado de crime contra a liberdade e autodeterminação sexual e a interrupção for realizada nas primeiras 16 semanas.
2 - A verificação das circunstâncias que tornam não punível a interrupção da gravidez é certificada em atestado médico, escrito e assinado antes da intervenção por médico diferente daquele por quem, ou sob cuja direcção, a interrupção é realizada.
3 - O consentimento é prestado:
a) Em documento assinado pela mulher grávida ou a seu rogo e, sempre que possível, com a antecedência mínima de 3 dias relativamente à data da intervenção; ou
b) No caso de a mulher grávida ser menor de 16 anos ou psiquicamente incapaz, respectiva e sucessivamente, conforme os casos, pelo representante legal, por ascendente ou descendente ou, na sua falta, por quaisquer parentes da linha colateral.
4 - Se não for possível obter o consentimento nos termos do número anterior e a efectivação da interrupção da gravidez se revestir de urgência, o médico decide em consciência face à situação, socorrendo-se, sempre que possível, do parecer de outro ou outros médicos.
Contém as alterações introduzidas pelos seguintes diplomas:
- Lei n.º 90/97, de 30 de Julho
Consultar versões anteriores deste artigo:
- 1ª versão: DL n.º 48/95, de 15 de Março

foi-me mandado pel'o timoneiro perdido.

o Ausente

Tu, Ausente que é preciso amar…

final que nos escapa e perseguimos

como sombra de um pássaro pela vereda:

não mais quero buscar-te.


Vibrarei sem quase olhar a minha flecha,

se a corda do coração não estiver tensa:

o mestre d’arco zen assim me ensina

ele que há três mil anos Te observa.


Cristina Campo (1923-1977) -> X

domingo

Mal empregado


de José Bandeira

Um homem que se interessa pelos lagos de metano num satélite de saturno? Isso é que era bom!

sábado

O humor de Sasha Baron Cohen

[...] Of course, far from being retarded, the character Ali G possesses an abundance of street smarts and cunning. His mind, however, appears to have been entirely untouched by any trace of education, setting up a cultural divide that always proves unbridgeable and usually leaves his guests sputtering.

Interviewing the former American astronaut Buzz Aldrin, for example, Ali introduces him as the man who walked on the moon with “Louie Armstrong,” asks Aldrin whether he is not “upset that Michael Jackson got all the credit for inventing the moonwalk,” and inquires whether people will ever walk on the sun. “No, it’s too hot,” replies Aldrin. “I mean in winter,” corrects Ali patiently.

Another American guest, a representative of the Drug Enforcement Agency, warns youngsters of the dangers of substance abuse. Speaking of hashish, he explains that it “slows your ability to learn . . . your brain just really slows down.” Ali: “And are there any negative effects?” When the agent remarks that drugs seized by the agency are incinerated, Ali is perplexed: “Why aren’t they given to charity?” [...]

The instant success of Borat no doubt owed something to the assistance unintentionally supplied by the government of Kazakhstan. Just before its release, the president of that country arrived in Washington for a state visit with the man whom Borat invariably refers to as “Premier Bush,” and was reported to be planning to voice his displeasure at Baron Cohen’s antics. For its part, the Kazakh embassy called a press conference to refute what it was sure would be the movie’s misrepresentations; with presumably the same end in view, a four-page ad was taken out in the New York Times to extol the country’s modernity.

Baron Cohen seized upon all this to call a press conference of his own, in which, in his persona as Borat, he accused the Kazakh embassy spokesman of being an “Uzbek imposter” and denounced the ad in the Times for its “disgusting fabrications” that women and minorities enjoy equality in Kazakhstan. If Uzbekistan did not cease such provocations, he warned, Kazakhstan would attack “with our catapults.”[...]

It is the world represented by Borat himself, which is not really Kazakhstan but the third world in general and the excruciatingly respectful attitude that our own world, represented by the Americans whom Borat encounters, maintains toward it.

