quarta-feira

Filme cacetada na cabeça




O nome que dei ao poste diz tudo. Aqui vai o meu exemplo nas mais recentes visualizaçoes: 4 meses, 3 semanas, 2 dias. Assim, sendo vós pessoas de normal sensibilidade, esperai acabar o filme em choque, principalmente, e este é um aspecto importante dos filmes cacetada na cabeça, porque pode ser verdade. A história anda á volta de duas amigas na Roménia comunista e as suas andanças para fazer um aborto. O que o filme me proporcionou foi uma espreitadela para o outro lado da cortina de ferro. As pessoas tem de ser desenrascadas ou ter bons amigos que sejam desenrascados. É o chico-espertismo como condiçao de sobrevivencia. Há uma cena muito interessante de um jantar de, parece, famílias-bem lá do sítio e é interessante que tipo de desigualdades e preconceitos sao mostrados naquela conversa. Uma pessoa sente-se a ver um mundo igual e diferente. O chocante, para lá das violaçoes a que as raparigas se sujeitam para obter o aborto, é o que torna possível as suas sujeiçoes: o enorme poder que um sujeito obtem quando a sociedade torna uma necessidade num crime. Faz pensar, por exemplo, na imigraçao ilegal. As sujeiçoes que sao impostas a imigrantes por gente horrível que se aproveita de uma clandestinidade que á luz de valores cristaos é em si criticável. Isto a modo de um exemplo menos discutível que o poder fazer um aborto. Assim, para mim a moral da história deste filme foi que quando a sociedade coloca alguém na clandestinidade é fundamental asseverar que essa pessoa prejudica alguém e nao só carrega as hipocrisias duma massa de gente que se gosta de pensar livre da necessidade. Porque senao dá-se uma coutada a, dependendo do ponto de vista, crimes realmente crimes ou crimes muito mais perversos.

Arnulfo, o perfeccionista

O Arnulfo lê de caneta vermelha na mão.

terça-feira

Faxina

Eu, a partir deste momento, irei começar a usar as novas regras do acordo ortográfico. Esta aplicação será realizada pacatamente à medida que vou aprendendo as regras. Começo o fácil deleite de chutar as consoantes mudas. Assim, aqui me lanço na feliz limpeza ortográfica.

segunda-feira

Ainda pensando no Blair



de Boligan

Por exemplo, Anthony Blair

Quanto a este meu poste vou dar um exemplo de uma pessoa perigosa a este nível: o Tony Blair.

Lembro-me de ler num artigo (penso que no New York Time Review of Books) sobre a preparaçao para a guerra no Iraque, que pessoas dos serviços secretos que na altura tinham ido fazer o ponto da situaçao ao Tony Blair, contavam que quando eles falavam das incertezas da informaçao que tinham em posse até ao momento, a reacçao do Tony Blair era perguntar-lhes se nao se estaria a livrar o Iraque de um homem mau. Isto era uma pergunta que aqueles homens nao tinham ido responder. O que isto demonstra é um homem que perante factos, responde com ideologia. Esta é a pior característica que um político pode ter.

Neste discurso, que ele fez há pouco, podemos observar como este homem ainda nao percebeu que o problema nele nao é ele ter fé, mas o facto dele, comprovadamente, deixar a fé cegá-lo aos factos. Por exemplo ele diz:

One of the oddest questions I get asked in interviews (and I get asked a lot of odd questions) is: is faith important to your politics? It’s like asking someone whether their health is important to them or their family. If you are someone ‘of faith’ it is the focal point of belief in your life. There is no conceivable way that it wouldn’t affect your politics.


A comparaçao até nao é má. Nao só ter saúde é importante pessoalmente, é também importante para quem vota saber que o candidato está apto a exercer o seu cargo durante o tempo previsto. Ter fé é importante para Tony Blair e será assim importante na forma como ele gere a sua vida. Para quem vota será importante saber como a sua fé afecta as suas decisoes como político. No seu caso, a sua fé fá-lo um mau político e esse é que é o problema. Nao é ele ter fé, é ele ter uma fé que o cega quando tem que tomar decisoes políticas, como está no seu CV. Que a fé de um político lhe de propósito, lhe de alma (como diz o Tony Blair, o que um ateísta pode achar um pouco ofensivo, mas deixá-lo ir), que afecte as prioritarizaçoes na sua governamentaçao, nao há problema. O problema é alguém apresentar-lhe factos e ele ignorá-los em favor do que ele acredita na alma. Isto o Tony Blair nao compreende, vitimizando-se.

O que chateia neste discurso é que além de ele ter má-fé, ele é hipócrita. A Gra-Bretanha tem um historial péssimo em termos de deportaçao para países que sao conhecidos por nao acreditarem nos direitos humanos. Documentos sairam em que se verificou que Tony Blair foi informado da situaçao, mas a sua resposta foi "Deportem-nos". Agora, neste discurso, ele vem falar de lançar pontes entre fés. Isto de alguém que lançou pessoas aos leoes.

Li há uns tempos que ele estava a ser pensado para ser o primeiro "ministo dos negócios estrangeiros" da UE, á luz do tratado (contituiçao) que foi assinado em Lisboa há pouco tempo. Eu pensei primeiro que era anedota. Haverá alguém que já demonstrou mais que demonstrado que ele prefere o mundo das suas crenças que o mundo das pessoas? Haverá alguém que demonstrou mais que demonstrado ser um incompetente e um hipócrita nas relaçoes com outros países? Este homem para gerir relaçoes com o outro? Há um baixo-assinado baseado no sítio internético da Comunidade Europeia contra que ele seja nomeado para este cargo. Até agora ele foi uma vergonha para os bretoes, agora passaria a ser vergonha para todos os europeus da Uniao. E provavelmente continuaria a ser um perigo para os outros. Com a desculpa da fé.

Ser denominável

Quando li este texto da Fernanda Câncio, lembrei-me de uma pequena história verdadeira. Fui a um piquenique. Nesse piquenique estavam dois cachopos que eram amigos do peito e que não se viam há algum tempo. Tinham sido companheiros numa instituição de acolhimento, até que um deles foi adoptado. O piquenique tinha sido combinado para eles se encontrarem e estarem juntos novamente. Eu fui de reboque. O cachopo que não tinha sido adoptado era um pequeno terrorista, cujas armas eram o politicamente incorrecto. Era confrontacional e a primeira coisa que fazia quando conhecia alguém era lançar bocas, mas tão absolutamente certeiras que causava admiração. Algumas não eram óbvias, mas via-se nas expressões surpreendidas e feridas que ele tinha acertado e havia ali sangramento. Mesmo que as pessoas fingissem que não. Na altura não lhe sabia o passado (perguntei mais tarde e não conto, mas é triste, muito triste e é triste ter maus pais), mas dava para perceber que naquele corpo pequeno havia muita revolta. Eu também fui logo eficientemente acertada (eu sorri o sorriso amarelo que é a única opção, porque pior que ser acertado é assumir que se foi acertado), mas simpatizei com ele. Penso que no fim do piquenique, só eu e um outro senhor é que o adorávamos, numa anti-reacção a toda a gente que o detestou. O reencontro dos dois amigos foi de uma alegria exuberante, mas ao longo do dia foi-se desenrolando uma pequena tragédia, porque eles agora já não eram iguais. Um tinha sido adoptado e o outro não e isto afinal era um cisma que nem ser pequeno ultrapassa. Tudo subtil e que só entendi completamente depois. Havia amargura nas corridas, alguma tristeza nos risos, inveja q.b. Mas eles eram ainda amigos, até que o cachopo não adoptado chamou "preto" ao cachopo adoptado. Este ripostou que não era preto, que era castanho e demonstrou com as cores à sua volta. Os adultos riram com a resposta e não se pensou que o cachopo adoptado, ao fim do dia, fosse dizer aos pais que não queria nunca mais ver o amigo. Quando me contaram este desenlace, percebi que aquele pequenique tinha sido uma grande tragédia para ambos os companheiros. O que parecia ir ser um piquenique banalérrimo, que hoje eu teria esquecido, ficou-me gravado. Fui sempre pensando na sorte de ambos os amigos. Só os vi naquele dia e continuo a perguntar por eles quando encontro pessoas que ainda poderão ter notícias deles. Eles realmente nunca mais se encontraram. Talvez agora, adultos? Sei que o pequeno politicamente incorrecto, felizmente, encontrou alguém que finalmente o amou (apesar das bocas que lhe terá presenteado no início) e gosto de imaginar que lhe tirou a necessidade de ser mau com palavras. Admiro uma senhora que nunca vi, mas que resolveu ver por baixo da revolta. Que ele nunca mais perderá amigos porque, num momento menos bom, os chama "pretos". Porque outro alguém viu através da sua superfície de revoltado, o puto fantástico que ali estava. Porque o amigo dele era castanho na pele e ele era branco na pele, mas, para além disso, tinha a cor da raiva e seria fundamental para ambos que as pessoas pudessem ver para lá das cores á superfície. Pelo menos, os adultos.