As the movie makes wholly explicit, the differences between those two worlds are in fact all too real. They consist not only in disparities of wealth but also in something less readily mentioned: namely, the respective quality of social norms, especially as these are evidenced in the treatment of Borat’s two favorite topics, women and minorities.

As if to confirm the accuracy of Baron Cohen’s darts in this direction, two Kazakh doctoral candidates currently studying at U.S. universities gave an interview to the Chicago Tribune in an effort to correct the false impressions of their homeland conveyed by the movie. Asked whether Kazakhs do sometimes kidnap brides, a feat Borat attempts with Pamela Anderson, one replied: “Yes, it still happens occasionally in our country—[but] mostly in the south, never in the north.” Besides, he added, it only happens “if a boy likes a girl and he and his family do not have enough money to pay the bride price.” Oh, well, in that case . . .

This raises another subject of concern to the critics. In ridiculing such sensibilities and practices, Baron Cohen makes relentless use of the rhetoric of anti-Semitism.[...]

Given that Baron Cohen is himself a Jew, and is reported to maintain some degree of religious observance, this has become the most controversial motif of his film. A statement by the Anti–Defamation League expressed concern that “the audience may not always be sophisticated enough to get the joke, and some may even find it reinforcing their bigotry.” By contrast, others have applauded Baron Cohen for delivering what they see as an effective slap at anti-Semites or, indeed, as laying bare the anti-Semitism that may be lying just beneath the surface of ordinary American life.[...]

At first I thought the ADL’s complaint absurd. Anyone who fails to realize the satiric purpose of Borat’s Jew-baiting must be as retarded as I once took Ali G to be. On second thought I am not so sure. It does seem possible that the license Baron Cohen has claimed for himself could open space for other comics to make jokes in which it is less clear who exactly is the butt, the anti-Semite or the Jew.

On the other hand, the argument that Borat strikes a blow against an already existing anti-Semitism among Americans leaves me cold. Today’s anti-Semitism is rooted in hatred of Israel and in contempt for Diaspora Jews who support Israel. The old, superstitious belief that Jews sprout horns or poison wells—the focus of Baron Cohen’s satire—no longer cuts deep, and certainly not in this country.[...]

In any case, the preoccupation with Borat’s preoccupation with the Jews has obscured another aspect of Baron Cohen’s routine. While American Christians are the best friends of the Jews, the Muslim world is rife with hostility toward them. “Ali,” as in Ali G, is a Muslim name. Kazakhstan is historically a Muslim country, although Soviet policies of Russification reduced the percentage of Muslims to no more than half. We live in a time when throwing Jews, or the Jewish state of Israel, “down the well” has gained the status of official Islamist policy. Is it wise for a Jewish comic to be tiptoeing so close to mockery of Muslim characters? [...]