Esta história nao segue o raciocíno da Fernanda Cancio. Na minha história o chamar "preto" veio de amargura e o amigo nao perdoou e nao o recrimino por isso. Parece-me até que o miúdo branco tem mais a ver com a história da Fernanda Cancio, porque, na altura, o que me causou uma certa piedade foi o facto de todos aqueles que o nao conheciam antes do piquenique, o terem tomado pelo que ele era á superfície. Isto adultos, que supostamente tem mais que dois dedos de testa. Mas também nao tem a ver com a história da Fernanda Cancio, porque usar óculos ou ter cor nao diz absolutamente nada sobre a pessoa. As pessoas continuam a ser todas elas desconhecimento, sao potenciais tudo, pelo que pessoas inteligentes deveriam deixar de ater-se a adjectivos tao vazios. Ser gordo ou revoltado já pode dizer algo mais sobre a pessoa e talvez diga que essa pessoa o menos que precisa é ser posto numa gaveta, principalmente quando é uma criança. Mas se os adultos sao estúpidos, como seria possível que os seus filhos nao o fossem? A Fernanda Cancio nao está a falar dos putos, está a falar dos pais dos putos que nao acham mal nenhum que se chame nomes aos outros. Faz parte do crescimento, parece. Para quem levou um selo faz parte do crescimento lidar com o que lhe chamaram. O que é verdade. Quem foi denominado tem de lidar com os sentimentos de inferioridade que lhe foram inculcados. Se tiverem sorte, é só na escola. Sei de uma história de heroísmo, de uma pessoa com deficiencia motora que teve de lidar com a própria mae, que a queria em casa, porque tinha vergonha que lhe vissem a filha. E dizia-lhe para ela perceber bem que ela era entrevada, uma coitadinha, e que era uma vergonha que ela andasse por fora, a estudar, a sair com amigos e, miséria das misérias, a ter namorado. Diz-se que o que nao mata, fortalece. Os putos que chamam nomes na escola nao sao revoltados, sao, na sua maior parte, somente mal-educados por pais que depois vao para as caixas de comentários dizer que deixar os putos serem mal educados é parte do crescimento dos que levam com a má-educaçao. Se isto nao é estupidez, nao sei que outra coisa seja.

quinta-feira

Vai espaço entre a vontade e a destreza
eu quando penso que queria poemar
vêm verbos sobre alguém que hesita
não eu, que só não posso
alguém
alguém que eu talvez ame (senão porque pensaria nele?)
mas não conheço

segunda-feira

under the guise of religion, science or reason

Um senhor chamado Chris Hedges adicionou um ponto importantíssimo ao que eu aflorava (muito levemente) aqui:

The greatest danger that besets us does not come from believers or atheists. It comes from those who, under the guise of religion, science or reason, imagine that we can free ourselves from the limitations of human nature and perfect the human species.

O maior perigo que enfrentamos nao vem dos crentes ou dos ateístas. Vem dos que, sob o disfarce da religiao, da ciencia ou da razao, imaginam que nos podemos libertar das limitaçoes da natureza humana e aperfeiçoar a espécie humana.

domingo

Ignorância histórica

Porque é que aprendemos história? A resposta padrão é de que é para prevenir os erros do passado. Pessoalmente, do que me lembro do meu percurso escolar, parece-me que era mais a intenção de nos inculcar nostalgia pelos tempos de ouro da nossa pátria. Levei com os descobrimentos e com os Lusíadas duas vezes.  Mas devo estar a ser injusta, devia ser por causa do ensino obrigatório, tinha que se dar estas necessárias lições muito cedo para os que iam ficar-se, e depois outra vez, supostamente mais profundamente quando já podiamos entender melhor. Os meus colegas de humanísticas levaram uma terceira vez, talvez de outro ângulo. Achei os descobrimentos uma seca, acho que me senti mais patriótica na leitura da crónica de Fernão Lopes sobre o povo a levantar-se em favor do seu rei. Gostei sempre muito quando o povo se resolveu a decidir, se bem que agora tenho um certo temor do poder irracional da turba. Mas enfim, em termos históricos aquilo correu bem. Mas se realmente há que aprender com a história, o patriotismo parece-me coisa a desaprender. A história também é para percebermos o presente e parece-me que este deve ser o enfoque. Em vez de maldizer o povo português na sua mesquinhez consumista, mais vale olhar as privações que passou e esperar que esta maleita lhe passe. O mais interessante para mim é a história em termos científicos e pensei nisto na área da vacinação. A vacinação é uma medida médica social. Os riscos para o indivíduo, que ao longo das décadas têm vindo a reduzir-se drasticamente, mas não era tanto assim no início, versus a protecção da saúde da comunidade. Morria-se muito de doenças que hoje só se lê na caderneta de vacinas e talvez muito de vez em quando talvez se leia nos media, ainda matar muitos em países com menos meios. As pessoas esquecem isto e em países com uma cultura individualista grande surgem focos anti-vacinação, o que visto em termos históricos é absurdo. Os médicos pôem as culpas à iliteracia científica, mas, nos países ricos é também ignorância histórica. Seria salutar ensinar em história de que se morria antes e explicar porque hoje se morre de outras coisas. Duas aulas e não se teria tanto disparate mortal. Mas isto é mais coisa de americanos e anglo-saxónicos com a mania de que sozinhos prevalecem. Uns já estão numa ilha, era fazer o mesmo aos outros.

sábado

Ui, ui, os gringos estao chateados

Blogosfera em animaçao absoluta. {smile em alta risota}.

Filme what the fuck

Os filmes what the fuck são aqueles que são considerados obras-primas, mas a ti a prima passa-te ao lado. Um exemplo muito recente é o "No country for old men". Uma pessoa acaba por pensar que aquilo tem um significado mais profundo para os americanos e para os não americanos com panca por westerns modernos. Como eu não pertenço a nenhum dos grupos fico a dizer what the fuck just happened? Eu não acreditei em nenhuma das personagens, sem ser preciso falar do pobre Bardem e o seu penteado. Como é que um homem com tal coisa na cabeça pode ser descrito como fantasma, no sentido de que ninguém o vê? Contudo, a revelação do filme é ouvir um espanhol sem sotaque. Bem, deêm um óscar a este homem. O xerife carrega a sentimentalidade toda do filme, parece que antigamente os xerifes não andavam com armas, era só flores e amor, agora é uma desgraça, ajuda-se um estranho a mudar o pneu, actua-se como um posto de informações e pimbas lá se te voam os miolos. Ah, mas espera, ele vai visitar um velho com muitos gatos que lhe diz que afinal em 1909 já tinha acontecido ao tio dele ser morto por nada. Ah, prontos, o mundo retornou aos eixos. Simpatizei com o tipo que achou o dinheiro para depois andar a saltitar de motel em motel a fugir daquele que teve um mau dia no cabeleireiro. Pelo menos isso. Mas alguém neste mundo de pessoas mais ou menos com cabelos normais acredita que uma mulher se põe com aquela filosofia com um psicopata que lhe matou o marido mais o equivalente a uma pequena aldeia? Tens que ser tu a escolher matar-me. Sim, naquele ponto do filme nós sabemos que ele tem problemas a decidir-se. Também se lhe nota na unidimensionalidade que ele vai ter enormes problemas de consciência. Esta personagem é particularmente irritante, porque é um desperdício de um actor espectacular. Eu sei, não importa que as personagens pareçam sem substância, mas se o que importa é a matança e os ângulos artísticos, porque é que temos de assistir ao triste espectáculo deles a dizerem disparates? Aqui temos a receita, cenas que fazem bem ao filme, mas personagens de meter dó. O que é que o Harrelson lá foi fazer? Mais um castiço pró mau penteado fazer um furo? Desculpem, what the fuck just happened?

sexta-feira

Filme singelo

Tenho um fraco por, o que chamo, filmes singelos. Imaginem que eu todos os dias passo por uma rua. Imaginem que um dia alguém vem comigo e me mostra a rua de uma outra perspectiva e que faz essa demonstracao de forma artística, de tal forma que essa rua, aos meus olhos, acende-se. Nada novo na rua, excepto os olhos de quem a ve. Agora imaginem que a rua é a vida e a pessoa que guia o olhar sao os filmes singelos. Assim, apaixonarmo-nos e fazermos papel de ursos, ou apaixonarmo-nos e ficarmos com remorsos por nao termos feito papel nenhum, a primeira vez que beijamos, que apalpamos, que vemos, a mentira envergonhada, a excitaçao dar lugar ao cinismo e ao aborrecimento, o aparente paradoxo do amor e do ódio entrelaçados, descobrirmos coisas muito simples demasiado tarde, cair-nos a alma com a morte de um pássaro ou olharmos embevecidos um gato a torturar um rato, passa a ganhar a dimensao de uma epopeia, repetida milhoes de vezes certamente, mas propensa a novidade na nossa efémera vida, se soubermos o quanto especial o é para nós. No entanto, esquecemos até que algo singelo e especial nos lembra. Por isso, tenho um grande fraco por filmes singelos.



Esta introduçao vem a propósito de um filme que eu vi agora, mas já é de 2005. Nada, absolutamente nada do que passa na vida das pessoas no filme é algo que nao poderia passar na minha vida ou na vida de pessoas que eu poderia conhecer ou vir a conhecer. Na verdade, a nao ser que estivessemos enclausurados, aquilo acontece de uma forma similar a mim e ás pessoas que conheço e vou conhecer. O que muda sao os olhos de quem ve. Os filmes singelos sao sobre a vida, a vida de todos os dias, a vida sem marcos de extraordinariedade. E no entanto... Que extraordinário é o olhar e que extraordinária é a vida de cada pessoa á luz desse olhar.

Um homem e uma mulher encontram-se numa rua. O encontro nao é casual. Antes, a mulher apaixonou-se por aquele homem. Cada um vai para o seu respectivo carro e a certo ponto da rua vao-se separar. Enquanto caminham e enchendo o espaço com palavras que é necessário encher quando se caminha com outra pessoa, eles acabam por construir naquele caminho as suas vidas juntos.

Um senhor compra um peixe vermelho para a filha, mas esquece o saco de plástico com o peixe sobre o tejadilho do carro quando arranca para casa. O destino daquele peixe torna-se uma ponte de solidariedade e o presságio mais que certo, de que é necessário aprender a dizer adeus.

Em súmula, adorei o filme.

Me and you and everyone we know de Miranda July.

quarta-feira

the sting of poverty

IMAGINE GETTING A bee sting; then imagine getting six more. You are now in a position to think about what it means to be poor, according to Charles Karelis, a philosopher and former president of Colgate University.

In the community of people dedicated to analyzing poverty, one of the sharpest debates is over why some poor people act in ways that ensure their continued indigence. Compared with the middle class or the wealthy, the poor are disproportionately likely to drop out of school, to have children while in their teens, to abuse drugs, to commit crimes, to not save when extra money comes their way, to not work.

To an economist, this is irrational behavior. It might make sense for a wealthy person to quit his job, or to eschew education or develop a costly drug habit. But a poor person, having little money, would seem to have the strongest incentive to subscribe to the Puritan work ethic, since each dollar earned would be worth more to him than to someone higher on the income scale. Social conservatives have tended to argue that poor people lack the smarts or willpower to make the right choices. Social liberals have countered by blaming racial prejudice and the crippling conditions of the ghetto for denying the poor any choice in their fate. Neoconservatives have argued that antipoverty programs themselves are to blame for essentially bribing people to stay poor.

Karelis, a professor at George Washington University, has a simpler but far more radical argument to make: traditional economics just doesn't apply to the poor. When we're poor, Karelis argues, our economic worldview is shaped by deprivation, and we see the world around us not in terms of goods to be consumed but as problems to be alleviated. This is where the bee stings come in: A person with one bee sting is highly motivated to get it treated. But a person with multiple bee stings does not have much incentive to get one sting treated, because the others will still throb. The more of a painful or undesirable thing one has (i.e. the poorer one is) the less likely one is to do anything about any one problem. Poverty is less a matter of having few goods than having lots of problems.

Poverty and wealth, by this logic, don't just fall along a continuum the way hot and cold or short and tall do. They are instead fundamentally different experiences, each working on the human psyche in its own way. At some point between the two, people stop thinking in terms of goods and start thinking in terms of problems, and that shift has enormous consequences. Perhaps because economists, by and large, are well-off, he suggests, they've failed to see the shift at all.

terça-feira

Arnulfo, o perfeccionista

O Arnulfo leva as suas hóstias.

domingo

A inutilidade de discutir religiao

Continuo sem ler o livro do Dawkins "The god delusion", mas continuo a le-lo indirectamente pelas criticas que despontam aqui e além a ele e aos outros livros anti-religiao que tem aparecido. Interessa-me muito mais ler o que os outros criticam nestes livros, do que se pode dizer contra as crenças religiosas. A religiao responde a impulsos primários do ser-humano que nao sendo respondidos pela religiao serao respondidos de outra forma. Acho piada quando os criticos do livro de Dawkins trazem a lume Hitler e o seu ateísmo como contra-ataque. Na verdade, o que a Alemanha Nazi demonstra é que esses impulsos primários de que falo podem ter vazao tanto em religiao como em cultos de personalidade e fervores nacionalistas. Tenho a certeza que os filósofos estao muito mais perto da verdadeira alma da discussao quando analisam a natureza humana, do que esta gente toda a discutir religiao.

sexta-feira

Isto é outro nível

Sobre aquele vídeo Youtube da aluna e da professora a lutar por um telemóvel. Andei pela blogaria a ler opinioes (o normal, portanto) e quero aqui deixar a minha impressao (normal). Eu nao vou dizer que estamos perdidos e antigamente é que era, nem vou dizer que antigamente era igual. Eu tenho 32 anos de idade. Havia cenas de insubordinacao na minha idade da idiotice, mas há um aspecto da luta mostrada no Youtube, que eu acharia impensável naquela altura e que me deixaria de boca aberta na altura e me deixou de boca aberta agora (nao entrou mosca que por aqui está muito frio para esses bichos): o contacto físico. Nós faziamos coisas 'a cobardola, nas costas, pela frente de longe, 'a fugida, a assobiar pro' lado a fingir que nao foi nada connosco, uns a vigiar e outros a actuar. Agora, andar numa de corpo-a-corpo? Falar de cima ali a centímetros de uma professora? Isto é claramente outro nível de topete. Eu com 15 anos ficaria a olhar para aquela miúda como se ela tivesse um alo de transcendente. Provavelmente evitaria comunicar com ela, com medo que o seu olhar me transformasse em pó. Nós faziamos, mas nós eramos cobardolas. Na minha opiniao e baseada em poucos individuos, pois acho os adolescentes insuportáveis (incluindo-me a mim se me pudesse encontrar comigo com aquela idade), e no tal vídeo, essas novas promessas com borbulhas nao vao levar ao fim do mundo civilizado, mas vem de outro nível de idiotice.

P.S.: Eu continuo a apoiar o envio de humanóides dos 13 aos 20 anos para uma ilha. Eles sao insuportáveis mesmo sem telemóveis. É da fase que vivem e tem de ser, pelo que o melhor para os restantes que já ultrapassaram aquilo, é po-los de quarentena. Apoio qualquer iniciativa neste sentido.

quarta-feira

Eu não sou feliz, mas estive contente.

Ser eremita

Vivemos numa ditadura da maioria. É a chamada democracia, que é a melhor de todas as ditaduras. Nenhum político pode ser boa pessoa, simplesmente porque a maioria nao vota em boas pessoas. Na maioria funcionam os instintos básicos, nos quais vale mais uma mentira carismática (muitíssimo mais), que uma verdade monocromática (simples e sensaborona). O melhor mesmo é um político atingir a maioria sem palavras. Bem aventurado aquele que se difunde só por imagens. Para isto há os media que tornam tudo tragável. A soluçao? Acima. Mas essa soluçao é para uma minoria surda, muda e cega. A soluçao? Nao há.

segunda-feira

A vingança serve-se viva

Quando alguém absolutamente malévolo morre, tem-se tendência a expressar um certo contentamento como se o mundo se tivesse vingado e talvez alguém seja mais feliz. Contudo, a vingança faz-se em vida e não em morte. Além disso, que as más notícias vêm aos pares, há sempre novos malévolos à espera da sua oportunidade. Concluindo, só as pessoas boas podem trazer qualquer tipo de contentamento.

sexta-feira

Amizade

No Seinfeld há muita brincadeira sobre as relaçoes de amizade. Como terminar uma relaçao de amizade quando a outra pessoa nao nos deixa em paz? Convida-se a outra pessoa para um almoço e dá-se a notícia muito levemente? E diz-se o que? Que nao somos compatíveis? Será que mantemos relaçoes de amizade com pessoas que nos irritam só para termos a impressao que somos populares? Que níveis de fidelidade ou que padroes de comportamento se exige aos amigos? De que forma se é sensível 'as necessidades dos outros, em vez da própria necessidade e da própria ideia do que é um amigo? Porque é que o pior tipo de amigo que se pode ter é o missionário? Quantas vezes, em sumúla, a amizade é como ter piolhos num país em que é pena capital usar quitoso?

quarta-feira

Gota de água

Está visto que depois de ter desistido de informaçao na televisao, quando ainda estava em Portugal, vou ter de desistir de informaçao nos jornais portugueses. A partir de agora, Portugal restringir-se-á á minha família, aos blogues (podem rir) e a notícias sobre pastéis de nata na imprensa internacional. Tenho a impressao que irei sobreviver.

Continuo mal-humorada



De erlich no el pais

segunda-feira

Certitude

Uma das melhores coisas na Alemanha é a respeitabilidade de se ser honesto. Em Portugal, ser honesto é ser papalvo. Só é roubar tirar de um indivíduo. O Estado é uma árvore que importa pilhar. Quem nao pilha é parvo. O que quer que se faça em Portugal dá sabor amargo, ser honesto e ético é amargo e ser desonesto e nao ético é amargo. Na Alemanha, as pessoas sao rectas e se bem que isto possa ser irritante, quando demasiadas rectas se tornam paralelas ao senso-comum, pelo menos há uma clareza de proposito e de aplicacao. 2+2 sao quatro.

Outra face do prisma portugues, é a capacidade que existe socialmente de ver o cisco nos outros, enquanto a cavaca está espetada num dos olhos.

Há uns dias estive com uns portugueses e depois de se terem queixado da corrupçao, dos interesses, dos nepotismos, passaram á parte em que me contaram as suas pilhagens individuais. Eu nao digo nada, calmamente vivendo a certitude deste espectáculo. Obviamente, eles acham a Alemanha o exemplo a seguir. A minha mae continua a criticar-me a falta de amigos portugueses. Em minha defesa, a certitude cansa-me. A minha quota está completa.

Tenho amigos desonestos, mas eles nao me fazem discursos de padre virgem. Dava um certo jeito para eu suportar os portugueses que acabo por nao conhecer.

P.S.: Os italianos e os portugueses sao aparentados na sua especial lógica.

quinta-feira

Arnulfo, o perfeccionista

O Arnulfo vota em branco.

terça-feira

Arnulfo, o perfeccionista

No seu próprio aniversário, o Arnulfo telefona à mãe a dar-lhe os parabéns.

segunda-feira

Arnulfo, o perfeccionista

O Arnulfo dá explicações ao clip do word.

sábado

Arnulfo, o perfeccionista

Em todos os empregos que teve, o Arnulfo despediu-se a ele próprio.

sexta-feira

Arnulfo, o perfeccionista

O Arnulfo só toma medicamentos sem contra-indicaçoes.

quinta-feira

Arnulfo, o perfeccionista

Quando o Arnulfo esteve na Alemanha em Erasmus inscreveu-se na escola de línguas em Portugiesisch.

terça-feira

versus



de Bandeira.

clicar na figura para a ver aumentada

sexta-feira

Há melhor.