Joshua Muravchik

sexta-feira

No fio da navalha

Quando fui a Portugal ouvi várias pessoas a dizerem que a lei actual já basta, que é só preciso faze-la funcionar. Eu concordo. Os casos que me parecem justificar moralmente a prática do aborto parecem-me incluídos nas tais excepçoes da lei. Só que nao funciona e há sempre histórias novas, nomeadamente no que concerne a violaçoes, que entre papelinhos para trás e para a frente, o prazo ultrapassa-se e nao se faz o aborto. Eu nao sei se as pessoas que andam no pingue-pongue burocrático o fazem de propósito. Nao sei, mas se calhar encostam-se. E atirem-me uma pedra se faz favor, mas tenho a impressao que os médicos ainda estao no mundo da quantidade e nao da qualidade. A vida é conseguir respirar, o resto nao lhes interessa nada. Estou a generalizar uma cultura do ser-se médico, que acho bem que mude. Uma vez soube de uma história de uma toxicodependente que também era extremamente fértil. As assistentes sociais a receber todos os anos um rebento resolveram pedir a esterilizaçao da senhora. Os médicos responderam que nao podiam pois ela era demasiadamente nova. Que ela nao conseguisse controlar a sua capacidade produtiva, que ela nao conseguisse criar os filhos, que ela nao se dispusesse a dá-los para adopçao ou que o próprio sistema jurídico de protecçao aos menores nao funcione pelos menores ou que os menores estivessem a ser empilhados em instituiçoes sociais nao lhes interessou mesmo nada. É por estas e por outras que eu sou pró-escolha. O meu pró-escolha é pragmático. A dependencia de um sistema destes (médico, jurídico, social) para tomar decisoes nao se justifica quando o bónus do erro é principalmente, nomeadamente, praticamente privado. Prefiro que seja dado o poder de escolha aos indivíduos que a uma estrutura destas. Penso que as injustiças serao menores. O máximo possível das vidas de cada um deve ser posto sobre a sua alçada e até, neste caso 10 semanas, para mim, justifica-se dar prioridade aos indivíduos que 'a potencialidade de indivíduo. Isto é o fio da navalha. Todo o pensar da IVG, para mim, é no fio da navalha.

Os cheios de vida

de todos os argumentos esdrúxulos do não (desculpem lá a falta de, como dizer?, amabilidade dialogante ou mais propriamente hipocrisia diplomática, mas a mim soam-me todos do mais esdrúxulo que se possa imaginar), o que mais me deixa boquiaberta é o daqueles que frisam a semelhança entre a lei espanhola e a portuguesa e defendem que não é preciso mudar a lei portuguesa porque esta poderia e deveria ser aplicada 'como em espanha'.

como em espanha, portanto, permitindo-se às mulheres que abortem 'a pedido' até às 12 semanas alegando razões de saúde psíquica? é mesmo isso que estas pessoas querem? é isto que querem dizer?

teremos pois de concluir que para estes defensores do não, a proposta referendária peca por dois motivos: prazo demasiado curto e excesso de honestidade. nenhum problema, então, em que as mulheres abortem até às 10 semanas (estes queridos até acrescentam duas de bónus) desde que pareça que não é por decisão delas.

a não ser, claro, que quem assim argumenta esteja a apostar no que é óbvio -- uma lei em vigor há 23 anos e há 23 anos aplicada de uma determinada forma nunca será aplicada de outra maneira.

que tal serem mulherzinhas e homenzinhos e assumirem, de uma vez por todas, o que realmente querem e o que realmente os apavora?


Este pessoal do "nao" enterra-se a um ritmo que os do "nim" ainda os hao-de ter de salvar e fazer-lhes boca-a-boca. Eu por mim, que geralmente ando pelo "nim" e vou ouvindo os dois lados, ainda nao li nada de geito do lado deles e nao me apetece nada salvá-los (sendo o salvamento aqui, o limpar um pouco da vergonha das suas racionalizaçoes).

Ontem li no Público sobre um agrupamento de humanos pós-parto que sendo pelo "nao", se declarava de pró-vida. Seguramente eu partilho algumas ideias deles e seguramente nao partilho doutras. Um dia destes escrevo aqui a minha posiçao sobre o assunto, que eu sendo pró-escolha e pró-vida (sendo esta última redundante já que praticamente todos nós somos pró-vida, seja qual for a nossa resposta no referendo), também tenho os meus pontos em comum com os defensores do "nao" e também eu prioritarizei sensibilidades.

O que a mim me chateia nesta gente é a hipocrisia e a desonestidade. Nesta discussao dizer-se pró-vida, colocando-se isso em contra-ponto com os que nao concordam com eles, é ofensivo. Eu pelo menos sinto-me ofendidíssima. No mesmo nível de repulsa com que me sinto quando vejo as senhoras com as barrigas expostas e dizeres "esta barriga é minha", como se estivessemos a discutir fisiologias, numa reduçao do ser-humano e, por arrastamento, do que é viver numa sociedade. Eu nao me bato pelo direito absoluto. Nao há direitos absolutos. Quem os quiser deve mudar-se para uma ilha e morar sozinho.