Monday morning wake up knowing that youve got to go to school
Tell your mum what to expect, she says its right out of the blue
Do you went to work in debenhams, because thats what they expect
Start in lingerie, and doris is your supervisor

And the head said that you always were a queer one from the start
For careers you say you went to be remembered for your art
Your obsessions get you known throughout the school for being strange
Making life-size models of the velvet underground in clay

In the queue for lunch they take the piss, youve got no appetite
And the rumour is you never go with boys and you are tight
So they jab you with a fork, you drop the tray and go berserk
While your cleaning up the mess the teachers looking up your skirt

Youve been used, youre confused
Write a song, Ill sing along
Are you calm? settle down
Soon you will know that you are sane
Youre on top of the world again

Monday morning wake up knowing that youve got to go to school
Mum said she had little choice when she was young, so why should you?
Do you went to work in c&a, cause thats what they expect
Move to ladieswear and take a feel off joe the storeman

Tell veronica the secrets of the boy you never kissed
Shes got everything to gain cause shes a fat girl with a lisp
She sticks up for you when you get aggravation from the snobs
cause you cant afford a blazer and youre always wearing clogs

At the interval you lock yourself away inside a room
Heed of english gets you, asks you, what the hell do you think youre doing?
Do you think youre better then the other kids? well get outside.
Youve got permission, but youve got to make the bastard think hes right.

"Expectations" por Belle & Sebastian
If I was a flower growing wild and free
All I'd want is you to be my sweet honey bee.
And if I was a tree growing tall and greeen
All I'd want is you to shade me and be my leaves

If I was a flower growing wild and free
All I'd want is you to be my sweet honey bee.
And if I was a tree growing tall and greeen
All I'd want is you to shade me and be my leaves

All I want is you, will you be my bride
Take me by the hand and stand by my side
All I want is you, will you stay with me?
Hold me in your arms and sway me like the sea.

If you were a river in the mountains tall,
The rumble of your water would be my call.
If you were the winter, I know I'd be the snow
Just as long as you were with me, let the cold winds blow

All I want is you, will you be my bride
Take me by the hand and stand by my side
All I want is you, will you stay with me?
Hold me in your arms and sway me like the sea.

If you were a wink, I'd be a nod
If you were a seed, well I'd be a pod.
If you were the floor, I'd wanna be the rug
And if you were a kiss, I know I'd be a hug

All I want is you, will you be my bride
Take me by the hand and stand by my side
All I want is you, will you stay with me?
Hold me in your arms and sway me like the sea.

If you were the wood, I'd be the fire.
If you were the love, I'd be the desire.
If you were a castle, I'd be your moat,
And if you were an ocean, I'd learn to float.

All I want is you, will you be my bride
Take me by the hand and stand by my side
All I want is you, will you stay with me?
Hold me in your arms and sway me like the sea.

Da banda sonora do filme "Juno". "All I want is You", por Barry Louis Polisar

A ver o filme percebe-se melhor porque esta música é adorável.

quarta-feira

O meu sonho

Eu sinceramente penso que nunca contei isto a ninguém. Mas vao perceber porque (com chapéu) logo depois de saberem o que vou contar e a ideia que vao ter de mim logo a seguir. Sabem aquelas perguntas que os adultos nos deitam quando somos pequenos demonstrando que sao parvos? Devo dizer que o tempo que demorei a congeminar as respostas (tao pequeno que só é mensurável com um instrumento ainda a inventar) me dá uma certa segurança que sou intrinsecamente inteligente. Nao esperta, nao sou esperta, sou inteligente. Uma pergunta é aquela do se gostas mais da mae ou do pai. Eu gostava de ter uma gravaçao no YouTube com o primeiro troglodita que se lembrou de fazer pergunta tao acéfala, que logo a seguir espero que tenha implodido. Obviamente, isto nao aconteceu, porque senao a pergunta nao se teria espalhado. A segunda é o que queres ser quando fores grande. Os putos geralmente dizem o que alguém da familia faz, mas na minha familia ou se fazia coisas que eu nao entendia, que eu nao sabia que podia ser carreira ou nao faziam nada (o facto de eu nao entender que nao fazer nada pode ser carreira demonstra que eu nao sou esperta, inteligente, mas nao esperta). Assim, eu dizia professora, que estava a jeito. Mas no fundo, no fundinho, eu sonhava em ser deus. Juro, sonhava, imaginava, a sério. Se pensam que eu andava a fazer bondades nos meus sonhos, esqueçam. Eu pensava que queria ser deus, mas hoje percebo que, quando eu era gaiata, queria ser Fidel.

Obama



No computo final, é isto que interessa:

On balance, it appears likely that a Hillary Clinton administration, like Bush’s, would be more likely to embrace exaggerated and alarmist reports regarding potential national security threats, to ignore international law and the advice of allies, and to launch offensive wars. By contrast, a Barack Obama administration would be more prone to examine the actual evidence of potential threats before reacting, to work more closely with America’s allies to maintain peace and security, to respect the country’s international legal obligations, and to use military force only as a last resort.

Stephen Zunes, "Behind Obama and Clinton" (Washington, DC: Foreign Policy In Focus, February 4, 2008).


P.S.: No cinco dias encontrei a ligaçao para um blogue com toda a documentaçao explicativa de porque é que o Barack Obama me faz alergia.

terça-feira




O Roberto Benigni tem que fazer um filme deste país.

Eu posso ser muito picuínhas

O Público encontrou alguém que foi muito precoce:

Para Joaquim Arena, escritor nascido em Cabo-Verde em 1964, que deixou África no final dos anos sessenta para começar uma nova vida em Portugal,

Mais novo e diria que veio a flutuar numa cesta de verga.

segunda-feira

Domandas

O pessoal que goza com as vivendas da Guarda vive na Noruega?

Nao me digas

Sabiam que existe um vice-ministro no Irao só, somente, só para nós? Além disso, como há um texto dele no DN em linha e o portugues até nem é mau, presumo que foi escrito por ele, o que significa que há um vice-ministro no Irao só, somente, para tratar com os europeus e sabe portugues! Inacreditável. Além disso, como o texto é repetitivo e inconsequente, pode até ser que haja um vice-ministro no Irao só, somente, para tratar com os europeus e que é um cronista portugues. {É um texto "alguém telefona-me para me dizer que tem de me telefonar."}

Uma mensagem ao DN:

Como muitas das notícias sao traduçoes, seria possível contratarem nao jornalistas (se os tem, que é uma dúvida que me inunda), mas tradutores? Eu sou cerebralmente limitada e fico extremamente lenta a ler palavras em portugues dispostas em ingles. Há dias em que empanco e preciso de ser reiniciada. Um dia destes empanco de vez e nao queria que isto lhes ficasse na consciencia. Obrigado.

quinta-feira

Votos

Se tivesse que votar no filme mais parvo alguma vez feito e que eu, infelizmente, vi seria, sem dúvida, Dogma.

segunda-feira

A borbulha no canto do lábio

Uma simples borbulha mamalhuda de pus amarelo no canto do lábio poderia dar pensamentos profundos se eu me desse ao trabalho disso. De vez em quando roço na surpresa que me faço por detestar esta borbulha super-nutrida que provavelmente é possível de visualizar do espaço, mas sentir um prazer fétido e obscuro em lhe mexer, a rebolar nas pontas dos dedos, a pressionar e fazer-me sentir esta dorzinha funda. Sou masoquista obviamente, o que nao me choca... muito. O que me choca muito é praticar o meu masoquismo com algo tao insípido como uma borbulha amarela.

sexta-feira

para-análise

Fui ver se existe a palavra parapatético. Soava-me bem, uma nova palavra de insulto, que esperava existir. Não encontrei. Mas encontrei a palavra paraparético, que é a redução de força nos membros inferiores. A paralisia é paraplégico. Por outro lado, existe peripatético, que é ensinar passeando. Portanto 'para' deve ter alguma coisa a ver com membros inferiores e patético tem alguma coisa a ver com ensinar e 'peri' tem alguma coisa a ver com o movimento dos membros inferiores... Eu não aprendi grego, como é óbvio, mas um parapatético poderia ser um pateta parado?

quarta-feira

O que vale é que nao voto

A mim até me parece que o Barack Obama é uma pessoa séria e capaz, o pior é esta sensaçao quando ele fala, que a qualquer momento aparecerá o Bambi. O homem é, como dizer, demasiadamente disney.

segunda-feira

Eu nao sou eu

Que estranho é percebermos que o nosso corpo nao nos pertence. Talvez tenha sido nesta óbvia e estranha disjunçao que foi criada a ideia da alma. Mas se esta é uma ideia elevada, é uma ideia também terra-a-terra que persegue todas e cada pessoa todos os dias. Seria assim que todos temos um anjo da guarda, mas a guarda que nos faz é como um balao que prendemos com a mao. O meu primeiro dar conta foi na forma mais trágica dessa disjunçao que se dá com os transsexuais. Na altura fiquei apoplética com tal incompetencia da natureza. O que a biologia descobriu é que em princípio nao nos pertencemos. Somos potes que contem algo que deve ser passado ao seguinte pote, criando a natureza, que tem um valor todo seu. É claro que nao ignoro as pessoas religiosas que acham que a incompetencia é mais elevada. Dá jeito. Pelo menos sabemos a quem nos queixar.

quinta-feira

Onde a alma gentil da burocracia?

Andam a repatriar o grupo de penetras que desembarcaram na ilha da Culatra em Dezembro. Eu sou uma esquecida, mas lembra-me bem essa notícia, porque na altura senti pontadas, nao percebo nada de anatomia, poderia dizer nos rins para me salvar de acusaçoes de lamechona. Parece que eles andavam fugidos pela ilha, depois de dias de frio e fome, os pescadores perguntavam-se como eles teriam aguentado, mas mesmo no estado suposto de exaurimento em que se encontravam, parece que rastejavam pelas dunas, tentando mimetizar-se. Uma pessoa imagina o desespero destas pessoas contra as fronteiras dos homens e imagina polícias a caçá-los e há algo aqui que nao soa bem. No fim da notícia, uma senhora, penso que do governo civil, dizia que tudo tinha sido eficientemente resolvido. Uma palavra destas em Portugal, em que geralmente os serviços públicos se desculpam da ineficiencia é estranha. Mas mais desconfortável se torna quando a senhora acentua que tudo está resolvido, no sentido de que se pode esquecer, the end. Só que na minha cabeça, as estrelas sao os penetras e a história deles começou antes de chegarem a Portugal e continua depois. Aquela senhora é um símbolo kafkiano das dificuldades do mundo que os nossos heróis terao de vencer, uma burocrata, um vírus, uma nódoa. Mas porque ela nos representa a nós todos, como cidadaos de Portugal, é uma nódoa que se espalha, que nos penetra.

A história realmente continuou e desenlaça-se com outros nossos representantes. Os nossos heróis sao eficientemente despachados pelos burocratas. De novo eficientes. Porque sao eles agora eficientes? Porque entre as inúmeras rachas do sistema, sao eles agora tao eficientes despachantes de seres-humanos? Por entre as várias procrastinacoes possíveis, que sabemos possíveis, que aparecem para nós que nao podemos ser despachados, porque desapareceram elas para aqueles que podem ser eficientemente despachados? Que prazer é este, que estranho perverso prazer é este, de que é tomada a burocracia?

P.S.: Bem, nos EUA ainda é pior. Eles preferem deportar cidadaos americanos porque
"We have to be careful we don't release the wrong person", porque entre deportar alguém para um país que nunca viram, nem conhecem a língua, é muito, mas muito pior deixar imigrantes ilegais dentro. Todos sabemos os crimes especialmente horriveis que eles perpretam. Até se me arrepia a espinha.

P.S.: Esta cena dos americanos fazerem tudo mais que os outros chateia. Que armados.

terça-feira

Os tempos

Há um século, uns taralhocos de bigode, começaram a jogar nuns baldios de Lisboa e do Porto uma coisa a que os ingleses chamavam futebol. A coisa espalhou-se, formaram-se clubes, cuja pertença é oferecida a recém-nascidos do sexo masculino por parte do pai, para além da religiao, por parte da mae.

Neste século, uns taralhocos de pantufas 'a frente de computadores em T1s de Lisboa e do Porto começaram a jogar uma coisa a que os americanos chamam caucus. A coisa espalha-se e esperam-se clubes e um dia um pai babado há-de vestir o recém-nascido de azul e dizer "é republicano como o pai". A ver o que as maes preparam.

domingo

Filme sente bem

Talvez seja o papel soberano do cinema: fazer-nos sentir bem. Mais importante que por-nos os cabelos de pé ou em suspense. Sinceramente, nao é memorável aquela vez que saímos do cinema a traulitar a banda-sonora e a achar que a vida é bela? Muito melhor, que aquela vez em que ficamos com os olhos em bico com os lábios do Brad Pitt, ou aquela vez em que achamos o argumento inteligentíssimo e juntamos cenas como pecas de puzzle... espera, esta é boa...

O dois papéis soberanos do cinema: deixar-nos, após ver o filme, a sentir-nos bem e entreter-nos, após ver o filme, a saborear um intrincado argumento.

Juno, faz-nos sentir bem, porque nos apaixonamos. Apaixonamo-nos pelo filme e pela interprete. Apaixonamo-nos porque tudo é muito giro e jovem e fresco. As pessoas sao todas boas e mesmo quando sao más, nao sao muito más. As pessoas sao razoáveis, tem um sentido de humor que decididamente lhes faz bem á pele e a interprete tem a língua rápida e aguçada, que é uma substituiçao benévola para a nossa necessidade de haver alguém a fazer mortos, nem que seja na pista do sarcasmo. A desonestidade deste filme é que para além de giro, é inteligente e isto é uma injustiça. Toda a gente sabe que para o mundo ser justo, as louras tem que ser burras! Toda a gente sabe, que é necessário por um lenço sobre os olhos da justiça. Toda a gente imagine que é gira e docemente inteligente.

sexta-feira

Nao se querem alimentos fumados

Eu sou uma pessoa limitada e para nao me perder, preciso de me agarrar a ideias simples e fundamentais. Assim, a lei do tabaco eu via-a como a protecçao dos efeitos nocivos do fumo, das pessoas que nao fumam, em locais públicos. Portanto, tudo o que fosse decidido a jusante era para obedecer a esta importante ideia-base. Agarrando-me a esta simples ideia, que eu corroboro, nao entendo a ponta de um corno do que é isto.

Segundo o DN, o director-geral de saúde, Francisco George, disse-lhes:"As discotecas não são restaurantes, não lidam com alimentos, pelo que não estão sujeitos às mesmas restrições de espaço para fumadores."

Portanto, parece que eu preciso de reestruturar a minha ideia-base para: a lei do tabaco é a protecçao do acto de degustacao em locais de restauraçao.

Podiam ter dito mais cedo. No meu universo de pensamentos, a fumaçao de alimentos, chamem-me esnobe, nao é importante. Assim, no meu universo, esta lei é uma grande patetada e é necessária outra lei do tabaco, que realmente tenha o que é importante na ideia.

P.S.: Há mais umas pérolas na notícia, que demonstram como no mundinho lá deles os bois cavalgam os carros.
Quanto à eficácia dos sistemas de ventilação e às perspectivas para a sua aplicação pelos estabelecimentos de diversão nocturna, Francisco George admitiu que "é de difícil exequibilidade".

Até agora, os equipamentos que poderão melhor garantir o respeito pela lei ainda não estão homologados, sendo essa uma preocupação do sector.

quinta-feira

Na Sicília chamam os afro turcos

Pelo menos com o Barack Obama os americanos daquele país muito categórico não erram quando dizem que ele é african-american.

quarta-feira

não sei que faça com o cansaço

terça-feira

Os leprosos

Passo-me absoluta e completamente com vitimizações. Chateiam-me, mas não posso deixar de lhes dar a razão para o que é expectável no futuro. Ficando o acto de fumar circunscrito ao espaço privado, aos ostracizados da porta da entrada, o fumar tornar-se-á um acto somente vicioso, desprezível. Eu senti isso nos EUA. Lembra-me de ir comprar tabaco pela primeira vez e como não conhecia as marcas (para lá da marlboro que detesto) perguntei a opinião da vendedora. Ela trejeitou como se eu lhe tivesse perguntado se tinha herpes genital. Eu trejeitei como se me tivesse chamado leprosa. Após ela ter salientado (bem demarcado para que eu não duvidasse) que não fumava (cruz-credo, bater três vezes em madeira), eu salientei que era esquisito uma pessoa que não fuma estar a vender tabaco. Ri-me e disse-lhe que fumar não era nada demais e porque já me estava a passar com a cara que ela me deitava, pedi marlboro e fui embora. Depois disso senti esse sentimento de leprosa várias vezes e desejei retornar muito, muito, contar os dias para a volta, voltar à Europa, em que fumar é normal. Vai ser assim. É esse o futuro. É pena. Quero apoiar o direito dos não fumadores, mas adoraria que os fumadores não se tornassem os leprosos.

Confesso

que até há uns pouquitos de dias não tinha a mais corpúscula ideia que um senhor chamado Luiz Pacheco tinha existido. Mas segundo a blogas é um ícone. Do pouquíssimo que li sobre o que escreveram sobre ele fiquei-me a perguntar se era pela sua assertividade. Consigo imaginar o gajedo a ficar passado com um tipo, cuja originalidade é afirmar com linguagem desabrida e a gozar. É bom poder rir com o bêbado da aldeia. Havia um aonde cresci e as pessoas achavam-lhe piada. Espero estar a ser injusta. E essas merdas.

segunda-feira

Os pobres fumadores passivos

Agora sabemos qual era a estratégia do José Bandeira para continuar a fumar depois de deixar de fumar:


domingo

Frio, frio


Tempestade de gelo em Oklahoma City ______ Clicar na imagem para ver melhor as lágrimas de gelo na face da estátua.
É daquelas imagens que me chama e me põe a contemplar. Não consigo imaginar a mesma estátua sem o gelo. Sinto que o homem tem os olhos fechados devido ao gelo, que resiste numa qualquer tarefa que envolve salvar a humanidade segurando uma esfera. Que essa esfera contém deus e que a melhor forma de o salvaguardar, salvaguardando um mito essencial, é guardá-lo ali. Aquele é o protector do mito, gelado, que é a melhor metáfora para uma tarefa que implica um sacrifício. Podia-me dar para pior.

sábado

É tanto o fumo que não vejo nada

A ler os blogues percebe-se como a inteligência fica estranhamente adormecida quando tem a ver connosco. A lei do tabaco, que também começou agora aqui na Alemanha, é para proteger os não fumadores, não é para chatear os fumadores. Não é nada pessoal. Está provado que o fumar passivo é mau para a saúde e não entendo porque é que as pessoas que não fumam têm de arcar dia após dia com locais públicos cheios de fumo. Eu, que sou fumadora, detesto o fumo passivo. Incongruência? Talvez. Simplesmente só gosto do meu fumo. Eu sei que isto custa, que apetece tirar do cigarro, mas imaginem alguém que gosta de escarrar na rua, que gosta de mijar nas portas, que gosta de cagar nos elevadores, de ejacular nos sofás da discoteca, que lhe custa não fazer nada dessas coisas. Portantos, porque lhe custa muito pessoalmente restrinjir-se, vamos todos também compreender estas pessoas e deixá-las fazer o que querem no espaço público, que supostamente como o nome indica é um espaço de todos nós. Quando todos nós não restrinjirmos os nossos instintos, vamos a ver que mundo maravilhoso será esse em que ninguém respeita ninguém. E sim, fumar é sujar o espaço dos outros e equipara-se a outros sujares da via pública, até é pior, porque os exemplos que dei não afectam a saúde dos outros, só dá nojo e nunca ninguém adoeceu de nojo. A única estranheza até agora foi essa primazia da aceitação social de atirar fumo no nariz dos outros, que tinham de comer e calar, ou falar e comer, basicamente uns chatos. Repito, sou fumadora e não penso parar, mas sinto que é meu dever não importunar os outros (sim, já prevariquei muitas vezes, mas também já me segurei muitas vezes e eu não sou nenhum modelo de vontade de ferro, nem nunca me passou pela cabeça que posso fazer o que bem me apetece). Sabem aquela frase de que a nossa liberdade começa onde termina a liberdade dos outros? Pois. É isso.