Dizer-se pró-vida neste ambito é tao significativo como ser-se pró-atmosfera ou pró-entropia. Isso só tem significado como insulto. Considero-me insultada e cada vez menor é o meu respeito por esta trupe cheia de vida, mas falha de juízo.

quinta-feira

sou egoísta na dor
ou sou delicada na dor
ou sou respeitosa na dor
ou sou ciosa na dor

há a perda e a ausencia
partilhar a ausencia e a dor
é contaminá-la
no momento do adeus

o adeus é de mim para ti
que já aqui nao estás
é entre mim e eu
que vou viver sem ti

mas nunca entre a minha dor
e os outros
a minha dor e a tua ausencia
serao fieis no adeus

nao há convençao
nao há expectativa
nao há imposiçao
nao há nada de fora que me vá retirar do nosso adeus

porque, e já dizia alguém antes de mim,
a morte nao existe
só existe eu que morro e tu que morreste.

quarta-feira

O lar

Nós dependemos obliquamente do que nos rodeia para, por um lado, dar consistencia aos nossos estados de alma e 'as ideias que respeitamos e, por outro lado, para nos lembrar dessas mesmas ideias e estados de alma. Nós procuramos que os edifícios que habitamos nos retribuam como um molde psicológico, uma visao pessoal que nos apoie. Nós dispomos 'a nossa volta formas materiais que nos comunicam o que necessitamos interiormente (mas estamos sempre em risco de esquecer). Nós viramo-nos para o papel de parede, os bancos, as pinturas, as ruas, para evitar o desaparecimento do nosso verdadeiro eu.

Aqueles lugares que reflectem e legitimizam a nossa visao interior servem-nos de lar. Esse lar nao é necessariamente o local que nos serve de casa ou onde depositamos as nossas roupas. Falar de lar em relaçao a um edifício é simplesmente reconhecer a sua harmonia com a nossa própria cançao interior. O lar pode ser um aeroporto ou uma biblioteca, um jardim ou um restaurante 'a beira da auto-estrada. O nosso amor por um lar é um reconhecimento de até que ponto a nossa identidade nao é auto-determinada. Precisamos de um lar no sentido psicológico tanto quanto precisamos de uma casa no sentido físico: para compensar uma vulnerabilidade. Precisamos de um refúgio onde colocar os nossos estados de alma, porque tanto do mundo é oposto 'as nossas causas. Precisamos do "nosso cantinho" para que nos alinhemos com as versoes desejáveis de nós e para manter viva a nossa parte importante e evanescente.

Provavelmente foram as grandes religioes mundiais que mais pensaram o papel do que nos rodeia na determinaçao da identidade e assim - ainda que raramente construindo locais onde facilmente pudessemos adormecer - mostrando a maior das simpatias pela nossa necessidade de um lar. O princípio fundamental da arquitectura religiosa tem as suas origens na noçao que onde estamos determina de forma crítica o que somos capazes de acreditar. Para os defensores da arquitectura religiosa nós, ainda que muito convencidos intelectualmente do nosso compromisso com os ditames do credo, só permaneceremos fieis a essa devoçao se esta for continuamente afirmada pelos nossos edifícios.

The Architecture of Happiness, Alain de Botton, Pantheon Books, NY, 2006, págs 107-108.

Traduçao minha.

O caminho da vergonha

Andei arredada das notícias da execuçao de Saddam Hussein. Há um cansaço meu, neste caminho longo desde o anúncio da administraçao americana da guerra contra o terrorismo. O descrédito de quem governa os americanos e de uma Europa que pilreia, que chilreia, que anda em pontas. Estes EUA que se tornaram a caricatura do idiota da aldeia a quem deram uma bazuca. Nesta colisao, o que fica é a facilidade com que se convence os cidadaos de Estados de direito, que os princípios base que os definem ou deveriam definir nao interessam nada. A tomada de pessoas e submissao a práticas bárbaras, a tortura, a prisao sem julgamento sao admissiveis, basta que se deslocalize a prática. Os meios nao interessam, os fins é que interessam e esses nao se sabem muito bem, em histórias conspirativas, em histórias da carochinha apaziguadoras de consciencias. Depende da sensibilidade. Em caso de eczema atópico pode-se acreditar na democracia, o maná.

A execuçao do Saddam Hussein é mais um passo no caminho da vergonha. E ainda relativamente ao Saddam Hussein, o seu julgamento já tinha sido um passo, o processo de apelo mais um passo apressado e as suspeitas que ficam mais uns tantos. Os americanos continuam a afundar-se em erros de julgamento, pensando que a morte do ex-ditador iria acalmar o conflito sectário.

Entre tanta morte e miséria, será que alguém vai aprender algo neste caminho de lodo? Ou vai esta civilizaçao ocidental ignorar as nódoas no que é hoje a fantochada dos seus ideais? A execuçao do Saddam Hussein nao prenuncia respostas positivas.

P.S.: temos novo secretário geral das naçoes unidas. Pensei que a quota de idiotas estava preenchida, mas infelizmente há sempre lugarzinho para mais um.

terça-feira

domingo

Entao um bom 2007 pró pessoal



honey, moby {not the whale}

p.s.: agora pergunta um: o que é que este vídeo tem a ver com passagens de ano? Este vídeo é o meu 2006 e boom! venha o novo. Eu hoje tou tao fixe que explico estas coisas.

sexta-feira

O direito de, em Portugal, só ter de saber portugues

Se passarem pelo aeroporto de Faro e virem umas máquinas de pagamento do parqueamento vandalizadas fui eu. Nessas máquinas, as instruçoes vinham somente em duas línguas estrangeiras. Eu adicionei o portugues. Isto nao é o único exemplo nos Algarves. Eu considero que, em Portugal, um portugues tem o direito de nao ter de saber mais do que portugues nas lides diárias. Aviso já a Província do Algarve: para a próxima levo um marcador melhor e mais difícil de lavar. E se me lixam muito começo a riscar por cima das instruçoes em ingles.

quinta-feira

Informaçao?

Eu vou lendo sobre a má qualidade dos telejornais, mas ainda assim, pouco habituada a ver televisao, fiquei boquiaberta que as vezes em que calhou ve-los em Portugal nao ter sabido nada de nada sobre tudo. Eu só me apercebi que eram telejornais porque havia alguem a introduzir os segmentos de qualquer coisa indefinida, entre fofoca e apontamento sociológico. Neste momento que estou a tentar lembrar-me de algo desse nada, só me lembro de uma senhora do jet-set (tinha um daqueles nomes de Pipi) a mostrar-nos que tem um Natal como todos os outros, esses outros com nomes totalmente banais e sem ponta de humor.

Fazer é comprar

Discordo. Passei uns breves dias na mae-nave e parece-me que em Portugal fazer é comprar. Ler é simplesmente esquisito. Uma sociopatia manienta. A nao ser que seja algo do Rodrigues dos Santos.

P.S.: dos que leem no wc pareceu-me coerente que lessem o expresso. Contudo, a minha amostra nao é de forma alguma exaustiva e inclui-me, o que limita enormemente conclusoes definitivas.

domingo

sábado

Sim, eu sou o homem dum só poema

dum só amor

duma só vida.


E no entanto cada dia de poesia

cada noite de amor

cada ano de vida

conduzem o homem fiel

a um homem novo.

Os degraus se assemelham

mas a cada um deles

eu estou um pouco mais alto.

Subo sem parar

no coração duma torre

subo para o fogo

para a idade do sol.