Tá boa

O Túmulo da Liberdade

quarta-feira

Tudo o que sobe tem de cair

Mesmo aqueles que ascendem o seu mundo, são produto desse mesmo mundo. É assim que Eça de Queiroz mostra nos seus escritos, pessoal anti-semitismo e que Benazir Bhutto deixa como herança ao partido que herdou do pai o seu próprio filho.

P.S.: de acordo com isto a mulher não era tão excelsa quanto eu pensava.

Do mal o menos

Eu compro bastante livros na Amazon. No outro dia, mandaram-me uma mensagem electrónica em que baseados nas minhas compras sugeriam-me três livros. Dois eu já tinha lido e o terceiro pensei nisso. O não lido era o "God delusion" de Richard Dawkins. Portanto, segundo o algoritmo da Amazon, eu sou uma das pessoas supostas de ler este livro, e tendo em atenção que o algoritmo é bom, eu sou MESMO suposta de ler aquele livro. Nas minhas prioridades de leitura, um livro sobre religião da forma como Dawkins parece ter empreendido a sua critíca (digo isto com base nas várias recensões que li sobre o livro), em que demonstra grande ignorância sobre temas teológicos, não me parece muito gratificante. Contudo, admiro o ímpeto de Dawkins.

A religião implica para um ateu uma grande capacidade de engolir sapos. Para um cientista é ainda pior, pois as pessoas religiosas pedem que em favor delas em certos momentos, uma pessoa que está habituada a pensar o mundo dos factos, desligue o cérebro superior e passe a usar somente o sistema límbico. Há muitos cientistas que o fazem, há cientistas que até conseguem escrever defendendo esse ligar e desligar cerebral, o que só demonstra a grande capacidade humana para viver duplos, triplos e que mais papéis, o que explica que os nazis faziam festinhas às criancinhas antes de as mandarem para as câmaras de gás, que os inquisidores matassem pela salvação das almas em nome de Cristo, que pais abusem dos filhos sem que ao mesmo tempo os deixem de amar. Contudo, mesmo sem os extremos que listei, seriamos considerados misantropos sem esta capacidade para esquecer momentâneamente conforme as exigências do momento. Sabendo o que se sabe de como nasceu a Bíblia, não é deslumbrante de como ainda existam pessoas que leiam o livro e procurem significados? Uma espécie de procura de formas em nuvens e premonições em folhas de chá no fundo da caneca. Tudo isto casado com a vida secular. Quantas vezes os não religiosos ouvem a frase: "Não é para levar literalmente." Então porque não procurar significados nos Lusíadas? He he he he. Mas que digo? Não andavam à procura de significados nos filmes do Matrix? Pois. O que eu penso pessoalmente é que escrever um livro só contra a religião é inconsequente. É ir contra a natureza do ser humano. É impossível que o ser humano não acredite em algo misterioso, invisível, indizível, enfim, algo ali do bairro emocional do sistema límbico, que vive ali e que mesmo o Dawkins sentirá muitas vezes. Assim, o máximo que se pode pedir é essa capacidade inata para ter duas caras. Muito melhor isso, que as trupes que levam a Palavra à letra.

sexta-feira

Rememorar-se

Ele acomoda-se na solidão da cozinha, despida da actividade do dia, a cheirar a limpo, confortável, feita para o aninhar doméstico da alma. Ele senta-se no banco de madeira grosso, a cheirar a velho e a histórias contadas por noites dentro. Ele ouve-se, lá dentro as músicas do seu passado, coladas a memórias. Ele rememora-se. É a semana entre o Natal e o Ano Novo e ele pára-se. O som do vento gelado fora aninha-o e o ar limpo assopra-o. Ele pesa-se e sente-se leve, uma penugem de recordações. Ele acalma-se na felicidade da quietude que vive neste momento, naquele instante, noutro tempo. Tudo está bem. O caminho foi tomado e a viagem progride pelo futuro. No fundo do túnel, um sorriso.

quarta-feira

terça-feira

do Afeganistão, trazido aos EUA, passando pelos Países Baixos e acabando em Portugal ou quem é imensamente pobre

Já lá vai para cima de um ano que vi as fotografias da fotógrafa Stephanie Sinclair no New York Times. Tal como eu fiquei perplexa (sabemos que acontece, mas levar assim com as imagens que valem mil palavras), ficaram muitos outros (não sou abençoada pela originalidade de sentimentos, apesar de fingir que sim) e uma das fotografias apareceu-me outra vez pelo blogue dois dedos de conversa como uma das fotografia do ano para a Unicef. Poucos dias depois no compilador de textos alldaily vem este, abaixo ao dois pesos e duas medidas. Neste excerto:

It is likely that all of the female forebears of the girl in the photograph were likewise sold -- and the girl, no doubt, saw it as her fate. At the same time, she realizes that what is happening to her is not right. She might think it is "natural" for a young girl to be sold, but she also knows that it's neither good nor legitimate for her to spend the rest of her life as this man's slave. It is a type of knowledge that has little to do with experience. Rather, it is knowledge that is rooted in humanity, and in the hopes and dreams of a little girl.

The man in the image is oblivious of his wrongdoing. He's only doing what his forefathers did. Sticking to traditions increases the chances of survival. His seed will create a new person and strengthen the clan. He will impregnate this girl without love and without regret, since love is a word from far-off stories and songs, a word from the decadent West, where people have no comprehension of the harshness of life in the desert and of war without end, which is the essence of life in this part of the world.


lembrei-me deste excerto provindo do Pedro Arroja:

Os preconceitos são regras de acção automáticas que as gerações anteriores nos legaram e que nos permitem economizar muito tempo e outros recursos. Cada cultura possui os seus preconceitos e as culturas mais prósperas são aquelas que possuem um stock maior de preconceitos eficazes. Tendo-se confrontado com problemas semelhantes aos nossos no passado, as gerações dos nossos antepassados tiveram de encontrar soluções para eles. E, tendo encontrado aquela que consideraram ser a melhor para cada um desses problemas - a solução que funciona melhor na maior parte dos casos semelhantes - elas legaram-nos essa sabedoria sob a forma de regras automáticas de comportamento: "Perante tais e tais circunstâncias, faz assim e assim - não percas sequer tempo a pensar".

É o conjunto dos seus precoconceitos que define uma cultura e a distingue de outra cultura. E quanto maior fôr o número de preconceitos eficazes que uma cultura possui em relação a outra, mais próspera essa cultura será em relação à outra. É esta também a razão porque é tão difícil mudar uma cultura. Uma cultura faz-se sobretudo de comportamentos automáticos - preconceitos - que as pessoas generalizadamente aceitam e praticam de forma acrítica sem nunca questionarem a sua racionalidade. E ainda bem que assim é, caso contrário seriam imensamente pobres, na realidade, nunca chegariam a sair de casa de manhã para o trabalho.


O progresso pode ser feito com um passo atrás e dois adiante, mas há pessoas que conseguem resvalar de tal maneira que acabam por cair num atraso paradoxal.

P.S.: Bom Natal e se me esquecer, boas entradas.

quarta-feira

Gemütlich

Uma das primeiras palavras que aprendi na Alemanha foi gemütlich. Era-me óbvio que nas casas que visitava havia ali uma diferença, que inicialmente nao se deixava apanhar por palavras, entre autóctones e nao-autóctones. Mal se passava a porta até o ar era diferente. Os autóctones criavam como ninhos, cada pedacinho de palhinha, pauzinho uma construçao para um espaço de bem-estar pessoal. Acabei por definir que a grande diferença era a atitude para o espaço em que se vivia: as casas dos nao-autóctones eram garagens, onde se aparcam os pertences e o corpo, onde se realizam actividades de manutençao. Quando trouxe isto á conversa, a palavra apareceu: gemütlich, esse estado de conforto do corpo e do espírito no espaço que ocupam. Os autóctones também estranhavam a indiferença que notavam nos nao-autóctones. Em primeiro, nós nao sabiamos explicar, mas após algum esforço chegamos com uma hipótese: o clima. Vinhamos todos de países cheios de sol, em que a rua, os cafés, as esplanadas, as varandas, os alpendres, os terraços, a praia sao os nossos espaços de estar. Mas no Norte da Alemanha, o ar livre é normalmente inóspito, pelo que o estar e a vida social derivam para dentro da casa. No meu quinto ano na Alemanha, eu já absorvi um pouco desse gemütlich, pela impossibilidade de nao o fazer. Precisamos desse acolhimento exterior para o nosso interior, que se nao nos é dado pelo sol e pelos cheiros amenos, nos é proporcionado por esse mundo carinhosamente criado.