À hora do cimo

eu mereço o mar

e o céu num grito

me veste de luz.


Poeta: Pierre Boujut (1913-1992) -> X


Dedicado ao bloguista das quatro personalidades, que me vai ouvindo as fragilidades do ser.

sexta-feira

E como um blogue é para desabafar:

estao a ver os burros com as palas? É a maneira de ser alema, em que só veem prá frente. Porque é verboten, ou nao está escrito nas regras (tremam um pouco quando dizem a palavra regras). E mesmo que se prove 2+ 2=4 que a regra (de joelhos) é uma estupidez, ou que a regra (ai maezinha) nao diz que nao se possa fazer x, eles hao-de lutar pela pureza da regra (tremamos irmaos), ainda que possam dizer entre dentes que concordam connosco, mas a regra (brrrr) é um valor mais alto, que os guiará, nem que seja para serem todos fodidos em fila.

Ainda sobre a IVG

O coraçao do problema, de Fernanda Câncio no DN

Pessoas de consciência

É óbvio que um feto e mesmo um embrião são "vida". É óbvio inclusive que são vida da espécie humana. É por isto ser tão óbvio que tanto os apoiantes do "sim" como os apoiantes do "não" concordam que a decisão quanto a abortar é um problema moral e ético que se coloca a quem tem que decidir. E é por isto ser tão óbvio que há qualquer coisa de ridículo nas discussões sobre o "começo" da vida - feitas por qualquer dos lados da "barricada".

(...)

Mas será o referendo sobre os direitos das Pessoas, neste caso especificamente das mulheres? Em rigor, não. O referendo é sobre a despenalização, o que não invalida a punição do aborto depois das 10 semanas (tem que haver sempre uma fronteira, por arbitrária que possa parecer nos casos limite -10 semanas e 1 dia -, exactamente como na idade do consentimento, por exemplo - x anos e um dia). Não invalida tão-pouco que continue a existir o problema moral e ético referido acima. Problema ético e moral que deve ser resolvido pela consciência de cada uma das Pessoas autónomas que se vejam confrontadas com o problema. Incluindo as mulheres que, ganhando o sim, nunca serão obrigadas a interromper a gravidez (mas é mesmo preciso explicar isto?) se forem radicalmente contra o aborto. (...)


Miguel Vale de Almeida n'Os Tempos Que Correm

quinta-feira

Serviço Público

Pró caso de eu nao ser a última pessoa a saber, fiquem os outros a saber que existe a wikipedia do disparate.

Exemplo:

Portuguese was the first language that use the "u" vocal. Thanks to this, several vocabulary innovations were possible. Here are some examples:
  • Cows could say mooo for the first time;
  • Mad cows could say wohooo for the very first time;
  • Powder exploded for the first actually sounding like boom;
  • You would never exist.
Outro exemplo:

Islam (pronounced "I slam," as in "I slam planes into buildings") is a fellowship of Islamism. The term Islam is derived from the ancient Urdu word "Ishamada" which means "nitroglycerin."

Ainda outro exemplo:

O brasao da Roménia.

quarta-feira

A piada batida

Andei a saltitar de blogue em blogue e pareceu-me que os blogues masculinos que se acusam de ganhar uma posiçao na votaçao do Geraçao Rasca disseram todos a mesma piada: pró ano algo na na secçao feminina, sff. Será que ganhar encarquilha a originalidade? Será que sao todos escritos pelo mesmo transsexual? Aquilo é suposto ser um cumprimento?

P.S.: agora que fui tratar de fazer ligaçoes dei-me conta que sao só dois. Nota mental: nao escrever postes quando estou entediadíssima. Fico rabugenta.

terça-feira

Lei para enfeitar

Os defensores do sim à criminalização da IVG sabem bem que o estatuto de pessoa que dão ao embrião tem um mero valor argumentativo e retórico. Se assim não fosse, e sabendo-se que está em causa uma oportunidade de alteração legislativa, provavelmente não teríamos hoje uma querela entre os que entendem que a IVG deve ser descriminalizada e legalizada, e aqueles que entendem que ela deve ser uma prática condenada criminalmente, para passarmos a ter uma oposição entre os primeiros e aqueles que defendem um agravamento da pena, qualificando a IVG com uma moldura penal de um homicidio. Ora se os defensores do sim à criminalização são defensores de que o embrião é uma pessoa e mesmo assim aceitam que a moldura penal para a IVG seja diferente daquela que resulta da morte de um recém-nascido, também, continuando a achar que é uma pessoa, poderão aceitar que não tem sentido nenhum dizer-se que os oponentes da criminalização IVG entendem que há pessoas de primeira ou de segunda.

A incoerencia, como sabemos, é ainda pior: num certo desrespeito pelo que é a justiça e para que servem os juízes, os defensores do nao pretendem que os juízes esqueçam a lei e sejam uma espécie de agentes sermoneantes 'as prevaricadoras, que, segundo eles, mataram pessoas, mas taditas. Li, de um senhor que defende o nao, que a lei é reflexo de quem somos como uma sociedade. Concordo: uma sociedade que quer as leis só pra enfeitar, é mesmo nós. Porque, e esta já ouço há muito, Portugal tem da melhor legislaçao no mundo!... Para por na árvore de Natal.

desilusao

fiquei à espera do meu amor
e a tristeza foi-me cobrindo como noite
ao adormecer estava fria
ao acordar estava morta

domingo

The road to democracy in the arab world

Ensaio de Uriya Shavit.

Clearly, the United States must adopt a new doctrine, one that attempts to sever the connection in the Arab mind between democracy and the promotion of Western power. First, this doctrine must acknowledge the necessity of maintaining American forces on Iraqi soil, since a hasty withdrawal is liable to tip an already unstable situation toward wide-scale anarchy. Moreover, such a move will certainly be interpreted in the Arab world as proof not only of the West’s weakness, but also of the weakness of liberalism itself. Second, this doctrine should incorporate two new principles into its previously stated commitment to Iraq: One, a reduction in the contingency between potential outcomes of the democratization process in Arab societies and the condition of the American economy; and two, the universality of American standards in the field of human rights. Whereas the first principle will afford the United States more room for political maneuvering-and, in time, rid it of the suspicion prevalent in the Arab world that its true goals are imperialistic-the second principle will lend its foreign policy the credibility it currently lacks and help those Arab liberals who oppose their regime obtain the legitimacy denied to them today. Indeed, one of the main difficulties that today’s Arab freedom fighters face is the suspicion that they are lackeys of the West. So long as America continues to discriminate between liberals, advocates of the pan-Arab idea, and Islamist activists, then democratic leaders like Riyadh Seif in Syria, whose commitment to liberalism has withstood over four years of incarceration, will not gain the support of his own people.

sem piadinha nenhuma, 1, 2 e 3

sem opçoes 1
sem opçoes 2
mas há sempre uma luz no fundo do túnel

Traduçoes:

haie = tubarao
tiger = tigre
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já tou morto por dentro {os lemingues sao aqueles bichos com a mania do suicidio em grupo}
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uma lampada e um rolo de papel higiénico vazio?
um kit "luz no fundo do tunel". feliz natal.
obrigado?
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Nicht Lustig {o nome dos livros} = Sem piada

sexta-feira

There’s a beauty here I cannot deny



Orpheus de David Sylvian

Standing firm on this stoney ground
The wind blows hard
Pulls these clothes around
I harbour all the same worries as most
The temptations to leave or to give up the ghost
I wrestle with an outlook on life
That shifts between darkness and shadowy light
I struggle with words for fear that they’ll hear
But Orpheus sleeps on his back still dead to the world