Tendo compreendido ás minhas custas o que pode significar a nossa casa no Norte da Europa, fiquei divertidamente perplexa, que uma afirmaçao que aqui encima é tao óbvia possa causar tal lucubraçao auto-denominada filosófica lá embaixo na praia do Oeste. Mas eu nao compreenderia a ironia há seis anos atrás. Há certas simplicidades da vida que só se compreendem ao vive-las.

terça-feira

Noticia de Natal

O Pedro Arroja ameaca postes sobre os portugueses. Grande alivio. Quem e' o portugues que nao gosta de chafurdar em auto-critica? Momentos de calmia sado-divertida no horizonte. Este ano nao passo o Natal em Portugal e que dizer deste alivio que me submerge? Aaaaahhhh. Sem ser obrigada a entrar em lojas, sem ter que fingir que gostei, sem ter que participar numa peca de teatro chamada Natal. AAaaaaaah. Como e' bom o Nao Natal. Esta liberdade de ser o Natal que queremos.

segunda-feira

Querer ler e nao poder

Eu leio muito, mas como vivo na Alemanha e porque a outra lingua que domino é o ingles, leio principalmente autores anglo-saxonicos. Alem disso, leio muita nao-ficcao na area da ciencia, cujos novos titulos sao em ingles. Mas por vezes tenho saudades do portugues e dou umas olhadas pelos novos lancamentos na internet, o que significa ir aos sitios de certas editoras e ver o que tem na seccao novidades. Nao e' uma actividade deslumbrante, ja' que as descricoes dos livros sao muito pobres, mas e' estilo miseravel ir ver montras de lojas dos trezentos. Enfim, que fazer quando nao ha uma livraria on-line que me de o prazer de comprar livros e autores portugueses na boa. Alem disso, nunca encontrei uma boa revista de recensoes literarias em Portugal. O mais desconcertante e' que ha' cinco anos havia uma livraria on-line com base em Aveiro, que foi fechada, segundo os donos, porque uma livraria on-line seria ilegal (estou a tentar lembrar-me do nome e nao consigo e infelizmente ja' deitei para o lixo todos os contactos que tive com eles). Este isolamento da lingua, quando se vive no estrangeiro, deixa-me por vezes bastante zangada. Da' mesmo vontade de ser de outra nacionalidade que tornasse mais facil poder ler com facilidade o que se publica na nossa lingua. E' chato invejar os franceses, os ingleses, os chineses, os italianos, os espanhois e os turcos.

Neste deserto, fiquei excitada com a noticia de uma livraria on-line com a oferta de milhares de titulos, a byblos. Uma desilusao enorme. Tenho la' ido todos os dias ver se ja' puseram aquilo a funcionar e nada. Vamos a ver: eu nao escolho livros raros. Enfim, tudo na mesma. Tudo sempre na mesma na Tugolandia. E' triste ser portugues.

P.S.: Ainda me lembro quando vim para Hamburgo dizerem-me que ha' uma comunidade importante de portugueses e que bom e que sorte. Culturalmente nao se nota nada. O resto nao me interessa.

Noite em Tóquio

domingo

Uma historia interessante

There was this best-seller a few years ago [in 1984], it went through about ten printings, by a woman named Joan Peters—or at least, signed by Joan Peters—called From Time Immemorial. It was a big scholarly-looking book with lots of footnotes, which purported to show that the Palestinians were all recent immigrants [i.e. to the Jewish-settled areas of the former Palestine, during the British mandate years of 1920 to 1948]. And it was very popular—it got literally hundreds of rave reviews, and no negative reviews: the Washington Post, the New York Times, everybody was just raving about it. Here was this book which proved that there were really no Palestinians! Of course, the implicit message was, if Israel kicks them all out there's no moral issue, because they're just recent immigrants who came in because the Jews had built up the country.

(...)

Well, one graduate student at Princeton, a guy named Norman Finkelstein, started reading through the book. He was interested in the history of Zionism, and as he read the book he was kind of surprised by some of the things it said. He's a very careful student, and he started checking the references—and it turned out that the whole thing was a hoax, it was completely faked: probably it had been put together by some intelligence agency or something like that.

(...)

He went ahead and wrote up an article, and he started submitting it to journals. Nothing: they didn't even bother responding. I finally managed to place a piece of it in In These Times, a tiny left-wing journal published in Illinois, where some of you may have seen it. Otherwise nothing, no response. Meanwhile his professors—this is Princeton University, supposed to be a serious place—stopped talking to him: they wouldn't make appointments with him, they wouldn't read his papers, he basically had to quit the program.

(...)

They had the whole system buttoned up, there was never going to be a critical word about this in the United States. But then they made a technical error: they allowed the book to appear in England, where you can't control the intellectual community quite as easily.

Well, as soon as I heard that the book was going to come out in England, I immediately sent copies of Finkelstein's work to a number of British scholars and journalists who are interested in the Middle East—and they were ready. As soon as the book appeared, it was just demolished, it was blown out of the water. Every major journal, the Times Literary Supplement, the London Review, the Observer, everybody had a review saying, this doesn't even reach the level of nonsense, of idiocy. A lot of the criticism used Finkelstein's work without any acknowledgment, I should say—but about the kindest word anybody said about the book was "ludicrous," or "preposterous."

(...)

Anyhow, by that point the American intellectual community realized that the Peters book was an embarrassment, and it sort of disappeared—nobody talks about it anymore. I mean, you still find it at newsstands in the airport and so on, but the best and the brightest know that they are not supposed to talk about it anymore: because it was exposed and they were exposed.

Well, the point is, what happened to Finkelstein is the kind of thing that can happen when you're an honest critic—and we could go on and on with other cases like that. [Editors' Note: Finkelstein has since published several books with independent presses.]

Still, in the universities or in any other institution, you can often find some dissidents hanging around in the woodwork—and they can survive in one fashion or another, particularly if they get community support. But if they become too disruptive or too obstreperous—or you know, too effective—they're likely to be kicked out. The standard thing, though, is that they won't make it within the institutions in the first place, particularly if they were that way when they were young—they'll simply be weeded out somewhere along the line. So in most cases, the people who make it through the institutions and are able to remain in them have already internalized the right kinds of beliefs: it's not a problem for them to be obedient, they already are obedient, that's how they got there. And that's pretty much how the ideological control system perpetuates itself in the schools—that's the basic story of how it operates, I think.


Noam Chomsky, The Fate of an Honest Intellectual, 2002


Em 2007:

(...) By his own account [Norman Finkelstein], his academic career was bedeviled from the start by his politics: It took him thirteen years to wrest his doctorate from Princeton, since no faculty member would agree to advise him on his thesis, an analysis of Zionism. When he finally did earn the degree, none would write him a recommendation. He went on to take a series of adjunct posts—at Brooklyn College, Hunter, and NYU—rarely earning more than $20,000 a year.

At DePaul, where he arrived six years ago, his situation improved. But the success of The Holocaust Industry, which was translated into over two dozen languages and was a best seller in Germany, raised his profile, and the critics mobilized. Harvard’s Alan Dershowitz waged a fierce campaign against him, preparing a dossier of Finkelstein’s “clearest and most egregious instances of dishonesty.” Still, his department, and the college, recommended him for tenure. But the university’s promotion-and-tenure board voted 4-3 against him, and DePaul’s president refused to overturn the decision.

(...)


Mas, esperem:

Take a minute before you conclude that the pro-Israel lobby is the sole culprit behind the witch hunt directed against scholars who criticize Israeli military rule over Palestinians. Consider Norman Finkelstein. If he had been on the faculty of an Israeli university, rather than DePaul University, he probably would be an associate professor by now.

I say that because several years ago I came up for tenure at Ben Gurion University of the Negev under similarly contested circumstances. As in Finkelstein's case, when I was recommended for tenure the president was promptly inundated with letters from outsiders seeking to influence the process. Like Finkelstein's, my sin was criticizing Israel's policies in the occupied Palestinian territories. All the calls for my dismissal emanated from America not from Israel. In one typical letter, the president of the Zionist Organization of America used ominous threats to urge the university to fire me. Yet, unlike in the Finkelstein case, ultimately intimidation failed.

Why, then, have such tactics succeeded in the United States? Why do Israeli scholars have more academic freedom than their American counterparts?

The answer is rooted in the fact that many American universities are being reconstructed as corporations whose major objective is to sell products, most obviously degrees to students. The corporatization of academic life means that faculty members are perceived as both producers and products. They are expected to come up with inventions and patents that can be sold to corporations, as well as with research funds and citations that have a pseudomarket value, since they help elevate the university's ranking. As saleable products, faculty members are valued according to a corporate calculus rather than an academic one. To put it bluntly: Finkelstein was considered a liability to the corporation; therefore he was sacked.

The remaking of universities as corporations has also altered accountability. Those at the helm have become more accountable to boards of trustees, shareholders (i.e., major donors), and customers (i.e., students, parents, and viewers of athletics events) than to the university's original mission (i.e., seeking truth and educating the next generation) and the faculty members who carry it out. Consequently administrators behave like corporate executives and are hardly invested in intellectual achievements or democratic processes.

In Israel, by contrast, all faculty members are unionized, and their salaries are determined according to rank and a series of relatively objective academic criteria. Law and business professors earn the same as their colleagues in literature and philosophy. That has a major impact on how we think about faculty members. They are not seen as no more than products, as Finkelstein seems to have been.

(...)

sábado

A aldeia 'a direita

Eu lia o insurgente, tal como leio o blasfemias. Nao concordo bastas vezes, concordo algumas, divirto-me profusamente e indigno-me por vezes. Com os tempos comecei a ficar com uma imagem menos boa, ma', muito ma' de um tipo chamado Andre Azevedo Alves. As insinuacoes e as posicoes deste senhor eram de querer distancia e nao percebia como ninguem dizia nada. Comecei a achar que ele era o tolinho da aldeia da direita blogosferica. Aquele tipo que diz disparates, mas coitado, foi nosso colega de escola, um dia no recreio la' da direita bateu com a cabeca e ficou assim. Deixei de ler o insurgente e ok. Quando vi o poste do Basta do Tiago Gomes pensei: finalmente alguem da aldeia bateu o pe' ao tipo. A coisa desenrolou-se e fiquei a saber que o Andre Azevedo Alves nao e' o tolinho da aldeia, e' mesmo considerado um dos fidalgos e o Tiago Gomes foi corrido da aldeia por causa deste tipo. Mas se o Andre Azevedo Alves e' elemento-tabu e representativo desta aldeia, que aldeia e' esta? Acho que se devia fazer um fosso muito fundo, com umas piranhas de dentes agucados dentro, arame farpado electrificado 'a volta e mercenarios de fora para abater algum que consiga rastejar para fora. Isto no optimismo de que nao estejamos na mesma aldeia que eles. Nao estamos, pois nao?

quarta-feira

Fartura



de Kodenko.

Tenho um amigo polaco e conversar com ele é partilhar experiencias em duas esferas: a religiosa e a do choque materialista. Ele é um ateu polaco nascido de ateus, o que imagino seja raro evento. Portanto, ele ve o forte fervor religioso do país dele do lado de fora e eu por vezes pareço estar a traduzir-lhe significados, como alguém que cresceu dentro do fenómeno. Por outro lado, ele conta-me do choque de fartura que foi quando chegou á Alemanha. Ele continua a comer gelado como se os cavaleiros do apocalipse viessem em cavalgada suprasónica em nosso encontro. Eu conto-lhe da emocao dos chocolates enviados pelos parentes emigrados. Ambos crescemos pobres e eu vi a fartura a instalar-se na minha familia atraves dos meus irmaos, ele ve a abundancia conseguida na sua vinda para a Alemanha e ve agora as mudanças no país dele. Ambos vivenciamos o choque da fartura. Sempre vi no triste novo-riquismo portugues, uma contra-reaccao ao passado miseravel, que demorará algumas décadas a desanuviar. Quando vim para a Alemanha, parentes meus perguntaram-me se os alemaes continuavam a por a mobilia na rua. Pelo que entendi, todos os anos, em dias firmados as pessoas punham tudo na rua, como se para eles a grande limpeza, aquela que nos poe a limpar as teias de aranha nos reconditos, encima de cadeiras a tentar chegar aos excrementos sedimentados dos insectos e dos insectivoros, a esfregar de quatro com oleos cancerigenos o chao encardido e riscado, a por cremes protectores nos moveis, a esfregar superficies reluzentes para que nos reflictam devidamente a cara destorcida, significasse para eles mudar o recheio da casa. Para os imigrantes era uma espécie de Natal, em que podiam mobilar a casa de graça com peças praticamente novas. A forma como me descreviam a fartura dos mercados poderá ter sido hiperbolizada, mas parecia-me tudo mais como Portugal de hoje, do que como a Alemanha de hoje. Na verdade, quando cheguei 'a Alemanha e entrei num supermercado, pensei que estava na zona leste. Hoje os alemaes ja' nao poem os moveis na rua. Revendem-nos. O desporto é comprar, comprar muito, mas bagatelas. As feiras de velharias multiplicam-se e a ebay é uma mania. Comparar preços e trocar informacoes sobre formas de obter o mais possível do menos possível pode encher várias horas de conversaçao. Parece uma especie de contra-cultura, com as suas caras excepcoes: neste momento, normalmente a comecar com um i. A nao ser que se seja velhote, em que deve ainda comecar com um vrrrmmmmmm. Por falar em carros: no outro dia estavam tres homens junto a um carro, tinham posto uma toalha sobre o capot e faziam um piquenique. Foi o choque. Parece que por aqui usar um carro como mesa e' crime lesa-majestade.

sexta-feira

Sacos de plástico

Um ano comecou de aluviao. Quando as aguas já tinham assentado, apanhei o comboio para Sul. Perto de Coimbra, o comboio amainou e pelas janelas o céu era de chumbo e prata, a água espalhava-se aos pés da ponte e as árvores mostravam nos ramos decoracoes que lembravam o Natal, talvez por aproximacao temporal ou preconceito ideologico. Sacos de plástico. A paisagem era muito bela: os campos inundados e o céu incrível reflectido nas águas. Os plásticos entornavam incongruencia. Dei-me conta que havia turistas estrangeiros na minha carruagem, que tiravam fotografias com a ansia da captura. No filme "Auf der anderen Seite", um personagem senta-se á beira-mar, só se ouve o quebrar das ondas. Permanecemos minutos, vários, ele a olhar o mar, á espera de alguém e nós a olhá-lo a ele e ao mar e á história que acabamos de ver. Daí vem do lado esquerdo a rebolar um saco de plástico. A incongruencia provocou risos na sala.

Mas haverá paisagem moderna que para ser congruente possa nao ter um saco de plastico?

Na Alemanha, o normal é pagar os sacos de plástico. Há mercados por todo o lado, coisas tipo Lidl ou melhor, mercadinhos turcos, e as pessoas vao de cestos de verga, de mochilas, de sacos de pano e compram pequenas quantidades. É até normal saltar de mini para mini, porque num vendem isto, mas naquele vendem aquilo. Mesmo quando sao grátis, eu nao aceito sacos de plástico. Nos EUA tive a impressao que acabaram por me conhecer no hipermercado, pela minha recusa de usar sacos de plástico, pois a certa altura já dispunham os artigos sem os meter nos sacos como faziam com os outros clientes. Quantidades enormes de sacos, por vezes um item por saco, como em Portugal (nao se pode juntar o azeite ao shampoo, senao sabe-se lá que criatura hedionda surgirá do contacto). Estais tao mal habituados que mete impressao.

quinta-feira

Mal educado

Vi umas imagens daquela conferencia que fizeram num sitio chamado Anapolis (deve ter consoantes dobradas, mas que se lixe), aquela para exactamente fazer imagens e o expectavel aparece tao obvio que ate quem espera fica espantado. Por amor de deus, nao se podia, sei la', fingir melhor? O Bush aparece em todas as imagens mais chegadinho ao Elmut e a falar com o Elmut e a mostrar coisas ao Elmut, enquanto o Abas e' um enjeitado que anda ali, claramente a reboque. Eu ate' me comiserei pelo presidente palestiniano. Fosgas para o Bush, que para la' de todos os defeitos mortais, e' um patifezeco mal-educado.

quarta-feira

O Pedro Arroja e a minha avó

Na minha santa ignorancia pensava eu que o preconceito era fruto da ignorancia. Pessoas que nao tinham sido habituadas a pensar ou que nao estavam para isso. Pessoas provincianas, limitadas aos seus pequenos espacos de preconceito nao questionado. O que sao foi-lhes completamente inculcado. Entrou-lhes em passiva condescendencia. Mentalidade de grupo, incapacidade de empatia, de ir para la'.

Santa ignorancia. Calma ignorancia. Com esta ignorancia uma pessoa pensa que quanto mais as pessoas sao educadas, menos preconceitos existirao. Pimbas, levamos com os intelectuais do preconceito. Ha' pessoas que pensam o preconceito, que o tentam fundamentar e que lhe providenciam pontos positivos. Sem preconceito sairiamos nus 'a rua. Estamos sempre a aprender. Pessoas que loam os valores individuais numa sociedade com pouco estado, loam tambem os valores colectivos de opressao social, em que todos unidos nos preconceitos dos nossos antepassados fazemos desta uma melhor sociedade. Eu leio e nao acredito. E' claro que para este homem o Andre' Azevedo Alves e' uma boa pessoa. Afinal escreveu 50% da teoria 'isto e' meu e tira a pata' em Portugal. So' falta escrever a segunda parte da teoria liberal: 'o meu teratetravo' tinha razao: os bons maricas comem e calam'. O Joao Miranda pode juntar o apendice: 'A minha avo nao me abortou: liberalismo e sapiencia'.

segunda-feira

O rei vai nú

O Tiago Mendes devia ter escrito como criança, pois livrava-se do ataque (para exemplo: o Pedro Arroja e o Joao Miranda e um senhor chamado RAF, que saiu do Atlantico, onde isto anda a ferver).

O que eu gosto desta história é que parece que tudo começou com o politicamente correcto: aquela crónica alienada do JFV (onde é que ele viu pessoas perseguidas ou vigiadas ou sequer olhadas de lado, lá fora no mundo real portugues, por chamarem alguém paneleiro ou maricas? gostava de saber onde é o microcosmos.), que foi excelentemente rebatida pelo Daniel Oliveira.

Sendo que o André Azevedo Alves e os seus defensores sempre clamaram contra o PC, pela suposta liberdade de chamar as coisas pelo nome, acho piada que agora nos venham dizer que afinal o AAA é minoria protegida por esse mesmo canone.

P.S.: Ja' agora, os defensores que nomeei nao dizem que o AAA nao e' a pessoa descrita no poste do Tiago Mendes. O que eles dizem e' que o AAA e' uma pessoa de bem, expressao que eu ja' vi colada a homens que batem nas mulheres e que roubam o estado, que o que o Tiago Gomes faz e' um ataque ad hominem, como se o que aparece escrito e defendido nos postes do AAA, nao tivesse o AAA por tras, e porque estamos a falar do Pedro Arroja e do Joao Miranda, como se tudo se pudesse dizer se for sempre atraves da generalizacao. Tudo estaria bem se o Tiago Mendes nao pusesse um nome, mas se amalgamasse esse nome num grupo. O Tiago Gomes poderia criticar todos os liberais ou todos os Andres. O ataque ad grupem e' actividade consentida. Ou, se o Tiago Gomes fosse educado, devia ter-se pronunciado em privado. O RAF, por seu lado, saiu do blogue Atlantico, o que e' direito dele, nao havendo nada a apontar.