Sunlight falls, my wings open wide
There’s a beauty here I cannot deny
And bottles that tumble and crash on the stairs
Are just so many people I knew never cared
Down below on the wreck on the ship
Are a stronghold of pleasures I couldn’t regret
But the baggage is swallowed up by the tide
As Orpheus keeps to his promise and stays by my side

Tell me, I’ve still a lot to learn
Understand, these fires never stop
Believe me, when this joke is tired of laughing
I will hear the promise of my Orpheus sing

Sleepers sleep as we row the boat
Just you the weather and I gave up hope
But all of the hurdles that fell in our laps
Were fuel for the fire and straw for our backs
Still the voices have stories to tell
Of the power struggles in heaven and hell
But we feel secure against such mighty dreams
As Orpheus sings of the promise tomorrow may bring

Tell me, I’ve still a lot to learn
Understand, these fires never stop
Please believe me, when this joke is tired of laughing
I will hear the promise of my Orpheus sing

quinta-feira

condiçao: homem

De José Pacheco Pereira:

Votarei sim no referendo sobre o aborto, sem grandes parangonas morais, sem grandes proclamações sociais, sem certezas absolutas sobre nada, nem sobre a moralidade, nem sobre a liberdade do acto de interromper uma gravidez. Respeito os dilemas dos que votam não, respeito os dilemas dos que votam sim, porque em ambos os lados há a consciência de que o que defrontam é um mal social, uma perturbação a evitar, um momento sempre de uma certa crueldade interior, a da vida aliás. Mas como não acredito em grandes proclamações morais, nem pelo sim nem pelo não, voto sim por um conjunto de razões dispersas, sociais, culturais e filosóficas, que admito que se diga serem de mal menor. Será de mal menor, mas quantas vezes muitas coisas que fazemos são de mal menor? Até no Catecismo da Igreja Católica há várias escolhas de mal menor.

E porque, tudo ponderado, as vítimas da situação que hoje existe são as mulheres, sobretudo as mulheres, quase que só as mulheres. Merecem (ou exigem) que os homens que fizeram quase todo o mundo à sua volta, à sua dimensão e ao seu modo, e que entre outras coisas tem esta diferença fundamental que é não engravidarem, lhes dêem uma liberdade que elas sentirão sempre como sendo, no limite, trágica, mas como sendo uma liberdade. No dia do referendo votarei pela segunda vez na vida por género, como homem mais de que como cidadão.

condicao: mulher

A pedido da mulher*, Helena Matos
sonhei com deus
ele estava sentado num terraço noruegues
o fiorde a espraiar-se
tinha na mao um charuto
e conversava com anjos

eu estava de fora da cerca
tentei chamar-lhe a atençao
eu esbracejei
gritei baixinho
a medo
eu saltei
fiz caretas
cantarolei

os anjos olhavam-me pelo canto do olho
aborrecidos
esperando que eu desistisse
deus foi muito melhor a ignorar-me

terça-feira

Já disse?



Hamburgo é giro.



E até é bom retornar...



...do lado de lá.

Todas as imagens de Nils Koppruch e aqui.

sábado

O Curdistao iraquiano em fotos movimento

Belíssimo. A nao perder. Se possível, com as colunas a funcionar.

P.S.: também adorei o de Cuba.

P.S.2: quase chorei no "Friends for Life".

Desaire

um amigo sem dinheiro foi a uma festa católica polaca pela comida gratuita

ia bebado, vomitou na sacristia e foi expulso em eternidade

agora, diz ele pesaroso, vou ter que continuar ateu

sexta-feira

naufragou

perdeu-se no mar alto
e aportou na areia
ignoram-lhe os mastros
quebrados, rasgados
a dor que se cheira
a léguas

de vez em quando um suspiro
uma angústia estrebucha
debaixo das vagas mágoas
o choro sangra devagar
ignoram-lhe o desespero
o mar adoça o amargar

ignoram